Palavra camuflagem

GOLPISTAS NO ESCRITÓRIO!

 

Nosso Detetive Etimológico preferido, se não único, está alterando a disposição dos móveis de seu escritório. Ou, como se diz tantas vezes em nosso idioma, “mudando o layout”.

Coloca todos os bancos que reservou para o público das sessões coletivas mais para trás, o mais encostados que for possível na parede da porta de entrada.

Muda, com muito esforço, a grande escrivaninha para perto da parede oposta. O esforço é intenso, já que, como ele diz, todos os seus músculos estão na sua cabeça.

Guarda cuidadosamente todos os objetos soltos, até o cesto de lixo.

Senta-se à escrivaninha e examina o resultado. Fica satisfeito com a terra de ninguém que deixou entre o lugar da platéia e a sua pessoa.

Perguntamo-nos a razão dessas estranhas manobras. Atividade tola e puramente literária, pois batem à porta e deduzimos que a explicação está chegando.

Com a voz gelada que ele treina todos os dias, manda entrar. E elas entram, as palavras-clientes que marcaram este horário para aprender sobre as suas origens.

Chegam desconfiadas, olhando para todos os cantos, procurando eventuais  rotas de fuga, muitas de cabeça baixa e bonés desabados para a frente, uma que outra com uma sacola de supermercado na cabeça, com furos para os olhos.

Acomodam-se nos bancos, o mais próximo que podem da porta, as golas dos casacos levantadas.

O grande profissional sabe que precisa se impor de saída. Retira a grande arma do bolso e a coloca sobre a escrivaninha. As palavras estremecem.

Todos sabem, naquele bairro esquecido das autoridades e das divindades, que ele é uma das poucas pessoas que tem direito ao porte de tal peça.

Trata-se de uma borracha de grande calibre, daquelas metade azuis, metade avermelhadas. Pode apagar qualquer palavra em questão de segundos, ainda mais se esgrimida por uma pessoa com tamanha proficiência.

Pausadamente, ele diz:

– Boa noite à querida clientela. Pelo que vejo, o grupo de palavras relacionadas a Golpes & Trapaças que marcou para hoje se encontra todo aqui.

As palavras disfarçaram, olharam para os lados, abaixaram a cabeça, fingiram que não era com elas, mas não se manifestaram. Não iriam confessar tão facilmente.

O detetive suspirou:

– Favor pagarem adiantados os meus honorários. Favor aguardarem enquanto eu conto, reconto e olho as notas contra a luz.

Bem, vamos começar logo, já que o pessoal não está se sentindo muito à vontade. Posso ver que se destaca à minha frente a palavra golpista. Ela vem de golpe, que deriva do Latim vulgar colpus, que anteriormente era colaphus, “soco, bofetada”, do Grego kolaphos, “golpe na face”.

A palavra se agitou e o nobre profissional respondeu:

– Sei que você agora representa uma ação de se apoderar dos bens alheios, sem envolver normalmente qualquer violência. Mas veja, seu início foi esse.

E agora, quanto a  seu sócio trapaceiro ali:

Você veio do Latim trappa, “armadilha”. Uma trapaça não deixa de ser uma espécie de armadilha. Só que, em vez de pegar uma ave com um cordão ou um animal grande com uma fossa, se pega os bens de algum incauto.

Apontou para outra palavra sentada bem quietinha, como esperando não ser reconhecida:

– Já a sua origem, vigarista, se refere a uma história da qual há várias versões, nenhuma das quais confirmada. Mas envolve um golpe praticado com o envolvimento ou citação de um vigário. E a origem desta é o Latim vicarius, “substituto, o que está em lugar de outro”, de vicis, “mudança, turno”.

O vigário era um padre que substituía outro temporariamente em sua paróquia.

Vendo falcatrua, lembro-me de que, apesar de variados esforços, sua origem ainda não foi definida. Talvez isso ajude a escapar das autoridades um dia.

E nossa amiga camuflagem, tão bem disfarçada no cantinho que a gente quase não a distingue?

A palavra, que estava imitando uma vassoura, não conseguiu evitar de se ruborizar intensamente.

– Pois, com toda a sua capacidade de mimetismo, veio-nos do Inglês, onde entrou em uso no sentido militar, em 1917, a partir do Francês camoufler, “disfarçar”, que veio do Italiano cammuffare, aparentemente da expressão capo muffare, “tapar, cobrir a cabeça”. Provavelmente houve influência no Francês de camouflet, “baforada”, com o sentido de “jogar fumaça nos olhos de outro”.

