Palavra polícia

UM DESABAFO

 

– Bom dia, Sr. dono deste simpático barzinho perto da minha casa onde eu compro meu pão diário mas onde minhas dívidas não são perdoadas, bom dia aos frequentadores aqui reunidos tanto para fazer suas comprinhas como para trocar informações sobre a vida alheia ou para consumir bebidas espirituosas.

Hoje acordei de muito mau humor, fato que atribuo ao meu  trabalho de lecionar Etimologia para um grupo de crianças extremamente difíceis de controlar, para dizer o mínimo.

É por isso que me sinto necessitada de lançar invectivas contra algumas coisas que vejo aqui.

Para os que não sabem, invectiva vem do Latim invectivus, “agressivo, inadequado”, do verbo invehere, “atacar com palavras”, originalmente “jogar-se, atirar-se contra”, de in-, “em”, mais vehere, “levar, transportar”, que originou também “veículo” e “veemente”.

Acabo de ser passada para trás na fila por aquela senhora acolá com cara de quem nem tinha reparado; gostaria de dizer a todos e principalmente a ela que a polidez que lhe faltou vem do Latim polire, “polir, tornar suave”, metaforicamente, “elegante, correto, respeitoso”. Seria lindo se ela conseguisse corresponder à origem dessa palavra por meio de atos.

Uma coisa que os senhores de olhar vago sentados nessas horrendas cadeiras de plástico fazem, enquanto bebericam suas cervejas, é falar em política.  Antes que pensem que essa palavra se relaciona com polidez, aviso que ela deriva do Grego politikos, “relativo ao cidadão ou ao Estado”, de polites, “cidadão”, derivado de polis, “cidade”.

Esta palavra veio do Indo-Europeu polh-, “espaço fechado, em geral em local elevado”, o que descreve o núcleo inicial de muitas cidades nas civilizações antigas.

Polícia é outra derivada, relaciona-se com ela pelo sentido de “cuidar das cidades”, onde a segurança  sempre foi uma preocupação.

Quanto àquelas senhoras ali que fornecem uma à outra os pormenores de todas as suas doenças, cada qual querendo ter sofrido mais do que a outra,  embora pareçam extremamente sadias, elas precisam saber que a Policlínica de que tanto falam não  vem do Grego poly- no sentido de “vários, muitos”, não.

Todos pensam que a palavra vem do fato de um local assim atender a muitas especialidades ou ter muitos médicos, mas a origem na realidade é o polis “cidade” de que já falamos. Tratava-se da “clínica da cidade” no início.

Falando em conduta nas cidades, podemos lembrar que esta palavra veio do Latim civitas, originalmente “condição ou direitos de cidadão”, de cives, “homem que vive em cidade”.

Daí veio civilização, como oposto a barbárie, do Grego barbaros, “estrangeiro, forasteiro” literalmente “aquele que fala de modo incomprensível”, de um som barbarbar que imitava um balbuceio.

Civilidade é um conjunto de formalidades, palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração. Pelo que vejo, nem todos os presentes se dedicam com demasiado afinco a exercer uma condição tão bonita, seja por desinteresse, seja por escassez de neurônios mesmo.

Tendo falado em bárbaros e olhando certos atos que daqui distingo com meus olhos treinados em perceber os atos mais solertes dos meus aluninhos – como aquela senhora que está colocando o tomate mais bonito que encontrou disfarçadamente no bolso ou o dono do bar se enganando propositalmente no troco a devolver, ocorre-me à memória já tão abalada pelo desgaste cotidiano a palavra selvagem.

Ela vem do Latim selvaticus, uma alteração de silvaticus, “selvagem”, de silva, “floresta, bosque, selva”, local onde costumam morar seres que não tiveram qualquer informação sobre os modos de se comportar numa sociedade humana.

E sim, essa palavra originou o sobrenome tão conhecido, Silva. Muitos dos habitantes das aldeias antigas adotaram essa palavra como sobrenome, quando estes passaram a se fazer necessários, por morarem nas beiras do lugarejo, já perto da floresta.

