Palavra eminência

A NOITE DOS PARÔNIMOS

Edifício Éden, no bairro mais imundo da cidade, um bairro que não só era a vergonha do município como do país inteiro, cujo governo nega terminantemente a existência daquele buraco negro social.

O corredor coberto de lixo do terceiro andar está movimentado. Uma fila de palavras, dispostas aos pares, está se dirigindo ao fundo dele, onde há uma placa de latão polido que diz apenas “X-8”.

Vão entrando e se acomodando em banquinhos e caixotes de madeira arranjados para a ocasião.

O que é isso? Ah, hoje é a Noite Coletiva, uma especial oferta do bravo Detetive das Palavras. Ele cobra uma taxa mínima de cada palavra e lhes dá orientação etimológica rápida.

Especificamente, a Noite é dos Parônimos. O detetive é bom de marketing.

Acomodadas as palavras, X-8 bate à sua escrivaninha com um enorme martelo de borracha, daqueles de soltar pneu do aro da roda.

Ele lhe tinha sido emprestado pelo Zé das Peças, que se orgulhava de ter em seu estoque peças usadas de qualquer tipo de automóvel. Se não tivesse na hora, nuns três dias ele garantia que achava uma. Bons serviços!

– Muito bem, pessoal, vamos sem delongas proceder à nossa sessão. Aqui na frente estou vendo este simpático par de parônimos… mas antes vou explicar a origem desta palavra. Ela vem do Grego paronymos, “de nome semelhante”, formada por para-, “ao lado”, mais onymos, “nome”.  São palavras semelhantes na escrita e/ou na pronúncia.

– Voltando,  temos eminência e iminência. A primeira  –  curvou-se em sinal de respeito  –  vem do Latim eminens, de eminere, “projetar-se, destacar-se”, que se forma de ex-, “fora”, mais minere, relacionado com mons, “colina, monte, montanha”.

– O sentido de elevação física passou metaforicamente ao de destaque por sua posição ou cargo. Oficialmente é a forma de tratamento reservada aos cardeais da Igreja Católica.

A palavra se ruborizou modestamente, enquanto as outras a olhavam com admiração.

– E a nossa amiga ao lado dela ali, embora com um sentido que parece bem diferente, o de “fato que ameaça se realizar de imediato”,  é uma parenta bem próxima.

– Deriva de IN-, “em, sobre”, mais o tal  minere. Imminens era “o que pende sobre, o que está bem perto”.

As duas palavras ficaram muito contentes.

– Ao lado delas, temos a dupla meio astronômica comentário/cometário. A primeira que citei vem do Latim commentarius, “diário, caderno de anotações”, de commentum, “invenção, ficção”,  do verbo comminisci, “falsificar, fraudar”, formado por com-, aqui com sentido intensificativo, mais meminisci,  “lembrar-se”, que tem relação com mens, “mente”.

– Os romanos eram espertos, sabiam que muitos diários e anotações  eram na verdade mais criativos do que pretendiam ser.

– Já cometário tem uma origem absolutamente diferente, apesar de ter apenas uma letra de diferença.

As palavras se inclinaram para a frente. Elas são loucas por saber informações sobre as origens, próprias e alheias.

– Pois vejam, ela vem do Grego kometés, “de cabelo longo”, de koma, “cabeleira”. Claro que os antigos se referiam a uma estrela de cabelos longos, uma imagem extremamente poética.

A audiência murmurou a sua aprovação.

– Vejo ali no fundo umas conhecidas que trabalham bastante na área jurídica. Eis retificar e ratificar.

– Esta vem do Latim ratificare, “aprovar, confirmar”, de ratus, “válido, fixo, aprovado”.

– Como? Não, não! Rato não tem nada a ver com isso! O nome desse roedor vem do Latim rattus; é escrito diferente, com dois “t”.

– O final dessa palavra é da raiz do verbo facere, “fazer”. Ou seja, ela quer dizer “fazer ou tornar confirmado, de acordo com o que se deseja”.

– E a primeira veio de rectus, “reto, direito”, que passou para o Latim de uma fonte Indo-Europeia reg-, “mover em linha reta”.  Acrescentando a mesma raiz de facere, temos o significado de “emendar, corrigir, endireitar o que não estava de acordo”.

– Ora vejam, aqui se encontram deferir e diferir. Como vão? Você, deferir, nos veio do Latim defferre, “levar para outro lugar, conceder, outorgar”; atualmente com o sentido de “dar despacho favorável a, conceder, dar” e que se forma por de-, “para fora”, mais ferre, “levar, deslocar, transportar, mover de lugar”.

– E seu parceiro aí do lado veio de differre, “discordar, colocar de lado, opor-se”, formado por dis, de sentido negativo, de oposição, mais o já conhecido ferre. Hoje, além de querer dizer “discordar, não estar em harmonia”, tem o sentido de “passar para outro dia, adiar”.

– Bem, pessoal, hoje a gente começou tarde e a porta do edifício está por ser fechada lá embaixo. Como tudo por aqui é muito perigoso, eu é que não vou descer junto com vocês para  abri-la. Desta forma, vamos encerrar a sessão e combinar outra, para quem não foi atendido ainda poder descobrir as suas origens. Tragam outras conhecidas. E não se esqueçam de avisar que o pagamento é adiantado.

– Boa noite para todas!

Resposta:

OCULTOS

Desde seu início, a Humanidade tem escondido coisas. De pequenos fatos a situações comprometedoras e tesouros, o ser humano tem demonstrado um talento enorme para ocultar o que não quer que os outros saibam.

