Palavra capa

TIA ODETE VAI À BIBLIOTECA

 

– Bom dia, caro senhor que ostenta tão garboso uniforme, eu gostaria de consultar… Ah, o senhor é da Segurança, para consultas devo falar com o pessoal do Atendimento, lá dentro? Agradecida pela gentileza.

– Bom dia, senhorinha que fica atrás do balcão, preciso fazer consulta a uns livros; será aqui? É? Que bom! Eu gostaria de ver uns livros sobre…

Ah, preciso dar meu nome antes? Muito bem, vamos lá. Meu prenome é Odete, um derivado feminino  de Odon ou Oton, do Germânico Otto, que vem de auda, “propriedade, riqueza”.

E o sobrenome é Sinclair. Odete Sinclair. Está certo, não é meu sobrenome de nascimento, mas afinal cada um tem o direito de fazer certas escolhas na vida, ainda mais quando já se passou dos trinta e cinco há algum tempo e se é professora de um grupo de crianças que enlouqueceriam qualquer santo, que dirá uma simples mortal.

Oh, céus, pela expressão da senhorinha vejo que me esqueci de algo fundamental, que é explicar a origem do sobrenome que escolhi, que vem de Saint Clair, um santo cujo nome vem do Latim clarus, com o significado de “brilhante, distinto”.

Mas, enfim, hoje vim aqui a esta Biblioteca, palavra que vem do Grego byblion, “papel, rolo com escrita”, de Byblos, “papiro”.

Mas preste atenção, que este era na verdade apenas o nome do porto de onde era enviado esse material. Esse lugar fica na antiga Fenícia, hoje Líbano, e é considerado a cidade mais antiga em habitação contínua do planeta.

Dali era exportado para a Grécia e arredores o material de escrita chamado papiro, feito a partir da planta do mesmo nome, uma espécie de caniço.

Essa palavra acabou virando o nosso papel.

E com este são feitos os livros, do Latim liber, “livro, papel, pergaminho”, originalmente “parte interna da casca das árvores”, do Indo-Europeu leubh-, “descascar, retirar uma camada”. Deles se originou a palavra livraria, “local onde se vendem livros”.

Estes objetos não têm agora tanto uso como antigamente. Como a minha simpática e um pouco espantada interlocutora sabe, são guardados em estantes, que derivam do Latim stans, “o que está, que fica de pé”, de stare, “estar, ficar de pé”. Uma estante deitada não teria muito uso, não lhe parece?

E são protegidos por capas. Elas se chamam assim por causa do Latim capa, de caput, “cabeça”; o capuz das roupas para o frio recebeu este nome porque recobre a cabeça. A relação entre proteção do corpo e do livro é óbvia, mesmo para pessoas mal-preparadas.

A parte de trás da capa se chama contracapa, de óbvio significado.

Eles apresentam também uma lombada, que une as folhas, do Latim lumbus, “costas, espinha dorsal, espinhaço”.

Já que falamos em folhas, estas vêm do Latim folium, que designava inicialmente as folhas das plantas e depois as de papel, devido à espessura.

As folhas são presas por uma borda dobrada à lombada por meio de cola, do Grego kolla, “grude, goma, cola”.

E não nos esqueçamos que borda vem do Germânico bord, “lado, extremidade, limite”.

Os pequenos caderninhos formados pelas folhas são presos entre si por uma costura, do Latim consuere, “coser”.

Num livro podemos encontrar, como meio de facilitar a leitura, partes relacionadas ente si que se chamam capítulos. Esta é outra palavra que vem de caput e quer dizer “cabecinha”, acho eu que por iniciar ou encabeçar uma nova divisão de um livro.

Se um livro é muito grande, pode ser repartido em volumes, do Latim volumen, do verbo volvere, “ato de fazer rodar”  que acabou se aplicando aos livros da época de Roma antiga, aqueles que eram de papiro e a gente precisava fazer girar na mão para ler.

Seja como for, meu escopo neste momento é fazer um consulta, que vem do Latim consultare, “receber o conselho de”, relacionado a consulere, “aceitar um conselho, considerar maduramente”, originalmente “chamar junto”, de com-, “junto”, mais selere, “reunir”.

Essa consulta é fundamental para os estudos a que estou me dedicando como consequência de minha atividade. Essa palavra vem do Latim studiare, de studium, “estudo, aplicação”, originalmente “ansioso por fazer algo, sério”, de studere, “ser diligente”.

Gostaria de saber, enfim, se entre os títulos desta notável biblioteca existem algo sobre temas como “Aplicação de Corretivos”, “Palmatória”, “O Método de Fazer Ajoelhar Sobre Grãos de Milho”, “Da Solitária como Veículo para a Volta à Razão”, “Uso de Máscaras Assustadoras para Garantir o Futuro das Crianças” e outros assuntos correlatos, pois pretendo fazer a obra definitiva sobre a área.

Gentil Senhorinha? Ué, ela saiu correndo.

Deve estar passando meio mal, a coitadinha. Foi-se embora sem nem conseguir agradecer por tanta coisa que lhe ensinei.

Bem, meu tempo escasseia, preciso corrigir os Trabalhos de Conclusão de Curso de meus aluninhos do Maternal. Voltarei outro dia para ser atendida pela Gentil Senhorinha.

 

Resposta:

CHUVA

Atravessei o pátio de meu avô correndo na chuva fria, com o gato Ernesto abrigado no colo.

Entrei em seu gabinete iluminado pela lareira e ele me recebeu com um abraço:

– Que é isso, rapaz? Tele-entrega de gato? O que é que você faz por aqui num dia aquoso destes?

