Palavra calçado

CALCANHAR

 

Cheguei mancando no escritório de meu avô.

– O que foi isso? Um caminhão o pegou?

– Machuquei o calcanhar jogando futebol, Vô.

– Ah, claro, se fosse para adquirir alguma cultura ou fazer algo que prestasse ele não ia gastar toda essa energia.

– Eu estava querendo ver se ficava rico e famoso para  sustentá-lo quando o senhor for idoso, meu antepassado.

– Aah, bom, se as intenções são boas assim,  está perdoado.

Depois de se informar com atenção do meu estado e perceber que não era nada sério, o velho de olhos claros e barba curta disse:

– Bem, já que você está meio aleijado e não pode fugir de mim, vou ensinar-lhe alguma coisa.

Eu não esperava mais nada; acomodei-me no banco de couro e fiquei ouvindo.

– A parte do corpo que você machucou em suas lambanças desportivas vem do Latim calcaneus, “relativo ao calcanhar” de calx, que era como eles chamavam essa região do pé. Em anatomia, o osso do pé correspondente se chama calcâneo.

Daí veio, por exemplo, o verbo inculcar.

– Esse é um que eu não conheço, Vô.

– Significa “empurrar para dentro, apertar, pisar”; metaforicamente, “fazer entrar no espírito, empurrar alguma informação para dentro de uma cabeça oca que nem a do meu neto”.  Forma-se por in-, negativo, mais calcare, “apertar com o calcanhar”.

– Hum… Tem certeza de que é essa a definição nos dicionários?

– Se não é, deveria.  Mas não me distraia, menino, que não tenho mais do que 50 anos para viver e é pouco para tentar ensinar-lhe algo que valha a pena. 

Olhe, sabe aqueles decalques que são colocados nos automóveis para dizer as mais variadas coisas, das quais em geral nenhuma interessa ou presta? Seu nome vem daí, do Francês décalquer, de  de-, “fora”, mais o calcare que já referi, já que eles são empurrados ou apertados  contra a base onde vão ficar.

– E o cálculo, Vô? Ele se chama assim porque tem que ser empurrado na cabeça da gente à força?

– Essa palavra vem do Latim calculus, “estimativa, contagem”, originalmente “pedrinha usada para fazer contas”. Deriva de calx, “pedra calcárea”, do Grego khalix, “seixo, pedra pequena”.  Pelo que se vê, os romanos usavam a mesma palavra calx para dois significados: “calcanhar” e “pedrinha”.

O que me lembra outro derivado de calcare: o calçamento das ruas, que era feito colocando-se pedras na terra e batendo-as para se fixarem no lugar. Agora, com o asfaltamento, a técnica é muito outra. O verbo que escreve essa ação é calcetar.

Por sua vez, isso me lembra que a peça de vestuário que a gente usa para não machucar os pés ao pisar no calçamento é uma parenta etimológica: calçado vem do Latim calceare, “colocar os pés num calçado” e deriva de calx. Assim como seus derivados calçadista, “relativo à indústria de calçados”, calçadeira, “objeto para ajudar a colocar um calçado”.

– Que coisa, Vô!

– Se quiser ficar grande e sábio que nem eu, nem precisa comer todos os legumes. Basta ler bastante. E não ser teimoso, o que me faz recordar o verbo recalcitrar. Ele quer dizer “desobedecer, teimar, revoltar-se, estar de má vontade” e vem de re-, “para trás”, mais calcitrare, “escoicear”.

Ou seja, comportar-se como um burro, a escoicear, ouviu?

– Eu não faço nada disso, Vô!

O velho passou sobre a minha cabeça uma mão carinhosa e sorriu:

– Eu sei muito bem, estou só querendo incomodar. Bem como você faz comigo.  Não sei de onde você aprendeu isso.

Bom, agora vá mancando para sua casa mas antes acompanhe-me num pequeno lanche para você poder absorver as maravilhas que aprendeu hoje.

