Palavra molho

X-8 PARÔNIMOS II

 

X-8, o detetive das palavras, aguarda em seu escritório em preto e branco que cheguem as 20 horas. Ele é pontual e exige o mesmo dos outros.

Quando o velho relógio de pêndulo encostado à parede emite a oitava badalada, ele abre a porta que dá para o corredor.

Do lado de fora, o conhecido corredor atapetado de lixo que seria proibido pelas autoridades sanitárias em qualquer país do mundo. Encostados à sua parede, diversos vultos que aguardam em silêncio.

O bravo detetive dá um passo para trás e faz um sinal com a mão enluvada. Os vultos  –  suas palavras-clientes  –  vão entrando, recebendo um cumprimento silencioso da cabeça oculta pelo chapéu.

As palavras se acomodam nas cadeiras e bancos que estão arrumadas em frente à titânica escrivaninha do profissional.

Este tinha pegado emprestados uns assentos extras com a Pizzaria do Porco, poucas quadras adiante. Ele estava com certa pressa, pois o citado Porco, dono do estabelecimento, tinha dito que as cadeiras iam chegar de volta até às dez da noite.

Porco, quando queria, podia ser muito conciso e expressivo.

Assim, X-8 fechou a porta depois que a última cliente se acomodou e começou sem delongas:

– Muito bem, queridas palavras-clientes, aqui estamos na segunda edição de nosso festival “A Noite dos Parônimos”. Caso alguém ainda não saiba o que é isso, este termo
vem do Grego paronymos, “de nome semelhante”, formada por para-, “ao lado”, mais onymos, “nome”.

Trata-se de palavras que se assemelham na escrita e/ou na pronúncia, o que gera nelas muita tensão psicológica e não poucos problemas de personalidade, ao notarem que seus usuários muitas vezes se confundem.

Vamos então começar a ver os casos de cada dupla que veio aqui se informar mais sobre suas origens.

Começando aqui pela frente, vejo estático e extático. Vejam, a primeira vem do
Grego statikos, “o que leva algo a ficar em pé”, de histanai, “fazer ficar de pé”.

O sentido científico de “ramo da Mecânica que lida com corpos em repouso” iniciou em
1802.  O de “eletricidade gerada pela fricção” é de 1839. E o de “ruído de fundo num receptor de rádio” nos vem de 1913. Logo se vê que é uma palavra de muito uso em
Ciência e Tecnologia.

A palavra corou e sorriu modestamente, encabulada.

– Ao seu lado temos extático, também do Grego; originalmente era ekstatikos e queria
dizer “instável, que não se mantém no lugar”, sendo formada por ex-, “fora”, mais o histanai que há pouco citamos.

Depois passou a significar “deslocamento, espanto, entrada em transe”, este sentido
derivando da ideia de “ser deslocado para fora da própria mente”. Uma parente é êxtase, muito usada por poetas de qualidade duvidosa.

Logo atrás vemos, portando um certo ar de culpa, a dupla imoral/amoral. Vamos, pessoal, vocês não precisam ter esse jeito envergonhado, o que vocês representam é feito pelos seres humanos, não por vocês.

Imoral vem do Latim immoralis, formada por in-, “não”, mais moralis, “conduta adequada de uma pessoa em sociedade”, literalmente “relativo aos modos, às
maneiras”, de mos, “disposição própria, tendência, maneiras”.

E sua parceira amoral vem também de moralis, mas com o prefixo  grego negativo  a-,
aqui com o sentido de “sem, desprovido de”. Refere-se a algo ou alguém ética ou moralmente neutro, sem definição nem positiva nem negativa.

Muitas pessoas se atrapalham um pouco ao lidar com essa dupla.

Tocando em assuntos mais materiais um pouco, saúdo aqui o par buxo/bucho. O primeiro designa certo gênero de árvores e arbustos muito usados para cercas-vivas e trabalhos ornamentais. Mas todos que se cuidem: suas folhas e flores contêm um alcaloide purgativo.

Sua origem é o Latim buxus, do Grego pyxos, o nome da planta.

E nosso conhecido bucho parece derivar do Latim musclu, de musculum, “músculo”. A ligação não está clara, talvez se deva a algum romano que queria dizer que aquela sua barriga de cerveja era puro músculo.

