Palavra jovial

GRACIOSOS II

 

Muito bem, crianças, na última aulinha a gente estava debulhando as origens das palavras que se aplicam a certas pessoas metidas a fazer graça com os outros.

Infelizmente essa característica existe em grande quantidade entre meus alunos, com conseqüências bem ruins para minha sanidade mental.

Uma dessas palavras é jovial, “alegre, contente, folgazão”.  Ela tem uma origem interessante: vem do Latim Jovis, outro nome que se usava para Júpiter, o pai dos deuses na mitologia romana.

Acontece que, naquelas épocas, vejam só, se acreditava em Astrologia. E esta dizia que quem nascia sob o signo do planeta Júpiter era alegre e bem-humorado: jovial, portanto.

Uma correção: essa barbaridade não ocorria só naquelas épocas em que a Ciência estava longe de estar no nível atual.

Nos dias de hoje ainda há quem acredite que a posição das estrelas faça diferença para um ser humano.

Um sujeito que faz aprontações para se divertir à custa alheia também pode ser chamado de gozador. A origem deste adjetivo é o Latim gaudere, “satisfação, alegria”.

Temos em pleno uso, se bem que pendendo para o culto,  a palavra gáudio para “alegria” e “regozijo”, com o mesmo sentido e mesma origem.

Quando se exagera numa atividade dessas, pode-se dizer que se chegou às raias do burlesco, que é uma gozação com tintas puxando para o grotesco ou a paródia debochada.

Essa palavra aparentemente veio do Latim burra, “coisa insignificante, bagatela”, mas não há certeza absoluta. O que dá é para dizer que burlar, além de querer dizer “brincadeira, gracejo”, se usa para expressar a noção de “artifício, golpe, embuste”.

Em termos de “piada, facécia” temos o chiste, do Espanhol chiste, “piada”, originalmente “piada suja”, daquelas que o Joãozinho, que está ali muito quieto, gosta de contar para as meninas inocentes no recreio. Deriva de uma onomatopéia  –  palavra que imita algum som  –  chist, usada para chamar uma pessoa.

Quando eu tinha dinheiro para ir a restaurantes, lembro-me que não adiantava dizer chist para os garçons, que eles não ouviam. Agora nem sei como andam as coisas.

Falando em piada, esta viria de “piar”, de “pio”, o som das aves. Seria porque as pessoas riem depois, se tinham graça? Seria uma piada com a posteridade? Não sei dizer e não adianta vocês resmungarem comigo, que pelo que eu ganho para sofrer nas mãos de vocês até que estou ensinando muito!

Muitas vezes quem faz alguma brincadeira à custa dos outros fica sorridente; isto vem do Latim subridere, “sorrir”, feito de sub-, “abaixo”, mais ridere, “rir”. É como uma gradação inferior de rir.

Quem revela alegria e jovialidade pode ser dito também gaiato. Esta vem do Francês arcaico gai, “alegre, agradável”, possivelmente do Frâncico gahi.

E o pândego? Não tem origem certa; há quem diga que vem de uma suposta palavra latina panticare, “encher a barriga”, de pantex, “pança, barriga”, ocasião em que as pessoas podem ficar alegres e expandir o seu contentamento.

E acabar se metendo em brigas homéricas também. Não por causa da comida, mas pelo consumo do álcool. As pessoas às vezes acreditam que, se não houver bebida, não há festa.

Outra palavra para designar uma pessoa divertida é espirituoso, que vem de “espírito” no sentido de “vivacidade mental, boa disposição”. Claro que todos sabem que “espírito” vem do Latim spiritus, “alma, coragem, vigor, respiração”, relacionado a spirare, “respirar”.

Esta informação nada tem a ver com o sobrenatural ou o religioso,  de modo que nada de choradeiras nem pesadelos esta noite.

Um sujeito espirituoso muitas vezes faz gracejos, palavra  derivada de “graça”, do Latim gratia, de que já falei na aula passada.

Quando ele quer incomodar alguém, pode debochar dessa pessoa. Esta palavra deriva do Francês débaucher, de ébaucher, “desbastar troncos para fazer vigas”. A partir daí passou a ser usado para dizer “afastar alguém do seu dever”, que é o significado atual em Francês e em Inglês.

