Palavra vermelho

Cores I

Ai, que barbaridade! Mal eu me viro para desenhar no quadro e este grupo de vândalos desata numa batalha corpo-a-corpo que faria inveja aos piratas do Caribe tomando de assalto um navio de Sua Majestade Britânica.

Cri-an-ças! Parem já, senão vou chamar o Michael Jackson para tomar conta de vocês!

Hum, nada como um pouco de suave e sutil psicologia moderna para amansar as feras.

Vamos ver o que houve para causar esta carnificina. Ah, a Aninha pegou o lápis de cor verde da Angélica, que pegou então o da Vera, que apanhou o roxo da Valzinha – não, não queremos saber por que a sua outra vizinha vive de olho roxo, Val, fique quieta – que deu um tapa no Tiago para pegar um outro…

Acalmem-se, sentem aqui ao redor e ouçam, que vou contar a história dos nomes das cores dos lápis que usamos para fazer bonitos desenhinhos – nós exceto o Joãozinho, dê já aqui esse papel, menino, que eu vou rasgar.

Já que tudo começou com um lapisinho verde, saibam que esta cor se chama assim a partir do Latim viridis, “verde”. Esta palavra também era e ainda pode ser usada para dizer “vigoroso, novo, com plena força”, lembrando o que se observa nas plantas. Mais um exemplo da influência da agricultura na língua latina.

roxo vem do Latim russeus, usado para designar o vermelho-escuro, palavra relacionada com ruber, “vermelho”. Por sua vez, esta vem do Indo-Europeu reudh-, “vermelho”. Daí vieram o red inglês, o roth alemão, etc.

É muito interessante saber que esse é o único nome de cor que se traça a um antepassado comum tão antigo; todos os outros apresentam histórias bem diferentes.

Não, Ledinha, naquela época eles não se atrapalhavam com os lápis de cor nas aulinhas da caverna por que não havia aulinhas naquela época. As crianças eram postas a fazer alguma coisa de útil assim que tinham alguma coordenação motora. Ah, os bons tempos…

Não, Mariazinha, sei apenas de estudar e ouvir falar, eu nasci um pouco depois disso.

Antes de passar adiante, lembro que o roxo pode ser chamado de violeta, do nome da flor, que era viola em Latim.

Um roxo devagar, um roxo-claro, pode ser chamado de ciclame, do Grego kyklamen, o nome da flor que se apresenta assim decorada.

Um tom um pouco mais avermelhado desta cor se chama lilás, do Árabe lilak.

O vermelho tem uma história interessante. Deriva do Latim vermiculus, diminutivo de vermis, “verme, inseto”. É que, em Roma, se extraía um corante vermelho de um inseto, a cochonilha.

Certo, pessoal, eu sei que verme nem sequer tem patas e os insetos têm seis delas, mas naquelas épocas ainda não havia sido feita a sistematização do reino animal, era tudo muito confuso. Eles não tinham tempo para essas coisas porque estavam sempre procurando um motivo para matar uns aos outros.

Outra origem esquisita é a do amarelo, que vem de amarellus, diminutivo de amarus, “amargo”.

Há uma relação aí com a bile, que é amarga e é produzida pelo fígado, já seja porque esta, logo antes de se oxidar no ambiente, é de um amarelo-dourado, já seja porque a pele dos que sofrem de certos distúrbios hepáticos fica amarelada.

Sim, o laranja pode ser chamado de um amarelo indignado, essa está boa, Zorzinho. O nome evidentemente vem do da fruta cítrica, que vem do Persa narang.

O azul? Ora este nome vem do Persa lazward, que era como eles chamavam o lápis-lázuli, uma pedra semipreciosa que tem uma linda cor azul-claro.

Certo, ainda há mais cores, mas agora terminou a aulinha e desde deixamos combinado que amanhã vamos continuar com as cores.

Resposta:

A Máfia Da Massa

 

O famosíssimo Detetive Etimológico X-8 está em seu escritório. Como sempre, a sala está cuidadosamente suja e desmazelada.

O prédio é pior ainda e o bairro ao redor do prédio, então, nem se fala.

