Palavra pente

Higiene

Arturzinho, que porquice! Você está coberto de areia! Mas o Robertinho ali não fica atrás. E quem foi que encheu de barro os óculos do Zorzinho? Assim ele não pode escrever.

Mariazinha, Sidneizinho, Joana Beatriz, Lúcia, todos sujos com apenas meia hora no pátio. É inacreditável a afinidade que as crianças têm com a sujeira de todos os tipos. Inclusive a da cabeça, viu, Joãozinho?

Só quem não se sujou hoje foi o Soneca, bendito seja, porque está dormindo desde que entrou na sala, e a Maria Tereza, que é bem-comportada e não faz bagunça.

Oh, Higéia, dai-me ajuda! Como? Não, não é uma professora nova, não. Ela era uma filha de Asclépio, o deus grego da Medicina, e era considerada a personificação da boa saúde. Do nome dela derivou a palavra higiene, pois os antigos já percebiam que a limpeza corporal tem muito a ver com a saúde em geral.

Já que falamos nela, vamos ver umas palavrinhas associadas com o assunto, enquanto eu tento tirar o pior do cascão de vocês, para evitar que os pais nos processem.

Credo, Lúcia, você vai gastar litros de shampoo para tirar esse chiclete do cabelo. Sabia que essa palavra, pelas nossas regras, se escreve xampu? Fica esquisito porque os frascos nas prateleiras são sempre escritos na forma inglesa, para dar mais charme.

Foram os ingleses, durante o seu domínio na Índia, que trouxeram essa palavra. Em Hindi, ela é champo, imperativo de champna, “apertar, amassar, massagear”, que é a forma de se usar esse sabão líquido.

Não, Joãozinho, você não vai champna nenhuma das meninas, não senhor! Sente-se ali e fique quieto.

Vou passar apenas uma toalhinha molhada no seu rosto cheio de sorvete derretido, Artur. Depois um bom sabonete resolve tudo.

O nome deste produto veio de um diminutivo francês de sabão. E este veio do Latim sapo, “sabão”, que veio de uma palavra germânica saipo-, “material para lavar ou tingir o cabelo”. Daí veio o Inglês soap, que não tem nada que ver com sopa, Robertinho. Hã? Não, meu filho, a expressão soap opera que você viu num filme não era sobre uma ópera cantada por sabonetes. Esse é o nome que os americanos dão às novelas de TV porque elas costumavam ser patrocinadas por fabricantes de sabonetes, nos seus primórdios.

Como é, Lúcia? Você não está escutando direito? Deixe-me olhar… Quem foi que enfiou migalhas de pão nos ouvidos desta pobre inocente? Depois tentaremos descobrir o criminoso. Agora vamos dar trabalho ao cotonete. Saibam que cotonete não é um nome, é a marca de um produto e que vem do Inglês cotton, “algodão”, que vem do Árabe qutn, talvez de origem egípcia. Deram esse nome porque as pontas são de algodão e é um objeto pequeno, daí a terminação ette, um diminutivo vindo do Francês.

Pronto. Puxa, saiu quase meio pão de bauru daí. Não, não conte para os seus pais, deixa pra lá.

Como é, Patty? Guaraná no seu cabelo? Quem foi que fez isso? Ah, você mesma. Mas, meu bem, não creio que isso ajude a deixar loiros os cabelos. Hum, foi o Robertinho que lhe ensinou, é? Depois falaremos, meu rapazinho.

Bem, Patty, depois do banho você deve escovar bem esse cabelo, que é muito bonito sem guaraná, e aproveite para recordar então que escova vem do Latim scopa, “vassoura”, inicialmente “arbusto”.

Se um dia você for a um país de língua espanhola, nunca diga que vai “escovar os dentes”. Eles usam a palavra escoba apenas para “vassoura”. Eu já fiz essa bobagem e eles se mataram de rir, imaginando-me com uma vassoura enfiada na boca. “Escova de dentes” lá se diz cepillo.

E que tanto você faz caretas, Sidneizinho? Ah, convenceram-no a comer um sanduíche que estava recheado com areia… Você vai ter que usar muito dentifrício hoje. Quando estiver usando, lembre-se de que essa palavra vem do Latim dens, “dente”, mais fricare, “esfregar”, já que é uma pasta para fazer exatamente isso.

Joãozinho, quieto!

Depois do banho todos vão passar com capricho um pente nos cabelos, palavra essa que vem do Latim pecten, “pente” mesmo.

Ah, e não se esqueçam de se secar muito bem com a toalha. Esta vem do Francês toaille, que vem do Latim tela, “tecido, pano”. Daí derivou toilette, no início “pequena toalha, toalha de mesa” e depois “arrumação, higiene corporal”.

Não, Joãozinho, você ainda não precisa fazer a barba. Se você já assim agora, imaginem como não vai ser quando os seus hormônios estiverem todos em dia. Não quero nem pensar. Mas, quando for a hora, você vai usar um barbeador, cujo nome evidentemente vem do Latim barba.