Resposta:

CALÇADOS

 

 

Boa tarde, crianças; o que é que vocês estão olhando com tanta atenção, reunidas assim? Ah, a Leonorzinha veio de botas novas e muito bonitas hoje. Muito bem, acho que quando você for grande vai ter uma coleção delas, já que gosta tanto desde esta idade.

E sabe de onde veio essa palavrinha? Veio do Francês botte, “bota”, que parece ter vindo de uma palavra antiga do Germânico, butta, “sem fio, embotado, diminuído” e que na terra francesa originou o nome de um calçado grosseiro.  

E botina, também vem do Francês, de bottine, “calçado com um cano curto”.

Não, crianças, não façam beicinho pensando que eu só achei bonito o calçado dela, não.

Antes de continuar, essa palavra vem do Latim calceatus, de calceare, “colocar os pés nos sapatos”, derivado de calx, “calcanhar”.

Por exemplo, a sandalinha ali da Maria Tereza está uma graça e deriva do Latim sandalium, do Grego sandaleon, “calçado de sola de madeira preso aos pés com tiras”.

Os sapatos que vocês usariam se fossem crianças de outras épocas têm sua origem no Árabe sabbat, “calçado”.

Nem preciso dizer que as sapatilhas que algumas das meninas ainda vão usar no ballet quando crescerem um pouco são um diminutivo de sapato.

Mas, sendo crianças modernas, o que vocês mais usam é o tênis, calçado que até certa época só se usava com fins esportivos. Por incrível que vocês achem, uma pessoa não saía à rua para caminhar ou trabalhar de tênis, até há poucas décadas.

E o nome dele vem do esporte assim chamado, claro. O qual deriva de uma palavra francesa usada a partir do século XIV, imaginem! Ao dar o saque, o jogador gritava o que em Francês moderno, seria Tenez!, ou seja, “Tome!”, e que acabou sendo pronunciado tennis em Inglês.

Certo, Zorzinho, não dá para imaginar um cavaleiro daquela época usando armadura e jogando tênis.

Mas, em primeiro lugar, eles não usavam armadura o tempo todo. Em segundo, o tênis ainda não existia e o tal grito era dado num outro esporte, o jeu de paume, no qual havia uma rede baixa também mas a bola era golpeada com a palma da mão.

De qualquer forma, o aviso foi mantido quando o tênis propriamente dito foi definido na Inglaterra, em 1873, e acabou dando nome ao esporte.

Isso porque tennis era uma palavra mais fácil de pronunciar do que nome que o inventor do jogo, o Major Walter Wingfield, queria: sphairistike.

Isso mesmo, eu vou escrever aqui no quadro, embora nenhum de vocês saiba ler ainda.

A idéia dele era basear o nome na expressão grega sphairistike tekhne, “habilidade em jogar bola”.  Era querer demais, não?

Sei que em casa vocês provavelmente usam chinelinhos, cujo nome vem do Latim planella, diminutivo de planus, “achatado”, o que descreve bem este calçado sem calcanhar nem salto.

E que muitos têm suas pantufas, derivadas do Francês pantoufle, que vem do Italiano pantofole, do Grego panta, “todo”, mais phellos, “cortiça”.

Sim, eles faziam calçados de cortiça, só não sei o quanto duravam.

Aqueles de vocês que entrarem nas Forças Armadas um dia vão usar coturnos, do Latim cothurnus, um tipo de bota de sola alta de madeira usada pelos atores numa tragédia, em Grego kóthornos.

As meninas daqui um dia, quando forem mocinhas, vão usar um sapatinho chamado escarpim. É um calçado bem aberto, cujo nome vem do Italiano scarpa, “sapato”.

Essa palavra foi para o Italiano do antigo Germânico scharpf, “agudo, com borda cortante, pontudo”; justifica-se porque esse sapato tem uma ponta aguda.

Aliás, a palavra escarpa, “altura íngreme de um terreno” também vem daí. Para subir num lugar assim a gente precisa de umas boas botinas.

