Palavra séquito

Sócio

Silêncio! O famoso, impoluto, competente e mercenário detetive das palavras, X-8, está atendendo em seu escritório empoeirado e totalmente em preto-e-branco.

Ele está com suas roupas de trabalho, gabardine e chapéu, que o ocultam completamente da vista dos curiosos. Ele se veste assim porque sua atividade não lhe permite chamar a atenção.

Senta-se atrás de uma escrivaninha que, se flutuasse, poderia ser usada como porta-aviões.

À sua frente, a palavra consulente de hoje: sócio.

O corajoso detetive está justamente começando a falar sobre a origem dela. Vamos acompanhar sua voz fria de pessoa acostumada a enfrentar perigos deste tipo todos os dias sem nem piscar:

– Pois veja, Sócio, você vem do Latim socius, “companheiro”, originalmente “seguidor”, relacionado com o verbo sequi, “seguir, ir junto, acompanhar”.

No século XVII, sua derivada, sociedade,passou a ter o significado de “grupo de pessoas convivendo numa comunidade regrada”.  E no século XIX passou também a designar “pessoas de destaque e suas atividades”.

As nossas socialaites são chamadas por essa palavra horrorosa, uma adaptação do Inglês socialite, cunhada em 1928 na revista Time, possivelmente uma contração de social light, “luz social”.

Dá para ver que séquito é uma palavra parente sua, pois ela deriva também do sequi de que falamos há pouco. Assim, as pessoas que participam de um séquito – “cortejo, comitiva” -, mesmo que não sejam sócias entre si, têm algo etimológico em comum.

Também o sequaz, “capanga, ajudante de um criminoso”, vem de sequi; ele é a pessoa que segue  outra para perpetrar alguma malfeitoria.

Há uma frase em Latim muito chique que se pode usar para descrever qualquer uma das tantas quadrilhas que assolam nosso país, roubando o dinheiro de nosso impostos: societas sceleris, “grupo de criminosos”.

Esse sceleris quer dizer “pessoa má, criminosa, facínora”, e vem de scelerare, “poluir, profanar, cometer ato criminoso”.

Passando para atividades mais amenas, o nome que o nosso futebol tem em Inglês é seu parente também. O que eles chamam de football nesse idioma é o que por aqui é conhecido por “futebol americano”.

O esporte que tornou Pelé famoso é chamado lá de soccer, derivado de Football Association, “associação de futebol”.

Ele era jogado nas Ilhas Britânicas há vários séculos, mas de forma diferente conforme o lugar.

Em uns se podia bater à vontade, noutros era proibido derramar sangue, uns times tinham 50 jogadores, os terrenos eram do tamanho que se podia obter em cada cidade… Uma confusão.

Lá pelo fim do século XIX, várias universidades inglesas se reuniram para discutir e definir regras que se aplicassem a todos os jogos, o que permitiria serem feitas competições entre times de regiões diferentes.

Dessa Associação é que veio o nome soccer, que inicialmente era uma palavra de uso estudantil, socca.

E passando para outra área, já notaram que depois do nome de um jesuíta sempre vêm as letras “S.J.”? Os menos avisados acham que isso quer dizer “Soldado de Jesus”, mas isso é lenda urbana.

São as iniciais de Societas Jesu, “Companhia de Jesus”, fundada por Inácio de Loiola em 1534, com base em disciplina e obediência militares.

Há uma palavra pouco conhecida, socioleto, que vem a ser sinônimo de “jargão”. Usa-se para designar um conjunto de termos usado por determinados grupos, seja por influência profissional, local ou outra.

Muito bem, Sócio, agora você pode ir para casa e pensar em suas antigas origens e seus parentes.

O dinheiro que você me pagou antes da nossa consulta será muito bem aplicado em asilos de palavrinhas carentes, pode estar certo.

Resposta:

Puxa-sacos

Eu tinha meus dez anos e estava visitando o meu avô no seu gabinete.