Eu me referi aos bichos da floresta, que são chamados também de  brutos; eles podem não saber de nosso comportamento e é por isso que seu nome veio do Latim Brutus, “estúpido, grosseiro”.

Naturalmente isso não é de esperar de quem já freqüentou uma escola, como quero crer que ocorreu com todos os presentes.

Os animais, por sua natureza, se nos apresentam como ferozes, do Latim ferus, “selvagem, não-domesticado”. Mesmo assim, em geral eles se mostram menos destrutivos em seus lugares de domínio do que determinados bípedes implumes que se recusam a seguir o que sua lei determina.

Ah, prezados senhores e senhoras que me olham atônitos  –  palavra que vem do Latim atonitus, “atordoado pelo ruído do trovão” de tonitrus, “trovão”  – como é bom desabafar um pouco, tirar do peito nossa naturais revoltas e sentir-se leve como uma pluma!

Agradeço a todos por esta oportunidade e prometo voltar amanhã.

Resposta:

Às Voltas com a Ética

 

Tudo pronto para mais uma noite de trabalho no escritório etimológico-detetivesco de X-8. O Defensor da Palavras, o Guardião das Origens, o Paladino das Sílabas, o Senhor das Letras, está a postos.

Todos esses títulos ele tinha recebido ao longo de sua carreira. É bem verdade que eles tinham sido dados por si mesmo, mas só quando ele achava que merecia. Sua extrema honestidade não lhe permitiria nada diferente.

Com títulos ou sem, ele estava alerta para o início das consultas da noite. Enfurnado em sua grande capa de gabardine, rosto oculto pela aba do chapéu, em seu escritório Anos 50, ele olhava pelo vidro empoeirado da janela para o bairro escuro e abandonado lá fora.

O movimento era normal: umas poucas pessoas e palavras apressadas, lixo sendo levado para cá e para lá pelo vento sobre as calçadas. Ratos e baratas faziam seus passeios, tão confiantes na sua impunidade como se fossem deputados.

De repente, uma visão insólita naquela área: uma silenciosa limusine que parecia não acabar mais de tão comprida deslizou sobre o calçamento irregular. Preta, brilhante, limpíssima, polidíssima, estava totalmente deslocada naquelas ruas.

O detetive olha o inverossímil veículo e vê que ele para em frente ao Edifício Éden, onde fica o seu escritório. Abre-se a porta do condutor, que se dirige a uma das outras portas, de onde descem três figuras.

O motorista aponta para o terceiro andar. Agora não cabem dúvidas: é uma consulta de alto nível para X-8!

Ele tem reflexos rápidos. Num instante passa para a sala menor, ao lado do local de atendimento. É ali que ele guarda o material que não pode ser visto pelos clientes: um excelente computador, frigobar com refrigerantes, canetas boas, papel de luxo para rascunho, etc.

Ele abre um documento no computador, que estava ligado, bate algumas palavras apressadamente no teclado, aperta “enter” e aguarda que a impressora emita um folheto colorido. Ele se apressa a dobrá-lo enquanto volta para o escritório propriamente dito.

Está colocando aquele folheto sobre a pilha que está em sua escrivaninha quando ouve bater à porta e manda entrar, já sentado atrás da grande escrivaninha.

Entram três palavras. A que está à frente se veste de maneira luxuosa: tailleur Chanel, jóias Tiffany refulgentes nos dedos, pescoço, orelhas, uma bolsa Louis Vuitton exclusivíssima (daquelas que são feitas apenas três por ano, duas das quais são destruídas imediatamente), sapatos Dior.

Mas o rosto, ah, o rosto daquela palavra que ressuma dinheiro por todos os poros! Ele se apresenta emaciado, sulcado por maus tratos, amargo.

O silicone, o botox, o fio de ouro, os cremes de antena esquerda de cochonilha-da-Pérsia, todo o arsenal dito embelezador da moderna técnica, não conseguem apagar dos olhos daquela criatura a tristeza, a angústia, os traumas por que ela vem passando.