As meninas daqui, quando forem maiorzinhas, vão fazer sua maquilagem. Essa palavrinha vem do Francês maquiller, “trabalhar, pintar o rosto para uma apresentação teatral”, do Holandês maken, “fazer”, da mesma origem do Inglês to make, “fazer”.

Enfim, todos estão necessitados de uma boa ducha, palavra que vem do Francês douche, que veio do Italiano doccia, “cano, conduto de água”, que veio do Latim ducea, do verbo ducere, “guiar, conduzir”. Assim, ducha e duque têm a mesma origem, pois duque é um título de nobreza que vem justamente do verbo “guiar′ em Latim.

Muito bem, crianças pouco limpas. Vão para casa agora, façam uma higiene bem caprichada e amanhã vamos aprender mais Etimologia!

Resposta:

A Roupa De Festa

Palavras: escuras , gravata , pente , sapato , suéter , terno

Tocou a campainha e eu fui abrir, aliviado por poder me afastar um pouco da briga. Mais aliviado ainda fiquei por ver que era meu avô paterno que vinha nos visitar.

Ele olhou para minha mãe e logo percebeu que havia algo errado por ali. Ela parecia arrepiada, como sempre que está braba. O velhote olhou para o monte de roupas sobre a mesa da sala e indagou:

– Ué, que confusão é esta? Vão abrir uma loja de roupas masculinas?

Minha mãe, incomodadíssima, informou:

– O seu neto aqui já sabia que nós vamos hoje ao casamento do tio dele, meu irmão. Quer ir, mas de bermuda e camiseta! Comprei camisas, meias, sapatos, consegui trajes e gravatas excelentes, emprestados dos filhos de umas amigas, e ele quer sair com roupa de skatista! – Ela bufava, e eu não me contive:

– Vô, não quero botar essa roupa de palhaço! Nunca usei, é desconfortável! Os meus primos aí da casa ao lado souberam e já estão rondando para rirem da minha cara! Olha, até banho já tomei, escolhi uma camiseta nova bem bonita, os tênis estão lavados…

O velho alto e magro, de olhos claros, barba e cabelo curtos e brancos, foi pegando algumas peças de roupa:

– Vamos levar as roupas para o seu quarto e dar uma olhada com mais calma na situação. Assim dá tempo para a sua mãe terminar de se arrumar e ficar bonita como sempre.

Quando ela começa com resmungos, é muito difícil de parar. Percebi que ela ia ainda fazer alguma reclamação ou ameaça, mas um olhar firme do velho a calou e ela subiu a escada.

No meu quarto, ele me fez ver que aquela situação era passageira e que seria uma homenagem minha aos noivos, de quem eu gostava muito. Explicou que, se aquilo implicasse num certo sacrifício, valia mais ainda. Mas ele garantia que não seria desagradável, se eu desse uma oportunidade para usar uma roupa que, afinal, eu nunca tinha experimentado.

De alguma forma, eu tinha essas noções dentro de mim. O que valia mais, no entanto, era que eu sentia que ele estava do meu lado, não contra mim. Aliviado pela doçura dele, topei provar as roupas.

Enquanto falava, ele foi escolhendo um conjunto de peças. Lembrou que, aos dezesseis anos, eu já devia ir me acostumando com “roupa de gente”.

– Vamos lá, comece com as calças. Você se lembra que uma vez eu lhe contei a origem dessa palavra, né? Esta calça não tem elástico como essas bermudas horrendas que você usa; para que ela não caia, coloque este cinto, que vem do Latim cingere, “apertar”. Mas deixe um espaço para caber a comida.

Agora os sapatos. Sei que você está acostumado só com tênis, por isso é que tem esse patão largo. Mas este couro é macio, vai-se dar bem com você.

Sapato vem do árabe sabbat. Sabe que, na Espanha, havia um calçado chamado zapatos papales, “sapatos papais”? Não, seu peste, não eram “sapatos para os Papais”, eram “sapatos do Papa”!

O nome vem do calçado que o Papa usava em certas cerimônias, e era uma espécie de sobre-sapato que o pessoal usava para andar em ruas enlameadas, coisa que não faltava naquela época. Era um antepassado da galocha, com certeza.

Meias escuras, escuras, rapaz! Guarde as brancas só para os tênis, por favor.

Chegou a vez da camisa. Aliás, o nome desta vem de uma época muito antiga, do Grego kámasos, que era uma túnica que os sacerdotes usavam nas cerimônias. Como você vai participar de uma cerimônia, nada mais adequado. Não, azul-escuro não! Que horror! Aprenda de uma vez por todas: colocando uma branca você nunca vai errar, seja qual for a cor do traje.

Agora, a parte mais atrapalhada de todas: abotoar o colarinho. Forcejou um pouco:

– Com tanto progresso, não sei por que ainda não inventaram um botão de colarinho eletrônico. Acho que é porque o pessoal que trabalha nisso não usa gravata. Agora passe a dita cuja – não, essa escandalosa não! Não interessa que seja engraçada e que tenha o Mickey. Aquela ali, a escura. Não se esqueça: numa festa, as damas é que podem chamar a atenção pelas roupas coloridas. Nós, cavalheiros, apenas compomos um pano de fundo discreto para que elas brilhem.