Ele foi apagado do mapa há muito tempo. Os serviços públicos deixaram de ser prestados, pois a prefeitura desistiu e tem feito até sugestões de emancipação. Só que ninguém se arriscou a ser vereador nem prefeito ali, nem mesmo os políticos mais corruptos.

X-8 está com a sua roupa de trabalho: gabardine cor de areia uns dois números maior que ele, chapéu marrom enterrado na cabeça, mal deixando entrever a ponta do nariz.

Esta noite ele está muito pensativo. Começou recentemente a achar que tudo está muito parado na sua vida profissional.

Quer dizer, dos ganhos ele não se queixa, mas as coisas andam meio sem emoção, entende? Uma palavra chega, pede para saber a sua origem, ele depois entrega um papel explicando-a… Qual é a graça? Cadê a emoção?

Será que sempre vai ficar nisso? Foi para isso que ele tanto estudou e lançou um trabalho sério, a ponto de agora não precisar mais fazer propaganda? Faz falta mais adrenalina, alguma coisa que sacuda esta mesmice!

– Mudanças, sensações novas, onde estão vocês? – pensa ele, dramaticamente virando os olhos para o teto escuro e com teias de aranha, mas enxergando apenas a aba do chapéu.

Elas chegam de sopetão, abrindo a porta do escritório, entrando e se espalhando pela sala.

O espanto faz X-8 arregalar os olhos, arrependendo-se mortalmente dos desejos recém-expressos.

Sim, pois quem entrou foi um grupo de sete figuras, todas com gabardines e chapéus enterrados na cabeça, tal como ele. Todas elas estão com as mãos firmemente enfiadas nos bolsos.

Olham ao redor em silêncio e se distribuem pela sala cheia de sombras, como obedecendo automaticamente a um plano.

Um fica ao lado da janela, olhando cuidadosamente para fora; outros dois, junto à porta de entrada, que tinha sido fechada e chaveada assim que entraram; os demais se espalham em leque pela sala. Todos ficam voltados para o detetive sentado, nenhum se colocando numa possível linha de fogo alheia.

X-8 está imóvel, duro, hirto, rígido, o que todos vêem. Também está alvo, pálido, céreo, lívido, o que os visitantes não percebem porque não lhe enxergam o rosto.

Por um longo minuto, aquele que está à frente do grupo o encara. Por um minuto mais longo ainda, X-8 o encara de volta.

Ele faz isso não por querer, mas porque está completamente paralisado.

De repente, o chefe deles faz um gesto com a cabeça e todos começam a abrir as capas ao mesmo tempo.

É agora, pelo visto.

Mais ainda do que sente por morrer tão jovem e com tanta contribuição a dar para o mundo das palavras, ele quer saber por que a Máfia – só podia ser ela – ia liquidar com ele.

Não é à toa que ele é um etimologista: gosta de saber a origem das coisas, mesmo que seja a do seu fim.

Momentos especiais da sua vida passam velozmente pelo seu cérebro: a formatura na Faculdade de Etimologia, na Academia de Detetives, o orgulho dos seus pais, ele brincando com as palavrinhas pequenas da vizinhança, o dicionário que ele rasgou e cujas páginas comeu todas quando era bebê…

As capas terminam de ser retiradas.

Ele vê então que são palavras que entraram ali, e que o estão olhando com indisfarçável admiração.

Ouve a voz cálida e com forte sotaque italiano do que estava à sua frente, percebendo que ele é Vermicelli:

– Que tal, rapazes? Eu sabia que ele era durão! Qualquer um, ao nos ver entrar desse jeito, morreria de susto, gritaria, desmaiaria, tentaria fugir, entraria debaixo da mesa… Mas ele, não! Ficou nos encarando ali com a maior tranqüilidade, sem mexer um músculo. Signor Detetive, piacere di fare vostra conoscenza. Como o Sr. vê, eu sou Vermicelli e quero lhe apresentar a minha turma.

Nesse ponto,eles se adiantaram um a um para apertar a mão de X-8 que, embora sem poder articular um som ainda, pelo menos conseguia erguer uma mão flácida para corresponder aos gentis visitantes:

Fettucini, ao seu dispor.