Agora, aquelas duas ali sim é que se prestam a confusão, pois a escrita delas é idêntica. Molho e molho… Qual das duas trabalha na cozinha?

Uma delas levantou a mão. A pergunta de X-8 era apenas retórica, pois a palavra portava um avental bastante manchado de tomate.

– Você vem de molhar, “encharcar”, originalmente “tornar macio o pão mergulhando-o em algum líquido”, do Latim mollis, “macio, suave, mole”.

E o outro molho, que se pronuncia com “Ó” aberto, vem do Latim manuclus, de manipulus, “feixe, conjunto de objetos que pode ser agarrado com a mão”, por sua vez de manus, “mão”, mais a raiz de plere, “encher”.

Recomendo aos usuários muito cuidado com a pronúncia, para não se botar o molho  de chaves no macarrão e o molho à Carbonara no bolso.

E olhem ali: apresento uniforme e oniforme.

Esta vem do Latim omniformis, “aquilo que assume todas as formas”, formada por omni,
“todos”, mais forma, “molde, aspecto, aparência”.

E sua companheira vem de unus, “um”, mais forma. Ou seja, o que tem só uma forma,
um só aspecto. Já imaginaram se num exército os soldados resolvessem se vestir cada um de um jeito? Seria o caos.

Para terminar por hoje, já que tenho um compromisso dos mais sérios daqui a pouco com um conhecido empresário da praça, vamos analisar ali descrição e  discrição.

A primeira vem do Latim descriptio, “representação de algo, cópia”, de describere,
“transcrever, contar, esboçar”, formada por de-, “para fora”, mais scribere, “escrever”. E discrição vem do Latim discretio, “discernimento, capacidade de fazer distinções”, de dis-, com a mesma função que de-, mais cernere, “distinguir, separar, peneirar”.

Prezadas clientes, é chegada a hora de cobrar pelos momentos de êxtase e sabedoria que minha presença lhes deu. Passem aqui pela minha escrivaninha e deixem meus
honorários, assim… obrigado, mais um pagamento aqui… obrigado… tome o troco…

Voltem sempre! Cuidem para não escorregar no lixo da escada.

 

Resposta:

Não sossego!

Sabe como é: sou do tipo persistente. Enquanto não encontro o que procuro, não sossego!
Quais as origens de ESCORRAÇAR, ESTROPIAR, OBREIA, ATARRACHAR, TRISCAR, MOLHO (chaves) e DESTARTE?
Att!

Resposta:

1) Controversa.

2) Do Italiano STROPPIARE, “estragar, deformar, mutilar”, talvez do Latim EXTORPIDARE, de EX-, “fora”, mais TURPIS, “sem movimento, deformado”, a mesma origem do nosso “torpe”.

3) Do L. OBLATUS, “oferta”, do verbo OFFERRE, “oferecer, dar”, de OB-, “à frente”, mais FERRE, “levar, portar”.

4) Obscura…

5) Gótico, THRISKAN, “debulhar, trilhar”.

6) L., MANUCLUS, “feixe, punhado”, de MANUS, Mão”.

O resto vem amanhã…

7) De “desta arte”, ou seja, “deste modo, desta maneira”.

Comidas

Parem! Parem! Ai, São Pedro, porque você tinha que fazer chover logo hoje? Por que não no fim de semana? Agora estes capetinhas não podem sair para o pátio no recreio e eu fico com o caos no colo. São Pero Botelho, dai-me um relho!

Quietos! Robertinho, sente! Joãozinho, não abaixe as calças! Pare de olhar com esses olhos arregalados, Joana Beatriz! Zorzinho, pare de escrever, Valesca pare de falar, todos, se possível parem de respirar!

Não deu? Então vamos fazer o seguinte: vamos sentar e falar sobre comida, já que está na hora de comer a merenda mesmo. Você sabia, Leonorzinha, que a palavra arroz, que não pode faltar em nenhuma mesa, vem do Grego oryza, arroz mesmo?

E essa palavra vem do Sânscrito vrihi, com o mesmo significado. Por que essa cara de quem vai vomitar? Ah, você não gosta de arroz? Nem de um bom risoto, que vem do Italiano riso?

