Palavra gnomos

Duendes, Etc.

Meu avô estava no seu gabinete forrado de livros, fazendo coisas misteriosas com pequenos objetos que residiam em suas gavetas, como sempre que não estava lendo ou ao computador.

Eu tinha meus catorze anos e éramos muito amigos há tempo. Bati à soleira da porta e o cumprimentei. Encostei-me à mesa dele e disparei:

– O senhor acredita em duendes, Vô?

– Mas e essa agora, rapaz? É besteira ou é piada?

– Ué, a Tia Beth acredita! Pois ela tem um adesivo no carro que diz isso; eu perguntei se ela acreditava mesmo e ela fez uma cara muito sábia e disse que sim. Acho que ela não estava brincando.

O velho revirou os olhos claros para cima e bufou, indignado:

– A sua tia acredita em muitas coisas. Mas ela certamente tem muita companhia. Há milhares de pessoas nesse deserto intelectual aí fora que crêem em coisas desse estilo, para alegria dos fabricantes de estatuetinhas e figurinhas e cartazinhos do gênero.

Trouxa fui eu, que não comecei a tempo a escrever histórias e fazer desenhos sobre o assunto. Agora o mercado já se saturou, senão eu poderia ganhar dinheiro. Recursos para empulhar os outros não iam faltar na minha cabeça!

– E por que essa gente acredita tanto assim? Deve ser verdade, senão…  –  eu me fazia de bobo para provocar o velho, que rosnou:

– Parce mentira, mas em pleno século 21 estamos às voltas com noções que predominavam na Idade Média, recebidas dos tempos das cavernas, quando o Homem tinha um entendimento confuso dos fatos do mundo natural e os explicava como podia.

Esses duendes de que você fala, por exemplo, têm o seu nome atestado desde o século 11; a palavra é de origem espanhola, da expressão duendecasa, que veio de dueño de casa, “dono de casa”, e se referia a um espírito doméstico folgazão, que vivia fazendo travessuras e aprontações de todo tipo para os habitantes da casa: vasilhas entornadas, porta do galinheiro aberta, chão escorregadio, etc.

– E os gnomos, Vô?

– Esses eram espíritos miúdos que viviam dentro da terra. Andam nas histórias desde o século 16, quando Paracelso descreveu os pygmaei ou gnomi, minúsculos seres subterrâneos elementares. A palavra tem duas origens possíveis: ou vem do Grego gnomos, “habitante da terra”, de , “terra”, mais um sufixo de “habitante”, ou vem mesmo de gnomon, relativo a gignoskai, “vir a saber”.

Foi na Alemanha que primeiro foram feitos gnomos de pedra para enfeitar os jardins. Atualmente, na França, há grupos que se dedicam à libertação desses anãozinhos de jardim. Costumam entrar nos jardins alheios, roubar as estátuas e levá-las para floresta, onde as deixam em liberdade.

– Mas que idéia, Vô!

– E fazem comunicados, panfletos e tudo. Qualquer dia vamos ver surgir por aí o Movimento pela Liberação do Bonsai. Prepare-se.

– Também vi adesivos sobre bruxas.

– Ah, é. Agora algumas pessoas se intitulam assim, com o maior orgulho. Fizessem isso na época da Inquisição e o resultado seria outro.

Essa palavra não tem origem bem definida. Sugere-se que venha do Latim antigo broscia, talvez relacionado com o Frâncico brosser, “correr pelo mato ralo”.

– No outro dia li sobre uma vela que estava bruxuleando. Será que havia uma bruxa assoprando?

– A origem é outra; vem do Espanhol brújula, “bússola”. Bruxulear inicialmente queria dizer “descobrir os valores das cartas no jogo”. Só depois foi que adquiriu o significado de “chama trêmula”.

– E feiticeira é a mesma coisa que bruxa?

– Ao que tudo indica, sim. A palavra foi feita a partir do Latim facticius, “não pertencente ao mundo natural, artificial, imitação”, do verbo facere, “fazer”.

É interessante saber que a palavra feitiço foi levada para a África pelos portugueses e de lá voltou para a Europa com os franceses, como fétiche, nosso atual “fetiche”.

– Quando eu era pequeno se fez uma festa de Halloween no coleginho e um colega meu apareceu vestido de elfo. Pelo menos era o que ele dizia. Esses de onde vêm?

– Quando eles aparecem nos nossos colégios, vêm da ganância do comércio, que quer nos empurrar as festas e tradições de outros países de cultura muito diferente da nossa para poderem vender mais e mais – o Avô estava indignado.

Veja: estes eram seres sobrenaturais com especiais poderes pertencentes ao folclore germânico. O nome deles deve vir do Indo-Europeu albho-, “branco”.

Integram as histórias populares da Inglaterra e, por conseqüência, dos Estados Unidos. Daí a quererem trazer para nós os elfos, é demais. Nem creio que eles gostassem de se instalar por aqui; devem estar mais acostumados ao frio.

