Palavra cronologia

SIRCO

X-8, o impertérrito, animoso, audaz, bravo, denodado, impávido, intimorato e demais adjetivos laudatórios por ele mesmo escolhidos – mas com toda a honestidade! – detetive das palavras, esta noite se permitiu comer um bauru no Restaurante do Garcia.

O Porco Garcia (apelido que só circulava entre poucos clientes e que jamais era citado na frente dele) tem seu restaurante bem na frente do Ed. Éden, onde se situa o escritório etimológico de X-8.

Aqui este se dedica a ensinar afanosamente a quaisquer palavras, mesmo algumas estrangeiras, as origens delas.

Desde que elas pagassem bem, claro. E elas pagavam com gosto, pois se há uma coisa que deixa uma palavra maluquinha é lhe acenarem com a sua origem.

Enfim, esta noite o detetive foi comer um bauru.

O conteúdo de bacon e maionese dos baurus do Porco Garcia o tornaria material proibido pelas autoridades sanitárias em qualquer outro lugar que não fosse aquele bairro.

Depois de saborear longamente tão insalubre delícia, nosso herói sentiu o de sempre: uma locomotiva dançando um animado pagode no interior do seu abdome.

Ele sabia que precisava caminhar um pouco para tentar digerir aquela refeição que teria mantido uma jiboia quieta por um mês.

Deliciado pelos sabores recém-desfrutados, sentindo culpa por não ter caráter suficiente para se manter longe daquela tentação, o detetive percorreu devagar as ruelas sujas, eternamente iluminadas pela lua cheia.

Foi quando ouviu barulho no fim de um beco, pouco adiante. Curioso, foi espiar.

Chegou até a sua entrada e viu uma faixa com letras irregulares estendida de lado a lado, no alto:

GRAN SIRCO ETIMOLÓJICO!

APRESENTAÇÕES ÚNICAS!

NÃO PERCA!

Intrigado com aquilo, o detetive entregou algumas moedas para o sujeito mal-encarado que fazia de porteiro atrás de um caixote de madeira desengonçado e seguiu até o fundo do beco.

A parede bem dos fundos estava totalmente tapada por um pano com coisas pintadas que pareciam ter a ver com flores e anjinhos esvoaçando, mas X-8 não pôde ter certeza, dada a duvidosa capacidade do pintor.

Um público de palavras e pessoas se sentava em bancos feitos com tábuas mal equilibradas sobre pilhas de tijolos.

Bem naquele momento começava o estranho espetáculo. Um sujeito com capa preta até os pés, cartola puída e longos bigodes negros mefistofélicos, com um ar maligno levemente prejudicado pelos óculos para miopia, apresentou-se, com voz retumbante, como sendo o Conde Potok, o último sobrevivente da família imperial russa, os Romanov.

Ele estaria fazendo uma gira intelectual ao mundo para pagar uma promessa, apresentando palavras e explicando as origens delas; em troca, a divindade o faria ser entronado como Imperador e Autocrata de Todas as Rússias, como lhe era devido por nascença.

Sem mais delongas, estalou um chicotinho e apareceu no palco improvisado uma palavra murcha, esquálida, Currículo.  Enquanto ela dava uma volta desanimada no espaço exíguo, o Conde anunciou:

– Aqui temos, distinto público, uma palavra que vem direto da época das legiões romanas!

Inicialmente ela era curniculus, “pequeno chifre”, um pequeno pingente de metal concedido ao legionário que tivesse pegado o touro pelos chifres numa luta, isto é, enfrentado o inimigo com as mãos nuas, que ele pendurava orgulhosamente da borda de seu capacete.  O curniculus, não o inimigo.

A palavra saiu por um lado e entrou outra, igualmente tristonha:

– Aqui está a conhecidíssima Cesariana. Ela data exatamente do dia do nascimento de Júlio César, o general romano. Por problemas de dilatação do colo uterino da parturiente, ele teve que nascer por uma incisão na barriga dela.

Assim que teve a criança nas mãos, o obstetra disse: “Esta operação, de agora em diante, receberá o nome deste nenê, já que ele vai ser muito famoso. Qual foi o nome que os papais escolheram para ele?”

O detetive, quieto na plateia, não arregalava mais os olhos por falta de espaço.

E assim seguiu a inacreditável apresentação etimológica.

Agora apareceu Miradouro, com a explicação de que se originara de um belvedere às margens do Rio Douro, em Portugal, de onde se “mirava o Douro”.