Hum, eu acho que os seus pais vão ter que lhe providenciar uma terapia comportamental. Vou falar com eles depois.

Mas então vamos falar daquele companheiro constante do arroz, o feijão. Este nome vem do Latim phaseolus e do Grego phaséolos, ambos significando feijão mesmo.

Hein? Não, Ledinha, os guerreiros gregos não eram fortes porque comiam feijão antes de guerrear, não. Não, meu bem, tampouco foram eles que inventaram a feijoada. Quem a inventou não sei, mas deve ter sido aqui no Brasil mesmo.

Falando em grãos, ocorre-me o milho, cujo nome vem do Latim milium, provavelmente relacionado ao numeral “mil”, pela quantidade de grãos. Se vocês contarem isto em casa, seus pais, que com certeza são muito cultos vão protestar, dizendo que em Roma não havia milho, o qual foi levado da América para a Europa.

Se isto acontecer, expliquem que os romanos aplicavam esse nome a uma outra gramínea, originária da Índia, que os espanhóis hoje chamam de trigo candeal. A palavra milho acabou sendo usada depois para a Zea mays, que é o nome científico do milho que veio do Novo Mundo.

Também temos o trigo, do qual são feitos esses sanduichinhos tão bons que o Soneca e o Artur estão comendo – não, queridos, não era essa a idéia mas, bem, se vocês insistem, não vou fazer desfeita, aceito, sim – esperem que eu engula, é feio falar de boca cheia. Como eu dizia, essa palavra vem do Latim triticum.

Humm, muito bons. Vou aceitar mais unzinho…

Ah, antes que me esqueça: a ervilha vem do Latim ervilla, diminutivo de ervum, uma planta parecida com a atual ervilha, que serve como forragem, isto é, alimento para o gado.

Sim, Valesquinha? Não, não creio que a vizinha de vocês coma forragem. Está bem, a sua mãe pode dizer que ela é uma vaca, mas ela com certeza quer dizer outra coisa. Será que não quis dizer que “Ela comprou uma faca”? Ou “Ordenhou uma vaca”? Ou “Precisou de uma maca”? Com certeza não? Bem, vamos mudar de assunto. De qualquer forma, não repita isso para a vizinha, por favor.

Um prato que costuma acompanhar a comida é a salada. Este nomezinho vem do Italiano insalata, “salgada”, do Latim insalare, de in-, “em”, mais salare, “salgar”. Em Espanhol a palavra mudou menos que no nosso idioma e se diz ensalada.

Tá certo, pessoal, a salada de frutas não é salgada. A semelhança não é pelo tempero, é pela mistura de diversos elementos.

Essa palavra pode ser aplicada também para qualquer conjunto desordenado, como na frase “As crianças fizeram tamanha salada na aula que a pobre professora morreu de desgosto na frente delas e depois do enterro veio puxar os pés delas todas as noites”. Explicar melhor? Ora bem, foi apenas uma frase que me ocorreu. Vamos adiante.

Também podemos comer massa. Esta palavra era massa em Latim, e maza em Grego, onde queria dizer “conjunto, o todo, massa”. Sim, Valzinha, amasso vem daí. Como, o que é “um bom amasso”? Aaah… imagino que deva ser o que o fabricante de talharim faz ao preparar o seu produto, não?

Bem, mesmo que você não acredite em mim, fique quieta e não diga nada à Lúcia aí do seu lado, que quem quer estudar Teologia no futuro não deve aprender certas coisas.

Também podemos comer ovo em diversas formas. Esta palavra tão curtinha vem do Latim ovum – não se mexa, Joãozinho, não diga nada, nem sequer abra a boca! – que era oon em Grego, que veio do Indo-Europeu owyo.

Do ovo podemos fazer, por exemplo, uma omelete. Esta palavrinha vem do Francês omelette, que vem de alemette, que vem de alemelle, “lâmina de faca ou de espada”, que vem de la lemelle, “a lâmina”, que vem do Latim lamella, “prato delgado e pequeno”, que vem de lamina, “camada, prato”.