Estes pensamentos cruzam, velozes, pelo cérebro especializado de X-8, ao mesmo tempo em que ele vê de que palavra se trata: Ética.

Ela anda, com passo pesado e lento, e desaba na cadeira em frente ao detetive. Nas cadeiras ao lado se acomodam as outras duas. Como elas andam de braços dados, nota-se que elas compõem uma expressão – ou seja, juntas adquirem um significado que ultrapassa o sentido de cada uma sozinha.

A expressão é Animal Político. As palavras que a compõem estão nédias, reluzentes, seguras de si. Obviamente o mundo é um lugar que lhes agrada. Estão também vestidas com roupas caras, mas se vê que não as portam com a elegância bem baseada de Ética.

Sendo uma expressão bastante bem estabelecida no uso oral e escrito, elas falam em conjunto, sem errar uma palavra. Dá para notar até que as freqüências das vozes estão combinadas, de modo a produzir um som mais agradável.

– Senhor detetive, somos palavras à procura de origens. A Ética, nossa amiga aqui, estava há muito querendo consultá-lo, mas como ela vive sendo chamada à capital do nosso país, pouco tempo lhe sobra.

Agora que ela conseguiu vir aqui, nós aproveitamos a carona no seu jatinho particular e na limusine. Ela mantém limusines em várias cidades, com o respectivo pessoal para manutenção, limpeza, motoristas, etc., já que não pode perder tempo.

Nossa amiga não anda muito bem. Vive triste, abatida… Talvez seja o excesso de trabalho, sabe como é. Nós também trabalhamos bastante, não dá para se queixar do dinheirinho que a gente ganha, mas não chegamos a ser tão exigidos como ela.

O detetive empurrou para as clientes o folheto – em Português comum, “folder” – com a sua tabela de honorários. Animal Político a passou para Ética, que fez um gesto desdenhoso com a mão, significando “Não estou nem aí para preços!”. As duas palavras da expressão deram uma olhada naqueles valores altíssimos.

O detetive se inclinou para apontar uma frase no fim da folha, justamente a que ele tinha imprimido com tanta pressa: “Para clientes chegados em limusine, acréscimo obrigatório de 300% sobre o total, para cobrir impostos de importação”.

Se alguém perguntasse impostos de importação de quê, ele responderia, indignado, “Da limusine, ora!”, em tal tom de voz que ninguém se atreveria a seguir discutindo.

Mas aqui o dinheiro não era problema. As clientes não se abalaram com aquele verdadeiro roubo. Pagaram com o dinheiro que tinham trazido numa maleta preta de couro finíssimo. Ainda sobrou bastante lá dentro.

X-8 pretendia seguir o hábito de mandar as clientes voltarem noutro dia para lhes apresentar um documento contando sobre as suas origens.

Mas viu a dor e o sofrimento nos olhos de Ética, bem como a faceirice de Animal Político e seu coração de pedra fraquejou por um lado e se indignou pelo outro.

Ele não era chegado em falar; preferia manifestar-se por escrito. Mas dessa vez resolveu dizer o que lhe vinha à mente:

– Dona Ética, a sua origem é a expressão grega ethike philosophia, “filosofia moral”, de ethos, “caráter moral”, que originalmente tinha o sentido de “costume”. São os nossos costumes, nossas ações, que mostram o que nós somos, não o que dizemos – os advogados que me perdoem.

Sua antepassada ficou muito conhecida através de um trabalho de Aristóteles, Ta Ethika, “Sobre a Ética”. Desde o século 17, a senhora é usada para designar “princípios morais de uma pessoa ou grupo”.

O detetive viu que as suas explicações não ajudariam a pobre palavra rica. Ficou desolado ao ver que ela estava ganhando fortunas por andar nas bocas de numerosas pessoas que a citavam falsamente, que a ostentavam para defender seus imundos interesses, para ocultar as falcatruas que minavam o bem-estar de tanta gente honesta.

