Palavra bacia

NO OCULISTA

 

X-8, o detetive etimológico, está sentado à escrivaninha de seu escritório num bairro que, de tão sujo, nem tem nome. Está corajosamente aguardando que cheguem as palavras-clientes desta noite.

Ei-las que entram, titubeantes, ansiosas por saber de suas origens, com o dinheirinho no bolso para pagar o famoso profissional.

Quando a última fecha a porta e senta, o bravo detetive as encara com sua voz gélida de ator de filme noir e dispara:

– Boas noites, prezadas palavras. Estamos aqui reunidos para falar sobre as origens de vocês, todas relacionadas ao material que usamos para limpar nossos lares e locais de trabalho.

Para iniciar, destaco ali a palavra limpeza. Ela vem do Latim limpidus, “transparente, claro, nítido”, do Grego lampein, “reluzir, brilhar”.

A palavra enrubesceu de orgulho.

– E tem mais, esse verbo grego originou também o nome do objeto sujo de moscas que ilumina esta sala, a lâmpada, cuja função é justamente brilhar.

As demais palavras se maravilharam.

Prossegue o detetive:

– A seguir, aponto ali nossa conhecida vassoura, que veio do Latim versoria, derivada de verrere, “varrer, arrastar pelo chão, ajuntar por meio de varredura”. Esse é um dos implementos mais antigos da Humanidade, pois um galho maior com diversos galhos menores atados na ponta certamente era usado para varrer as cavernas em épocas antigas, livrando-as de todos aqueles ossos de mamutes, pontas de flechas usadas e restos de fogueiras.

Ao lado de vassoura senta-se esfregão, que vem de esfregar. Esta deriva do Latim exfricare, “roçar com energia”, de ex-, “para fora”, mais fricare, “espalhar, esfregar”, do Grego khríein, “ungir, espalhar”.

Fazendo uma boa dupla com ela, encontramos escova, mostrando suas cerdas para o mundo; ela vem do Latim scopa, “vassoura”, inicialmente “arbusto, conjunto de ramos de planta”, que eram usados para preparar objetos de limpar e varrer, como dissemos há pouco.

Quem se encontra nessas atividades sempre acaba usando um pano; esta vem do Latim pannus, “pedaço de tecido, trapo” do Grego penos, de mesmo significado.

Em vez deste se pode usar uma esponja para limpar. Esta vem do Latim spongia, do Grego spongia, o nome de um animal marinho fixo, que mais parece uma planta. Ele é colhido há muito tempo por ser macio, elástico e poroso, muito adequado para retirar umidade de uma superfície.

Até algumas décadas se encontrava esse material natural para vender em nossos mercados, mas agora ele é feito de derivados do petróleo, que são mais baratos e mais coloridos.

Nossa amiga espuma ali está inquieta. Pois bem, chegou a sua vez: você deriva do Latim spuma, de mesmo significado, de spuere, “ejetar, vomitar, lançar”.

Temos entre nós também uma palavra composta, pedra-pomes. Ela está meio desanimada, coitadinha, pois se encontra meio fora de uso atualmente. Ela é uma pedra vulcânica bem porosa, que foi usada por séculos para alisar a pele. Seu nome vem do Latim pumex, que parece ter uma origem em comum com a palavra que originou espuma.

Ao falar em espuma, não pude deixar de notar que sabão deu mostras de assanhamento. Cara palavra, sua origem é o Latim sapo, “sabão”, que veio de uma palavra germânica saipo-, “material para lavar ou tingir o cabelo”. Houve certa confusão num texto do historiador romano Plínio, que fazia referência a uma espécie de mistura de resinas que os gauleses usavam; o nome acabou sendo aplicado ao material usado para lavar e assim ficou.

Todas as prezadas clientes podem ver detergente, de braço dado com sabão. A diferença entre os dois materiais é apenas de ordem química, da matéria-prima usada; a ação final delas é a mesma, ou seja, a de soltar moléculas de gordura de onde elas estão presas. Sua origem é o Latim detergere, “lavar fora” de de-, “para fora”, mais tergere, “esfregar, remover”.

O pessoal ali do fundo está meio agitado, de modo que vamos resolver as suas curiosidades.

Olhem para a redondez satisfeita de balde. Espero que você não fique incomodada, cara cliente, mas devo informar que a sua origem ainda não foi explicada.

Mas não se amofine, observe que isso a deixa misteriosa, com um certo ar de atração fatal.

Balde pensou um pouco e acabou concordando. Palavras são assim, muito vaidosas. Qualquer argumento é capaz de dominá-las.

O grande profissional, satisfeito por ter evitado um ataque de nervos àquela palavra, voltou-se para outra:

– E você, bacia, que tem tantas utilidades, vem do Latim baccinus, “recipiente largo para líquidos”.

Com grande afinidade com vassoura, nota-se ali rodo. É um instrumento de grande utilidade, usado para retirar água dos pisos. Vem do Latim rutrum, “instrumento para trabalhar a terra, espécie de enxada”.

Falando em pisos, podemos citar cera. Você, que deixa nossos assoalhos lisos e brilhantes a ponto de às vezes escorregarmos neles, vem do Latim cera, do Grego kéros, ambos querendo dizer “cera” mesmo.

Uma parente sua é querosene, embora não pareça. Esta veio do Francês kérosène, de kéros.

Na fila dos fundos senta-se uma dupla de nomes estranhos e mesmo significado: são lixívia e barrilha.

Todas representam uma solução de hipoclorito de sódio com finalidades alvejantes e bactericidas. A primeira vem do Latim lixivium, “líquido coado”.