– E as fadas?

– Pelo menos o nome delas vem do Latim, de fata, “fados,destinos”. Andam citadas nas histórias desde o século 12. Em 1599 foi que se citou pela primeira vez o “anel de fadas”, que as pessoas encontravam seguido no chão lá pela Inglaterra e que chamavam de fairy ring.

– Que bobagem, né, Vô?

– Pois não era. A história até é bem bonita e a explicação, interessante. O tal “anel” é um espaço redondo no chão das florestas,  rodeado por cogumelos, no qual não cresce nada. Dizia-se que, se uma pessoa se escondesse perto de um deles, à noite veria as fadas se reunirem para dançar ai dentro. Essa era a razão de não crescerem plantas ali: os pezinhos das fadas pisoteavam tudo.

Mais tarde, os naturalistas estragaram tudo explicando que aqueles cogumelos extraíam os nutrientes da terra, no aglomerado inicial, e por isso passavam a crescer só nas bordas do círculo. Pena, né?

– É mesmo. No outro dia o meu amigo Cesar me falou no chupacabras com uma naturalidade que me assustou. O que é isso exatamente? Mais uma coisa que não existe, claro.

– Existe. Está registrada em livros e tudo. Mas foi vítima da fantasia humana e virou, dentro da imaginação, algo completamente diferente.

Na América Central e sul da América do Norte existe um pássaro insetívoro de uns 25 centímetros de comprimento. Ele é um caçador crepuscular e gosta de entrar nos estábulos e cercados onde se encontra o gado para catar os insetos que costumam se encontrar em abundância no pelame dos bichos.

Essa mania de andar bicando os outros – aliás, prestando um valioso serviço – fez com que surgisse a lenda de que o pássaro estava mamando nas cabras. Os nativos lhe puseram o nome chotacabras, de suctare, “sugar” em Latim.

Em Português o nome pasou para chupacabras e se fez a imagem de um monstro que sugava não o leite mas o sangue dos pobres caprinos. E aí se passou a enxergar e descrever os monstros mais horrorosos. E agora temos um ser fantástico completamente novo em nossas matas.

– Tudo isso por causa das palavras, Vô?

– Você ainda não imagina o poder delas. Quer mais um exemplo? Aquele sujeito que pela primeira vez viu os tais de discos voadores, em julho de 1947, não os descreveu com formato arredondado e sem asas como todos passaram a imaginar e enxergar depois. O que ele disse é que “eles tinham asas curtas e balançavam ligeiramente ao se deslocarem, como um pires atirado a rodar”.

Portanto, o que havia de disco (ou pires, saucer em Inglês) neles era a oscilação em movimento e não a forma. Mas, a partir daí, a imprensa e os vivos tomaram conta dos taís veículos voadores e a população do planeta passou a acreditar nas tais naves redondinhas da silva.

Aprenda, rapaz: nenhum duende tem poderes que cheguem perto da palavra. Domine-a e você terá uma grande força.

Resposta:

A Fala

Crianças! Quietos, todos!! A turma hoje está incontrolável. Valzinha, pare de falar. Val, eu já disse… Muito bem, você pediu. Meninos, amarrem a Val na cadeira e passem-lhe uma mordaça na boca. Assim… isso… Cuidado para não machucar. Bem. Aaahh… Não é melhor, um pouco de silêncio?

Já que tivemos problemas com a fala, nada mais justo que hoje a gente aproveite para lidar com a origem de algumas palavras ligadas à comunicação.

Por exemplo, “falar” vem do Latim fabulare, que vem de fabula, que quer dizer “rumor, diz-que-diz, conversa familiar, lenda, mito, conto”. Atualmente, se usa em Psiquiatria o termo fabulação, significando uma grande produção de palavras com pouco conteúdo. É um sintoma mais comum do que se pensa.

Quando uma pessoa fala, ela está se comunicando. Esta palavra vem do Latim communicare, “usar em comum, partilhar”. No caso, ela está partilhando – sejam de interesse ou não – informações.

E esta palavra vem também do Latim, de informare, “modelar, dar forma”, de in mais formare, “formar”. Daí surgiu a conotação de “formar uma idéia de algo”, que passou depois a “descrever” e mais tarde se generalizou em “contar algo a alguém sobre alguma coisa”. Às vezes a gente tem que ouvir cada coisa que não interessa sem poder fazer nada…

Hein? Não, senhores! Tudo o que eu digo aqui interessa muitíssimo a Vossas Senhorias! Talvez, quando vocês forem fazer o Vestibular, já se exija Etimologia como matéria básica para entrar em qualquer Faculdade. Se eu estiver viva até lá, ou seja, se vocês não me causarem um infarto em plena aulinha, ainda podem me encontrar num cursinho pré-vestibular ou fazendo as questões para a prova.. Portanto, é bom prestarem muita atenção.

