Palavra seringueira

BORRACHA

 

Eu tinha menos de dez anos e não me cansava de visitar o meu avô para aprender sobre as origens das palavras. Aliás, até agora não me cansei do assunto. O velho tinha um jeito de ensinar que conseguia cativar qualquer um.

Cheguei e já fui perguntando:

– Vô, pneus são feitos de pele de burro?

Ele me olhou, arregalando até os óculos, tamanho foi seu espanto.

– O que é isso, menino? Pirou de vez? Espere um pouco que vou chamar a ambulância do Hospício para ver o que é que eles conseguem fazer!

Devo confessar que fiquei um pouco preocupado:

– Não, Vô, largue o telefone! Estou só fazendo uma pergunta!

– Quando a pergunta é tão louca assim… Mas vou-lhe dar uma oportunidade. Explique-se melhor e eu talvez não chame os moços de branco.

– É que o outro dia eu estava pensando se a borracha dos pneus não tem a ver com a palavra burro, pois são meio parecidas e…

– Ahá, mais um que acha que Etimologia é comparar palavras parecidas. Bem, com o tempo e a minha excelsa conversa isso vai mudar.

Mas agora preste atenção: para começar, burro era chamado em Latim de asinum burrum¸ “asno de cor avermelhada, castanha”. Burrum designava essa cor, vindo do Grego pyr, “fogo”. Como é freqüente ao longo da evolução, uma das palavras da expressão deixou de ser usada e ficou apenas a que passou a designar o simpático quadrúpede em nossos dias.

E borracha nos veio do Espanhol borracha, “garrafa, bota para o vinho”, de origem anterior discutida.

– Mas o que é que a borracha dos pneus tem a ver com uma garrafa?

– Muito bem, até parece que há um pequeno cérebro dentro desse crânio oco. Uma pergunta muito oportuna. É que os nativos da Amazônia usavam a seiva da seringueira para forrar couros de animais com o fim de impermeabilizá-los para poderem transportar líquidos.

Dada a semelhança de propósitos entre esses couros e uma bota de vinho, deu-se a eles o nome de borracha, que acabou sendo aplicado à tal seiva depois de endurecida.

– Veja só! Mas não entendi o que é uma bota de vinho.

– É um recipiente para líquidos típico da Espanha; é feita de couro, originalmente revestido por dentro com pixe. Em geral tem a forma de uma gota, com gargalo de chifre e uma alça para transporte. É muito cômoda de se levar e mantém fresco o líquido em seu interior.

– Cada invenção…

– Está caindo em desuso, mas é bastante prática e muito charmosa.

– Ora, então minha ideia dos pneus não tinha nada a ver!

– Não tinha mesmo. Aliás, essa palavra é um encurtamento do Francês pneumatique, “pneumático”, ou seja, “cheio de ar”. Deriva do Grego pneuma, “ar, vento, sopro”.

– E por que os índios daqui não inventaram os pneus, se tinham borracha sobrando?

– Santa ignorância! Em primeiro lugar, porque eles não tinham noção da roda para uso em transporte. Em segundo, porque um pouco de borracha pode servir para impermeabilizar um objeto pequeno, mas obter o formato e a resistência de um pneu é outra coisa.

Veja só, a borracha natural é pegajosa, deforma-se facilmente com o calor e fica quebradiça no frio. Ela só passou a ter outras utilidades além da impermeabilização quando um americano chamado Charles Goodyear…

– O dos pneus?

– O próprio. Pois ele estava se dedicando a melhorar a borracha quando percebeu que, fervida com enxofre, ela passava a apresentar condições boas de elasticidade e resistência. Pelo menos essa é a história, embora um inglês chamado Hancock tenha feito experiências valiosas na área.

Enfim, o processo para a cura da borracha…

– Ela estava doente?

– Nãão, tolinho, cura  aqui quer dizer “processo de mudança físico-química”. Mas deriva mesmo do Latim curare, “cuidar”.

Agora, se você parar de me interromper, vou contar que esse processo se chama vulcanização, do Inglês vulcanize, que até ser usado em relação ao processamento da borracha tinha o significado de “atear fogo, inflamar”.

– Tem algo a ver com vulcão?

– Tudo. Esse era o nome dado ao deus romano Vulcanus, que se dedicava a lidar com  o fogo. Diziam que os vulcões eram a chaminé das suas forjas no fundo da terra.

– O senhor falou em seringueira. De onde esse nome, o fruto delas eram seringas?

– Quase, metido a engraçadinho. O nome vem do Grego syrinx, “caniço, canudo”, “objeto para retirar ou colocar líquidos em algum lugar”. E se aplicou à árvore porque dela escorria a resina como se fosse de seringas.

– E resina, qual a origem?

– Vem do Grego rhetina, a seiva do pinheiro.

– E porque se aplicou esse nome a uma parte do olho?

– Não se aplicou esse nome a uma parte do olho. A retina vem do Latim rete, “rede”, devivo à rede vascular que se observa no fundo do olho. Não tem nada a ver.

Parei de fazer perguntas por aí, pois não queria cansar o velho. Mas eu sabia que em poucos dias voltaria para aprender mais.

 

Resposta:

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