Em nosso idioma o sentido acabou se fixando nas consequências de não se cumprir o dever, pelo lado da libertinagem e devassidão.

Como está na hora de encerrarmos o tempo dedicado ao nosso dever de ensinar a aprender, não quero ser acusada de debochar vocês.

Portanto, agora todos vão para casa bonitinhos e vão ser engraçadinhos com os papais e mamães, que a Tia Odete aqui está muito cansada.

Resposta:

Jogos

 

Eu era adolescente e fazia tempo que entrava no gabinete do meu avô sem hesitar. Há muito eu tinha percebido como era sólido o nosso laço e me sentia seguro e acolhido ao visitá-lo.

Volta e meia eu passava por lá. abatido por alguma dor familiar ou da adolescência e, mesmo sem que entrássemos no assunto que me pesava, aquele contato me nutria e me dava condições para enfrentar a situação.

Algumas vezes me perguntei se ele saberia ou não o que se passava dentro de mim. Mais tarde descobri que ele sabia exatamente como eu estava e que sutilmente providenciava para lidar, mesmo de forma oculta, com o problema.

Mas desta vez eu estava sem maior peso na alma e queria aprender a jogar xadrez, principalmente para poder manejar aquelas bonitas peças em madeira polida que me fascinavam desde a infância. Olhando para elas, eu disse:

– Vô, quem foi que inventou este jogo tão intelectual? Deve ser bem moderno!

– Esse era um jogo de guerra e tem mais de mil e quatrocentos anos. Surgiu no norte da Índia. Era chamado de chaturanga em Sânscrito, uma palavra que era muitas vezes usada para designar “exército”. Olhe bem para as seis primeiras letras: se o “CH” soasse “K”, o que teríamos?

– Ora, katur.

– E se você trocasse as duas últimas letras, que palavra isso lhe recordaria?

Katru – ué, quatro?

– Isso mesmo! Essa palavra originou o quattuor latino, que virou o nosso quatro. E anga era cada um dos componentes dos exércitos locais: infantaria, cavalaria, carros de combate e elefantes.

Esse jogo imitava as manobras de um exército. As peças que hoje chamamos de peões eram a infantaria, os soldados a pé, mais numerosos, menos potentes e que morriam como moscas.

– E imagino que estes cavalos tão bonitinhos eram a cavalaria, né?

– Impressionante a sua inteligência, meu rapaz. Você certamente receberá um prêmio Nobel antes dos vinte anos se continuar assim. Agora conte-me o resto.

– N-não, Vô, isso eu deixo para você.

– Bem; a torre representa os carros de guerra, pelo poder que eles tinham em combate. E o atual bispo, os elefantes. Seu nome em Espanhol é alfil, do Persa pil, “elefante”, através do Árabe al-fil.

– E de chaturanga passou a xadrez como?

– Na Pérsia esse nome passou a chatrang; os árabes o passaram a chatranj e o levaram para a Península Ibérica, onde ficou ajedrez em Espanhol e xadrez em Português.

Há uma expressão que é tão usada no idioma em geral que muitas pessoas nem sabem que provém do xadrez: é xeque-mate, quando a peça chamada rei está cercada e sem saída alguma. Quando o rei era cercado irremediavelmente, o exército ficava acéfalo e nem era preciso dar cabo dele, pois ele não podia mais expedir ordens. Os persas diziam shah mat, “o rei está morto”, o que originou o nosso xeque-mate.

– E a rainha, que o senhor diz que é tão poderosa no jogo?

– Na origem, esta peça era um conselheiro ou assessor, farz em Persa. Na Europa, foi latinizado em farzia, passou para o Francês como fierce e depois vierge, “virgem”. Provavelmente por influência da religião católica, onde a Virgem tem tanto poder, a peça passou a simbolizar uma rainha com grande mobilidade e capacidade no jogo.

– Puxa, Vô! Quanta coisa num tabuleiro só!

– E ainda há uma história bem interessante. Diz ela que foi um monge que inventou esse jogo, para distrair e aliviar da tristeza um poderoso rei cuja esposa tinha falecido. Quando o rei aprendeu as regras e se tornou um grande apreciador do jogo, chamou o monge e lhe ofereceu uma recompensa: ele podia fazer qualquer preço que o tesouro do rei atenderia.