A seguir, surgiu Forró. Esta foi originada no Nordeste quando os americanos tiveram uma base militar ali, na Segunda Guerra Mundial. Em algumas  ocasiões, eles faziam festas for all, isto é, “para todos”, não apenas para os militares estrangeiros.

E aí foi a vez de Testemunha, que surgiu devido ao hábito romano de, ao se fazer um juramento, colocar a mão nos testículos.

E então desfilou, muito constrangida, a palavra Enfezar, “que vem de fezes, demonstrando que quem está sujo com elas só pode estar muito incomodado, raivoso”, disse o Conde, pavoneando-se pelo palco, fazendo rodar a sua capa de tecido sintético, e estalando o chicote – que nem sempre produzia o estalo desejado, diminuindo consideravelmente o efeito esperado pelo Mestre de Cerimônias.

Aí veio Cronologia, cuja origem era o deus do tempo grego, Cronos, que tinha originado diversos termos eruditos relacionados ao tempo e sua medida.

O detetive não pôde se agüentar. Colocou-se em pé e berrou:

– Não é nada disso! Tudo o que esse sacripanta disse é mentira! Ele está explorando essas pobres palavras e dando falsas origens!

O público ficou estarrecido. O apresentador puxou a cartola um pouco para trás, num gesto indignado, e enrolou dramaticamente a capa nos ombros.

Ia abrir a boca para se manifestar, os olhos fuzilando, quando X-8  lançou uma torrente de explicações:

– Para começar, Currículo vem é do Latim curriculus, de currere, “correr, cumprir um percurso”. É um documento que descreve o percurso profissional de uma pessoa, a sua carreira.

E Cesariana vem do verbo latino caedere, “cortar”, que nos deu igualmente “incisão”. Nada tem a ver com o nome do nascituro.

Mesmo porque, naquela época, essa cirurgia só se fazia in extremis, ou seja, num caso perdido, apenas para salvar a vida de uma criança cuja mãe estivesse à morte. Se ela por acaso não tivesse morrido ainda, a infecção do corte certamente a levaria em pouco tempo. E Aurélia, a mãe de César, sobreviveu por bastante tempo ao nascimento dele.

Miradouro se formou a partir de mirare, “espantar-se, olhar demoradamente, olhar com muito interesse”, mais o sufixo –orius, formador de adjetivos.

Quanto a Forró, deriva do Francês faux-bourdon, um tipo de composição musical, que deu em nosso país “forrobodó” e depois “forró”.

Testemunha vem do Latim ter, “três”, mostrando que ela é uma terceira parte numa causa, nada tendo a ver com as querelantes. Ou assim devia ser, pelo menos.

A pobre Enfezar ali (a essa altura, as palavras da apresentação tinham saído de trás da cortina e olhavam, espantadas, aquela manifestação)  vem é do Latim infensare, “ter hostilidade contra, encarniçar-se com, perseguir”. Nada tem a ver com fezes, palavra que deriva de faex.

Para terminar, Cronologia vem do Grego khrono, “tempo”; nada tem a ver com o deus Kronos, que aliás não era deus do tempo coisíssima nenhuma. Os gregos nem sequer tinham em seu panteão um deus para o tempo.

O “kh” inicial indica nossa transliteração da letra grega “chi”, que tem o som de “ch” alemão, tornando essas palavras tão distintas entre si quanto “rolo” e “bolo” em nosso idioma.

Em conclusão, EU DENUNCIO! Denuncio este conde de araque como um escravagista de palavras e mentiroso, que está desencaminhando as palavras de menor idade aqui presentes e enganando o público pagante, sabe-se lá com que intenções malignas por trás!

Os presentes, que sabiam que X-8 era o maior intelectual do bairro  – o único, aliás –  ergueram-se dispostos a fazer um linchamento, atividade que o pessoal das redondezas achava particularmente divertida.

Armaram-se com paus, pedras, garrafas plásticas vazias e avançaram para o palco.

O Conde deu um passo atrás, fez um ar feroz e ripostou:

– Nada disso! Se pensam que me intimidam, saibam que não vão conseguir! Sou um nobre, altivo e bravo!

E tranquilamente digo: prefiro fugir a morrer! – e se escafedeu por uma abertura que tinha preparada por trás das cortinas e que o levava a uma moto que tinha preparada no beco de trás para o caso de algo dar errado.