Cappeletti. É um prazer.

– Eu sou Ravioli, prazer.

– Sou Lasagna, às ordens.

Spaghetti. Piacere.

Rondelli, seu criado.

Apertavam-lhe a mão cortesmente e se afastavam para dar lugar ao seguinte.

Terminadas as apresentações sem que o detetive tivesse emitido um som, Vermicelli disse:

– O Signore já deve adivinhar por que estamos aqui. A gente tem trabalhado muito, somos sempre requisitados por todos. Desse jeito, trabalhando sem domingos nem feriados, conseguimos juntar uma grana para tentar descobrir a nossa origem. Tivemos muito boas indicações suas, e queremos saber se o Signore aceita a nossa causa.

O famoso detetive percebeu que, se tentasse falar, não conseguiria mais que emitir desmoralizantes grasnidos. Limitou-se a apontar, com gesto rápido, um folheto impresso que estava sobre a escrivaninha.

Era a sua lista de honorários. Vermicelli a pegou e abriu.

As sete palavras se reuniram a um canto da sala, em roda. Começaram a olhar o folheto e a falar entre si em voz baixa, citando valores e fazendo contas. A discussão foi subindo de tom; o pessoal começou a se dar cotoveladas e a se estapear nas cabeças, xingando-se em diversos dialetos.

Às vezes paravam e olhavam para X-8, que a essa altura estava novamente horrorizado: do que não seriam capazes aquelas palavras mafiosas quando irritadas assim?

Ele resolveu que, assim que recuperasse o controle da voz, ia oferecer seus serviços de graça. Ele podia suportar um pequeno prejuízo, se era para se livrar daquele risco de envolvimento com o submundo.

Ravioli chegou junto à escrivaninha e perguntou:

– E que desconto o Signore nos dá para fazer um serviço para todos nós? Olha que somos uma freguesia grande, tutti buone parole, eh? Sai um descontinho, no?

O Detetive queria dizer que não, absolutamente não cobraria nada de parole così meravigliose, que seria um prazer, mas seu corpo simplesmente não obedeceu. Congelou-se ainda mais em sua posição sentada na cadeira giratória guenza, como se fosse uma estátua.

Ravioli se afastou e voltou para junto dos outros, desapontado.

Foi a vez de Rondelli falar:

– É, pessoal, ele é duro mesmo. Bem que nos avisaram.

Lasagna falou, do meio do seu cheiro de queijo derretido:

– Acho que não dá mesmo.

– Molto bene, seu X-8, disse Vermicelli, aproximando-se da mesa. Então a gente paga o preço todo, uma taxa individual vezes sete, sem desconto. E eu que pensava que nós da Itália é que sabemos negociar! Mas va bene, a gente entende. Deixo aqui o meu cartão e o Signore nos chama, não é assim que funciona? Aguardamos notícias suas. Grazie pela gentil acolhida!

Tudo o que o detetive conseguiu fazer foi um movimento curto e convulsivo da cabeça, que visto de fora pareceu um gesto frio de assentimento.

E foram saindo, colocando as capas e levantando os chapéus educadamente.

Desceram as escadas cheias de lixo falando de modo animado sobre a frieza impressionante daquele sujeito que nada parecia assustar.

Dava para ver que estavam em boas mãos com um cara competente assim. Alguns até achavam que se tinham arriscado demais, vá que ele puxasse uma submetralhadora Uzi de baixo da capa e acabasse com eles antes de eles poderem se explicar. Achavam que teria sido melhor bater antes de entrar.

Ressaltaram também que ele tinha lidado com um grupo de desconhecidos ameaçadores sem se mexer e inclusive sem dizer uma só palavra. Isso é que era um profissional!

Depois da saída deles, X-8 ainda ficou parado na sua cadeira por vários minutos. Dali a algum tempo percebeu que podia mexer os dedos, depois os antebraços e pernas, e finalmente conseguiu se levantar, trêmulo até à ponta dos cabelos. Dirigiu-se ao frigobar na sala ao lado, os joelhos dando uma curiosa sensação de serem feitos de esponja.