A segunda é do Espanhol barrilla, o nome de uma planta cujas cinzas produzem o sódio necessário para a preparação do líquido de limpeza; ele vem de barra, por sua vez uma alteração de parra, “vinha, a planta de uva”, por ela ser disposta no terreno como as vinhas. As duas são também conhecidas como “água sanitária”.

Caras amigas, nossa sessão está terminada. Ao saírem, se puderem dar uma limpada em nossos corredores pouco asseados, o condomínio ficará agradecido.

 

Resposta:

OSSOS II

 

Olá, crianças. Lembram-se que na última aula a gente falou sobre um osso de dinossauro que o Soneca achou no pátio e que não passava de um osso de galinha roído? E que através disso aprendemos a origem dos nomes de vários ossos humanos?

Pois hoje vamos continuar aprendendo sobre o assunto.

Vamos ver… Podemos começar falando na bacia… eu sabia o que viria a seguir. “Balde”! “Vassoura!” “Mangueira!” Aquietem-se, que aqui ninguém está por lavar o piso. Essa palavra vem do Latim baccinum, diminutivo de bacca, “recipiente para água”.

Esse nome é dado a um conjunto de ossos soldados entre si que se situam no assoalho da pelve, que é a parte mais baixa do tronco.

Ora, Valzinha, por que! Porque lembra uma bacia mesmo. Tá bom, com certa boa vontade, vá lá.

O importante é que ela se forma por três ossos; um deles é o ísquio, que vem do Latim ischium, do Grego iskhion, “quadril”.

Ele tem um encaixe redondo para o encaixe do fêmur que se chama acetábulo, que vem do Latim acetabulus, “recipiente raso para vinagre”, de acetum, “vinagre”.

Junto a ele fica o ílio, de ile, “flanco”.

E mais no centro temos o púbis, de pubes, “pelos que começam a nascer por influência hormonal na adolescência, na puberdade”.

Bem atrás da bacia fica um osso sobre o qual muitas vezes a gente cai durante o recreio. É o cóccix, que na verdade  é um conjunto de vértebras soldadas. Vem do Grego kókkiks, “cuco”, porque alguém algum dia desembestou que lembrava o bico de um cuco.

Acima desse se encontra o sacro ou sacral, de sacrum, “sagrado”.

Não, não era porque fosse proibido tocar no sacro alheio, embora isso continue de mau gosto até hoje. Era porque esse era o osso que era encontrado menos afetado quando alguém era queimado, já que ficava bem protegido pelas estruturas adjacentes.

Credo.

Antes que o Joãozinho ali venha com alguma piada, vamos passar para o famoso fêmur, o maior osso de nosso corpo. Seu nome vem de femur, “coxa”.

Ele termina na articulação do joelho onde faz saliência um osso chamado…

Lamento, os que disseram “rótula” estão errados, pelo menos de acordo com as normas
anatômicas. Antes era esse o nome oficial dele, derivando de rotula, “rodinha”, diminutivo de rota,  “roda”. E é parecido mesmo.

Mas agora ele se chama patela, de patella, “pequeno prato usado em sacrifícios”.

Não, não vou falar de sacrifícios sanguinolentos nem descrever cenas bárbaras para satisfazer os gostos atuais    das crianças.

De sacrifício já basta o que eu faço todos os dias em agüentar certas pessoinhas que fazem de tudo para afetar meu equilíbrio emocional. E depois ficam com caras inocentes, me olhando com olhos muito grandes.

O fêmur se articula com a tíbia, cujo nomezinho vem de tibia, que inicialmente queria dizer “flauta”. Sim, era usado para fazer flautas, mas creio que os de gente eram grandes demais para isso. Provavelmente os faunos, para saírem correndo atrás das ninfas, usavam tíbias de animais menores mesmo.

E parem de tentar arrancar as pernas uns dos outros! É proibido fazer flautas de ossos humanos. Pelo menos na minha aulinha.

Sim, Lary? Por que os piratas usavam tíbias cruzadas na sua bandeira? Não foi sempre assim. Eles usavam de tudo, desde esqueletos a caveiras e desaforos. O que importava era que o fundo fosse preto, o que significava “luta sem quartel”.

Ai, que crianças curiosas. “Sem quartel” queria dizer que a coisa era à morte, não havia abrigo nem pedido de desculpas nem afirmação de que “mamãe está me chamando ali adiante” que valesse.

Outro participante dessa articulação é… de novo, quem disse “perônio” errou. Esse nome vinha do Grego perone, “alfinete para prender roupa, broche” e foi substituído por fíbula, que quer dizer o mesmo mas pertence ao Latim.

E antes que me perguntem a razão dessas mudanças, aviso que não sei. Decerto os responsáveis pela nomenclatura anatômica estavam com tempo sobrando.

No pé encontramos uns ossos complicados junto à articulação do tornozelo. Não vou falar sobre eles porque é demais para as suas cabecinhas. Só vou dizer que eles são os ossos do tarso, do Grego tarsos, “tornozelo”.

Aí vêm, no dorso do pé, uns ossinhos compridinhos que são os metatarsianos, de metá, “além”, já que ficam para lá do tarso.

Querem mais ainda? Tia Odete já falou em praticamente todos os ossos, exceto os sesamoides. Eles são ossinhos que surgem em locais de articulações, para ajudar a mudar o ângulo das forças exercidas pelos tendões. Como são pequenos e arredondados, chamaram-se assim devido às sementes de gergelim, sesamon  em Grego.

Uffa! Agora vão em paz para casa. E, por favor, não tragam mais ossos roídos aqui para a nossa aula.

 

Resposta:

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