Pode-se comer ovos Benedict também. Eles são uma entrada com pão, molho e presunto, inventados na Nova Iorque de 1920 para o casal LeGrand Benedict, que pediu alguma coisa fora do cardápio de sempre. Pois na hora foi inventado esse prato. Cozinheiro criativo, esse.

Falando em molho, este vem da palavra “molhar”, pois é isso que ele faz quando é acrescentado a algum prato. E esse verbo vem do Latim molliare, “molhar”, mais exatamente “tornar mole por contato com a água”.

Também podemos comer um bom bife. Tal nome vem do Inglês beef, que veio do Francês boeuf, “boi”. E que, por sua vez, veio do Latim bos, com o mesmo significado, relacionado com o Grego bous, idem.

No fim da refeição muitas vezes comemos frutas. Esta palavra é do Latim fructus, “produto, proveito, fruto” e veio de frug-, raíz do verbo frui, “usar, aproveitar, desfrutar”.

Não se esqueçam que, depois de uma experiência trágica de fazer merenda apenas com frutas, eu proibi terminantemente que esse tipo de alimento seja trazido para cá.

Ainda no outro dia encontrei um resultado daquela infeliz aventura, uma múmia de banana dentro da minha bolsa, quando fui tirar uma lembrancinha para o aniversário de uma amiga.

Imaginem que vexame! Tive que dizer que era uma brincadeirinha e todas ficaram pensando que eu andava saindo com aquele alemão que anda por aí enlouquecendo as senhoras, o Seu Alzheimer.

Em vez de frutas, podemos comer sobremesas várias. Esta palavra se relaciona com o que está “sobre a mesa”.

Sei, Ledinha, que o resto da refeição também esteve “sobre a mesa”, mas os caminhos que geram as palavras às vezes são meio misteriosos. Em Inglês ela se chama dessert, porque é apresentada ao se retirar o material que a antecedeu. Esse é o momento de “retirar o serviço”, ou desservire, em Latim.

Quem gosta de mousse deve saber que essa palavra é francesa e vem do verbo mousser, “espumar, agitar”. Ela é uma espécie de espuma de delícias que a gente come e… desculpem, a Tia Odete se babou. Ou, para ser mais científica, teve um surto agudo de sialorréia.

Pode-se comer um pudim, do Francês boudin, que parece vir do Latim botellinus, diminutivo de botellus, “salsicha”. Calma, Mariazinha, já explico. O significado atual veio de alimentos feitos dentro de tripa ou sacos, como é o caso das salsichas, e que incham, um hábito que os pudins ostentam.

Em vez do pudim, pode-se apresentar uma torta. Esta vem do latim
torta, “pão redondo, bolo achatado”. Uma torta pode ser de diversos tipos, como a torta “afrodescendente portadora de sofrimento psíquico”, antigamente conhecida por “Nega Maluca”.

Bem, crianças, terminou o recreio. Vamos guardar os restos das merendinhas. Depois dos sanduíches que provei, acho que vou fazer a campanha “Traga a Merenda para Professora”. Talvez assim eu engorde um pouco e vocês consigam algum desconto no tempo que vão passar no Purgatório.

Até amanhã.

Resposta:

A Máfia Da Massa

 

O famosíssimo Detetive Etimológico X-8 está em seu escritório. Como sempre, a sala está cuidadosamente suja e desmazelada.

O prédio é pior ainda e o bairro ao redor do prédio, então, nem se fala.

Ele foi apagado do mapa há muito tempo. Os serviços públicos deixaram de ser prestados, pois a prefeitura desistiu e tem feito até sugestões de emancipação. Só que ninguém se arriscou a ser vereador nem prefeito ali, nem mesmo os políticos mais corruptos.

X-8 está com a sua roupa de trabalho: gabardine cor de areia uns dois números maior que ele, chapéu marrom enterrado na cabeça, mal deixando entrever a ponta do nariz.

Esta noite ele está muito pensativo. Começou recentemente a achar que tudo está muito parado na sua vida profissional.

Quer dizer, dos ganhos ele não se queixa, mas as coisas andam meio sem emoção, entende? Uma palavra chega, pede para saber a sua origem, ele depois entrega um papel explicando-a… Qual é a graça? Cadê a emoção?