Decididamente, ele precisava de uma bebida forte desta vez.

Está certo, ele tinha feito votos de parar, mas sem aquilo ele custaria muito a retomar a tranqüilidade. Ele precisava disto para poder trabalhar.

Pegou uma lata, abriu-a e derramou o líquido gelado na boca, sentado de novo à escrivaninha, com os pés sobre o tampo, a musculatura ainda contraída.

Sentiu a doçura do leite condensado arranhar a sua garganta. Não se importou; sabia que a ocasião pedia bebida de macho.

Depois de terminar a lata, já mais calmo, e de filosofar sobre a existência de uma divindade que estivesse ouvindo seus pensamentos quando ele estava desejando novas emoções e lhe tivesse aprontado aquela, levantou-se e foi fazer as suas pesquisas.

Horas depois, arrancou a última folha de papel da máquina de escrever antiga e o guardou num envelope. Por alguns dias os escritos ficaram na gaveta. O conteúdo deles era:

VERMICELLI

Esta palavra em Italiano quer dizer “vermezinhos”, e se refere à forma da massa.

Do Latim VERMIS se fez também a palavra vermelho, pois a cochonilha, inseto do qual se retirava o material para fazer este pigmento, era chamada de “vermezinho” pelos romanos.

A vermiculita é um mineral composto por restos fósseis de animais marinhos, usada como material de construção ou decoração.

Um vermífugo é um medicamento que se usa para tratamento de infestações humanas ou animais por vermes.

Poucos sabem, mas vermilíngüe é um animal cuja língua lembra, pela forma e pela mobilidade, um verme. Essa língua tem a função de ajudar na captura de alimentos, e um exemplo de usuário é o nosso tamanduá.

E o vermute? Não tem a ver com o verme, não! É do Alemão wermuth, “losna”. Essa palavra era formada por wer, “homem” e muth, “coragem”. Ou seja, era preciso ser macho para agüentar o chá da erva, tão amarga que é.

LASAGNA

Aportuguesada para lasanha, vem do Latim lasanum, “panelão para cozinhar”, se bem que também designava “urinol”. Certamente que eram usados vasos distintos para cada fim.

CAPPELLETTI

Há quem escreva capelete em Português, mas fica muito feio.

O nome vem do Latim Medieval cappellus, “chapéu”, derivado de caput, “cabeça”. As massas, dobradas ao redor de um pouco de recheio, têm a forma aproximada de um chapéu.

De caput se originaram numerosas palavras com significados diferentes, como veremos.

Capitão: era o “cabeça” de um grupo de guerreiros.

Chefe: com uma modificação sonora bem maior, gerada pela sua passagem pelo Francês, também lembra o seu papel de “cabeça” de uma organização ou empreendimento.

Capital: pode-se dizer que administrativamente é a “cabeça” de um país, província ou estado.

Capitólio: era o templo de Júpiter na parte mais alta de uma das sete colinas de Roma, que por isso foi chamada de Capitolina.

Capa: antigamente era uma peça de roupa para proteger contra a chuva que tinha um capuz, palavra que também descende de caput.

Capela: era uma pequena construção junto a uma igreja, feita para guardar uma relíquia sagrada, a capella (pequena capa) de São Martinho.

Escapar: sim, até esta palavra é parente de Cappelletti. Um homem que esteja tentando fugir e quase é apanhado pode deixar a capa nas mãos dos perseguidores e seguir adiante: ele ficou ex cappa, “fora da capa”.

FETTUCCINI

Esta palavra designa uma massa cortada em tiras, fettuccia em Italiano.

Note-se que fettuccini é um diminutivo de outro, pois fettuccia já é um diminutivo de fetta, “tira, fatia”. E esta palavra vem do Latim offa, “bocado, grumo, bolota de comida”.

RONDELLI

Vem do Latim rotundus, “redondo, circular”. Em Italiano, “redondo” é rondo. Rondelli é o diminutivo plural.