O monge, achando que o rei estava precisando agora de um pouco de humildade, pediu apenas um simples grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro, dois pela segunda, quatro pela terceira, oito pela quarta e assim por diante, dobrando sempre os grãos a cada casa. O conjunto deles seria a sua recompensa.

– Ora, Vô, um saco cheio de trigo dá e sobra para isso! Nem precisa contar. O monge era modesto mesmo.

– É, seu espertinho? Pois foi isso mesmo que o rei pensou. Mas o monge insistiu em receber o número exato de grãos, nem mais nem menos. Aí Sua Majestade chamou seus sábios e displicentemente os mandou fazer os cálculos. Eles pegaram a fórmula para a soma dos termos de uma progressão geométrica de razão 2 e a aplicaram para 64 termos.

– E de que tamanho ficou o saco de grãos?

– Dum tamanho maior que a Índia inteira, pois o total de grãos dava dezoito quintilhões, quatrocentos e quarenta e seis quatrilhões e muitocentos e mais grãos – uma quantidade completamente fora do alcance de qualquer rei.

Eu sabia que o velho não inventava, de modo que me dei por vencido.

– Está bem, Vô. E o rei, ficou mais humildezinho?

– Não faz diferença, já que a história não é verdadeira. Mas é um bonito exemplo de matemática, não?

– É verdade. E aquele outro jogo com um tabuleiro igual, Vô?

– Ah, que época. Quando eu era menino todos sabiam o que era o jogo de damas. Aliás, todos tinham seu joguinho de damas, de dominó, de varetas, etcétera.

– Agora a gente tem videogames muito mais interessantes e bonitos, ora! Quando é que vou poder lhe ensinar algum, Vô?

– Já que você quer, qualquer dia destes. E vamos ver se eu não viro campeão!

– Combinado, Vô. Mas fiquei curioso com o nome do jogo de damas. Era só para mulheres?

– Nada disso. Acontecia assim: no chatranj, quando o rokh – soldado – chegava na oitava casa, o fim do tabuleiro, virava farz. Esta é a imagem do soldado que, pelos seus méritos militares, avança muito na carreira e acaba promovido a um cargo de muita importância. Em linguagem de xadrez atual, quando o peão chega à oitava casa, vira uma rainha com todos os seus poderes.

– Fazia uma operação de mudança de sexo?

– Fique quieto ou eu lhe bato com o relho! Dessa noção de uma peça virando uma rainha, isto é, uma dama de alta extração, na oitava casa, é que veio o nome francês de jeu de dames, jogo de damas, para o jogo. Nesse jogo também acontece de, quando uma peça chega à extremidade do tabuleiro, virar uma dama com superpoderes.

– E por que eles são chamados jogos de tabuleiro, Vô?

– Porque em Latim tabularium era uma espécie de bandeja sobre a qual se colocavam à venda doces e outras comilanças, um derivado de tabula, “tábua, mesa”. Da semelhança de forma é que se fixou o nome.

– Legal! E dominó eu sei o que é. A gente até usava uns joguinhos parecidos no primário.

– Poucos sabem que jogar isso de verdade implica em cálculos que levam até a ter idéia das peças que o adversário tem na mão. Este jogo já é bem mais moderno, tendo menos de trezentos anos. Provavelmente foi inventado na Itália.

– Já sei de onde vem o nome! É porque o vencedor dominava o outro e…

– Quieto, seu chutador! Etimologia não é assim. Se você continuar desse jeito, seu futuro na área será negro. O que ocorria é que existia um traje religioso que constava de uma capa preta com capuz e que era chamado de domino pelos franceses. Essa palavra vinha do Latim dominus, “senhor”, uma forma respeitosa de chamar os religiosos.

Este nome começou a ser usado para os trajes semelhantes usados em festas de disfarce, com uma pequena máscara cobrindo a parte superior da face. E acabou nomeando o jogo em que se usam peças pretas com marcas brancas que lembram os olhos.

– E o jogo de cartas, Vô?

– Não é um, são numerosos. O nome das peças usadas nele vem do Francês carte, que veio do Latim charta, “escrito, papel, livro”. Mas originalmente esta palavra queria dizer “folha da planta de papiro” e veio do Grego khártes, sendo provavelmente de origem egípcia.