Uma prova desta tese é o número de palavras relacionadas a esta atividade.

OCULTAR – vem do Latim occulere, “cobrir, disfarçar, esconder”, do Indo-Europeu kel-, “esconder”.

Passou a ser relacionado com matérias ligadas ao sobrenatural, como Alquimia, Magia, Astrologia, a partir do século 17.

ESCONDER – do Latim abscondere, “disfarçar, esconder, fazer desaparecer”, formado por abs-, com idéia de “afastamento”, mais condere, “reunir, juntar”.

E este condere, por sua vez, se forma de com-, “junto”, mais dare, “dar”.

Um sinônimo pouco conhecido de escondido é absconso, que tem exatamente o mesmo significado mas serve para embasbacar os incautos com a cultura do orador ou escritor.

MÁSCARA – esse objeto que serve para disfarçar o rosto nos inocentes folguedos carnavalescos do tríduo momesco não tem um étimo perfeitamente definido. Veio do Italiano maschera, que se propõe tenha derivado do Árabe maskhara, “bufão, palhaço”, do verbo sakhira, “ridicularizar”.

COBRIR – do Latim cooperire, “tapar com algo”. Este verbo se forma de com-, intensificativo, mais operire, “fechar, tapar”, que vem do Indo-Europeu wer-, “fechar, cobrir”. Desnecessário dizer que encobrir vem de cobrir.

DESAPARECER – forma-se do Latim dis-, “o oposto de”, mais apparere, “surgir, aparecer”. E este verbo é uma combinação de ad-, “a”, mais perere, “ser visível, vir à frente”.

ANÔNIMO – vem do Grego a-, “sem”, mais onoma, “nome”. Uma carta anônima é aquela cujo autor não se identifica.

Há autores de sites culturais na Internet que preferem ficar anônimos para não serem perseguidos pelas multidões de fãs nas ruas.

INCÓGNITO – vem do Italiano incognito, “desconhecido, não-identificado”, no início especialmente relacionado a viagens feitas desse modo.

Deriva do Latim incognitus, formado por in-, “não”, mais cognitus, particípio passado de cognoscere, “conhecer, saber”.

É comum uma estrela de cinema colocar óculos escuros enormes que chamam bem a atenção e ir fazer compras para ser descoberta pelos fotógrafos e reclamar, dizendo que queria passear incógnita.

IGNOTO – não se trata de algo disfarçado, mas que não é conhecido mesmo. É praticamente sinônimo do verbete anterior e vem ignotus, “desconhecido”, de in-, “não”, mais gnoscere, “saber”.

DISCRETO – às vezes a pessoa que não quer aparecer faz tudo sem alarde. A discreção que ela usa vem do Latim discretio, “separação, distinção”, do verbo discernere, “separar, distinguir”, formado por dis-, “fora, embora”, mais cernere, “separar, peneirar”.

SECRETO – vem do Latim secretus, “escondido, retirado, colocado à parte”, particípio passado de secernere, “colocar de lado, apartar”. Forma-se por se-, “sem, de lado, à parte”, mais o cernere citado no item acima.

Daí deriva secretário, “pessoa a quem se confiam segredos”, pois estes normalmente estão a par dos podres dos patrões, sejam estes ministros ou comerciantes.

SUB ROSA – expressão latina que se usa como sinônimo de “em estrito segredo”. Uma explicação sobre sua origem é de que Eros (Cupido entre os romanos) teria dado a Harpócrates uma rosa para lhe garantir o silêncio sobre certos deslizes de mamãe Vênus.

Essa flor era esculpida nos tetos de muitos salões de banquete em vários países da Europa, para lembrar que o que era ali falado sob a influência do álcool não deveria ser repetido fora. A História nos mostra que essa idéia não deu muito certo.

Muitos confessionários ostentam uma rosa por esse motivo.

CRÍPTICO – é uma palavra que vem do Grego kryptos, “escondido”. É um adjetivo muitas vezes aplicado ao que a gente não entende (texto, obra de arte), para dizer que aquilo é complicado demais para a nossa cabeça.

Às vezes a gente não entendeu mesmo, mas de tão mal feita que é a coisa.

PRETEXTO – esta palavra parece não caber aqui nesta coleção de termos relacionados a “esconder”, mas em sua origem tinha tudo a ver.

Ela vem do Latim praetextus, particípio passado de praetexere, “cobrir, tapar, disfarçar”, formado por prae-, “à frente, sobre”, mais texere, “tecer”, com a idéia de “colocar um pano sobre, cobrir”. Isto é, tapar a verdadeira intenção de quem age.

EMINÊNCIA PARDA – esta expressão se refere àqueles que dirigem das sombras uma organização, um partido, etc. Não aparecem para o grande público, mas são os que determinam o que vai acontecer, às ocultas.

Ela deriva do apelido de François Leclerc du Tremblay (1577 – 1638), um Capuchinho que agia como conselheiro do Cardeal Richelieu, que tanta importância teve na história francesa da época. Sua influência lhe valeu esse apelido, “Eminência” em referência ao tratamento dispensado a um Cardeal, e “parda” devido à cor do hábito da Ordem.

Na realidade, a expressão em Francês é “Éminence Grise”, e em Inglês, “Grey Eminence”; pelos vistos, a cor cinza acabou mudando para parda em nosso idioma.

E agora vamos nos ocultar até a próxima edição.

Resposta:

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!