Rotundus também queria dizer também “perfeito, completo”. Eis aí porque dizemos que alguém que discorda de nós está – claro! – “redondamente enganado”.

O nome foi dado a estas massas devido à forma circular que elas têm vistas de cima.

RAVIOLI

Este nome vem do Italiano rava, que veio do Latim rapa, que quer dizer “nabo”.

Todos estranharão o que é que o alimento tem a ver com o sabor do nabo. Para nossa tranqüilidade, nada. Consta que o nome veio foi de certa semelhança da massa com as raízes achatadas da planta.

O nome científico do nabo é Brassica rapa. Além de ser consumido pelos humanos, serve de forragem para o gado.

SPAGHETTI

Esta palavra vem do Italiano e é um diminutivo de spago, “corda, fio”. Em Latim era spacus. O nome foi dado pela semelhança física, como em outros casos.

Como se vê, os italianos têm tanto carinho pelas massas que preparam que as tratam quase sempre no diminutivo, como se fossem seus animaizinhos de estimação.

Acrescentamos, como um brinde especial, totalmente sem ônus, aos nossos nobilíssimos e seletos clientes, a origem de algumas palavras a eles relacionadas por parentesco ou por atividade profissional:

MASSA: do Grego máza, “pasta, massa”.

Em Português é o nome genérico para o tipo de alimentos de que estamos tratando, todos sem dúvida de importância ímpar na gastronomia mundial.

No Espanhol usado na região do Rio da Prata, no entanto, usa-se masas para doces de pastelaria. Assim, pedir “Un té com masitas” é pedir chá com docinhos e não um chá com lasanha.

Massa, com a acepção de “volume de gente, conjunto grande de pessoas”, está em uso pelo menos desde a Idade Média.

Uma advertência : o verbo massacrar não significa “derrotar o inimigo servindo-lhe massa mal feita”. Esta palavra não tem parentesco com massa. Vem do Latim mattea, “maça, cacete, martelo grande”. Estes são objetos que muitas vezes, ao longo da História, foram aplicados de forma brusca nas cabeças alheias para combater pessoas pelas quais não se nutre especial afeto.

Em Espanhol e em Italiano, a palavra usada para tão nobre alimento é…

PASTA: do Grego pasté, do Latim pasta, “farinha amassada com outros ingredientes”.

Essa palavra passou a designar qualquer coisa que tivesse o aspecto de coisas de consistência não sólida misturadas.

Uma delas é o material usado para aumentar a consistência do papel, transformando-o em cartão ou papelão; deste eram feitas folhas grandes que, dobradas, serviam para guardar documentos e papéis diversos para evitar que amassassem.

Mais tarde, esses porta-papéis passaram a ser feitos em couro, tecido, nylon e a ter fechos e divisórias, mas mantiveram o nome “pasta”.

Inclusive ele é usado para designar um cargo elevado, como em “A pasta da Agricultura irá para…”, numa referência ao nome do objeto que guarda documentos importantes.

MOLHO: é absolutamente fundamental. Pode-se dizer que é a alma da massa.

Vem do verbo molhar, por sua vez do Latim molliare, “amolecer misturando com água”. E molliare vem de mollis, “macio, mole”.

Dali a dez dias, na hora que havia marcado laconicamente por telefone, X-8 recebe novamente os sete mafiosos. Ou massosos, não sabe bem.

Eles entram já de chapéu na mão, depois de se anunciarem aos brados, ainda do lado de fora da porta. Aliás, encostados à parede, não fosse um tiro atravessar a dita cuja.

X-8 agora sabe como eles são, veramente tutti buone parole. Mantém sua pose gélida, estendendo uma mão para receber a grana indecente que eles estão pagando e entregando um envelope pardo com a outra.

Vermicelli faz o pagamento e pega o envelope.

Instantaneamente, os outros se atiram para ler o conteúdo, o que gera uma confusão de socos, tapas, cotovelaços e palavrões.

O detetive se ergue de sua cadeira e os fita, calado e imóvel. Os sujeitos de gabardine percebem isso e param com o engalfinhamento. Desmancham-se em desculpas.