O ato de misturar as cartas para que a distribuição seja ao acaso antes do jogo se chama embaralhar, e parece vir de varalia, “confusão, desordem”, talvez de vara, “vara”, devido ao entrelaçamento das varas numa trama de vime.

Baralho acabou nomeando o conjunto de cartas de jogar.

– Uma conhecida dos meus pais parece que anda viciada em bingo. E este nome, de onde vem?

– Este jogo é mais moderno ainda; é do começo do século passado. Essa palavra vem da imitação do toque de uma campainha, bing! que se fazia quando eram completados os números desejados.

– E os dados? Chamam-se assim porque o dono do jogo os dá de presente?

– Chamam-se assim porque é uma palavra que veio do Oriente através do Árabe dad, “jogo”. Em Roma eram chamados de alea. Esta palavra ficou famosa quando Júlio César atravessou o rio Rubicon com seu exército – o que era proibido – e disse Alea jacta est!, os dados estão lançados“, ou seja, “a jogada foi feita, não há mais volta”.

Há um uso muito importante derivado daí, que é a palavra aleatório, que quer dizer “ao acaso”.

Falando em algo que pode trazer sorte ou azar, estas palavras têm histórias interessantes.

Azar, por exemplo, vem do Árabe as-sahr, “a flor”. Numa das faces dos dados que eles usavam havia uma flor, e o nome dela passou a significar “acaso”. Em Espanhol, este significado se manteve, e azar quer dizer “acaso”. Por exemplo, a frase Daba tiros al azar quer dizer “dava tiros a esmo, ao acaso”.

Em Português, por uma dessas voltas que as palavras dão, passou a significar o acaso desfavorável, a má sorte.

E sorte, sors em Latim, por sua vez queria dizer “o destino de cada um, a porção que cabe a cada um na vida, boa ou má”. Também por essas voltas acabou significando, em Português, o acaso favorável, vantajoso para a pessoa.

Havia uma expressão “tirar sortes” que queria dizer “escolher ao acaso, sortear”.

– E os cassinos, Vô?

– Ah, essas maneiras de tirar dinheiro alheio têm a origem dos seu nome no Latim casa, “cabana, morada pobre, morada rural”. As casas melhores eram por eles chamadas domus. A palavra casa, no entanto, prevaleceu no Português sobre domus.

Como o jogo, em várias épocas, era praticado em lugares pouco chamativos, usou-se o diminutivo casino para tais lugares, o que virou o nosso cassino.

Aliás, jogo tem origem num daqueles deuses antigos: vem de Jove, um dos nomes de Júpiter. Como este tinha um temperamento disposto à alegria – embora às vezes com brincadeiras um tanto brutas – formou-se a partir dele a palavra jovial, “alegre, descontraído”. E a palavra jocus, em Latim, “atividade que causa diversão”.

Os ingleses têm, entre as cartas do baralho, o joker, “o engraçado, o piadista”, representando o Bobo da Corte. Naquelas épocas cruéis, muitas vezes era escolhida para esta função uma pessoa com deformidades físicas. É por esta razão que o nosso coringa é representado por um homenzinho corcunda com roupas estranhas.

– É no cassino que se joga roleta, não é?

– Sim. Esta palavra vem do Latim rotullum, “cilindro, peça para enrolar papiro”. Foi aplicado por causa do rolar da bola até chegar a uma casa numérica.

– Vô, qual desses jogos o senhor recomenda para que eu fique rico?

– Quer moleza, é, seu safado? Meu conselho é: fuja de todos, pois sempre há alguém lucrando por trás, mesmo na hipótese de não haver manipulação no jogo. Fique apenas com o xadrez.

– E como é que eu vou enriquecer com o xadrez?

– Não vai. Mas enriquecer não é só ganhar dinheiro. Se você aprender que mexer uma peça aqui vai ter conseqüências ali e se aprender a calcular as possibilidades antes de cada movimento, sua vida terá menos complicações.

Falando nisso, agora você tem que ir para casa estudar, sabia? Vamos deixar para jogar xadrez e os seus videogames noutro dia. Até à próxima.

