Palavra puxa-saco

Puxa-sacos

Eu tinha meus dez anos e estava visitando o meu avô no seu gabinete.

Estantes cheias de livros, móveis de couro, muita madeira e um gentil senhor de barba branca curta e olhos claros que me recebia muito bem. Aquele lugar era um paraíso para mim.

Essa era a minha impressão, embora houvesse quem reclamasse do sujeito ranzinza que vivia enfiado no meio dos seus livros, afastado dos outros.

Seja como for, naquele dia eu fui perguntando, depois de o cumprimentar:

– Vô, no outro dia o Pai estava furioso com um puxa-saco lá do trabalho dele. De onde veio essa palavra?

– Ele estava então reclamando de uma das maiores pestes da humanidade, que existe desde as épocas em que surgiu o primeiro troglodita a dizer que o chefe era realmente o maioral da caverna e que todos deveriam obedecer a ele.

Puxa-saco parece vir da época do Brasil Colônia, quando os oficiais do Exército, ao serem transferidos para outra cidade, chegavam levando os seus pertences num saco de pano. Quando estavam procurando um lugar para pousar, sempre aparecia alguém querendo pegar o saco para ajudá-los, de olho na gorjeta ou em qualquer benefício.

– Que gente, hein, Vô?

– E existem aos montes. Inclusive têm vários nomes. Por exemplo, bajulador, que curiosamente – ou não – se liga também ao ato de levar bagagem alheia.

Essa palavra vem do Latim bajulare, de bajulus, “o que leva a carga para outro, mensageiro”.

– E porque o meu pai deu o nome desse colega dele ao capacho lá de casa?

O velho riu:

– Porque capacho é uma maneira muito expressiva de se chamar uma pessoa assim. É um objeto onde os outros esfregam os seus sapatos sujos e que fica quietinho, sem reclamar.

A palavra capacho vem do Espanhol capacho, “cesta”. Esse nome foi primeiro aplicado a um tecido grosso com trama parecida à de uma cesta, que era usado para aquecer os pés, e depois passou para o objeto usado para limpar o calçado antes de entrar numa casa.

Conheci a minha porção de capachos na vida. Um colega meu passou anos e anos sem trabalhar, apenas no bem bom do ar condicionado, devido à sua habilidade de adoçar o caráter fraco dos chefes.

A técnica básica dessa gente é elogiar os que mandam. Esta palavra vem do Grego eulogia, “elogio”, literalmente “falar bem de”. Forma-se por eu-, “bem”, mais logia, “falar”, do verbo logein, de logos, “discurso, fala”.

Eles nunca se cansam de dizer quanto os chefes são maravilhosos, como são superiores, como são fabulosos… E vão lucrando, se os seus alvos não souberem ser modestos e acreditarem que aquilo é verdade.

Esta palavra vem do Latim modestia, de modestus, “moderado, que tem limites, sóbrio”, que deriva de modus, “medida, maneira, modo”. Origina-se no Indo-Eurpeu met-, “medida, limite, consideração”.

Ter modéstia é uma maneira de se proteger contra as ações dos puxa-sacos.

Estes muitas vezes fazem verdadeiros panegíricos sobre os que têm o poder.

– Isso é alguma comida de festas, que nem o panetone, Vô?

– Para algumas pessoa é até mais doce… Vem do Latim panegyricus, “elogio feito em público”, do Grego panegyrikos logos, “discurso feito em reunião do povo”, de panegyris, “reunião em honra a um deus”.

– Já sei! Em honra ao deus Pan, sobre quem o senhor falou no outro dia para mim! Acertei?

– Errou completamente. Você está querendo ser muito sabidinho, mas tem que comer muita sopa de letras ainda. Este pan- aqui quer dizer “todos” e agyris, “local de reunião”.

É a palavra ágora em forma Eólia, mas deixe isso para lá.

Outra coisa que essa turma faz são encômios, “elogios”. Era encomium em Latim, enkomios em Grego, que queria dizer “canto em louvor, elogio”, de eu-, “bem”, mais komos, “banquete, procissão, festa”. Essa palavra agora tem muito pouco uso, pois as pessoas estão cada vez sabendo menos.

Enfim, os puxa-sacos vivem adulando. Esta palavra vem do Latim adulare, “lisonjear, afagar”. Primeiro parece que este verbo se aplicava aos afagos feitos num cão, depois aos que este fazia no dono, abanando o rabo e se mostrando contente mesmo quando não fosse bem tratado. A imagem é muito apropriada.

– E esse lisonjear, o que é?