Tá bom, tá bom, a Titia já está mais calma. Obrigada pelo copo dágua, Humbertinho.

Vamos continuar: às vezes, a gente comunica conhecimentos, tal como eu vivo me sacrificando para fazer com vocês, bando de ingratos.

Esta palavra vem de uma base Indoeuropéia gn-, que gerou, em Grego, gnosis, “conhecimento” e seus derivados. Gnóme significava “razão, entendimento”. Um sujeito chamado Paracelso mais tarde daria esse nome a entidades espirituais ligadas ao conhecimento, daí o nome dos gnomos, seres que andavam pela floresta assombrando as pessoas e provavelmente levando a culpa por malfeitorias bem humanas.

Temos mais derivados importantes dessa raiz. Um deles é diagnóstico, de dia, “através” e gignósko, “conhecer, saber”. O nome de uma doença é descoberto “através do conhecimento”, após avaliar os sinais e sintomas.

Usa-se muito também a palavra prognóstico. Esta vem de pro, “antes” mais gignósko. Significa “saber antes, prever”. Por exemplo, eu faço os prognósticos mais horrendos sobre o futuro de crianças que não querem estudar e nem sequer se comportam bem em aula. Tomem o exemplo do Soneca, ali: ele nunca estuda, mas em compensação dorme o tempo todo e não incomoda. O único problema é acordá-lo no fim do horário para ele poder ir dormir em casa.

Em Latim, essa raiz gerou noscere, “saber, conhecer” (mais para o lado de conhecer). Daí temos, por exemplo, cognição, “conhecimento, ato de saber”, coisa que faz falta a muito aluninho meu que não se aplica bem nos estudos.

Temos também incógnito, de in, partícula negativa, e cognito, conhecido. Uma pessoa incógnita é uma pessoa que passa despercebida. Tipo estrela de cinema que chega de óculos escuros e peruca numa baita limusine cercada de seguranças porque não quer ser reconhecida nem incomodada ao fazer suas compras.

Ignorar tem a mesma origem; quer dizer “não saber”. Coisa feia, uma criança não estudar direito e acabar sendo um adulto ignorante. E não esqueçam: não há prova mais concisa de ignorância do que xingar outra pessoa de inguinorante, como eu já vi acontecer.

Um desaforo que agora está fora de moda é néscio. Isso quer dizer “aquele que não sabe”, do Latim ne, “não” mais scio, de scire, que é mais propriamente “saber”. Ou seja, se algum dia eu chamar algum de vocês de néscio, podem chorar.

Às vezes, uma pessoa desfia uma conversa sem parar. Na verdade, ela não está conversando, está monologando. Conversari, em Latim, queria dizer “viver em companhia, freqüentar” – ou seja, exige um intercâmbio entre as pessoas. Já monologar vem do Grego monos, “um” e legein, “falar”. Indica uma única pessoa falando.

Muitas vezes se usa a comunicação para difundir idéias. Essa palavrinha vem do Latim di, “embora, para longe, afastado” e fundere, “derramar, verter”. A palavra transmite a idéia de espalhar um líquido. Este fundere, aliás, originou, por exemplo, fútil; originalmente, futilis significava “derramamento, gotejamento”. Acabou tendo o sentido de “leviano, vão”, provavelmente da noção de que apenas secar o chão quando se tem uma goteira em casa não resolve o problema.

Outro derivado de fundere é o uso da palavra fonte para os tipos de letra que a gente usa em tipografias ou no computador. Elas eram fundidas em metal, por isso receberam esse nome.

Transfusão também tem essa origem: vem do Latim trans, “através, cruzando, de um para outro lado” e fundere, isto é, “derramar de um para outro”.

E quando a Tia Odete conta essas coisas para os aluninhos que ela adora mas que gostaria de estrangular quando estão agitados, está usando uma palavra que vem do Latim computare. Por sua vez, ela é formada de com, “junto” e putare, “supor, imaginar, fazer estimativa”. QUIETOS!! Parem já com esses sorrisinhos tortos! Cabeças sujas! Indecentes! Parem de pular e deixem-me contar direito…

Por exemplo, existe o que se chama de legítima defesa putativa, alegada quando uma pessoa acha que vai ser agredida por outra e a agride antes. É uma defesa a uma agressão suposta. Ai, meu santo, por que é que fui entrar nessa! Desçam das mesas e das cadeiras!

Já vi que não adianta mais tentar por hoje. Vamos encerrar a aula. Mas antes, ajudem-me a desamarrar a Valzinha, que está toda roxa, coitadinha. E um de vocês acorde ali o Soneca, por favor. Da próxima vez, cada aluninho vai trazer um comprimidinho de Dienpax para que possamos ter uma aula tranqüila. Até lá.

Resposta:

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