Resposta:

Os Deuses Antigos Na Nossa Vida

 

Normalmente pensamos que a mitologia greco-romana está passada, definitivamente enterrada sob as colunas derrubadas dos templos, a poeira dos séculos e a névoa do esquecimento. Mas isso não é verdade. Nada do que é lembrado morre de verdade, e nas nossas palavras de uso comum encontramos citações de nomes de divindades que eram evocadas há milhares de anos. Olhem só:

MOEDA (e derivados: monetário, monetarismo, moedeiro, etc.) – numa das invasões dos bárbaros à Itália, quando o Império se estava esfacelando, um grupo deles tentou escalar a parte da muralha de Roma junto à qual, pelo lado de dentro, se situava um templo dedicado a Juno, a deusa que era esposa de Júpiter. Os gansos consagrados à deusa, que estavam no terraço do templo, deram o alarme e os soldados romanos acorreram e afugentaram o inimigo. Gansos são ótimos vigias, pois fazem um grande estardalhaço na presença de estranhos.

Agradecidos, os romanos declararam que aquele templo era dedicado a Juno Moneta, “a Juno que avisa”.

Esta palavra vem do Latim monere, “advertir, admoestar, avisar”, e gerou, em Português, premonição (um aviso antes do acontecimento), admoestar (advertir), monitor (aparelho que serve para acompanhar o que acontece; pessoa que acompanha ou auxilia o ensino; nome de um tipo de navio, a partir do nome próprio do primeiro do tipo; um tipo de lagarto cuja presença, dizia-se, avisava da proximidade de crocodilos).

Mais tarde, nesse templo, se estabeleceu um local onde se cunhavam discos metálicos, com valor definido, próprios para fazer negócios de compra. Estes receberam um nome derivado da deusa do templo – ou seja, moneta ou moeda. Em Inglês, mint – derivado daí – é um local onde se fabrica moeda. Também é uma palavra usada para designar algo em estado de novo, como se fosse uma moeda recém-feita.

VOTO DE MINERVA – é uma expressão que se refere ao voto de desempate numa situação indefinida.

Minerva (Atená para os gregos), na mitologia romana, era a deusa relacionada à sabedoria e à prudência. Era filha de Júpiter, que a engolira antes de ela nascer, para evitar que se cumprisse uma previsão nefasta.

A vida era dura naquela época, mesmo para os deuses.

Nove meses depois de fazer isso, Júpiter começou a ter uma dor de cabeça terrível. Quando o próprio Pai dos Deuses tem dor de cabeça, imaginem a intensidade dela…

Para obter alívio, pediu a Vulcano, o deus que lidava com forjas e que preparava os raios para a prática de tiro-ao-alvo, que lhe desse uma martelada na cabeça. Vulcano obedeceu prontamente, ainda mais que não havia esquecido que Júpiter o havia atirado pelos céus abaixo quando era pequeno (levou dias e dias caindo e ficou manco para sempre). Assestou vigorosa marretada na divina cabeça.

Para espanto de todos os deuses, saiu dali Minerva, já vestida para o combate, armada de lança e escudo e dançando uma dança guerreira. Não admira que aquela dor fosse tão forte!

Imediatamente ela passou a ajudar o pai na luta que ele vinha sustentando contra os Gigantes, mas isso é uma outra história.

Os antigos, ao fazerem um mito tão cru, provavelmente estivessem pensando em colocar na deusa as características associadas à cabeça, como a inteligência, a disciplina, a prudência, a sabedoria.

E, se ela é uma deusa especialmente prudente e inteligente, é de esperar que o seu voto, quando solicitado, seja cheio de bom senso e possa resolver situações de empate entre vários julgadores.

PALÁDIO – não é uma palavra de uso vulgar agora; designa um elemento químico do grupo da platina, usado em ligas e contatos elétricos.

Já que acabamos de falar em Minerva, nos ocorre o nome de sua grande amiga de juventude, Pallas, que foi morta por engano pela própria deusa num trágico acidente. Desse dia em diante, esta adotou o nome da amiga inseparável e passou a ser chamada de Pallas Atená em Grego.

Dizia-se que uma estátua de madeira de Pallas, chamada de palladium, protegeria contra as invasões inimigas as cidades onde se encontrasse.