Estantes cheias de livros, móveis de couro, muita madeira e um gentil senhor de barba branca curta e olhos claros que me recebia muito bem. Aquele lugar era um paraíso para mim.

Essa era a minha impressão, embora houvesse quem reclamasse do sujeito ranzinza que vivia enfiado no meio dos seus livros, afastado dos outros.

Seja como for, naquele dia eu fui perguntando, depois de o cumprimentar:

– Vô, no outro dia o Pai estava furioso com um puxa-saco lá do trabalho dele. De onde veio essa palavra?

– Ele estava então reclamando de uma das maiores pestes da humanidade, que existe desde as épocas em que surgiu o primeiro troglodita a dizer que o chefe era realmente o maioral da caverna e que todos deveriam obedecer a ele.

Puxa-saco parece vir da época do Brasil Colônia, quando os oficiais do Exército, ao serem transferidos para outra cidade, chegavam levando os seus pertences num saco de pano. Quando estavam procurando um lugar para pousar, sempre aparecia alguém querendo pegar o saco para ajudá-los, de olho na gorjeta ou em qualquer benefício.

– Que gente, hein, Vô?

– E existem aos montes. Inclusive têm vários nomes. Por exemplo, bajulador, que curiosamente – ou não – se liga também ao ato de levar bagagem alheia.

Essa palavra vem do Latim bajulare, de bajulus, “o que leva a carga para outro, mensageiro”.

– E porque o meu pai deu o nome desse colega dele ao capacho lá de casa?

O velho riu:

– Porque capacho é uma maneira muito expressiva de se chamar uma pessoa assim. É um objeto onde os outros esfregam os seus sapatos sujos e que fica quietinho, sem reclamar.

A palavra capacho vem do Espanhol capacho, “cesta”. Esse nome foi primeiro aplicado a um tecido grosso com trama parecida à de uma cesta, que era usado para aquecer os pés, e depois passou para o objeto usado para limpar o calçado antes de entrar numa casa.

Conheci a minha porção de capachos na vida. Um colega meu passou anos e anos sem trabalhar, apenas no bem bom do ar condicionado, devido à sua habilidade de adoçar o caráter fraco dos chefes.

A técnica básica dessa gente é elogiar os que mandam. Esta palavra vem do Grego eulogia, “elogio”, literalmente “falar bem de”. Forma-se por eu-, “bem”, mais logia, “falar”, do verbo logein, de logos, “discurso, fala”.

Eles nunca se cansam de dizer quanto os chefes são maravilhosos, como são superiores, como são fabulosos… E vão lucrando, se os seus alvos não souberem ser modestos e acreditarem que aquilo é verdade.

Esta palavra vem do Latim modestia, de modestus, “moderado, que tem limites, sóbrio”, que deriva de modus, “medida, maneira, modo”. Origina-se no Indo-Eurpeu met-, “medida, limite, consideração”.

Ter modéstia é uma maneira de se proteger contra as ações dos puxa-sacos.

Estes muitas vezes fazem verdadeiros panegíricos sobre os que têm o poder.

– Isso é alguma comida de festas, que nem o panetone, Vô?

– Para algumas pessoa é até mais doce… Vem do Latim panegyricus, “elogio feito em público”, do Grego panegyrikos logos, “discurso feito em reunião do povo”, de panegyris, “reunião em honra a um deus”.

– Já sei! Em honra ao deus Pan, sobre quem o senhor falou no outro dia para mim! Acertei?

– Errou completamente. Você está querendo ser muito sabidinho, mas tem que comer muita sopa de letras ainda. Este pan- aqui quer dizer “todos” e agyris, “local de reunião”.

É a palavra ágora em forma Eólia, mas deixe isso para lá.

Outra coisa que essa turma faz são encômios, “elogios”. Era encomium em Latim, enkomios em Grego, que queria dizer “canto em louvor, elogio”, de eu-, “bem”, mais komos, “banquete, procissão, festa”. Essa palavra agora tem muito pouco uso, pois as pessoas estão cada vez sabendo menos.