Não pôde ser alcançado de modo algum pelos circunstantes indignados. À distância se ouviu morrer o ruído da moto e as gargalhadas do fugitivo.

De qualquer jeito, as palavras do “Sirco” foram resgatadas e carinhosamente acolhidas no bairro.

X-8 teve seu dia de herói. Muitas e muitas vezes, anos depois, ele contaria de sua coragem épica, acrescentando uma liberdadezinha literária aqui e outra ali…

Resposta:

Os Deuses Antigos Na Nossa Vida

 

Normalmente pensamos que a mitologia greco-romana está passada, definitivamente enterrada sob as colunas derrubadas dos templos, a poeira dos séculos e a névoa do esquecimento. Mas isso não é verdade. Nada do que é lembrado morre de verdade, e nas nossas palavras de uso comum encontramos citações de nomes de divindades que eram evocadas há milhares de anos. Olhem só:

MOEDA (e derivados: monetário, monetarismo, moedeiro, etc.) – numa das invasões dos bárbaros à Itália, quando o Império se estava esfacelando, um grupo deles tentou escalar a parte da muralha de Roma junto à qual, pelo lado de dentro, se situava um templo dedicado a Juno, a deusa que era esposa de Júpiter. Os gansos consagrados à deusa, que estavam no terraço do templo, deram o alarme e os soldados romanos acorreram e afugentaram o inimigo. Gansos são ótimos vigias, pois fazem um grande estardalhaço na presença de estranhos.

Agradecidos, os romanos declararam que aquele templo era dedicado a Juno Moneta, “a Juno que avisa”.

Esta palavra vem do Latim monere, “advertir, admoestar, avisar”, e gerou, em Português, premonição (um aviso antes do acontecimento), admoestar (advertir), monitor (aparelho que serve para acompanhar o que acontece; pessoa que acompanha ou auxilia o ensino; nome de um tipo de navio, a partir do nome próprio do primeiro do tipo; um tipo de lagarto cuja presença, dizia-se, avisava da proximidade de crocodilos).

Mais tarde, nesse templo, se estabeleceu um local onde se cunhavam discos metálicos, com valor definido, próprios para fazer negócios de compra. Estes receberam um nome derivado da deusa do templo – ou seja, moneta ou moeda. Em Inglês, mint – derivado daí – é um local onde se fabrica moeda. Também é uma palavra usada para designar algo em estado de novo, como se fosse uma moeda recém-feita.

VOTO DE MINERVA – é uma expressão que se refere ao voto de desempate numa situação indefinida.

Minerva (Atená para os gregos), na mitologia romana, era a deusa relacionada à sabedoria e à prudência. Era filha de Júpiter, que a engolira antes de ela nascer, para evitar que se cumprisse uma previsão nefasta.

A vida era dura naquela época, mesmo para os deuses.

Nove meses depois de fazer isso, Júpiter começou a ter uma dor de cabeça terrível. Quando o próprio Pai dos Deuses tem dor de cabeça, imaginem a intensidade dela…

Para obter alívio, pediu a Vulcano, o deus que lidava com forjas e que preparava os raios para a prática de tiro-ao-alvo, que lhe desse uma martelada na cabeça. Vulcano obedeceu prontamente, ainda mais que não havia esquecido que Júpiter o havia atirado pelos céus abaixo quando era pequeno (levou dias e dias caindo e ficou manco para sempre). Assestou vigorosa marretada na divina cabeça.

Para espanto de todos os deuses, saiu dali Minerva, já vestida para o combate, armada de lança e escudo e dançando uma dança guerreira. Não admira que aquela dor fosse tão forte!

Imediatamente ela passou a ajudar o pai na luta que ele vinha sustentando contra os Gigantes, mas isso é uma outra história.

Os antigos, ao fazerem um mito tão cru, provavelmente estivessem pensando em colocar na deusa as características associadas à cabeça, como a inteligência, a disciplina, a prudência, a sabedoria.

E, se ela é uma deusa especialmente prudente e inteligente, é de esperar que o seu voto, quando solicitado, seja cheio de bom senso e possa resolver situações de empate entre vários julgadores.

PALÁDIO – não é uma palavra de uso vulgar agora; designa um elemento químico do grupo da platina, usado em ligas e contatos elétricos.