Várias cidades tinham o seu palladium. Inclusive Tróia, que tinha um tão poderoso que evitou por dez anos a vitória dos gregos. Como muitas cidades dessa época, com palladium ou não, acabaram sofrendo nas mãos dos inimigos, deduz-se que este não poderia ser considerado uma defesa infalível.

OPORTUNO – os romanos tinham um deus chamado Portunus. O seu nome vinha de portus, “passagem”, relacionado com “porta”, o ponto de passagem para um aposento. Portus, “porto”, ficou como a passagem da via aquática para uma cidade.

De ob-, “para, em direção a”, e Portunus se fez opportunus, “o que empurra para o porto”, ou seja, “vento favorável”.

Metaforicamente, todos nós queremos ou precisamos de ventos favoráveis. De tal modo, qualquer acontecimento oportuno é bem-vindo.

SANCIONAR – entre os romanos se adorava um deus muito antigo, Sancus. Era ele quem tornava invioláveis os juramentos e promessas e que presidia ao seu cumprimento. Do seu nome se fez o verbo sancire, “consagrar”. O particípio passado desse verbo era sanctus, “consagrado, santo, que deve ser respeitado acima de tudo”; obviamente, santo derivou daí. Uma forma alterada, São, é usada antes de nomes iniciados por consoante.

Quando era feito um juramento com a invocação de Sancus, o atendimento a ele era considerado sanctus, “sagrado”

Uma lei sancionada é uma lei que entrou em ação e deverá, portanto, produzir os efeitos nela descritos.

HERMÉTICO – Hermes era um deus grego com história e atividades complexas. Entre os romanos, era conhecido como Mercúrio. Ele protegia os comerciantes, os ladrões e os médicos.

O caduceu, um bastão com duas serpentes enroladas, é um atributo de Hermes que até hoje simboliza a Medicina.

O capacete alado, outro de seus atributos, é usado como símbolo do Comércio. Os caixeiros-viajantes usam as sandálias aladas, mais uma peça da roupa divina.

Qual seja o símbolo dos ladrões, não sabemos. Talvez a classe seja desunida ou esteja ocupada demais para se preocupar com o assunto.

O deus egípcio Thoth era considerado o inventor da alquimia e recebeu, de uma corrente filosófica grega, o nome Hermes Trismegistus, “Hermes, o Três Vezes Grande”.

Quando se queria tornar inviolável um frasco com alguma substância, colocava-se no seu gargalo um selo, muitas vezes de cera, com o símbolo de Hermes. Onde havia a tecnologia do vidro disponível, uma ampola desse material tinha o seu gargalo aquecido e comprimido, donde só podia ser aberta por rompimento.

De qualquer modo, o frasco a partir daí estava hermeticamente fechado. Fosse pela proteção do deus, fosse porque ficaria clara a violação, dava certo!

AFRODISÍACO – Em Grego, a deusa do amor era chamada Afrodite. Na verdade, ela era algo bem mais complicado que isso, com origem oriental, mas aqui teremos que simplificar um pouco.

Em etimologia popular, o nome da deusa costuma ser associado a afró, “espuma”, por ela ter nascido nas espumas do mar. No entanto, isso é um engano. A verdadeira etimologia do seu nome, como uma deusa oriental da fertilidade, é desconhecida. Como ela tinha o hipocorístico (apelido por encurtamento do nome) Afró, fez-se a confusão.

O nome dela passou a ser usado em relação aos assuntos amorosos. Hoje em dia a palavra “afrodisíaco” é usada apenas com o significado de algum processo que ajude a manter relações sexuais. Ganha-se muito dinheiro mundo afora vendendo substâncias e poções com esse qualificativo. Se funcionam, é outro assunto.

Do nome latino dela, Venus, temos mais um derivado relativo a alguns resultados indesejáveis de encontros físicos. É o adjetivo v
enéreo
, que designa as doenças sexualmente transmitidas.

Uma outra palavra que veio de Venus é vieira, de veneria. Essa palavra, que constitui também um sobrenome em Portugal, designa um determinado molusco comestível. A lenda conta que Vênus nasceu do mar sobre uma concha, que recebeu seu nome a partir da deusa.