Ou sapatos ferrados, que é o nome dado a calçados especiais para a prática do montanhismo, já que eles têm projeções agudas nas solas, para o pé poder se aferrar ao terreno. Estas palavras vêm de ferro, ferrum em Latim.

Talvez alguns de vocês, no futuro, venham a fazer Medicina e praticar cirurgia. Nesse caso, ao entrarem num bloco cirúrgico, vão colocar uma espécie de sapato de tecido sobre o que vocês estiverem usando para evitar a contaminação da rua. Eles se chamam propés e derivam da expressão “proteção para os pés”.

Antigamente, quando a Tia Odete aqui era viva, a gente usava uma coisa parecida, só que toda de borracha, sobre o calçado normal. Era para que estes não permitissem a passagem da água quando chovia, e se chamavam galochas.

A palavra nos veio do Francês galoche, parece que vindo do Latim gallicula solea, “sandália da Gália”, um calçado de sola alta de madeira para os dias de chuva. 

Bem, agora todos sabem a origem do nome do que estão calçando. Vão para casa e ensinem tudo aos seus pais!

Resposta:

A Mochila

Bati à porta de madeira escura, polida pelo passar dos anos, e ouvi a voz grave lá de dentro: – “Entre!”

Empurrei a porta e pisei no gabinete do meu avô. Lá estava ele, um velho magro, desempenado, com uma barba curta e branca, sobrancelhas espessas, sentado numa poltrona de couro marrom macio.

Aquele era o trono de onde ele reinava sobre um santuário de livros e objetos estranhos, carinhosamente guardados nas estantes que ocupavam as paredes do chão até o teto.

Meus primos tinham medo do Avô e tratavam de passar longe, pois quando a gente aprontava alguma ele nos dava tremendas broncas, usando palavras que não entendíamos mas que soavam terríveis.

A sua cara séria não me assustava, porém: eu podia ver a suavidade em seus olhos e perceber a mansidão em sua voz ao me encarar e perguntar o que é que havia.

Mostrei-lhe a mochila da escola e expliquei que havia um furo nela, e que eu tinha perdido uns lápis de cor por ali no outro dia e, já que ele sabia consertar tudo, será que ele não podia dar um jeito?…

Eu não tinha ainda idade e experiência suficientes para perceber que, mais do que tudo, eu queria era estar com ele e ouvi-lo.

Mas ele sim: sorriu, abriu uma gaveta com ferramentas estranhas, pegou uma agulha grossa e outros materiais, estendeu a mão para a mochila vazia que eu levava e começou a trabalhar.

Sentei-me numa banqueta a seus pés e prestei atenção. Antes de enfiar uma linha forte na agulha, seus olhos se perderam ao longe, como se lhe estivesse ocorrendo um pensamento inesperado:

– Perdeu os lápis pelo furo da mochila, é? E você sabe de onde veio esta palavra? E o que é que o lápis que você usa para desenhar tem que ver com lápide, a pedra que se coloca sobre os túmulos?

Respondi que não, claro.

– Pois essas duas palavras têm muito a ver uma com a outra.Em Latim, lapis queria dizer “pedra”, uma pedra feita de óxido de chumbo, que deixava um rastro escuro sobre fundo claro e que por isso era usada para escrever. Essa palavra acabou sendo usada para designar outro tipo de pedra, a que era coloocada sobre um túmulo para identificar o seu ocupante.

Começou a costurar cuidadosamente o rasgão no canto da mochila e continuou:

– Uma vez dei uns brincos de lápis-lázuli para a sua avó, e ela gostou muito. – Seu olhar se perdeu de novo. Talvez estivesse recordando uma ocasião muito especial.

Pareceu voltar de longe e virou um olho severo para mim:

Lázuli, ouviu? Com acento na primeira sílaba. Essa palavra vem do Persa lazward, que significa exatamente “azul”. Logo, lápis-lázuli quer dizer “pedra azul”. Quais foram as cores dos lápis que você perdeu?