Já que acabamos de falar em Minerva, nos ocorre o nome de sua grande amiga de juventude, Pallas, que foi morta por engano pela própria deusa num trágico acidente. Desse dia em diante, esta adotou o nome da amiga inseparável e passou a ser chamada de Pallas Atená em Grego.

Dizia-se que uma estátua de madeira de Pallas, chamada de palladium, protegeria contra as invasões inimigas as cidades onde se encontrasse.

Várias cidades tinham o seu palladium. Inclusive Tróia, que tinha um tão poderoso que evitou por dez anos a vitória dos gregos. Como muitas cidades dessa época, com palladium ou não, acabaram sofrendo nas mãos dos inimigos, deduz-se que este não poderia ser considerado uma defesa infalível.

OPORTUNO – os romanos tinham um deus chamado Portunus. O seu nome vinha de portus, “passagem”, relacionado com “porta”, o ponto de passagem para um aposento. Portus, “porto”, ficou como a passagem da via aquática para uma cidade.

De ob-, “para, em direção a”, e Portunus se fez opportunus, “o que empurra para o porto”, ou seja, “vento favorável”.

Metaforicamente, todos nós queremos ou precisamos de ventos favoráveis. De tal modo, qualquer acontecimento oportuno é bem-vindo.

SANCIONAR – entre os romanos se adorava um deus muito antigo, Sancus. Era ele quem tornava invioláveis os juramentos e promessas e que presidia ao seu cumprimento. Do seu nome se fez o verbo sancire, “consagrar”. O particípio passado desse verbo era sanctus, “consagrado, santo, que deve ser respeitado acima de tudo”; obviamente, santo derivou daí. Uma forma alterada, São, é usada antes de nomes iniciados por consoante.

Quando era feito um juramento com a invocação de Sancus, o atendimento a ele era considerado sanctus, “sagrado”

Uma lei sancionada é uma lei que entrou em ação e deverá, portanto, produzir os efeitos nela descritos.

HERMÉTICO – Hermes era um deus grego com história e atividades complexas. Entre os romanos, era conhecido como Mercúrio. Ele protegia os comerciantes, os ladrões e os médicos.

O caduceu, um bastão com duas serpentes enroladas, é um atributo de Hermes que até hoje simboliza a Medicina.

O capacete alado, outro de seus atributos, é usado como símbolo do Comércio. Os caixeiros-viajantes usam as sandálias aladas, mais uma peça da roupa divina.

Qual seja o símbolo dos ladrões, não sabemos. Talvez a classe seja desunida ou esteja ocupada demais para se preocupar com o assunto.

O deus egípcio Thoth era considerado o inventor da alquimia e recebeu, de uma corrente filosófica grega, o nome Hermes Trismegistus, “Hermes, o Três Vezes Grande”.

Quando se queria tornar inviolável um frasco com alguma substância, colocava-se no seu gargalo um selo, muitas vezes de cera, com o símbolo de Hermes. Onde havia a tecnologia do vidro disponível, uma ampola desse material tinha o seu gargalo aquecido e comprimido, donde só podia ser aberta por rompimento.

De qualquer modo, o frasco a partir daí estava hermeticamente fechado. Fosse pela proteção do deus, fosse porque ficaria clara a violação, dava certo!

AFRODISÍACO – Em Grego, a deusa do amor era chamada Afrodite. Na verdade, ela era algo bem mais complicado que isso, com origem oriental, mas aqui teremos que simplificar um pouco.

Em etimologia popular, o nome da deusa costuma ser associado a afró, “espuma”, por ela ter nascido nas espumas do mar. No entanto, isso é um engano. A verdadeira etimologia do seu nome, como uma deusa oriental da fertilidade, é desconhecida. Como ela tinha o hipocorístico (apelido por encurtamento do nome) Afró, fez-se a confusão.

O nome dela passou a ser usado em relação aos assuntos amorosos. Hoje em dia a palavra “afrodisíaco” é usada apenas com o significado de algum processo que ajude a manter relações sexuais. Ganha-se muito dinheiro mundo afora vendendo substâncias e poções com esse qualificativo. Se funcionam, é outro assunto.

Do nome latino dela, Venus, temos mais um derivado relativo a alguns resultados indesejáveis de encontros físicos. É o adjetivo v
enéreo
, que designa as doenças sexualmente transmitidas.

