Palavra bagunça

Bagunça Na Aulinha

Basta eu sair um instante da sala de aula para encontrar um quadro dantesco à minha volta. Olhem só para vocês!

Ana Maria e Tiago dançando sobre a mesa; Valzinha imitando alguma coisa que uma vizinha sua deve ter feito alguma vez, e que não dá para imaginar o que seja, para os olhos fascinados do Joãozinho e do Sid; Ledinha pulando para lá e para cá, sem saber por quê, como sempre.

Enquanto isso, Soneca ronca alto, Artur rouba o lanche alheio, Patty estremece tudo ao redor e Lúcia piora tudo se comportando tão bem que o contraste chega a doer.

Já para os seus lugares!! Onde já se viu tamanha bagunça?

Hein? A origem desta palavra? Ora,ela vem de bagunça, que é o nome dado a uma máquina usada para retirar terra e outros materiais em obras.  Para além disso, a origem é desconhecida.

Já que começamos a falar nisso,vamos lidar com outra palavras ligadas a estas atividades a que vocês conseguem se dedicar com tanto afinco e proficiência. Sentem-se em roda, enquanto eu tento juntar o material que as loucuras de vocês espalharam por aí.

Falando em loucuras, vem-me à mente a palavra “folia”. Ela deriva do Francês folie, “loucura”, de fol, “louco”, cuja forma moderna é fou. E folie propriamente deriva do Latim follis,”saco de couro cheio de vento, fole”. A metáfora aqui é comparar o louco a uma pessoa cheia de vento na cabeça, como certamente ocorre com certos aluninhos e aluninhas por aqui que em vez de se dedicarem aos estudos preferem implementar suas próprias versões da invasão do Hunos.

Hein? Ah, sim, baderna é um sinônimo de bagunça, certo. Uma hipótese quanto à sua origem é a de que, em 1851, uma dançarina italiana chamada Marieta Baderna esteve se apresentando no Rio de Janeiro,despertando considerável interesse e levantando uma legião de fãs, que foram chamados “os badernas”. Como eles não eram pessoas das mais comportadas, o apelido pegou.

Essas atividades a que vocês se dedicavam pelas minhas pobres costas podem ser chamadas também de farra. A origem desta já é mais complicada. Em Roma, quando havia um casamento, era feito sempre um determinado pão, chamado panis farreus, algo que não podia faltar, equivalente ao nosso bolo de casamento.

Esta última palavra se referia à farinha de que ele era feito. Mas, como as festas de casamento em geral degeneravam em cenas indescritíveis de mau comportamento que só seriam repetidas no século XXI, em determinada sala de aula que tinha que ser logo a minha, ela acabou virando farra e sendo usada com o sentido atual, que vocês dominam e exercem tão bem.

Já que estamos falando de épocas distantes, podemos citar também o pagode. Antes de ser o nome de um assim dito gênero musical que não se destaca propriamente pelo elevado nível cultural, essa palavra era usada com o significado de “baderna, divertimento barulhento”.

Pois esse era o nome aplicado aos templos do Sul da Índia, através do Malaio pagodi. Quando os portugueses aportaram pela região, viram os fiéis celebrando as suas tradições com danças e músicas ao redor dos templos e pensaram que o nome se referia a essas cerimônias ruidosas. Daí usarem a palavra com esse sentido.

Mais tarde ele foi aplicado corretamente aos templos e até a uma determinada moeda de ouro local, mas o sentido de “festança” ficou.

Uma minoria procura, nestas atividades, apenas diversão. Hein, Valzinha? Foi isso que o marido da sua vizinha disse que estava procurando quando a mulher dele o pegou usando as roupas de baixo dela de madrugada, andando pelos corredores do edifício e rebolando? Está bem, há umas formas estranhas de se distrair, vamos voltar ao nosso assunto.

Como eu ia dizendo antes de ser interrompida por mais uma história horrenda do edifício da Valzinha, diversão vem do Latim divertere,”voltar-se em outra direção”, formado por di-, des-, “ao lado”, mais vertere,”virar-se, voltar-se”. A idéia aqui foi a de “voltar a cabeça” para um lado que não sejam as preocupações.

Algumas pessoas que não gostam de zoeira fogem de festas e carnavais. Eu faria o mesmo, se meus magros estipêndios me permitissem e se minha saúde não exigisse altas doses diárias de Nervocalm para tentar ajeitar meus chiliques e tremores.

Essa palavra parece vir de”soar”, do Latim sonare, “emitir sons, fazer ruídos”.

Não, Valzinha, não queremos saber o que a esposa do seu vizinho fez quando… Ah, é só para perguntar de onde vem esbórnia? Desculpe,meu anjo, é que preciso manter a moral nesta aulinha e as descrições que você faz da vida no seu edifício não ajudam muito nesse sentido. Acho que, quando você crescer, vai ser uma ótima repórter. Ou pelo menos vai servir de musa para algum grande escritor.

A palavra que você citou se origina do Latim ebrionia,relacionado com ebrius,”bêbado”.

E pronto, consegui, em mais um esforço de meus pobres neurônios, manter vocês quietos até à hora da saída. Vão para casa fazer bagunça,vão!

Resposta:

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!