E nosso verbo enrolar? A partir da ação física de “enovelar, emaranhar” se fez o sentido metafórico de “enganar emaranhando idéias e informações”.

Vem de rolo, que vem do Latim rotulus, “pequeno cilindro”. Por sua vez, esta vem de rota, “roda”.

Outro verbo que pode trazer prejuízo para alguém é engambelar. Veio para nós do  baixo Latim gamba, que deu o Italiano gamba, “perna”, do Grego kampé, “curvo”. Meios indiretos, tortuosos, “curvos”, costumam ser usados para enganar as pessoas.

Ligada a isso está a expressão “passar a perna” em alguém para dizer que, metaforicamente, lhe foi dado um calço, foi feito algo que fez a pessoa tropeçar na realização de seus objetivos.

Também temos escamotear, usado quando o golpe contra a vítima implica em esconder algum objeto dela. Do Francês escamoter, “esconder, fazer desaparecer”, aparentemente do Espanhol camodar, do Latim commutare, “mudar, trocar”.

Bem, caras amigas, vou parando por aqui porque percebo que o nervosismo de estarem num lugar com uma única saída as está prejudicando.

Favor saírem com as mãos bem visíveis para eu ter certeza de que não se apoderaram sem querer de alguma coisa daqui.

 

Resposta:

Uma Lagartixa

Céus, que gritaria é essa? E esta correria? Nem se Satanás em pessoa se materializasse na mesa de um convento na hora do almoço se faria tamanho escândalo! O que foi?

Hein, como? Afinal, salamandra, lagartixa, lagarto ou jacaré? …Ah, aquilo ali na parede? Mas, crianças, é uma pobre lagartixinha perdida, morta de medo da gritaria e da movimentação histérica  que vocês fazem.

Muito bem, todos para os seus lugares; Ledinha, pare de pular e gritar, bem como a Leonorzinha, Valzinha e Patty; Joãozinho, afaste-se das meninas; Soneca, continue dormindo, Maria Tereza continue bonitinha e comportadinha em seu vestidinho branco, com os pezinhos cruzados por baixo da cadeira e ela não é “queridinha da fessora” coisa nenhuma, Sidneizinho, ela é civilizada, algo raro de se encontrar em certa aula, que infelizmente foi tocar logo para mim, confirmando que, se funcionar a teoria das vidas passadas, eu devo ter sido pessoa muito ruim em algum momento da História.

Olhem lá, o bichinho se acomodou no canto do teto. Deixem-no em paz e ouçam algo sobre a origem do seu nome e outros correlatos.

Inicialmente, não se trata de um jacaré, palavra que vem do Tupi yaka’re.  Segundo alguns, esse era simplesmente o nome de vários répteis deste tipo; dizem outros que queria dizer “sinuoso, com curvas”.

Não sei quem fez esse exagero, mas ouvi que a chamaram também de lagarto, que veio do Latim lacertus, “lagarto”, possivelmente do Indo-Europeu leq-, “torcer, dobrar”, o que mostra uma interessantíssima convergência conceitual de criação de palavra com o Tupi, mas é muito cedo para que eu possa explicar o que é isso.

Não é nem mesmo uma salamandra, cujo nome vem do Grego salamandra, um animal legendário que conseguia viver no fogo. Ele parece ter origem no Oriente, mas fora isso não se sabe mais sobre a palavra.

Graças a essa capacidade lendária, o trabalhador que lida com equipamentos muito quentes, como fornos, caldeiras, incêndios em poços de petróleo, etc., é chamado de salamandra, numa homenagem à duração das histórias antigas.  O nome se aplica também, em algumas regiões do país, a um fogãozinho de ferro fundido usado para aquecimento.

Salamandras são anfíbios, do Grego amphi-, “de ambos os tipos”, mais bios, “vida, modo de viver”. Isso quer dizer que seus parentes podem viver ou na água ou na terra ou em ambas.

O animalzinho que gerou tamanha baderna nesta aula é uma lagartixa, que não preciso explicar que se trata de um diminutivo de lagarto.

E este aqui é muito útil para as nossas casas. Sim, senhorinhas e senhorinhos, ele se dedica afanosamente a se alimentar dos insetos que nos incomodam, como moscas e mosquitos e – não senhor, Robertinho, morcego não é inseto – outras coisas repelentes e cheias de patas.

Já que ninguém perguntou, vou dizer que inseto  vem do Latim insectum animalis, “animal segmentado”, de insectare,  “cortar em pedaços”, de in-, “em”, mais secare, “cortar”. Podem observar que todos são como que partidos em dois ou mais segmentos.

Não, Valzinha, uma moça com a cintura muito fina e apertada pela roupa que nem a sua vizinha não é um inseto. É uma boba.