Uma outra palavra que veio de Venus é vieira, de veneria. Essa palavra, que constitui também um sobrenome em Portugal, designa um determinado molusco comestível. A lenda conta que Vênus nasceu do mar sobre uma concha, que recebeu seu nome a partir da deusa.

Ainda há mais: o verbo venerar e seus derivados vêm daí, sob a conotação de “amar”. Não soa irônico chamarmos de venerável uma pessoa que merece todo o respeito e consideração pelos seus atos ou posição, sabendo que essa palavra veio de uma sensual deusa pagã?

MARCIAL – as artes ditas marciais estão em grande voga no momento; quase todos os filmes de ação atuais necessitam de um instrutor do assunto,

Além disso, como todos sabem, este é um adjetivo que se refere a atividades militares em geral: “porte marcial”, ‘banda marcial”, ‘atitude marcial”.

Essa palavra se originou também num deus grego: Mars, “Marte”, que geria a guerra com todas as suas conseqüências desagradáveis.

Um deus, aliás, muito ocupado ultimamente. Ele deve andar por aí se divertindo, em sua biga puxada por dois cavalos furiosos, Medo e Terror (em Grego, Fobos e Deimos). Esse é o nome das duas luas do planeta Marte. Esse planeta da cor do sangue era associado ao deus muito antes de se desconfiar que ele tinha dois satélites.

JOVIAL – um dos nomes de Júpiter, o pai dos deuses, era Jove. Antes de mais nada, vamos esclarecer uma coisa: ele não era realmente pai da maioria dos deuses. Era assim chamado pela sua posição de chefia, não pela relação familiar. Eram épocas em que pais eram respeitados…

Segundo a antiga Astrologia, nascer sob a predominância do planeta Júpiter era um excelente sinal, pois ele era considerado o mais feliz dos planetas. Ora, quem entra na vida com tamanho favorecimento só pode andar muito contente por aí. Logo, as pessoas que estão contentes e sociáveis, de alto astral – como hoje se diria – são pessoas joviais.

PÂNICO – em eras antigas, a vida era uma farra nas planícies e montanhas da Grécia. Em tardes de sol se podia ouvir ao longe os gritinhos da ninfas fingindo que queriam fugir dos faunos, sátiros e o restante do pessoal desejoso de festa.

Havia um deus, Pã, que presidia aos pastores e seus rebanhos. Ele tinha o corpo peludo, chifres e patas de bode e mesmo assim era alegre, até mesmo turbulento. Pelo visto, ele tinha a felicidade de se aceitar como era.

A sua energia sexual era interminável; era uma divindade que perturbava as pessoas quando aparecia, inquietando os espíritos e gerando muito medo pelo contato com esse aspecto básico da vida. Daí usarmos até hoje a palavra pânico quando nos deparamos com uma situação extremamente assustadora, perigosa ou ameaçadora.

EROTISMO – esta todo o mundo sabe: entre os gregos, o amor sexual era personificado num deus menino, alado e travesso, cujas flechas condenavam as pessoas atingidas a serem consumidas pela paixão.

Analiticamente, a noção de ele ser uma criança é profunda, pois se espera que, atingida a idade da razão, não ocorram mais situações deste tipo. Espera-se…

O nome desse deus, cuja paternidade é atribuída a mais de um casal, era Eros. Outros tipos de amor tinham denominações diferentes, como philia, “amizade” e agape, “amor fraterno”.

HIPNÓTICO – este adjetivo, que faz a gente pensar num sujeito vestido de fraque e cartola, com um bigodinho fino, cara de vilão antigo e olhos esbugalhados, significa “aquele que faz adormecer”. Pode ser um discurso muito maçante, pode ser uma medicação para ajudar os insones ou um coadjuvante do processo anestésico – se ajudar a dormir, é hipnótico.

Esse nome vem de um deus grego, Hypnos, o Sono. Ele era irmão gêmeo de Tânatos, a Morte. Ambos eram filhos de Nyx, a Noite.

É uma forma bonita, poética e assustadora de relacionar fatos que apresentam características em comum. Hypnos tinha asas e percorria a Terra, em geral sob o manto da mãe, entrando em todos os lugares sem ser convidado e fazendo adormecer pessoas, animais e até mesmo os deuses.

PLUTOCRACIA – esta palavra não é muito comum fora dos meios econômicos ou revolucionários hoje em dia. Significa “o governo pelo dinheiro”, referindo-se a algum país onde os que verdadeiramente mandam, mesmo através de aparências democráticas, são os ricos. Todos já ouvimos falar nisso, será que existe mesmo?