– Tive vontade de lhe dar um alô e não ia ser uma chuvinha que me ia impedir, Vô. Ao passar pela cozinha achei que o seu gato estava querendo estar com o senhor também.

– Ah, gestos assim não têm preço. Tire seu casaco molhado, coloque este aqui, sente-se mais perto do fogo. Que tempo, hein?

– Falando nele, de onde veio a palavra chuva?

– Ah, estava demorando para entrarmos em nosso assunto predileto. Pois chuva não apresenta grande complicação: veio do Latim pluvia, “chuva” mesmo. Deriva de uma fonte Indo-Europeia pleu-, “agitar a água”.

Em linguagem atual ela também gerou pluvial, “referente à chuva”.

– E quando ela é fraquinha, daquelas que apresentam umas gotinhas pequenas e escassas?

– Nesse caso temos a garoa. Sua origem é discutida, mas predominam os que dizem que ela vem do idioma Quéchua, através do Espanhol garúa.

– Bem; e quando ela, em vez de ser fraquinha, fica dura e pesada e até machuca, como é o caso do granizo?

– Esta vem do Espanhol granizo, de grano, “grão”, do Latim granum, “grão”. Está de acordo, pois as pedras de granizo parecem ser uns grãos duros e mal-intencionados. Muitas vezes eles fazem enormes estragos numa plantação.

Outra coisa que pode fazer o mesmo é também conseqüência de chuvas, como uma inundação.

– Que vem de…?

– Do Latim inundare, “encher de água”, formado por in-, “em”, mais unda, “onda”.  Um sinônimo é enchente, de encher, que veio do Latim implere, “completar, encher muito”, formado por in, “em”, mais plenus, “cheio”, do Grego pléos, “cheio”. Enfim, trata-se de encher demais de água uma região.

– E a chuva, de onde vem?

– Vem das nuvens, do Latim nubes.

– E as núpcias, vai me dizer quer têm algo a ver?

– Pois têm, espertinho. Essa palavra também deriva de nubes; como a noiva na antiga Roma usava um véu sobre o rosto, que aparentava ser uma nuvem, surgiu o verbo nubere, “casar, contrair matrimônio”, do qual vêm as núpcias.

– E eu que achei que ia atrapalhar o senhor… Então me diga de onde vem a palavra guarda-chuva.

– Não mesmo. Se você não é capaz de descobrir isso sozinho, desisto e vou ensinar Etimologia para o gato.

Mas, falando nisso, sombrinha  deriva de sombra, do Latim umbra, “sombra”. Por um certo tempo as mulheres usavam a sombrinha em grande parte como proteção contra o sol, já que não era de bom tom elas se mostrarem bronzeadas como as trabalhadoras do campo.

– Tá bem, Vô. Conte-me sobre outro objeto que nos protege da chuva, como o impermeável, então.

– Essa é do Latim impermeabilis, ” o que não se molha”, de in, “não”, mais permeabilis, de permeare, “passar através de”, por sua vez formada por per, “através”, mais meatus, “canal, curso”, de meare,  “ir, estender-se, ter um caminho a percorrer”.

– Essa foi longa, hein?

– Às vezes uma palavra é feita por outras que são formadas por outras e assim vai. Mas isso não é novidade para você.

– E qual a origem daquela peça de abrigo contra a chuva que o senhor conta que usava para ir à escola?

– Ah, a capa. Ela vem do Latim caput, “cabeça”; o capuz das roupas para o frio recebeu este nome porque recobre a cabeça. A própria capa vem daí: originalmente, era um abrigo que também cobria a cabeça. A capota dos automóveis também. Interessante é ver que em Inglês ela se chama hood, exatamente a palavra para capuz.

– Eu  me lembro das botinhas de borracha que o senhor me deu quando comecei a ir à escola. Eram amarelas e eu adorava pisar nos charcos com elas.

– Eu estava muito orgulhoso de ver meu neto na escola. E o nome desse calçado vem do Francês botte, “bota”, que parece ter vindo de uma palavra antiga do Germânico, butta, “sem fio, embotado, diminuído”.

– E aquela outra coisa que o senhor usava nos pés?

– As galochas? Saudosa lembrança. Eram uma espécie de sapato de borracha fina e elástica que se colocava sobre os sapatos normais em dias muito molhados. Derivam também do Francês galoche, parece que vindo do Latim gallicula solea, “sandália da Gália”, um calçado de sola alta de madeira para os dias de chuva. Como se vê, os franceses nomearam muitas peças de vestuário.

Mas agora chega. Vamos pegar um guarda-chuva e ir os três bem espremidinhos para ver se sua avó fez alguns bolinhos de chuva para nos alimentar depois de tanto aprendizado.

Peguei o gato bem firme no colo e fomos.

Engraçado, tive a impressão de que nós os três estávamos ronronando.

Resposta:

Sessão Espírita

É uma agradável noite de primavera. X-8 hoje terminou seu trabalho mais cedo e saiu do escritório, pois lhe apetecia passear.

Sai a andar pelas calçadas do bairro, o único bairro em preto-e-branco da cidade, puro Expressionismo Alemão. Há um vento agradável, que dilui o cheiro dos monturos e afasta os insetos. Perpassam pelas ruas o odor de queijo torradinho da Pizzaria do Porco e os legítimos perfumes franceses de camelô que as moças que trabalham nos pequenos apartamentos baratos deixam sair pelas janelas abertas.