– É o mesmo que adular, elogiar. Vem do Latim laudemia, de laudare, “louvar, elogiar”, de laus, “fama, elogio”.

Aliás, uma palavra que vem daí é louvaminheiro, essa sim desaparecida do nosso falar e escrever comum. Também quer dizer puxa-saco, adulador.

– Quer dizer que, quando os professores pedem para a gente dar uma mão em alguma coisa, é melhor não atender para que a gente não fique com má fama…

– Não é assim, seu maniqueu. Às vezes uma pessoa realmente quer ajudar sem levar vantagem por isso. Tal palavra vem do Latim adjutare, “prestar socorro ou ajuda”.

Há que distinguir entre uma verdadeira gentileza e uma intervenção com segundas intenções.

Uma pessoa pode ser obsequiosa por um ou outro desses motivos. Em Latim, obsequiosus era “o que concorda, o que obedece”, de obsequium, “atendimento, obediência”, do verbo obsequi, “acomodar-se ao desejo de outra pessoa”, de ob-, “depois”, mais sequi, “seguir”. Daí também a palavra séquito, “grupo de pessoas que segue alguém”.

– Todos puxando o saco?

– No caso dos séquitos de autoridades, muitas vezes sim. Aliás, no que toca a estas aglomerações, há uma figura interessante que é o papagaio-de-pirata. Já ouviu falar?

– Bem, a gente seguido vê desenhos de piratas com um bicho desses ao ombro…

– Isso mesmo, em grande parte divulgado pela propaganda antiga de um certo rum. Pois agora esse nome é aplicado aos puxa-sacos que fazem tudo para aparecer nas fotos por cima do ombro de autoridades políticas, como se isso demonstrasse que eles são muito próximos. E o pior é que isso acaba pesando na hora de conseguir votos. Nosso povo…

– Os outros não são assim, Vô?

– Sábia pergunta, neto. Acho que estas características são humanas e não só de um ou outro país. Isso me lembra que os ingleses até têm uma expressão interessante: yes-man, ou seja, aquele que sempre diz “sim” ao que o patrão afirma.

Falando em outros povos, posso citar o que o povo romano dizia em outros tempos: obsequium amicos, veritas odium parit: “a adulação consegue amigos, a verdade inimigos”.

Eles sabiam que há maior dificuldade para se entender com as pessoas usando apenas a verdade.

Mas também sabiam que veritas filia temporis, “a verdade é filha do tempo”. Ou seja, que o decorrer do tempo acaba revelando a realidade e deixando os bajuladores expostos.

Mas agora chega de tanta seriedade, ainda mais que você é tão jovem. Escute aqui: dê uma chegada até à cozinha e puxe o saco da sua avó para ver que lanche a gente consegue lucrar com isso.

Resposta:

Gente Chata

 

Eu estava na sétima série. Tinha ido pedir ajuda com alguns problemas de Matemática ao meu avô em seu gabinete, todo macio de madeiras, livros e couro.

O velho de barba branca curta e olhos claros também era macio. Por dentro, que por fora parecia ser cheio de arestas e resmungos. Eu era o único dos seus netos que percebia o que havia por baixo da superfície e isso nos unia fortemente.

– Bem, por hoje parece que é isso. Acho que você finalmente entendeu o Teorema de Pitágoras. Não se esqueça que, quando a gente encontra um triângulo retângulo pela frente num problema, encontrou algo que pode ser domado.

– Pois é, Vô. Quando o senhor me ensina, parece tudo fácil. Mas meus professores são uns chatos e eu aprendo pouco com eles.

– Às vezes a pessoa que ensina não está seguindo sua verdadeira vocação. Na maior parte, porém, os professores enfrentam tamanha luta pela sobrevivência que não estão em condições de desenvolverem todo o seu potencial didático. E muitas outras vezes encontram alunos desinteressados, não é? Seu olhar penetrante me perfurou. Protestei:

– Eu não sou desses, Vô! Sou quieto e presto atenção. Mas é verdade que muitos dos meus colegas são assim como o senhor disse.

– Ah, então estamos chegando à conclusão de que nem sempre os professores é que são chatos. Já é um avanço. Aliás, já que tocamos nessa palavra…

– …Qual a sua origem, Vô? Acomodei-me sobre a banqueta de couro forrada onde eu ficava para ouvi-lo desde que era pequeno.

– Vem do Latim platus, “plano, sem relevo, sem destaques”. Esta palavra resultou em “chato” em Português, para designar uma pessoa que não tem destaques em sua personalidade ou conduta.