O rei do Hades, o reino subterrâneo da mitologia grega, era Plutão. O seu nome se liga a um termo que significa “muito, numeroso, cheio”. Ele era rico, pois o seu reino continha os minérios dos quais se retirava material precioso, bem como as raízes dos vegetais que alimentavam a humanidade e seu gado. Além disso, à medida que o seu reino foi se enchendo de almas, ele passou a ser “rico em hóspedes”. Desta forma, Plutão passou a ser associado à riqueza e veio a fazer parte de palavras de uso erudito.

O cão do Mickey, Pluto, deve o seu nome a este deus. É a forma usada em Inglês.

HERCÚLEO – este adjetivo vem do Latim Hercules, que veio do Grego Heraklês. Um esforço hercúleo significa a aplicação de uma força descomunal. Todos sabem que Hércules era um herói grego, filho de Zeus, muito forte, que andou realizando muitos feitos famosos, entre os quais os Doze Trabalhos.

O que é pouco sabido, no entanto, é que Heraklês não era o nome verdadeiro dele, e sim um apelido. Ao nascer, ele foi chamado de Alcides, pois um antepassado dele se chamava Alceu. Só recebeu o outro nome mais tarde, depois de completar os Doze Trabalhos, que lhe foram impostos como castigo.pela deusa Hera; Heraklês significa “aquele que trouxe glória a Hera”.

CEREAL – vem de Ceres, o nome latino da deusa grega Deméter. Isto a grosso modo, pois na verdade elas não eram exatamente a mesma na Grécia e em Roma.

Ceres foi quem ensinou aos mortais como plantar e colher, dando-lhes, assim, os meios básicos de sobrevivência. A partir disso, os grãos de modo geral foram chamados de cereal.

CICLÓPICO – quando se vê alguma coisa colossal, grande, enorme, etc., algumas pessoas mais cultas poderão aplicar a elas esse adjetivo. Ele deriva não propriamente de um deus, mas de seres da mitologia grega, os Cíclopes. Em Grego, a palavra é formada de kyklos, “redondo” e ôps, “olho”. Eles eram gigantes que tinham um só olho redondo no meio da testa.

Dá para imaginar que, não tendo visão binocular, eles não poderiam avaliar direito as distâncias. Provavelmente eram muito desajeitados, deviam viver tropeçando e derrubando coisas.

Na antigüidade, restos de muralhas feitas de pedras muito grandes eram atribuídas a eles, de onde o uso da palavra ciclópico.

CRONOLOGIA – (“definição de datas históricas”) e seus parentes, como cronômetro, cronógrafo, e muitas outras, são relacionadas ao tempo e sua marcação. A maioria das pessoas dirá:

– “Hah, essa eu sei! Cronos era o deus do Tempo para os gregos, daí o uso do seu nome para assuntos correlatos! Quando é que este Site vai dizer alguma novidade?”

Pois aqui está a novidade: os gregos nunca tiveram um deus do tempo, e a associação acima não passa de etimologia popular. Existia, sim, o deus Kronos, filho do Céu e da Terra, portanto pertencente à primeira geração de deuses.

Simplificando muito: ele matou o seu pai, que temia ser destronado por um dos filhos. Depois casou com Réia e se tornou pior ainda do que o pai, tratando também de destruir os filhos (pudera, com um modelo desses!). Um deles, Zeus, conseguiu dominá-lo
e passou a comandar o Olimpo.

Depois pai e filho se acertaram e Kronos acabou reinando sobre a Ilha dos Bem-Aventurados, onde se mostrou bom e justo. Às vezes as brigas dentro de uma família dão certo, se as partes se mostrarem maduras.

A única ligação de Kronos com o tempo é que, por ter reinado em passado muito, muito distante, dizer “no tempo de Kronos” significava um tempo enorme atrás.

Mas então por que a confusão? Porque em Grego, Chronos era a palavra usada para “tempo”, e nada tinha a ver com o nome do deus. A palavra começava com a letra chi, que tem um som semelhante ao CH alemão, ao passo que o nome do deus começava com a letra kappa. O som da letra chi não existe na maioria dos idiomas derivados do Latim, e não há como representá-lo adequadamente nessas línguas. Havendo diferença apenas na letra inicial, instalou-se toda uma história inverídica a respeito desta etimologia.

Resposta:

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