Ainda há mais: o verbo venerar e seus derivados vêm daí, sob a conotação de “amar”. Não soa irônico chamarmos de venerável uma pessoa que merece todo o respeito e consideração pelos seus atos ou posição, sabendo que essa palavra veio de uma sensual deusa pagã?

MARCIAL – as artes ditas marciais estão em grande voga no momento; quase todos os filmes de ação atuais necessitam de um instrutor do assunto,

Além disso, como todos sabem, este é um adjetivo que se refere a atividades militares em geral: “porte marcial”, ‘banda marcial”, ‘atitude marcial”.

Essa palavra se originou também num deus grego: Mars, “Marte”, que geria a guerra com todas as suas conseqüências desagradáveis.

Um deus, aliás, muito ocupado ultimamente. Ele deve andar por aí se divertindo, em sua biga puxada por dois cavalos furiosos, Medo e Terror (em Grego, Fobos e Deimos). Esse é o nome das duas luas do planeta Marte. Esse planeta da cor do sangue era associado ao deus muito antes de se desconfiar que ele tinha dois satélites.

JOVIAL – um dos nomes de Júpiter, o pai dos deuses, era Jove. Antes de mais nada, vamos esclarecer uma coisa: ele não era realmente pai da maioria dos deuses. Era assim chamado pela sua posição de chefia, não pela relação familiar. Eram épocas em que pais eram respeitados…

Segundo a antiga Astrologia, nascer sob a predominância do planeta Júpiter era um excelente sinal, pois ele era considerado o mais feliz dos planetas. Ora, quem entra na vida com tamanho favorecimento só pode andar muito contente por aí. Logo, as pessoas que estão contentes e sociáveis, de alto astral – como hoje se diria – são pessoas joviais.

PÂNICO – em eras antigas, a vida era uma farra nas planícies e montanhas da Grécia. Em tardes de sol se podia ouvir ao longe os gritinhos da ninfas fingindo que queriam fugir dos faunos, sátiros e o restante do pessoal desejoso de festa.

Havia um deus, Pã, que presidia aos pastores e seus rebanhos. Ele tinha o corpo peludo, chifres e patas de bode e mesmo assim era alegre, até mesmo turbulento. Pelo visto, ele tinha a felicidade de se aceitar como era.

A sua energia sexual era interminável; era uma divindade que perturbava as pessoas quando aparecia, inquietando os espíritos e gerando muito medo pelo contato com esse aspecto básico da vida. Daí usarmos até hoje a palavra pânico quando nos deparamos com uma situação extremamente assustadora, perigosa ou ameaçadora.

EROTISMO – esta todo o mundo sabe: entre os gregos, o amor sexual era personificado num deus menino, alado e travesso, cujas flechas condenavam as pessoas atingidas a serem consumidas pela paixão.

Analiticamente, a noção de ele ser uma criança é profunda, pois se espera que, atingida a idade da razão, não ocorram mais situações deste tipo. Espera-se…

O nome desse deus, cuja paternidade é atribuída a mais de um casal, era Eros. Outros tipos de amor tinham denominações diferentes, como philia, “amizade” e agape, “amor fraterno”.

HIPNÓTICO – este adjetivo, que faz a gente pensar num sujeito vestido de fraque e cartola, com um bigodinho fino, cara de vilão antigo e olhos esbugalhados, significa “aquele que faz adormecer”. Pode ser um discurso muito maçante, pode ser uma medicação para ajudar os insones ou um coadjuvante do processo anestésico – se ajudar a dormir, é hipnótico.

Esse nome vem de um deus grego, Hypnos, o Sono. Ele era irmão gêmeo de Tânatos, a Morte. Ambos eram filhos de Nyx, a Noite.

É uma forma bonita, poética e assustadora de relacionar fatos que apresentam características em comum. Hypnos tinha asas e percorria a Terra, em geral sob o manto da mãe, entrando em todos os lugares sem ser convidado e fazendo adormecer pessoas, animais e até mesmo os deuses.

PLUTOCRACIA – esta palavra não é muito comum fora dos meios econômicos ou revolucionários hoje em dia. Significa “o governo pelo dinheiro”, referindo-se a algum país onde os que verdadeiramente mandam, mesmo através de aparências democráticas, são os ricos. Todos já ouvimos falar nisso, será que existe mesmo?