Mas isso só aconteceu em Português. Em Espanhol, por exemplo, um dos sentidos de chato é “de nariz curto e arrebitado, chimbé”.

– Esta palavra “chimbé” eu não conhecia! De onde vem?

– É, está em desuso, pelo menos nos meios urbanos. “Chimbé” ou “chimbeva” vem do Tupi timbé, de tim, “focinho, nariz” e mbé, “achatado”.

Seja como for, nos países do Prata se usa o apelido chato (ou ñato, com a mesma origem) para a pessoa com um nariz assim. É apenas uma referência ao apêndice nasal, não quer dizer que a pessoa seja uma mala sem alça.

– O senhor não sofre disso, né, Vô?

– O meu nariz é simplesmente perfeito – fez o seu melhor ar de dignidade ofendida. Só as pessoas desprovidas de senso artístico e de inteligência é que não lhe dão o devido valor estético. Torça para que o seu fique grande assim um dia.

Falando nisso, houve um lugar e uma época em que, quanto mais achatado um nariz, melhor para o seu dono. Na Rússia existiu, por bastante tempo, o Regimento de Infantaria Pavlovski, chefiado de direito pelo Czarévich, isto é, o primeiro filho do Czar, aquele que se esperava que sucedesse ao pai no trono.

Todos os soldados deste regimento tinham os narizes chatos e arrebitados, bem pequenos.

– Por que, Vô? Lutavam melhor assim? Ficavam mais ferozes?

– Não, foi apenas uma questão de vaidade. O que aconteceu foi que o Czar Paulo I, nascido em 1754 e morto em 1801, tinha nascido assim. Logo que puderam, os puxa-sacos da Corte o convenceram de que isso era o cúmulo da perfeição, bem como sinal de elevada inteligência.

Aí o pobre Czar, cujas faculdades mentais não eram das melhores – pelo retrato que vi, ele talvez fosse um caso de sífilis congênita – resolveu providenciar um regimento de guarda feito à sua imagem e semelhança nasal.

Mandou levar todos os homens portadores de nariz curto do império para servir no tal regimento. Eles desfilavam ante o Czar, que os escolhia pessoalmente.

E há mais: como o pobre Paulo achava que espirrar na sua presença lhe trazia azar, ordenou que o regimento inteiro se assoasse cuidadosamente sempre que ia se apresentar à autoridade máxima. Um problema sério é que não lhes eram fornecidos lenços, de modo que o regimento inteiro usava a mão para essa tarefa. Gurf!

O interessante é que o regimento e seus costumes perduraram até o início do século 20, quando os Czares já não tinham narizes curtos.

– Gostei da história, Vô! Mas por que o título dele era Czar? Já ouvi também falar em Tzar. Dá no mesmo?

– Sim. Esta palavra vem do nome de César, que passou a ser adotado como título pelos imperadores romanos a partir de Augusto. O título, em russo, passou a Czar ou Tzar.

– E eu sei de onde foi que veio o nome César! Um amigo do meu pai contou que vem da cirurgia chamada cesariana. Como o futuro imperador nasceu assim, ele recebeu este nome. Que tal? Não estou sabido hoje?

– Lamento dizer, mas não está nada sabido. Só que não é sua culpa. O problema é a etimologia popular, que sempre foi exercida conforme as fantasias dos interessados.

O nome de César vinha de caesaries, que queria dizer Cabeleira. Sei que as estátuas da época o mostram com pouco cabelo, mas provavelmente o nome se referisse a um antepassado seu. E a palavra cesariana vem de caesus, do verbo caedere, “cortar”. Diga isso ao amigo do seu pai; se ele quiser se esclarecer mais, mande-o falar comigo que terei gosto em orientá-lo.

Mas, já que começamos a falar em gente chata, vejamos outros tipos que em geral não nos agradam.

Há pouco falei nos puxa-sacos da Corte. Consta que esta expressão tem origem nas épocas coloniais do Brasil. Quando um oficial era designado para uma cidade e lá chegava com os seus pertences embalados num saco, sempre havia gente disposta a ajudar, de olho na gorjeta que pudesse obter; assim, às vezes havia até briga, com vários puxando o saco ao mesmo tempo.

– Foi assim mesmo?

– É uma possibilidade razoável. Não conheço esta expressão em idiomas aparentados.

Também temos aquelas pessoas que são perniciosas para as outras, seja por serem desagregadoras, demasiado arrogantes, fofoqueiras, invejosas ou coisa parecida. Esta palavra vem do Latim pernicies, “destruição”, de per nex, onde o per quer dizer “total, completamente” e nex vem de necare, “matar”. Um parente desta é nekros, “cadáver”.