Será que sempre vai ficar nisso? Foi para isso que ele tanto estudou e lançou um trabalho sério, a ponto de agora não precisar mais fazer propaganda? Faz falta mais adrenalina, alguma coisa que sacuda esta mesmice!

– Mudanças, sensações novas, onde estão vocês? – pensa ele, dramaticamente virando os olhos para o teto escuro e com teias de aranha, mas enxergando apenas a aba do chapéu.

Elas chegam de sopetão, abrindo a porta do escritório, entrando e se espalhando pela sala.

O espanto faz X-8 arregalar os olhos, arrependendo-se mortalmente dos desejos recém-expressos.

Sim, pois quem entrou foi um grupo de sete figuras, todas com gabardines e chapéus enterrados na cabeça, tal como ele. Todas elas estão com as mãos firmemente enfiadas nos bolsos.

Olham ao redor em silêncio e se distribuem pela sala cheia de sombras, como obedecendo automaticamente a um plano.

Um fica ao lado da janela, olhando cuidadosamente para fora; outros dois, junto à porta de entrada, que tinha sido fechada e chaveada assim que entraram; os demais se espalham em leque pela sala. Todos ficam voltados para o detetive sentado, nenhum se colocando numa possível linha de fogo alheia.

X-8 está imóvel, duro, hirto, rígido, o que todos vêem. Também está alvo, pálido, céreo, lívido, o que os visitantes não percebem porque não lhe enxergam o rosto.

Por um longo minuto, aquele que está à frente do grupo o encara. Por um minuto mais longo ainda, X-8 o encara de volta.

Ele faz isso não por querer, mas porque está completamente paralisado.

De repente, o chefe deles faz um gesto com a cabeça e todos começam a abrir as capas ao mesmo tempo.

É agora, pelo visto.

Mais ainda do que sente por morrer tão jovem e com tanta contribuição a dar para o mundo das palavras, ele quer saber por que a Máfia – só podia ser ela – ia liquidar com ele.

Não é à toa que ele é um etimologista: gosta de saber a origem das coisas, mesmo que seja a do seu fim.

Momentos especiais da sua vida passam velozmente pelo seu cérebro: a formatura na Faculdade de Etimologia, na Academia de Detetives, o orgulho dos seus pais, ele brincando com as palavrinhas pequenas da vizinhança, o dicionário que ele rasgou e cujas páginas comeu todas quando era bebê…

As capas terminam de ser retiradas.

Ele vê então que são palavras que entraram ali, e que o estão olhando com indisfarçável admiração.

Ouve a voz cálida e com forte sotaque italiano do que estava à sua frente, percebendo que ele é Vermicelli:

– Que tal, rapazes? Eu sabia que ele era durão! Qualquer um, ao nos ver entrar desse jeito, morreria de susto, gritaria, desmaiaria, tentaria fugir, entraria debaixo da mesa… Mas ele, não! Ficou nos encarando ali com a maior tranqüilidade, sem mexer um músculo. Signor Detetive, piacere di fare vostra conoscenza. Como o Sr. vê, eu sou Vermicelli e quero lhe apresentar a minha turma.

Nesse ponto,eles se adiantaram um a um para apertar a mão de X-8 que, embora sem poder articular um som ainda, pelo menos conseguia erguer uma mão flácida para corresponder aos gentis visitantes:

Fettucini, ao seu dispor.

Cappeletti. É um prazer.

– Eu sou Ravioli, prazer.

– Sou Lasagna, às ordens.

Spaghetti. Piacere.

Rondelli, seu criado.

Apertavam-lhe a mão cortesmente e se afastavam para dar lugar ao seguinte.

Terminadas as apresentações sem que o detetive tivesse emitido um som, Vermicelli disse:

– O Signore já deve adivinhar por que estamos aqui. A gente tem trabalhado muito, somos sempre requisitados por todos. Desse jeito, trabalhando sem domingos nem feriados, conseguimos juntar uma grana para tentar descobrir a nossa origem. Tivemos muito boas indicações suas, e queremos saber se o Signore aceita a nossa causa.

O famoso detetive percebeu que, se tentasse falar, não conseguiria mais que emitir desmoralizantes grasnidos. Limitou-se a apontar, com gesto rápido, um folheto impresso que estava sobre a escrivaninha.