– O vermelho e o amarelo, além de um vidro de têmpera azul.

– Hum. É difícil pensar que vermelho vem de vermis, que era o nome dado a um inseto que nós agora conhecemos por “cochonilha”, e do qual se extraía um corante, né?

E o nome da cor amarela também tem uma origem interessante. Vem do Latim amarus, “amargo”. Esse pessoal deu uma volta grande para escolher o nome da cor: como a bile, que é aquele líquido secretado pelo fígado, é amarga e como ela é de cor amarelo-dourado antes de entrar em contato com o ar e se oxidar, passando a verde, resolveram chamar a sua cor inicial de amarellus, ou “amarguinho”. Gente esquisita, aquela…

Quanto ao vidro de tinta que se perdeu, isso me lembra uma confusão surgida há séculos. Sabe a história da Cinderela?

– Mais ou menos, respondi.

– Claro: histórias de monstros, massacres e explosões eles sabem todas, mas desses clássicos é “mais ou menos”. Êta cultura atual! Mas você já ouviu falar nos famosos sapatinhos de cristal que o príncipe calçou nos pés da Cinderela?

– Dessa parte eu me lembro.

– Pois é; só que eles não eram de cristal. Receberam esse nome porque era mais chique do que “vidro”. Só que não eram nem de vidro na versão inicial da história. Eram de pele, que se diz vair em Francês, e que era um material muito fino e caro para calçados naquela época. Só que essa palavra tem uma pronúncia igual à de verre, que quer dizer “vidro” em Francês. O povo achou muito mais interessante pensar em sapatinhos de vidro e depois de cristal do que de pele. A gente é assim mesmo!

Aliás, este assunto de calçar sapatos me lembra uma pergunta muito boa do Barão de Itararé: “por que é que a gente bota as calças e calça as botas?”

Olhe só: os romanos, na época clássica, não usavam calças nem sapatos fechados. Os germanos e francos, que viviam em clima mais frio, é que os ensinaram a usar meias de pano que iam até os joelhos. Os romanos, que naquela época estavam decerto pouco criativos, as chamaram de calceum, mantendo o mesmo nome que davam aos sapatos, e que originou as nossas palavras “calçar” e “calçado”.

Estas meias chamadas calceum acabaram sendo encompridadas para cima e chegaram até à cintura, sem mudar de nome.

Lá pelas tantas, achou-se mais razoável cortar fora a parte do pé, que sujava mais do que o resto, e deixar a peça de roupa indo da cintura até os tornozelos. Aí está a origem das nossas calças.

Quanto à parte que cobria os pés, ela passou a ser chamada de “meia”, pois antes era uma parte da calça. Claro que não chegava a ser metade dela, mas vamos deixar isso para lá. O interessante é que as tais “meias-calças” que as mulheres usam agora cobrem a mesma região do corpo que o calceum de antes.

A costura estava chegando ao fim, e eu sentia pena por o rasgão não ser maior. Dava para ver que o trabalho estava saindo primoroso.

– Esses mesmos romanos costumavam fazer uma coisa para distinguir os seus criados: cortavam-lhes rente o cabelo. Devido a isso, eles eram chamados mutilus, “mutilado”. Acho que eles apreciavam muito os cabelos, a ponto de chamar de aleijado aquele que não os podia usar longos. Por isso, mutilus acabou significando “criado”. Após uma passagem pelo Basco, a palavra passou a motxil, e acabou designando o saco que muitas vezes os servos levavam às costas para carregar os objetos dos seus patrões – ou seja, a “mochila” que às vezes os netos pedem para os avôs consertarem, e que foi onde esta nossa conversa começou. Está prontinha, tome!

Puxa, e eu que não sabia que podia haver tanta História em objetos tão banais! Agradeci e fui rondar a cozinha, para ver o que a minha avó tinha disponível por ali. Uma parte da minha cabeça, porém, dava voltas atrás de uma desculpa para ouvir o velho desfiar a sua conversa de novo.

Resposta:

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