– A minha outra avó gosta muito de chamar os outros de nojento. De onde vem isso?

– A palavra nojo vem do Latim inodiare, que vem da expressão in odio habere, “ter em desgosto, ter raiva de”. Seu sentido agora é o de algo repugnante, causador de asco.

Também temos, como um tipo de gente desagradável, os aborrecidos. A palavra vem do Latim abhorrere, “ser incompatível, afastar de si com horror”. É o que dá vontade de fazer com a nossa vizinha, D. Valéria, aquela que, mal enxerga a gente, começa a falar sem parar sobre pessoas e assuntos que nem sabemos o que são.

– E os asquerosos, Vô?

– Esses vêm de asco, aparentado com asca, “mau cheiro”. Há quem discorde, mas muitos apontam como origem o Grego éskhara, “crosta de ferida, casca”. Como muitas feridas podem ter aspecto pouco agradável e cheirar mal, acabou surgindo tal palavra para expressar o sentimento de repulsa gerado pela visão delas. Devo acrescentar que a palavra escara, “crosta de ferida” em nosso idioma, evidentemente vem daí.

Em minha opinião, um tipo dos mais desagradáveis é o arrogante. Esta palavra se formou do Latim arrogare, de ad-, “para” e rogare, aqui com o sentido de “exigir”. A origem descreve bem esta distorção da personalidade em que o portador se acha no direito de exigir do mundo um reconhecimento que ele não merece.

Coitados, andam pelo mundo com o nariz erguido, sentindo-se superiores a todos os outros. Nem sabem que o que os motiva é um sentimento inconsciente da sua pequenez mental.

Mais ou menos a mesma coisa é a pessoa presunçosa. Isto é do Latim prae, “antes” e sumptus, particípio passado de sumere, “tomar, pegar”. Uma pessoa presunçosa é a que “toma para si antes dos outros” o que deseja.

Mas que se vai fazer? As pessoas são diferentes entre si.

– No outro dia o Pai andava resmungando sobre uns políticos traidores. É verdade que o nome deles vem de uma antiga tribo romana de comedores de traíras que atacavam os viajantes ao passarem pela sua região?

Eu percebera que meu avô tinha ficado meio irritado com algum arrogante do seu passado, que agora tinha ressurgido entre os seus pensamentos.

Mas, se o velho sabia lidar comigo, eu também tinha aprendido alguns truques. Ele gostava muito quando eu inventava uma besteira surreal dessas, e com isso consegui o que queria: ele riu e as nuvens passaram.

– Continue assim que você ainda vai ser um cronista de sucesso em algum jornal. Agora, a verdade é que traição e tradição são parentes próximos.

Ambas as palavras vêm do Latim traditio, um derivado de tradere, “entregar, passar adiante”. E este verbo se formava por trans-, “além, adiante”, mais dare, “dar, entregar”.

Tradição atende ao significado de “passar algo a alguém”, como costumes, cerimônias, hábitos, características de um grupo.

Traição também, mas aí existe uma conotação de “entregar algo em prejuízo de outrem”, como quem passa informações que possam ser usadas com más conseqüências.

Também temos as pessoas molestas. São pessoas que incomodam, que se tornam como um espinho no pé dos outros. Este adjetivo vem do Latim molestia, “doença”. A gente, ao lado de uma pessoa destas, se sente como se estivesse doente.

Falando em doença, muitas vezes dizemos que tal pessoa é uma morrinha. Geralmente são pessoas molestas, e o seu nome realmente vem de uma doença. É a morrinha, moléstia epidêmica de animais, do Espanhol morriña, “tristeza do gado”. Não há certeza total sobre a origem mais remota, mas se faz a hipótese de que venha de morrer, pois muitas vezes esta é a conseqüência da doença.

– A Mãe ontem andava incomodada porque o encanador estava embromando…

– Sei como é. A pessoa diz que vai fazer tal coisa em tal dia, depois não deu porque aconteceu tal e tal coisa, mas agora vai, e aí faltou material na praça e no outro dia marcado o carro dele não pegou e ele teve que gastar na oficina, aliás, se ela não adiantar algum dinheiro ele vai ter que pegar outro serviço para poder consertar o carro para poder ir lá…

Uma pessoa que faz isso está deixando a outra insegura como se estivesse no escuro, nas brumas, que parece ter sido a origem desta palavra.

Mas muito bem, meu pitagórico aluno. Já falamos mal de uma porção de tipos de gente. Agora vá terminar de estudar em casa, para eu não correr o risco de virar um chato.

Resposta:

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