O rei do Hades, o reino subterrâneo da mitologia grega, era Plutão. O seu nome se liga a um termo que significa “muito, numeroso, cheio”. Ele era rico, pois o seu reino continha os minérios dos quais se retirava material precioso, bem como as raízes dos vegetais que alimentavam a humanidade e seu gado. Além disso, à medida que o seu reino foi se enchendo de almas, ele passou a ser “rico em hóspedes”. Desta forma, Plutão passou a ser associado à riqueza e veio a fazer parte de palavras de uso erudito.

O cão do Mickey, Pluto, deve o seu nome a este deus. É a forma usada em Inglês.

HERCÚLEO – este adjetivo vem do Latim Hercules, que veio do Grego Heraklês. Um esforço hercúleo significa a aplicação de uma força descomunal. Todos sabem que Hércules era um herói grego, filho de Zeus, muito forte, que andou realizando muitos feitos famosos, entre os quais os Doze Trabalhos.

O que é pouco sabido, no entanto, é que Heraklês não era o nome verdadeiro dele, e sim um apelido. Ao nascer, ele foi chamado de Alcides, pois um antepassado dele se chamava Alceu. Só recebeu o outro nome mais tarde, depois de completar os Doze Trabalhos, que lhe foram impostos como castigo.pela deusa Hera; Heraklês significa “aquele que trouxe glória a Hera”.

CEREAL – vem de Ceres, o nome latino da deusa grega Deméter. Isto a grosso modo, pois na verdade elas não eram exatamente a mesma na Grécia e em Roma.

Ceres foi quem ensinou aos mortais como plantar e colher, dando-lhes, assim, os meios básicos de sobrevivência. A partir disso, os grãos de modo geral foram chamados de cereal.

CICLÓPICO – quando se vê alguma coisa colossal, grande, enorme, etc., algumas pessoas mais cultas poderão aplicar a elas esse adjetivo. Ele deriva não propriamente de um deus, mas de seres da mitologia grega, os Cíclopes. Em Grego, a palavra é formada de kyklos, “redondo” e ôps, “olho”. Eles eram gigantes que tinham um só olho redondo no meio da testa.

Dá para imaginar que, não tendo visão binocular, eles não poderiam avaliar direito as distâncias. Provavelmente eram muito desajeitados, deviam viver tropeçando e derrubando coisas.

Na antigüidade, restos de muralhas feitas de pedras muito grandes eram atribuídas a eles, de onde o uso da palavra ciclópico.

CRONOLOGIA – (“definição de datas históricas”) e seus parentes, como cronômetro, cronógrafo, e muitas outras, são relacionadas ao tempo e sua marcação. A maioria das pessoas dirá:

– “Hah, essa eu sei! Cronos era o deus do Tempo para os gregos, daí o uso do seu nome para assuntos correlatos! Quando é que este Site vai dizer alguma novidade?”

Pois aqui está a novidade: os gregos nunca tiveram um deus do tempo, e a associação acima não passa de etimologia popular. Existia, sim, o deus Kronos, filho do Céu e da Terra, portanto pertencente à primeira geração de deuses.

Simplificando muito: ele matou o seu pai, que temia ser destronado por um dos filhos. Depois casou com Réia e se tornou pior ainda do que o pai, tratando também de destruir os filhos (pudera, com um modelo desses!). Um deles, Zeus, conseguiu dominá-lo
e passou a comandar o Olimpo.

Depois pai e filho se acertaram e Kronos acabou reinando sobre a Ilha dos Bem-Aventurados, onde se mostrou bom e justo. Às vezes as brigas dentro de uma família dão certo, se as partes se mostrarem maduras.

A única ligação de Kronos com o tempo é que, por ter reinado em passado muito, muito distante, dizer “no tempo de Kronos” significava um tempo enorme atrás.

Mas então por que a confusão? Porque em Grego, Chronos era a palavra usada para “tempo”, e nada tinha a ver com o nome do deus. A palavra começava com a letra chi, que tem um som semelhante ao CH alemão, ao passo que o nome do deus começava com a letra kappa. O som da letra chi não existe na maioria dos idiomas derivados do Latim, e não há como representá-lo adequadamente nessas línguas. Havendo diferença apenas na letra inicial, instalou-se toda uma história inverídica a respeito desta etimologia.

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