Não há folhas de árvores caídas, mas o barulho dos papéis que rolam pelo chão com o vento é quase igual, evocando o mesmo romantismo.

O detetive, em sua gabardine folgada e chapéu desabado, caminha a passos largos, respira a haustos também largos o ar empoeirado e se sente ótimo. Pensa:

Ah, a vida em sua plenitude! Ah, este lugar tão agradável! Ah, o que é que esta senhora quer comigo?

Esta última frase ele pensou a propósito de um “Pssiu!” que ouvira saindo dos lábios de uma senhora que estava à porta de uma casa, chamando-o com gestos enérgicos.

O cauteloso detetive olhou ao redor, à procura de bandidos que o pudessem emboscar. Nada à vista. Do outro lado da rua, a Pizzaria do Porco, com seu movimento de entra-e-sai, garantia que ele não corria grande perigo. Aproximou-se da entrada da casa, com as mãos em cutelo nos bolsos da capa, por via das dúvidas.

“Preparadas para dar terríveis golpes de caratê” – pensarão os leitores.

“Preparadas para oferecer menor resistência ao vento em caso de uma corrida”, dirão os que conhecem melhor nosso personagem.

Ele se aproxima e vê um pequeno cartaz sobre a porta:

MADAME RITA

CONTATO COM OS ESPÍRITOS

O corajoso detetive se aproxima, sestroso, e a mulher pergunta se ele é o famoso e insuperável Detetive X-8, o Salvador das Palavras.

Atingido em cheio em sua vaidade, X-8 decide que uma pessoa assim não pode representar uma ameaça e concorda, com o modesto sacudir de cabeça que tanto tinha treinado na frente do espelho.

A mulher o convida a passar a uma salinha com estofados, papel de parede cheio de flores meio douradas sobre fundo meio bege com figuras de santos emolduradas, prateleiras cheias de bibelôs empoeirados e se apresenta:

– Madame Rita, Procuradora dos Espíritos, à sua disposição.

Sua voz é meio rouca. Ela foi loura de nascimento, agora é loura por opção. Tem olhos claros e óculos de lentes grossas e esverdeadas para miopia. Veste-se de modo sóbrio.

O detetive há muito descobriu que falar o mínimo possível é uma grande vantagem no seu negócio. Além disso, ele respeita tanto as palavras que trata de usá-las pouco, ao contrário da maioria das pessoas.

Ele usa a linguagem corporal para perguntar “E o que a senhora deseja comigo?”, o que não é pouco para uma pessoa totalmente coberta pela capa e o chapéu.

Antes de responder, Madame Rita o faz sentar numa poltrona e lhe pergunta se ele quer um calicezinho de licor. Ele faz que não com a cabeça e ela comenta:

– Não bebe em serviço. Muito bom. Então eu vou beber um golinho em sua homenagem, se o senhor me permitir – e começa a se explicar, depois de se servir um cálice até à borda e o fazer desaparecer rapidamente garganta abaixo.

Conta que está estabelecida naquela casinha barata do bairro há algum tempo, vivendo (muito bem) de ler o futuro do pessoal do bairro.

Confessa francamente, de um profissional para outro, que não há nada de sobrenatural naquilo. Basta olhar para o tipo de pessoa e a idade para calcular: as jovens querem saber como agarrar seus namorados; os rapazes querem saber como fugir das namoradas; as mulheres casadas querem saber dos passos do marido; todas as representantes do sexo feminino querem saber quantos filhos vão ter; os homens querem saber se o próximo golpe vai dar certo…

Mas há um lado inesperado e inexplicável que se desenvolveu recentemente nela, e para poder lidar com ele será necessário o concurso de alguém sábio, douto, probo, grado, franco, livre e grande como X-8 – cujo ego incha como uma mortadela gorda debaixo do chapéu ao ouvir essa opinião.

Esse lado é o seguinte: inesperadamente, ela, que não acredita em sobrenatural, começou a receber manifestações de palavras antigas para ela desconhecidas.

Elas a visitam em pesadelos e insistem em saber sobre os seus descendentes; querem saber se passaram em vão pela comunicação humana ou se os seus filhos e netos conseguiram honrá-las permanecendo em pé a representar o seu sentido, se não os seus sons.

Como exemplo, ela descreve uma enorme cabeça de estátua de Roma antiga, pairando no ar, ameaçando desabar sobre ela se ela não responder. Esse sonho a tem acompanhado quase diariamente na última semana, obrigando-a a tomar bastante licor antes de dormir, para ver se ele não se repete.

Dizendo isso, ela se serve de mais um generoso cálice. X-8 pensa que, se não fosse o tal pesadelo, ela usaria qualquer outra desculpa para tomar boas doses de licor.

– Pensei que só um especialista de fama mundial poderia me ajudar. O que me diz o senhor de tudo isso?

X-8 já estava com uma resposta em mente, mas atende aos seus princípios de parecer profundo e misterioso. Baixa a cabeça, mãos nos bolsos, como quem está em profunda meditação.

Aliás, está mesmo: como também não acredita no sobrenatural, pensa se não está sendo submetido a um golpe. Enfim, como esta senhora é muito simpática e demonstra conhecer um bom profissional quando o vê e, principalmente, como não pediu dinheiro algum até agora, responde:

– Dá para imaginar que essa palavra seja caput, palavra latina para “cabeça”. Se for o caso, anote aí o que vou dizer, para decorar e depois poder transmitir o conteúdo para  este seu fantasma de palavra.

