Palavra fúcsia

CORES DIFERENTES

 

Mais uma noite de trabalho para o celebérrimo Detetive das Palavras X-8 em seu apartamento-escritório de aspecto cuidadosamente decrépito, preparado para dar um clima de emoção e mistério. Ele é um mestre do marketing e sabe que as palavras que o consultam para descobrir as suas (delas) origens pagam mais por uma ambientação romântica.

 

Sentadas à frente dele se encontram as palavras de mais um Encontro Temático, uma novidade que ele inventou para ganhar mais dinheiro.

É assim: ele anuncia que em tal noite vai fazer um desses Encontros, com desconto conforme o tamanho do grupo.

O tema de hoje é Cores Diferentes. Os bancos ocupados atestam que várias palavras se interessaram.

Vamos ver o que diz o nobre profissional, depois de feita a introdução de praxe, que não passa de um seco “Boa-noite”:

 

– Vamos escolher ao acaso uma das gentis clientes… Vejam ali nossa conhecida Cor-de-Maravilha. Você é uma cor misteriosa, de definição esquiva.

A cor se ruborizou, mas não deu para notar por causa do seu tom avermelhado.

– Há quem a defina como um carmim avermelhado ou purpúreo. Você, combinada com ciano, amarelo e preto permite, em termos de impressão gráfica, preparar qualquer outra cor.

Seu nome era outro inicialmente. Mas se decidiu fazer a escolha dele em 1859, devido à Batalha de Magenta.

Esta se deu entre tropas franco-sardas e austríacas, com a vitória das primeiras e se desenrolou nos campos próximos à pequena cidade de Magenta, no que hoje é o norte da Itália.

Houve áreas em que a batalha foi muito renhida e esses apresentavam, depois de tudo terminado, uma coloração avermelhada do sangue derramado que levou a dar o nome do lugar a uma determinada cor.  Pelo menos é o que dizem.

Esta cor também pode ser dita carmim, do Árabe kermes, um pequeno inseto que  teve o azar de produzir um bom corante.

Ela tem uma parente, sentadinha ali do seu lado. Parente em termos da descrição da cor em si, não de origem. Se bem que, em termos de história, há certa coincidência de circunstâncias. Estou falando de solferino, uma espécie de cor-de-rosa puxando para o púrpura.

Curiosamente, ela também deve seu nome a uma batalha ocorrida na mesma guerra da de Magenta. Aliás, na mesma região e com diferença de alguns dias apenas.

O nome da cidade e da batalha foi aplicado, pelo destaque do encontro, a uma cor que havia sido sintetizada na época.

Aqui no Brasil alguém resolveu lhe dar o nome de cor-de-maravilha, palavra que veio do Latim mirabilis, “extraordinário, excelente”, de mirus, “assombroso, surpreendente”.

Vejo que outras clientes estão assanhadas. E com razão, pois estão envolvidas neste caso, de uma forma ou outra.

Vamos falar de fúcsia, que ao que parece já sabe que por um tempo foi usada para denominar o que hoje é magenta, não?

A palavra assentiu.

– Você agora se usa para um cor-de-rosa forte, aproximando-se do magenta. Seu nome vem da planta do gênero Fuchsia, cujas flores têm essa cor. Todo o mundo aqui decerto conhece o brinco-de-princesa. E ele veio do botânico que fez a descrição inicial da planta, um sueco chamado Leonard Fuchs.

Ali vemos ciano agitando as mãos, querendo ser a próxima. Vamos lá: você deriva do Grego kyanos, “azul-escuro”. Mas atenção: atualmente designa um azul-esverdeado, também conhecido nos meios técnicos como aqua. É a cor da água limpa  sobre um fundo de areia, como nas praias do Caribe.

E você tem um uso que poucos sabem: por ser considerada uma cor repousante, as paredes e as vestes de quem trabalha numa sala cirúrgica são em tecido dessa cor.

E como é na verdade a cor complementar do vermelho, a cor do sangue se apresenta menos viva nesses tecidos, o que pode ser útil caso o paciente acorde cedo demais da anestesia.

A seguir, veremos algo sobre bordô. Você é um vermelho-escuro associado com a cor do vinhos da região de Borgonha, na França. E ela se chama assim porque o nome que os romanos lhe deram era Burgúndia, “país dos Burgundos”, uma tribo germânica estabelecida no local.