Começam a sair depois de lhe apertarem a mão um por um, com agradecimentos efusivos. Retiram-se com mesuras, o último fechando a porta cuidadosamente atrás de si.

X-8 cola o ouvido na porta, em meio ao cheiro de molho que os visitantes deixaram pairando em seu rastro, para escutar. Percebera que as palavras não conseguiam se conter e estavam lendo o texto ali mesmo no corredor. Ouve exclamações de agrado e surpresa, todas muito gratificantes para quem trabalhou duro como ele.

Quando chegam à parte em que se fala em Pasta, então, percebe que as vozes deles estão embargadas de emoção. A voz de Spaghetti diz:

– Ah, la Nonna!

– Cara Vecchia! – exclama Rondelli.

– Nonnina mia! – diz Cappelletti.

– Mais mia que tua ! – resmunga Ravioli.

E começam de novo aos socos e joelhaços, discutindo de quem é a avó enquanto descem as escadas mal iluminadas.

Da janela, X-8 os observa na rua abaixo. Pararam de brigar. Um deles vai relendo em voz alta o precioso papel para os outros, que estão encantados.

Mais um caso resolvido, mais palavras satisfeitas, mais uma grana para o corajoso detetive, que agora se dá perfeitamente por satisfeito de passar o resto da vida na velha e morrinha rotina de sempre.

Resposta:

A Mochila

Bati à porta de madeira escura, polida pelo passar dos anos, e ouvi a voz grave lá de dentro: – “Entre!”

Empurrei a porta e pisei no gabinete do meu avô. Lá estava ele, um velho magro, desempenado, com uma barba curta e branca, sobrancelhas espessas, sentado numa poltrona de couro marrom macio.

Aquele era o trono de onde ele reinava sobre um santuário de livros e objetos estranhos, carinhosamente guardados nas estantes que ocupavam as paredes do chão até o teto.

Meus primos tinham medo do Avô e tratavam de passar longe, pois quando a gente aprontava alguma ele nos dava tremendas broncas, usando palavras que não entendíamos mas que soavam terríveis.

A sua cara séria não me assustava, porém: eu podia ver a suavidade em seus olhos e perceber a mansidão em sua voz ao me encarar e perguntar o que é que havia.

Mostrei-lhe a mochila da escola e expliquei que havia um furo nela, e que eu tinha perdido uns lápis de cor por ali no outro dia e, já que ele sabia consertar tudo, será que ele não podia dar um jeito?…

Eu não tinha ainda idade e experiência suficientes para perceber que, mais do que tudo, eu queria era estar com ele e ouvi-lo.

Mas ele sim: sorriu, abriu uma gaveta com ferramentas estranhas, pegou uma agulha grossa e outros materiais, estendeu a mão para a mochila vazia que eu levava e começou a trabalhar.

Sentei-me numa banqueta a seus pés e prestei atenção. Antes de enfiar uma linha forte na agulha, seus olhos se perderam ao longe, como se lhe estivesse ocorrendo um pensamento inesperado:

– Perdeu os lápis pelo furo da mochila, é? E você sabe de onde veio esta palavra? E o que é que o lápis que você usa para desenhar tem que ver com lápide, a pedra que se coloca sobre os túmulos?

Respondi que não, claro.

– Pois essas duas palavras têm muito a ver uma com a outra.Em Latim, lapis queria dizer “pedra”, uma pedra feita de óxido de chumbo, que deixava um rastro escuro sobre fundo claro e que por isso era usada para escrever. Essa palavra acabou sendo usada para designar outro tipo de pedra, a que era coloocada sobre um túmulo para identificar o seu ocupante.

Começou a costurar cuidadosamente o rasgão no canto da mochila e continuou:

– Uma vez dei uns brincos de lápis-lázuli para a sua avó, e ela gostou muito. – Seu olhar se perdeu de novo. Talvez estivesse recordando uma ocasião muito especial.

Pareceu voltar de longe e virou um olho severo para mim:

Lázuli, ouviu? Com acento na primeira sílaba. Essa palavra vem do Persa lazward, que significa exatamente “azul”. Logo, lápis-lázuli quer dizer “pedra azul”. Quais foram as cores dos lápis que você perdeu?