Madame Rita pegou papel e um lápis rombudo e começou a anotar, em letra miúda e um pouco tremida, entre golinhos de licor:

– Caput, você é uma palavra extraordinariamente prolífica, cuja descendência se mostra extremamente ocupada nos idiomas de origem européia. Muitas dessas palavras são indispensáveis à fala humana.

Podemos começar com o seu uso direto, inalterado, em legislação: ainda chamamos caput o enunciado de um artigo de lei.

Depois, temos cabeça, a descendente que mantém o seu exato significado, tanto para descrever “parte do corpo” como para designar “chefia de uma empreitada ou organização, parte pensante”.

Vindo diretamente desta, temos cabeceira, que indica onde colocamos a cabeça em nossas camas; encabeçar, que indica o início ou a condução de algo.

Capitão, ligado à noção de “chefia” está sempre em uso. Um inferior deste, o cabo, também. Falando em militares, temos também cadete, que veio do Gascão capdet, derivado do capitellum que vou citar a seguir.

Em Arquitetura, a parte alta de uma coluna se chama capitel, sua neta através de capitellum, diminutivo de caput.

A capital de um país vem de capitalis, “referente à cabeça”, pois é ali que se espera que sejam tomadas decisões para a administração geral e para o bem do povo. Pelo menos é a idéia geral.

O capuz das roupas para o frio recebeu este nome porque recobre a cabeça.

A própria capa vem daí: originalmente, era um abrigo que também cobria a cabeça. É o mesmo caso do capote. Desta última veio a capota dos veículos.

Quando a gente toma a bênção de um frade capuchinho ou beberica um café capuccino, está usando a sua descendência. Os frades receberam esse nome pelo hábito com capuz, a bebida porque sua cor lembra a do hábito.

Uma palavra cujo som nada mais tem a ver com a inicial é chefe, que nos chegou através do Francês.

Quando lemos um bom livro, vemos que ele se divide em capítulos, as suas divisões principais; é mais uma palavra descendente sua, de capitulum, seu diminutivo.

Até na Igreja, dona caput, a senhora deixou descendentes. A capa de São Martinho, uma relíquia guardada com muita reverência, foi colocada num prédio pequeno, que por isso recebeu o nome de capela. O encarregado de zelar por ela se chamou capelão.

E se criou o termo a capella para designar as músicas sacras cantadas sem acompanhamento, pelo fato de não haver órgãos nas capelas.

– Pronto. É apenas parte da história dessa palavra, e apenas em nosso idioma. Mas com isso qualquer palavra já pode ficar orgulhosa.

A Procuradora dos Espíritos terminou de escrever. Prometeu decorar aquilo tudo direitinho para repassar à cabeça de estátua, quando esta aparecesse em seus sonhos novamente. E disse que avisaria X-8 do resultado.

O detetive saiu dali pensando que havia muita gente doida neste mundo e no outro. Mas, pensando bem, por que não manter uma mente aberta e testar a veracidade daquilo tudo? E se algo houvesse além da nossa vã filosofia, etc, etc.?

Caminhou de volta para seu escritório, muito pensativo: e se houvesse mesmo algo, como é que ele se arranjaria para poder cobrar?

Resposta:

Livros

Eu estava com meus dez anos e já me dava muito bem com meu avô. Era o único neto que não tinha medo do carrancudo velho de barba branca bem curta e olhos azuis penetrantes.

Carrancudo para quem não sabia lidar com ele, pois a doçura que ele mostrava ao conversar comigo e me revelar seus conhecimentos ficou para sempre gravada em meu peito.

Nesse dia eu o via tirar o escasso pó das suas prateleiras enormes, cheias de livros.

Sentei-me no banquinho forrado de couro e perguntei:

– Vô, meus primos disseram que você tem livros com a data de mil e quinhentos Antes de Cristo e que você não mostra prá ninguém, é verdade?

Ele me olhou, deu uma batida final com o pano numa lombada, largou tudo e veio sentar na sua cadeira de balanço, à minha frente.

– Seus primos são umas figuras estranhas. Só porque têm medo de livros, não precisavam inventar tamanha besteira. E você, acho que já deveria saber o suficiente para perceber o que pode ser verdade ou não nessa área.

Hoje vou-lhe falar sobre uns termos relacionados com o livro, mas antes vou contar um fato verdadeiro que aconteceu com uma amiga muito querida.

De certa feita, ela estava fazendo uma mudança. Um dos rapazes da empresa ergueu aos ombros uma das muitas caixas de livros dela e resmungou para o companheiro: “- Odeio livros!”. O companheiro respondeu, de imediato: “- Por isso é que você está aí tendo que carregá-los!”.

Nunca se esqueça, menino, esse é um risco que se corre por não ler.

– Ora, Vô, o senhor sabe que eu gosto de ler!

– Sei, e isso me alegra. Seu primeiro livro fui eu que dei e há muitos outros esperando pela sua atenção aqui em minhas estantes.

Mas deixe-me contar a origem, por exemplo, da própria palavra livro. Ela vem do Latim liber, que designava a camada de tecido logo abaixo da casca das árvores, por onde corre a seiva. Era nesse material que se escrevia antes da descoberta de um outro, feito com o caule do papiro, uma planta quática.

E liber vem do Indo-Europeu leub-, “arrancar, descascar”, que era o que se fazia para obter tal tecido.

– Esses antigos sabiam que estavam construindo um idioma, Vô?

– Não tinham a menor noção. Mas elaboraram sistemas de comunicação extraordinariamente eficientes.

– E a capa do livro, eles faziam então com a casca das árvores? Devia ficar bonito!