Era a sua lista de honorários. Vermicelli a pegou e abriu.

As sete palavras se reuniram a um canto da sala, em roda. Começaram a olhar o folheto e a falar entre si em voz baixa, citando valores e fazendo contas. A discussão foi subindo de tom; o pessoal começou a se dar cotoveladas e a se estapear nas cabeças, xingando-se em diversos dialetos.

Às vezes paravam e olhavam para X-8, que a essa altura estava novamente horrorizado: do que não seriam capazes aquelas palavras mafiosas quando irritadas assim?

Ele resolveu que, assim que recuperasse o controle da voz, ia oferecer seus serviços de graça. Ele podia suportar um pequeno prejuízo, se era para se livrar daquele risco de envolvimento com o submundo.

Ravioli chegou junto à escrivaninha e perguntou:

– E que desconto o Signore nos dá para fazer um serviço para todos nós? Olha que somos uma freguesia grande, tutti buone parole, eh? Sai um descontinho, no?

O Detetive queria dizer que não, absolutamente não cobraria nada de parole così meravigliose, que seria um prazer, mas seu corpo simplesmente não obedeceu. Congelou-se ainda mais em sua posição sentada na cadeira giratória guenza, como se fosse uma estátua.

Ravioli se afastou e voltou para junto dos outros, desapontado.

Foi a vez de Rondelli falar:

– É, pessoal, ele é duro mesmo. Bem que nos avisaram.

Lasagna falou, do meio do seu cheiro de queijo derretido:

– Acho que não dá mesmo.

– Molto bene, seu X-8, disse Vermicelli, aproximando-se da mesa. Então a gente paga o preço todo, uma taxa individual vezes sete, sem desconto. E eu que pensava que nós da Itália é que sabemos negociar! Mas va bene, a gente entende. Deixo aqui o meu cartão e o Signore nos chama, não é assim que funciona? Aguardamos notícias suas. Grazie pela gentil acolhida!

Tudo o que o detetive conseguiu fazer foi um movimento curto e convulsivo da cabeça, que visto de fora pareceu um gesto frio de assentimento.

E foram saindo, colocando as capas e levantando os chapéus educadamente.

Desceram as escadas cheias de lixo falando de modo animado sobre a frieza impressionante daquele sujeito que nada parecia assustar.

Dava para ver que estavam em boas mãos com um cara competente assim. Alguns até achavam que se tinham arriscado demais, vá que ele puxasse uma submetralhadora Uzi de baixo da capa e acabasse com eles antes de eles poderem se explicar. Achavam que teria sido melhor bater antes de entrar.

Ressaltaram também que ele tinha lidado com um grupo de desconhecidos ameaçadores sem se mexer e inclusive sem dizer uma só palavra. Isso é que era um profissional!

Depois da saída deles, X-8 ainda ficou parado na sua cadeira por vários minutos. Dali a algum tempo percebeu que podia mexer os dedos, depois os antebraços e pernas, e finalmente conseguiu se levantar, trêmulo até à ponta dos cabelos. Dirigiu-se ao frigobar na sala ao lado, os joelhos dando uma curiosa sensação de serem feitos de esponja.

Decididamente, ele precisava de uma bebida forte desta vez.

Está certo, ele tinha feito votos de parar, mas sem aquilo ele custaria muito a retomar a tranqüilidade. Ele precisava disto para poder trabalhar.

Pegou uma lata, abriu-a e derramou o líquido gelado na boca, sentado de novo à escrivaninha, com os pés sobre o tampo, a musculatura ainda contraída.

Sentiu a doçura do leite condensado arranhar a sua garganta. Não se importou; sabia que a ocasião pedia bebida de macho.

Depois de terminar a lata, já mais calmo, e de filosofar sobre a existência de uma divindade que estivesse ouvindo seus pensamentos quando ele estava desejando novas emoções e lhe tivesse aprontado aquela, levantou-se e foi fazer as suas pesquisas.

Horas depois, arrancou a última folha de papel da máquina de escrever antiga e o guardou num envelope. Por alguns dias os escritos ficaram na gaveta. O conteúdo deles era:

VERMICELLI

Esta palavra em Italiano quer dizer “vermezinhos”, e se refere à forma da massa.