Ele sabia que, para uma palavra, ser muito usada num contexto falso era o equivalente a um câncer para um ser humano. Ela ia ficando enfraquecida, triste, perdia as suas funções e o seu poder comunicativo, deixando de ocupar o lugar que lhe fora destinado pela evolução das palavras.

Até que um dia ela se veria rolando pelas sarjetas do idioma, desprovida de valor, abraçada a uma garrafa de vodca barata, cantando músicas obscenas num canto qualquer do vernáculo.

Além de se condoer da pobre palavra, ele se indignou com o auto-contentamento de Animal Político.

– E quanto a vocês, vou dizer uma coisa extremamente chocante. Vocês não passam de uma falsificação.

Ambas as palavras se mostraram horrorizadas e indignadas. Responderam em coro:

– Mas que absurdo é esse? Respeite-nos! Nós somos palavras chamadas sempre que alguém diz que não quer saber de política ou se mostra decepcionado com ela. Houve um filósofo grego que disse que “o homem é um Animal Político“, ou seja, que o trato com a
política está em seus gens, de modo que todos têm que aceitar isso.

Nós somos a expressão que obriga todos a ver que não se pode viver sem política. Nossa função é das mais nobres! Dê uma olhada nas conversas por aí e veja como somos necessários!

– É? Já lhes vou mostrar uma coisa, mas antes de mais nada vou falar sobre cada parte da expressão.

Animal vem do Latim animalis, “ser vivo, ente que respira”, de anima, “respiração, alma”, do Indo-Europeu ane-, “soprar, respirar”. Uma palavra relacionada é ânimo, que está fazendo tanta falta para a amiga de vocês ali.

E Político vem do Grego politikos, “relativo ao cidadão ou ao Estado”, de polites, “cidadão”, derivado de polis, “cidade”. Esta palavra veio do Indo-Europeu polh-, “espaço fechado, em geral em local elevado”, o que descreve o núcleo inicial de muitas cidades nas civilizações antigas.

A palavra polícia é uma parente, que vem de politia, “administração civil”, passando depois para “administração da ordem pública numa cidade”.

– Muito bem, e a expressão que formamos?

– Veio de uma interpretação tendenciosa daquele a quem citamos há pouco, o filósofo grego Aristóteles. Um dos livros que ele escreveu se chamava Ta Politika, “Sobre a Administração das Cidades”. Ali ele diz que o o homem é um Politikon Zoon.

– Taí! – disseram simultaneamente Político e Animal. Não sabemos Grego, mas tá na cara que Politikon é Político e que Zoon é Animal: zoologia é “o estudo dos animais”, que isso a gente estudou no secundário! Viu só, seu falso acusador? Um sábio da Grécia disse que o homem é um Animal Político e você quer desdizer?

O detetive pôs água fria na ebulição:

– Meus senhores, Politikon Zoon significa, em Grego, “um animal feito para viver em cidades”, “um ser social”. Significa que o ser humano tem mais eficiência e controle sobre o meio quando reunido em cidades e repartindo funções. Na origem, nunca quis dizer que somos uma espécie que tem que aguentar manobras escusas para manutenção de poder.

Animal Político murchou. Acaso ou não, pareceu ter passado um laivo de sorriso nas rugas de Ética.

As três palavras se levantaram e se dirigiram à porta. O detetive, penalizado pela sorte da dama tão finamente vestida, retirou a luva de couro preta que o deixava tão másculo (pelo menos ele achava), tomou delicadamente a mão da senhora e lhe depositou um rápido beijo. Ela o olhou com o ar doce dos agonizantes que ainda estão lúcidos e saiu.

Antes que a expressão Animal Político lhe quisesse apertar a mão, ele recuou, abanou com a mão esquerda enluvada e fechou a porta.

Ficou à janela, vendo a limusine partir fofamente pelas ruas ásperas, contando o dinheiro que havia feito por merecer e pensando no triste destino de algumas palavras.

Seu coração pesava à medida em que ia empilhando as notas.

Resposta:

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