– Não, nada disso. Por muito tempo esses materiais, incluindo o feito com papiro, que era muito melhor, eram usados em rolos que nem esses que a gente vê em filmes da época de Roma. Portanto, não existiam capas. Essa montagem que agora conhecemos como livro era chamada de códice, que vem do Latim codex, inicialmente “tabuinha com escrita, registro”.

– Devia ser complicado para os alunos da época colocar todos os rolos nas mochilas, né? Aposto que foi por causa deles que se trocou um tipo pelo outro.

– O ensino não era como agora e eles não levavam o material em mochilas. Realmente, era necessária certa prática para desenrolar um cilindro com uma mão e enrolar com a outra, sem deixar uma tripa de papiro arrastando pelo chão. O pior era achar uma determinada parte dentro de um rolo daqueles. O códice ou livro era bem mais prático nesse sentido e se desenvolveu a partir do cristianismo, com os registros eclesiásticos e a Bíblia.

Você falou em capa. Essa palavra vem do Latim capa, “roupa com cobertura para a cabeça”, derivada de caput, “cabeça”. Serve para proteger o conteúdo do livro, que era um objeto muito caro nos seus primórdios, pois era feito à mão. Um livro tem duas capas, unidas pela lombada. Esta vem do Latim lumbus, “dorso, rins, lombo”, pois faz pensar nas costas de um animal.

As capas podem não ser duras; é o caso das brochuras, com capa de papel mesmo e, por conseqüência, mais baratas. Essa palavra vem do Francês brochure, “junção costurada entre folhas de um livro”, do verbo brocher, “fincar, espetar”, de broche, “instrumento perfurante”.

– E as folhas? Eram feitas de folhas verdes mesmo? Não secavam depois?

– Você está me saindo ou muito gracioso ou muito burrinho, não sei ainda bem o quê. Estou de olho em sua figura.

Mas essa palavra vem mesmo das folhas das árvores, porque a Sibila, aquela dos oráculos, escrevia suas predições em folhas de palmeira. Esse nome depois se aplicou aos pedaços de papel que compõem um livro.

– Ainda tenho colegas que fazem uma confusão bárbara entre folha e página.

– Esta última vem do Latim pagina, “retângulo formado pelos galhos da parreira”. Os romanos compararam uma latada de vinhas à folha do livro e a própria planta seriam as palavras.

Eles eram inicialmente um povo agrícola e formaram muitas de suas palavras a partir dessa área, como o provam folha, livro e página.

Aliás, há mais coisa ainda com essa inspiração: uma linha escrita se chama verso, sabia?

– Ué, eu achava que verso eram aquelas coisas que a gente era obrigado a recitar bem no começo do primário!

– Acabou sendo, mas o sentido original é “linha”, por comparação com o o sulco do arado. Este escavava em linha reta e, nos limites do campo, virava para recomeçar, paralelo ao anterior. Essa virada era o versum, do verbo vertere, “virar”, que acabou designando a linha traçada.

Aliás, linha também vem do Latim, de linea, “fio, corda, linha”, derivado de lineum, “linho”, do qual eram feitos tecidos e fios. A comparação é pelo predomínio do comprimento sobre a largura.

– No outro dia o Pai me pediu para baixar um pouco o volume da música e perguntou se alguém tinha visto o segundo volume de um certo livro. Que confusão é essa?

– A pergunta é boa. Ocorre que os romanos chamavam cada um dos seus rolos de escritos de volumen, do verbo volvere, “virar, fazer girar, enrolar”, pois esse ato tinha que ser feito durante a leitura. Por analogia, cada livro de uma obra ou coleção recebeu esse nome também.

– E o da música?

– A palavra volume acabou sendo aplicada a “massa, quantidade” a partir do espaço ocupado por um livro. Aplicou-se mais tarde a “intensidade”, inclusive sonora, seja para música de verdade, seja para pagode.

– O Pai estava elogiando a fonte em que era escrito aquele livro. Também achei as letras bem bonitas, mas por que esse nome?

– Essa palavra vem do Latim fundere, “derreter, derramar, verter”, porque os tipos de letras eram fundidos, isto é, derretidos, nas tipografias, a partir de uma liga de chumbo.

Mas está na hora de você voltar para casa e fazer os seus temas, rapazinho. Nunca se esqueça: é mais fácil carregar livros dentro da cabeça do que às costas.

Até à próxima.

Resposta:

A Máfia Da Massa

 

O famosíssimo Detetive Etimológico X-8 está em seu escritório. Como sempre, a sala está cuidadosamente suja e desmazelada.

O prédio é pior ainda e o bairro ao redor do prédio, então, nem se fala.

Ele foi apagado do mapa há muito tempo. Os serviços públicos deixaram de ser prestados, pois a prefeitura desistiu e tem feito até sugestões de emancipação. Só que ninguém se arriscou a ser vereador nem prefeito ali, nem mesmo os políticos mais corruptos.

X-8 está com a sua roupa de trabalho: gabardine cor de areia uns dois números maior que ele, chapéu marrom enterrado na cabeça, mal deixando entrever a ponta do nariz.

Esta noite ele está muito pensativo. Começou recentemente a achar que tudo está muito parado na sua vida profissional.

Quer dizer, dos ganhos ele não se queixa, mas as coisas andam meio sem emoção, entende? Uma palavra chega, pede para saber a sua origem, ele depois entrega um papel explicando-a… Qual é a graça? Cadê a emoção?