Colocou-se do meu lado, na frente do espelho, e começou a dar voltas misteriosas na gravata, já enfiada no colarinho.

Enquanto isso, contava que aquele nome vinha do Eslavo hravat, através do Alemão krawat, e queria dizer “natural da Croácia”:

– Este país forneceu mercenários para a França, aí por 1650. No começo, eram uma cavalaria ligeira que guardava uma das fronteiras francesas; mais tarde foram fazer a guarda pessoal do rei. Eles usavam uma tira de linho com um nó em volta do pescoço. Ela acabou recebendo o nome dos usuários e passando de croate a cravate em Francês e depois a gravata em Português.

Terminou de ajeitar a gravata:

– Agora o paletó, que vem do Francês paletot, que veio de uma peça que os ingleses chamavam de paltok. Como? Não, isto não é um terno. Essa palavra vem do Latim ternus, “o que é formado por três partes”, porque ter significava “três”. Terno é formado pela calça, pelo paletó e um colete. Nem todos os vendedores sabem disso.

– E o terno estofado, Vô? É para dias muito frios? – Ele riu.

– É um conjunto de sofá e duas poltronas, seu gracioso. Agora abotoe o casaco… Deixe sempre aberto o botão mais de baixo.

Ainda perguntei se não dava para ir com um pulôver leve em vez do casaco.

Ele disse um redondo não e aproveitou para explicar que esse nome vem do Inglês pull-over, “puxar por cima”. E que suéter é o Inglês sweater, “o que faz suar”.

Eu já estava esquecido do drama que estava vivendo até há pouco e quis provocá-lo Sabia que ele gostava disso. Era uma descoberta que eu tinha feito quando ainda estava aprendendo a ler.

– Que é que eu ganho se tirar um pulôver por baixo, Vô?

– Uma surra e um pulôver rasgado, seu bobo. Agora pare de palhaçada e use aquele objeto que os romanos chamavam de pecten e que virou pente em nossa língua. Sabe que, como tantas outras palavras, esta veio da atividade agrícola daquele povo? Originalmente significava “rastelo, ancinho” e servia para limpar o chão das folhas secas.

Penteei-me e fiquei espantado perante a minha imagem no espelho.

– Hum. Não está dos piores. – disse ele, fingindo pouco caso.

Pegou minha régua e me bateu rapidamente na barriga:

– Em pé, ande com o paletó sempre abotoado. Ao sentar, desabotoe.

Levantou o meu queixo, deu uma reguada entre meus ombros e outra na minha mão, que estava no pescoço.

– Cabeça erguida, ombros levantados. Não fique todo o tempo passando a mão no colarinho, na gravata e nos punhos. Qualquer elegância se desfaz se o sujeito está com consciência da sua roupa. Venha comigo, vamos até o pátio. Quero ver como estão os gatos e as frutas. A pitangueira está com frutas já?

E fomos ao pátio, onde caminhamos um bom tempo para lá e para cá e conversamos, com ele me corrigindo a reguaços até que eu esqueci que estava vestido de forma diferente.

Lá pelas tantas, minha mãe chamou da sala, já pronta. Quando entramos, ela arregalou os olhos de espanto e se derreteu toda em elogios. Abraçou o sogro e perguntou se ele já tinha visto neto mais bonito. Ele respondeu:

– Bonito, bonito, não sei, mas mais elegante nunca! – o orgulho no seu olhar desmentia o tom debochado de suas palavras.

– Ainda é cedo. Agora preciso que você me ajude com as compras na padaria, rapaz. Estou muito velho para carregar coisas.

E fomos à padaria, a meia quadra dali. Na ocasião, não entendi por que ele queria a minha ajuda, pois comprou pouca coisa.

Ao voltarmos, vi os meus três primos no jardim da casa ao lado, com duas
garotas da vizinhança. Eles me olhavam boquiabertos, com uma inveja mortal. As garotas, essas me abarcaram com uns olhos demorados e brilhantes que me deixaram para lá do Paraíso.

O velho percebeu isso tudo num instante e me disse, baixinho:

– Quando entrei na sua casa, vocês estavam numa vasta confusão. Pois esta palavra vem do Latim confundere, que significava “trazer desordem”. Agora vá e leve desordem aos que queriam fazer pouco de você. Não se esqueça que o principal deles era você mesmo.

E entrou no seu carro, após abanar para os meus primos.

A festa foi ótima. Por coincidência, várias das garotas presentes tropeçaram em mim, pediram desculpas e acabaram me dando seus telefones.

A partir daí, deixei as camisetas e as bermudas para uso só em casa, e não me arrependi.

Levei muito tempo para entender a frase solta da minha mãe, ao voltarmos da festa: – “Não sei como é que ele consegue!”

Resposta:

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