Olhem para ele ali agora. Notaram como a cor dele mudou? Ele está quase se confundindo com o tom da pintura. Isso é a sua propriedade de camuflagem, o que vem do Francês camoufler, “lograr, disfarçar, enganar”, que veio do Italiano cammuffare, aparentemente da expressão capo muffare, “tapar, cobrir a cabeça”. Provavelmente houve influência no Francês de camouflet, “baforada”, com o sentido de “jogar fumaça nos olhos de outro”.

Acho que em épocas antigas eles não tinham muito como passar o tempo, sei lá. Se bem que atualmente muitos se dediquem a inalar fumaças de várias origens.

Não, Mariazinha, eu nasci bem depois, até já existia o rádio para a gente se distrair, veja como sou moderna.

Em vez de camuflagem, podemos falar em disfarce, que não tem uma origem absolutamente certa. Parece que vem do Latim dis-, “fora”, mais farcire, “engordar um animal para abate”, daí “rechear, encher”. Como muitas roupas usadas em peças cômicas eram acolchoadas, recheadas de tecido ou palha, daí teria surgido a noção de “roupa que altera o aspecto de alguém”.   E que, no caso, serve para os predadores passarem sem ver nossa lagartixa.

Pelo menos é isso que ela quer que aconteça.

Falando em  disfarce, ao olhar certos aluninhos, não posso deixar de me lembrar que a palavra palhaço vem do Italiano pagliaccio, de paglia, “palha”, a qual era usada para encher suas roupas coloridas e deixá-las mais engraçadas.

Não entenderam minha associação de idéias? Não faz mal, deixem para lá.

E agora arrumem  suas coisas e vão para casa. E, se encontrarem por lá uma das primas da nossa amiga aqui, não se esqueçam de a tratar muito bem, pois ela é um excelente inseticida, grátis e não-tóxico.

Certo, Robertinho, quando você crescer vai fazer uma indústria para vender lagartixas em caixa, muito bem. Não, por favor, não chame o produto de “Tia Odete”, dispenso comovida essa homenagem.

Resposta:

Coisas Ocultas II

Em edição passada, falamos sobre palavras relacionadas com a ocultação de atos ou fatos. Agora lidaremos com mais algumas, sempre apropriadas para uso de certos políticos.

CAMUFLAGEM – veio-nos do Inglês, onde entrou em uso no sentido militar, em 1917, a partir do Francês camoufler, “disfarçar”, que veio do Italiano cammuffare, aparentemente da expressão capo muffare, “tapar, cobrir a cabeça”. Provavelmente houve influência no Francês de camouflet, “baforada”, com o sentido de “jogar fumaça nos olhos de outro”.

CORTINA DE FUMAÇA – é uma transposição do Inglês smoke screen, “tela de fumaça”, de 1915, relacionado à emissão de fumaça espessa por parte de navios durante uma batalha, de modo a se ocultarem do inimigo.

DESINFORMAÇÃO – entrou em nosso idioma também pelo Inglês disinformation, em 1955, do Russo dezinformatsiya, formado do Latim des-, negativo, mais informatio, “conceito, idéia, esboço”, derivado de forma, “aspecto, forma”. BLINDAR – do Francês blinder, derivado do Alemão Blinde, “instalação oculta para proteção de militares”, do Germânico blindaz, “cegar”, que veio do Indo-Europeu bhlendh-, “tornar indistinto, confundir, misturar”. Daí veio também o Inglês blind, “cego”, cujo significado original era “confuso”. A idéia da moderna blindagem é tornar o veículo militar ou o político contaminado por suspeitas capazes de andar junto ao inimigo como se este fosse cego ou confuso, impedindo os seus projéteis de fazerem estrago.

SUBTERFÚGIO – do Latim subterfugium, “fuga, evasão”, formado por subter, “às escondidas, abaixo, secretamente”, mais fugere, “fugir, correr”.

FURTIVO – veio do Latim furtivus, “roubado, escondido, secreto”, de furrtum, “furto, roubo”, de fur, “ladrão”.

OBSCURO – deriva do Latim obscurus, “coberto, escuro, indistinto”, de ob-, “sobre”, mais scurus, “coberto”.

CLANDESTINO –do Latim clandestinus, “escondido, secreto”, de clam, “às escondidas”, da base do verbo cellare, “esconder, disfarçar”. EVASIVO – Latim, evadere, “escapar, fugir”, formado por ex-, “fora”, mais vadere, “ir, caminhar”, que também originou “vau”, o local de um curso d’água que se pode passar a pé.

Resposta:

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