Será que sempre vai ficar nisso? Foi para isso que ele tanto estudou e lançou um trabalho sério, a ponto de agora não precisar mais fazer propaganda? Faz falta mais adrenalina, alguma coisa que sacuda esta mesmice!

– Mudanças, sensações novas, onde estão vocês? – pensa ele, dramaticamente virando os olhos para o teto escuro e com teias de aranha, mas enxergando apenas a aba do chapéu.

Elas chegam de sopetão, abrindo a porta do escritório, entrando e se espalhando pela sala.

O espanto faz X-8 arregalar os olhos, arrependendo-se mortalmente dos desejos recém-expressos.

Sim, pois quem entrou foi um grupo de sete figuras, todas com gabardines e chapéus enterrados na cabeça, tal como ele. Todas elas estão com as mãos firmemente enfiadas nos bolsos.

Olham ao redor em silêncio e se distribuem pela sala cheia de sombras, como obedecendo automaticamente a um plano.

Um fica ao lado da janela, olhando cuidadosamente para fora; outros dois, junto à porta de entrada, que tinha sido fechada e chaveada assim que entraram; os demais se espalham em leque pela sala. Todos ficam voltados para o detetive sentado, nenhum se colocando numa possível linha de fogo alheia.

X-8 está imóvel, duro, hirto, rígido, o que todos vêem. Também está alvo, pálido, céreo, lívido, o que os visitantes não percebem porque não lhe enxergam o rosto.

Por um longo minuto, aquele que está à frente do grupo o encara. Por um minuto mais longo ainda, X-8 o encara de volta.

Ele faz isso não por querer, mas porque está completamente paralisado.

De repente, o chefe deles faz um gesto com a cabeça e todos começam a abrir as capas ao mesmo tempo.

É agora, pelo visto.

Mais ainda do que sente por morrer tão jovem e com tanta contribuição a dar para o mundo das palavras, ele quer saber por que a Máfia – só podia ser ela – ia liquidar com ele.

Não é à toa que ele é um etimologista: gosta de saber a origem das coisas, mesmo que seja a do seu fim.

Momentos especiais da sua vida passam velozmente pelo seu cérebro: a formatura na Faculdade de Etimologia, na Academia de Detetives, o orgulho dos seus pais, ele brincando com as palavrinhas pequenas da vizinhança, o dicionário que ele rasgou e cujas páginas comeu todas quando era bebê…

As capas terminam de ser retiradas.

Ele vê então que são palavras que entraram ali, e que o estão olhando com indisfarçável admiração.

Ouve a voz cálida e com forte sotaque italiano do que estava à sua frente, percebendo que ele é Vermicelli:

– Que tal, rapazes? Eu sabia que ele era durão! Qualquer um, ao nos ver entrar desse jeito, morreria de susto, gritaria, desmaiaria, tentaria fugir, entraria debaixo da mesa… Mas ele, não! Ficou nos encarando ali com a maior tranqüilidade, sem mexer um músculo. Signor Detetive, piacere di fare vostra conoscenza. Como o Sr. vê, eu sou Vermicelli e quero lhe apresentar a minha turma.

Nesse ponto,eles se adiantaram um a um para apertar a mão de X-8 que, embora sem poder articular um som ainda, pelo menos conseguia erguer uma mão flácida para corresponder aos gentis visitantes:

Fettucini, ao seu dispor.

Cappeletti. É um prazer.

– Eu sou Ravioli, prazer.

– Sou Lasagna, às ordens.

Spaghetti. Piacere.

Rondelli, seu criado.

Apertavam-lhe a mão cortesmente e se afastavam para dar lugar ao seguinte.

Terminadas as apresentações sem que o detetive tivesse emitido um som, Vermicelli disse:

– O Signore já deve adivinhar por que estamos aqui. A gente tem trabalhado muito, somos sempre requisitados por todos. Desse jeito, trabalhando sem domingos nem feriados, conseguimos juntar uma grana para tentar descobrir a nossa origem. Tivemos muito boas indicações suas, e queremos saber se o Signore aceita a nossa causa.

O famoso detetive percebeu que, se tentasse falar, não conseguiria mais que emitir desmoralizantes grasnidos. Limitou-se a apontar, com gesto rápido, um folheto impresso que estava sobre a escrivaninha.

Era a sua lista de honorários. Vermicelli a pegou e abriu.

As sete palavras se reuniram a um canto da sala, em roda. Começaram a olhar o folheto e a falar entre si em voz baixa, citando valores e fazendo contas. A discussão foi subindo de tom; o pessoal começou a se dar cotoveladas e a se estapear nas cabeças, xingando-se em diversos dialetos.

Às vezes paravam e olhavam para X-8, que a essa altura estava novamente horrorizado: do que não seriam capazes aquelas palavras mafiosas quando irritadas assim?

Ele resolveu que, assim que recuperasse o controle da voz, ia oferecer seus serviços de graça. Ele podia suportar um pequeno prejuízo, se era para se livrar daquele risco de envolvimento com o submundo.

Ravioli chegou junto à escrivaninha e perguntou:

– E que desconto o Signore nos dá para fazer um serviço para todos nós? Olha que somos uma freguesia grande, tutti buone parole, eh? Sai um descontinho, no?

O Detetive queria dizer que não, absolutamente não cobraria nada de parole così meravigliose, que seria um prazer, mas seu corpo simplesmente não obedeceu. Congelou-se ainda mais em sua posição sentada na cadeira giratória guenza, como se fosse uma estátua.

Ravioli se afastou e voltou para junto dos outros, desapontado.

Foi a vez de Rondelli falar:

– É, pessoal, ele é duro mesmo. Bem que nos avisaram.