Do Latim VERMIS se fez também a palavra vermelho, pois a cochonilha, inseto do qual se retirava o material para fazer este pigmento, era chamada de “vermezinho” pelos romanos.

A vermiculita é um mineral composto por restos fósseis de animais marinhos, usada como material de construção ou decoração.

Um vermífugo é um medicamento que se usa para tratamento de infestações humanas ou animais por vermes.

Poucos sabem, mas vermilíngüe é um animal cuja língua lembra, pela forma e pela mobilidade, um verme. Essa língua tem a função de ajudar na captura de alimentos, e um exemplo de usuário é o nosso tamanduá.

E o vermute? Não tem a ver com o verme, não! É do Alemão wermuth, “losna”. Essa palavra era formada por wer, “homem” e muth, “coragem”. Ou seja, era preciso ser macho para agüentar o chá da erva, tão amarga que é.

LASAGNA

Aportuguesada para lasanha, vem do Latim lasanum, “panelão para cozinhar”, se bem que também designava “urinol”. Certamente que eram usados vasos distintos para cada fim.

CAPPELLETTI

Há quem escreva capelete em Português, mas fica muito feio.

O nome vem do Latim Medieval cappellus, “chapéu”, derivado de caput, “cabeça”. As massas, dobradas ao redor de um pouco de recheio, têm a forma aproximada de um chapéu.

De caput se originaram numerosas palavras com significados diferentes, como veremos.

Capitão: era o “cabeça” de um grupo de guerreiros.

Chefe: com uma modificação sonora bem maior, gerada pela sua passagem pelo Francês, também lembra o seu papel de “cabeça” de uma organização ou empreendimento.

Capital: pode-se dizer que administrativamente é a “cabeça” de um país, província ou estado.

Capitólio: era o templo de Júpiter na parte mais alta de uma das sete colinas de Roma, que por isso foi chamada de Capitolina.

Capa: antigamente era uma peça de roupa para proteger contra a chuva que tinha um capuz, palavra que também descende de caput.

Capela: era uma pequena construção junto a uma igreja, feita para guardar uma relíquia sagrada, a capella (pequena capa) de São Martinho.

Escapar: sim, até esta palavra é parente de Cappelletti. Um homem que esteja tentando fugir e quase é apanhado pode deixar a capa nas mãos dos perseguidores e seguir adiante: ele ficou ex cappa, “fora da capa”.

FETTUCCINI

Esta palavra designa uma massa cortada em tiras, fettuccia em Italiano.

Note-se que fettuccini é um diminutivo de outro, pois fettuccia já é um diminutivo de fetta, “tira, fatia”. E esta palavra vem do Latim offa, “bocado, grumo, bolota de comida”.

RONDELLI

Vem do Latim rotundus, “redondo, circular”. Em Italiano, “redondo” é rondo. Rondelli é o diminutivo plural.

Rotundus também queria dizer também “perfeito, completo”. Eis aí porque dizemos que alguém que discorda de nós está – claro! – “redondamente enganado”.

O nome foi dado a estas massas devido à forma circular que elas têm vistas de cima.

RAVIOLI

Este nome vem do Italiano rava, que veio do Latim rapa, que quer dizer “nabo”.

Todos estranharão o que é que o alimento tem a ver com o sabor do nabo. Para nossa tranqüilidade, nada. Consta que o nome veio foi de certa semelhança da massa com as raízes achatadas da planta.

O nome científico do nabo é Brassica rapa. Além de ser consumido pelos humanos, serve de forragem para o gado.

SPAGHETTI

Esta palavra vem do Italiano e é um diminutivo de spago, “corda, fio”. Em Latim era spacus. O nome foi dado pela semelhança física, como em outros casos.

Como se vê, os italianos têm tanto carinho pelas massas que preparam que as tratam quase sempre no diminutivo, como se fossem seus animaizinhos de estimação.

Acrescentamos, como um brinde especial, totalmente sem ônus, aos nossos nobilíssimos e seletos clientes, a origem de algumas palavras a eles relacionadas por parentesco ou por atividade profissional:

MASSA: do Grego máza, “pasta, massa”.