Vinda de bandas bem distantes, aponto para o auditório a presença de cáqui. Ela vem do Urdu khaki, “empoeirado”, do Persa khak, “poeira, terra”. A cor foi introduzida no exército inglês da Índia em 1847 e passou a ter amplo uso entre militares por ajudar os soldados a se ressaltarem menos contra o fundo.

Desde já avisamos que essa palavra nada tem a ver com o nome da fruta caqui, que vem do Japonês kaki e tem outro acento.

Vamos agora falar em púrpura, que citamos em relação com outras cores. Sua origem é o Latim purpura, molusco do qual se extraía esse corante vermelho puxando para o roxo, chamado em Grego porphyros.

Esse pigmento era tão caro que se reservava inicialmente apenas às vestes imperiais e depois a algumas eclesiásticas. Mas havia outro preço a pagar pela distinção de usar tecidos dessa cor: eles cheiravam muito mal, devido aos materiais usados no processo de fabricação.

Podem ter certeza: uma pessoa de nossa época não conseguiria chegar perto para abraçar um dos Césares vestido a rigor.

E olhem só ciclame. Seu nome, cara cliente, vem do Grego kyklaminos, relacionado provavelmente a kyklos, “redondo, circular”, dado o formato do bulbo da planta que ostenta flores desas cor rósea meio arroxeada.

Uma curiosidade: todas vocês podem desistir de serem identificadas por homens. O fato é que os homens têm uma capacidade muito menor do que as mulheres para distinguir cores, enquanto eles são dotados de muito mais acuidade para separar tonalidades.

Portanto, só as mulheres são capazes de distinguir ciclame, abóbora, damasco, burro-quando-foge e outras cores que se usam nos seus esmaltes e maquiagens diversas.

Bem, por hoje é só. Favor não aplaudirem, que tenho vizinhos que deitam cedo. Até uma próxima vez.

 

Resposta:

Nomes De Flores

– Santa Gertrude que me ajude! São Martinho, segurai aquele demoninho! São Benedito, evitai meu faniquito! Santa Prolegômena, acalmai aquela fenômena! Santos amados, perdoai os meus pecados! Santos queridos, aquietai estes bandidos!

Cri-an-ças! QUIETAS!

Nem vou perguntar por que vocês estão nessa agitação e gritaria, pois esse é o estado normal deste rebanho. Imagino o que os seus pais não passam em casa. Bem feito, quiseram ter filhos…

Ah, a briga toda foi porque a Ledinha viu a bonita camélia que está na minha mesa e disse que decerto ela se chama assim porque os camelos só se alimentam dela e aí alguém a chamou de burra porque camelo só come pedra e areia e aí ela se incomodou e puxou os cabelos mais próximos, que eram os da Valzinha, que estava contando umas coisas sobre a vizinha da frente e aí deu uma rasteira no Joãozinho, que andava fazendo coisas misteriosas com um espelhinho, e então ele empurrou o Arturzinho, que estava comendo bolo e caiu sobre a barriga do Soneca, que estava dormindo, para variar, e acordou emburrado e rasgou os escritos do Zorzinho, que deu um pontapé numa cadeira e com isso derrubou a Lúcia, que estava sentadinha com seu vestidinho branco, de pezinhos cruzados…

E foi aí então que começou a bagunça para valer. Certo.

Agora, enquanto me resta um último pingo de sanidade, vamos todos sentar aqui em roda – Joãozinho, do meu lado! – e eu vou explicar umas coisas sobre nomes de flores que vieram de nomes de gente.

Lembrei-me desse tema porque é o caso dessa flor. Ela vem do sobrenome de um jesuíta italiano, o Padre Camelli, que no século 17 levou mudas dessa flor do Oriente para a Europa. Foi uma bonita honraria, não?

E houve mais flores cujo nome foi dado desse jeito – como, Lucinha? Não, meu bem, nem todas receberam seus nomes no Jardim do Éden. Simplesmente não deu tempo para dar nomes aos bois antes que Adão e Eva arranjassem confusão por lá. Ou talvez não coubessem ali todas as espécies, pense bem…

Mas podemos citar a begônia, que se chama assim por causa do nome de uma autoridade da Ilha de São Domingos, no Caribe, Bégon. O botânico que escolheu o nome ou era seu admirador ou estava querendo alguma licença para explorar mais a ilha.

Esse mesmo botânico, Plumier, gostava de fazer isso, pois deu o nome de seu colega Pierre Magnol a outra flor, a magnólia.