Lasagna falou, do meio do seu cheiro de queijo derretido:

– Acho que não dá mesmo.

– Molto bene, seu X-8, disse Vermicelli, aproximando-se da mesa. Então a gente paga o preço todo, uma taxa individual vezes sete, sem desconto. E eu que pensava que nós da Itália é que sabemos negociar! Mas va bene, a gente entende. Deixo aqui o meu cartão e o Signore nos chama, não é assim que funciona? Aguardamos notícias suas. Grazie pela gentil acolhida!

Tudo o que o detetive conseguiu fazer foi um movimento curto e convulsivo da cabeça, que visto de fora pareceu um gesto frio de assentimento.

E foram saindo, colocando as capas e levantando os chapéus educadamente.

Desceram as escadas cheias de lixo falando de modo animado sobre a frieza impressionante daquele sujeito que nada parecia assustar.

Dava para ver que estavam em boas mãos com um cara competente assim. Alguns até achavam que se tinham arriscado demais, vá que ele puxasse uma submetralhadora Uzi de baixo da capa e acabasse com eles antes de eles poderem se explicar. Achavam que teria sido melhor bater antes de entrar.

Ressaltaram também que ele tinha lidado com um grupo de desconhecidos ameaçadores sem se mexer e inclusive sem dizer uma só palavra. Isso é que era um profissional!

Depois da saída deles, X-8 ainda ficou parado na sua cadeira por vários minutos. Dali a algum tempo percebeu que podia mexer os dedos, depois os antebraços e pernas, e finalmente conseguiu se levantar, trêmulo até à ponta dos cabelos. Dirigiu-se ao frigobar na sala ao lado, os joelhos dando uma curiosa sensação de serem feitos de esponja.

Decididamente, ele precisava de uma bebida forte desta vez.

Está certo, ele tinha feito votos de parar, mas sem aquilo ele custaria muito a retomar a tranqüilidade. Ele precisava disto para poder trabalhar.

Pegou uma lata, abriu-a e derramou o líquido gelado na boca, sentado de novo à escrivaninha, com os pés sobre o tampo, a musculatura ainda contraída.

Sentiu a doçura do leite condensado arranhar a sua garganta. Não se importou; sabia que a ocasião pedia bebida de macho.

Depois de terminar a lata, já mais calmo, e de filosofar sobre a existência de uma divindade que estivesse ouvindo seus pensamentos quando ele estava desejando novas emoções e lhe tivesse aprontado aquela, levantou-se e foi fazer as suas pesquisas.

Horas depois, arrancou a última folha de papel da máquina de escrever antiga e o guardou num envelope. Por alguns dias os escritos ficaram na gaveta. O conteúdo deles era:

VERMICELLI

Esta palavra em Italiano quer dizer “vermezinhos”, e se refere à forma da massa.

Do Latim VERMIS se fez também a palavra vermelho, pois a cochonilha, inseto do qual se retirava o material para fazer este pigmento, era chamada de “vermezinho” pelos romanos.

A vermiculita é um mineral composto por restos fósseis de animais marinhos, usada como material de construção ou decoração.

Um vermífugo é um medicamento que se usa para tratamento de infestações humanas ou animais por vermes.

Poucos sabem, mas vermilíngüe é um animal cuja língua lembra, pela forma e pela mobilidade, um verme. Essa língua tem a função de ajudar na captura de alimentos, e um exemplo de usuário é o nosso tamanduá.

E o vermute? Não tem a ver com o verme, não! É do Alemão wermuth, “losna”. Essa palavra era formada por wer, “homem” e muth, “coragem”. Ou seja, era preciso ser macho para agüentar o chá da erva, tão amarga que é.

LASAGNA

Aportuguesada para lasanha, vem do Latim lasanum, “panelão para cozinhar”, se bem que também designava “urinol”. Certamente que eram usados vasos distintos para cada fim.

CAPPELLETTI

Há quem escreva capelete em Português, mas fica muito feio.

O nome vem do Latim Medieval cappellus, “chapéu”, derivado de caput, “cabeça”. As massas, dobradas ao redor de um pouco de recheio, têm a forma aproximada de um chapéu.

De caput se originaram numerosas palavras com significados diferentes, como veremos.

Capitão: era o “cabeça” de um grupo de guerreiros.

Chefe: com uma modificação sonora bem maior, gerada pela sua passagem pelo Francês, também lembra o seu papel de “cabeça” de uma organização ou empreendimento.

Capital: pode-se dizer que administrativamente é a “cabeça” de um país, província ou estado.

Capitólio: era o templo de Júpiter na parte mais alta de uma das sete colinas de Roma, que por isso foi chamada de Capitolina.

Capa: antigamente era uma peça de roupa para proteger contra a chuva que tinha um capuz, palavra que também descende de caput.

Capela: era uma pequena construção junto a uma igreja, feita para guardar uma relíquia sagrada, a capella (pequena capa) de São Martinho.

Escapar: sim, até esta palavra é parente de Cappelletti. Um homem que esteja tentando fugir e quase é apanhado pode deixar a capa nas mãos dos perseguidores e seguir adiante: ele ficou ex cappa, “fora da capa”.

FETTUCCINI

Esta palavra designa uma massa cortada em tiras, fettuccia em Italiano.

Note-se que fettuccini é um diminutivo de outro, pois fettuccia já é um diminutivo de fetta, “tira, fatia”. E esta palavra vem do Latim offa, “bocado, grumo, bolota de comida”.