Em Português é o nome genérico para o tipo de alimentos de que estamos tratando, todos sem dúvida de importância ímpar na gastronomia mundial.

No Espanhol usado na região do Rio da Prata, no entanto, usa-se masas para doces de pastelaria. Assim, pedir “Un té com masitas” é pedir chá com docinhos e não um chá com lasanha.

Massa, com a acepção de “volume de gente, conjunto grande de pessoas”, está em uso pelo menos desde a Idade Média.

Uma advertência : o verbo massacrar não significa “derrotar o inimigo servindo-lhe massa mal feita”. Esta palavra não tem parentesco com massa. Vem do Latim mattea, “maça, cacete, martelo grande”. Estes são objetos que muitas vezes, ao longo da História, foram aplicados de forma brusca nas cabeças alheias para combater pessoas pelas quais não se nutre especial afeto.

Em Espanhol e em Italiano, a palavra usada para tão nobre alimento é…

PASTA: do Grego pasté, do Latim pasta, “farinha amassada com outros ingredientes”.

Essa palavra passou a designar qualquer coisa que tivesse o aspecto de coisas de consistência não sólida misturadas.

Uma delas é o material usado para aumentar a consistência do papel, transformando-o em cartão ou papelão; deste eram feitas folhas grandes que, dobradas, serviam para guardar documentos e papéis diversos para evitar que amassassem.

Mais tarde, esses porta-papéis passaram a ser feitos em couro, tecido, nylon e a ter fechos e divisórias, mas mantiveram o nome “pasta”.

Inclusive ele é usado para designar um cargo elevado, como em “A pasta da Agricultura irá para…”, numa referência ao nome do objeto que guarda documentos importantes.

MOLHO: é absolutamente fundamental. Pode-se dizer que é a alma da massa.

Vem do verbo molhar, por sua vez do Latim molliare, “amolecer misturando com água”. E molliare vem de mollis, “macio, mole”.

Dali a dez dias, na hora que havia marcado laconicamente por telefone, X-8 recebe novamente os sete mafiosos. Ou massosos, não sabe bem.

Eles entram já de chapéu na mão, depois de se anunciarem aos brados, ainda do lado de fora da porta. Aliás, encostados à parede, não fosse um tiro atravessar a dita cuja.

X-8 agora sabe como eles são, veramente tutti buone parole. Mantém sua pose gélida, estendendo uma mão para receber a grana indecente que eles estão pagando e entregando um envelope pardo com a outra.

Vermicelli faz o pagamento e pega o envelope.

Instantaneamente, os outros se atiram para ler o conteúdo, o que gera uma confusão de socos, tapas, cotovelaços e palavrões.

O detetive se ergue de sua cadeira e os fita, calado e imóvel. Os sujeitos de gabardine percebem isso e param com o engalfinhamento. Desmancham-se em desculpas.

Começam a sair depois de lhe apertarem a mão um por um, com agradecimentos efusivos. Retiram-se com mesuras, o último fechando a porta cuidadosamente atrás de si.

X-8 cola o ouvido na porta, em meio ao cheiro de molho que os visitantes deixaram pairando em seu rastro, para escutar. Percebera que as palavras não conseguiam se conter e estavam lendo o texto ali mesmo no corredor. Ouve exclamações de agrado e surpresa, todas muito gratificantes para quem trabalhou duro como ele.

Quando chegam à parte em que se fala em Pasta, então, percebe que as vozes deles estão embargadas de emoção. A voz de Spaghetti diz:

– Ah, la Nonna!

– Cara Vecchia! – exclama Rondelli.

– Nonnina mia! – diz Cappelletti.

– Mais mia que tua ! – resmunga Ravioli.

E começam de novo aos socos e joelhaços, discutindo de quem é a avó enquanto descem as escadas mal iluminadas.

Da janela, X-8 os observa na rua abaixo. Pararam de brigar. Um deles vai relendo em voz alta o precioso papel para os outros, que estão encantados.

Mais um caso resolvido, mais palavras satisfeitas, mais uma grana para o corajoso detetive, que agora se dá perfeitamente por satisfeito de passar o resto da vida na velha e morrinha rotina de sempre.

Resposta:

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!