Para não dizer que, em 1703, nomeou a fúcsia a partir do botânico alemão Leonard Fuchs. Este senhor havia morrido em 1566 mas Plumier o homenageou, provando que não era apenas um interesseiro.

A buganvília, essa árvore que dá flores tão escandalosamente vermelhas e bonitas, recebeu esse nome a partir do navegador francês Louis Antoine de Bouganville. Os franceses, com sua galanteria, sabiam agradar às pessoas.

Não, Ledinha, a hortênsia não se chama assim por causa de uma jogadora de basquete, não. É o contrário, até: deram à menina o nome da flor. O nome desta vem do Latim hortus, “jardim cercado, plantação”.

Temos a dália, que foi enviada pelo explorador Alexander von Humboldt do México para o Jardim Botânico de Madrid em 1789, onde recebeu o nome do botânico sueco Anders Dahl, que havia falecido naquele ano.

Existe a zínia, que homenageia o anatomista e botânico alemão Johann Gottfried Zinn, que foi o primeiro a publicar um livro com a descrição anatômica acurada da estrutura do olho humano.

Falando nisso, a gardênia – ah, lá pulou o Robertinho a dizer que esse nome vem de garden, “jardim” em Inglês. Olhem como ele está faceiro, achando-se esperto!

Pois não é isso, rapazinho, sinto muito. O nome vem do Dr. Alexander Garden, médico e botânico que viveu nos Estados Unidos, colecionando muitas plantas e animais. Ele mantinha intensa correpondência com naturalistas europeus, entre os quais Lineu. Este era o grande botânico sueco que se dedicou à classificação da matéria.

Parece que o Dr. Garden, desejoso de ser lembrado, pediu a Lineu que nomeasse uma flor com o seu nome e foi atendido com a gardênia, em 1760.

Ai, que lindas minhas crianças, paradinhas que nem flores em meu jardim prestando atenção…

Bem feito por boca grande. Quem me mandou falar? Agora elas se lembraram que estavam brigando há pouco e voltaram a trocar sopapos.

Quietos todos! Ou eu trago a minha tesoura de podar e corto as línguas de vocês!

Nada como um pouco de suave e refinada psicologia para contornar certas situações.

Mas, como eu ia dizer logo antes de falar besteira, não são apenas as flores que recebem nomes de gente, não. Sabem a sequóia, a árvore mais alta do mundo, que cresce na Califórnia? Ela recebeu o nome de um índio norteamericano que viveu entre 1770 e 1843, Sequoya. Ele era um pensador; chegou à conclusão de que o poder do homem branco vinha da sua capacidade de usar um idioma escrito. E provavelmente tinha razão.

Vai daí que Sequoya passou doze anos fazendo um alfabeto com 86 letras para representar os sons do idioma Cherokee. E que, aliás, foi um sucesso, pois em seguida se começou um jornal nesse idioma e foi feita uma Constituição para o seu povo.

Quem deu o seu nome à árvore foi o botânico húngaro S.L. Endlicher, em 1847. Grande homenagem, certamente.

Existe uma flor que um tal de van Gogh pintou num quadro belíssimo, a íris. O nomezinho dela vem da deusa Íris, que era uma mensageira de Juno, a Sra. de Júpiter. Esta deusa descia do céu pelo arcoíris para trazer as mensagens divinas para a humanidade. Devia ser gostoso, deslizar por sobre as cores, não?

Não, Deli, não se sabe como é que ela fazia para subir se aquilo era escorregadio e deixe de tirar a graça das coisas.

Falando em deusas, a palavra Flora, que designa o conjunto de plantas de um lugar, vem da deusa romana Flora, a quem eram dedicadas as flores, a juventude e a primavera. Em honra a ela eram comemoradas festas anuais, as floralia, onde acontecia cada coisa que vocês nem desconfiam e vamos passar adiante logo que o Joãozinho está com aquele brilho no olhar.

Já que citamos coisas antigas como essas deusas, sabem a eufórbia, que dá flores de um vermelho tão escandaloso? Pois se conta por aí que quem lhe deu esse nome foi o rei Juba II, da Mauritânia, no século I AC, em homenagem so seu médico pessoal, que se chamava Euphorbus.

E com isso chegou a hora de minhas florezinhas queridas irem se despedindo e indo embora, que o sacramento do batismo perdoe o meu cinismo.

Resposta:

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