RONDELLI

Vem do Latim rotundus, “redondo, circular”. Em Italiano, “redondo” é rondo. Rondelli é o diminutivo plural.

Rotundus também queria dizer também “perfeito, completo”. Eis aí porque dizemos que alguém que discorda de nós está – claro! – “redondamente enganado”.

O nome foi dado a estas massas devido à forma circular que elas têm vistas de cima.

RAVIOLI

Este nome vem do Italiano rava, que veio do Latim rapa, que quer dizer “nabo”.

Todos estranharão o que é que o alimento tem a ver com o sabor do nabo. Para nossa tranqüilidade, nada. Consta que o nome veio foi de certa semelhança da massa com as raízes achatadas da planta.

O nome científico do nabo é Brassica rapa. Além de ser consumido pelos humanos, serve de forragem para o gado.

SPAGHETTI

Esta palavra vem do Italiano e é um diminutivo de spago, “corda, fio”. Em Latim era spacus. O nome foi dado pela semelhança física, como em outros casos.

Como se vê, os italianos têm tanto carinho pelas massas que preparam que as tratam quase sempre no diminutivo, como se fossem seus animaizinhos de estimação.

Acrescentamos, como um brinde especial, totalmente sem ônus, aos nossos nobilíssimos e seletos clientes, a origem de algumas palavras a eles relacionadas por parentesco ou por atividade profissional:

MASSA: do Grego máza, “pasta, massa”.

Em Português é o nome genérico para o tipo de alimentos de que estamos tratando, todos sem dúvida de importância ímpar na gastronomia mundial.

No Espanhol usado na região do Rio da Prata, no entanto, usa-se masas para doces de pastelaria. Assim, pedir “Un té com masitas” é pedir chá com docinhos e não um chá com lasanha.

Massa, com a acepção de “volume de gente, conjunto grande de pessoas”, está em uso pelo menos desde a Idade Média.

Uma advertência : o verbo massacrar não significa “derrotar o inimigo servindo-lhe massa mal feita”. Esta palavra não tem parentesco com massa. Vem do Latim mattea, “maça, cacete, martelo grande”. Estes são objetos que muitas vezes, ao longo da História, foram aplicados de forma brusca nas cabeças alheias para combater pessoas pelas quais não se nutre especial afeto.

Em Espanhol e em Italiano, a palavra usada para tão nobre alimento é…

PASTA: do Grego pasté, do Latim pasta, “farinha amassada com outros ingredientes”.

Essa palavra passou a designar qualquer coisa que tivesse o aspecto de coisas de consistência não sólida misturadas.

Uma delas é o material usado para aumentar a consistência do papel, transformando-o em cartão ou papelão; deste eram feitas folhas grandes que, dobradas, serviam para guardar documentos e papéis diversos para evitar que amassassem.

Mais tarde, esses porta-papéis passaram a ser feitos em couro, tecido, nylon e a ter fechos e divisórias, mas mantiveram o nome “pasta”.

Inclusive ele é usado para designar um cargo elevado, como em “A pasta da Agricultura irá para…”, numa referência ao nome do objeto que guarda documentos importantes.

MOLHO: é absolutamente fundamental. Pode-se dizer que é a alma da massa.

Vem do verbo molhar, por sua vez do Latim molliare, “amolecer misturando com água”. E molliare vem de mollis, “macio, mole”.

Dali a dez dias, na hora que havia marcado laconicamente por telefone, X-8 recebe novamente os sete mafiosos. Ou massosos, não sabe bem.

Eles entram já de chapéu na mão, depois de se anunciarem aos brados, ainda do lado de fora da porta. Aliás, encostados à parede, não fosse um tiro atravessar a dita cuja.

X-8 agora sabe como eles são, veramente tutti buone parole. Mantém sua pose gélida, estendendo uma mão para receber a grana indecente que eles estão pagando e entregando um envelope pardo com a outra.

Vermicelli faz o pagamento e pega o envelope.

Instantaneamente, os outros se atiram para ler o conteúdo, o que gera uma confusão de socos, tapas, cotovelaços e palavrões.

O detetive se ergue de sua cadeira e os fita, calado e imóvel. Os sujeitos de gabardine percebem isso e param com o engalfinhamento. Desmancham-se em desculpas.

Começam a sair depois de lhe apertarem a mão um por um, com agradecimentos efusivos. Retiram-se com mesuras, o último fechando a porta cuidadosamente atrás de si.

X-8 cola o ouvido na porta, em meio ao cheiro de molho que os visitantes deixaram pairando em seu rastro, para escutar. Percebera que as palavras não conseguiam se conter e estavam lendo o texto ali mesmo no corredor. Ouve exclamações de agrado e surpresa, todas muito gratificantes para quem trabalhou duro como ele.

Quando chegam à parte em que se fala em Pasta, então, percebe que as vozes deles estão embargadas de emoção. A voz de Spaghetti diz:

– Ah, la Nonna!

– Cara Vecchia! – exclama Rondelli.

– Nonnina mia! – diz Cappelletti.

– Mais mia que tua ! – resmunga Ravioli.

E começam de novo aos socos e joelhaços, discutindo de quem é a avó enquanto descem as escadas mal iluminadas.

Da janela, X-8 os observa na rua abaixo. Pararam de brigar. Um deles vai relendo em voz alta o precioso papel para os outros, que estão encantados.

Mais um caso resolvido, mais palavras satisfeitas, mais uma grana para o corajoso detetive, que agora se dá perfeitamente por satisfeito de passar o resto da vida na velha e morrinha rotina de sempre.

Resposta:

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