– O vermelho e o amarelo, além de um vidro de têmpera azul.

– Hum. É difícil pensar que vermelho vem de vermis, que era o nome dado a um inseto que nós agora conhecemos por “cochonilha”, e do qual se extraía um corante, né?

E o nome da cor amarela também tem uma origem interessante. Vem do Latim amarus, “amargo”. Esse pessoal deu uma volta grande para escolher o nome da cor: como a bile, que é aquele líquido secretado pelo fígado, é amarga e como ela é de cor amarelo-dourado antes de entrar em contato com o ar e se oxidar, passando a verde, resolveram chamar a sua cor inicial de amarellus, ou “amarguinho”. Gente esquisita, aquela…

Quanto ao vidro de tinta que se perdeu, isso me lembra uma confusão surgida há séculos. Sabe a história da Cinderela?

– Mais ou menos, respondi.

– Claro: histórias de monstros, massacres e explosões eles sabem todas, mas desses clássicos é “mais ou menos”. Êta cultura atual! Mas você já ouviu falar nos famosos sapatinhos de cristal que o príncipe calçou nos pés da Cinderela?

– Dessa parte eu me lembro.

– Pois é; só que eles não eram de cristal. Receberam esse nome porque era mais chique do que “vidro”. Só que não eram nem de vidro na versão inicial da história. Eram de pele, que se diz vair em Francês, e que era um material muito fino e caro para calçados naquela época. Só que essa palavra tem uma pronúncia igual à de verre, que quer dizer “vidro” em Francês. O povo achou muito mais interessante pensar em sapatinhos de vidro e depois de cristal do que de pele. A gente é assim mesmo!

Aliás, este assunto de calçar sapatos me lembra uma pergunta muito boa do Barão de Itararé: “por que é que a gente bota as calças e calça as botas?”

Olhe só: os romanos, na época clássica, não usavam calças nem sapatos fechados. Os germanos e francos, que viviam em clima mais frio, é que os ensinaram a usar meias de pano que iam até os joelhos. Os romanos, que naquela época estavam decerto pouco criativos, as chamaram de calceum, mantendo o mesmo nome que davam aos sapatos, e que originou as nossas palavras “calçar” e “calçado”.

Estas meias chamadas calceum acabaram sendo encompridadas para cima e chegaram até à cintura, sem mudar de nome.

Lá pelas tantas, achou-se mais razoável cortar fora a parte do pé, que sujava mais do que o resto, e deixar a peça de roupa indo da cintura até os tornozelos. Aí está a origem das nossas calças.

Quanto à parte que cobria os pés, ela passou a ser chamada de “meia”, pois antes era uma parte da calça. Claro que não chegava a ser metade dela, mas vamos deixar isso para lá. O interessante é que as tais “meias-calças” que as mulheres usam agora cobrem a mesma região do corpo que o calceum de antes.

A costura estava chegando ao fim, e eu sentia pena por o rasgão não ser maior. Dava para ver que o trabalho estava saindo primoroso.

– Esses mesmos romanos costumavam fazer uma coisa para distinguir os seus criados: cortavam-lhes rente o cabelo. Devido a isso, eles eram chamados mutilus, “mutilado”. Acho que eles apreciavam muito os cabelos, a ponto de chamar de aleijado aquele que não os podia usar longos. Por isso, mutilus acabou significando “criado”. Após uma passagem pelo Basco, a palavra passou a motxil, e acabou designando o saco que muitas vezes os servos levavam às costas para carregar os objetos dos seus patrões – ou seja, a “mochila” que às vezes os netos pedem para os avôs consertarem, e que foi onde esta nossa conversa começou. Está prontinha, tome!

Puxa, e eu que não sabia que podia haver tanta História em objetos tão banais! Agradeci e fui rondar a cozinha, para ver o que a minha avó tinha disponível por ali. Uma parte da minha cabeça, porém, dava voltas atrás de uma desculpa para ouvir o velho desfiar a sua conversa de novo.

Resposta:

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