Enfim, os puxa-sacos vivem adulando. Esta palavra vem do Latim adulare, “lisonjear, afagar”. Primeiro parece que este verbo se aplicava aos afagos feitos num cão, depois aos que este fazia no dono, abanando o rabo e se mostrando contente mesmo quando não fosse bem tratado. A imagem é muito apropriada.

– E esse lisonjear, o que é?

– É o mesmo que adular, elogiar. Vem do Latim laudemia, de laudare, “louvar, elogiar”, de laus, “fama, elogio”.

Aliás, uma palavra que vem daí é louvaminheiro, essa sim desaparecida do nosso falar e escrever comum. Também quer dizer puxa-saco, adulador.

– Quer dizer que, quando os professores pedem para a gente dar uma mão em alguma coisa, é melhor não atender para que a gente não fique com má fama…

– Não é assim, seu maniqueu. Às vezes uma pessoa realmente quer ajudar sem levar vantagem por isso. Tal palavra vem do Latim adjutare, “prestar socorro ou ajuda”.

Há que distinguir entre uma verdadeira gentileza e uma intervenção com segundas intenções.

Uma pessoa pode ser obsequiosa por um ou outro desses motivos. Em Latim, obsequiosus era “o que concorda, o que obedece”, de obsequium, “atendimento, obediência”, do verbo obsequi, “acomodar-se ao desejo de outra pessoa”, de ob-, “depois”, mais sequi, “seguir”. Daí também a palavra séquito, “grupo de pessoas que segue alguém”.

– Todos puxando o saco?

– No caso dos séquitos de autoridades, muitas vezes sim. Aliás, no que toca a estas aglomerações, há uma figura interessante que é o papagaio-de-pirata. Já ouviu falar?

– Bem, a gente seguido vê desenhos de piratas com um bicho desses ao ombro…

– Isso mesmo, em grande parte divulgado pela propaganda antiga de um certo rum. Pois agora esse nome é aplicado aos puxa-sacos que fazem tudo para aparecer nas fotos por cima do ombro de autoridades políticas, como se isso demonstrasse que eles são muito próximos. E o pior é que isso acaba pesando na hora de conseguir votos. Nosso povo…

– Os outros não são assim, Vô?

– Sábia pergunta, neto. Acho que estas características são humanas e não só de um ou outro país. Isso me lembra que os ingleses até têm uma expressão interessante: yes-man, ou seja, aquele que sempre diz “sim” ao que o patrão afirma.

Falando em outros povos, posso citar o que o povo romano dizia em outros tempos: obsequium amicos, veritas odium parit: “a adulação consegue amigos, a verdade inimigos”.

Eles sabiam que há maior dificuldade para se entender com as pessoas usando apenas a verdade.

Mas também sabiam que veritas filia temporis, “a verdade é filha do tempo”. Ou seja, que o decorrer do tempo acaba revelando a realidade e deixando os bajuladores expostos.

Mas agora chega de tanta seriedade, ainda mais que você é tão jovem. Escute aqui: dê uma chegada até à cozinha e puxe o saco da sua avó para ver que lanche a gente consegue lucrar com isso.

Resposta:

Gregário

Eu estava quase no fim do primário. Em visita à confortável casa dos meus avós paternos, dirigi-me ao gabinete cheio de livros do meu avô, do qual os meus primos fugiam mas com quem eu gostava tanto de conversar.

Olhei pela porta: ele estava sentado à sua cadeira de balanço, lendo – para variar.

Pedi licença, conversamos umas banalidades e logo entrei no assunto que me coçava:

– Vô, ouvi uma coisa que não entendi: uma das tias estava comentando, ali na sala, que é uma pena que o senhor seja muito pouco gregário. Não gostei muito. Isso é algum desaforo? Ou ela quer que o senhor se chame Gregório e se enganou ao dizer o nome?

O velhote atirou a cabeça para trás e riu com gosto:

– E o meu bom cavaleiro veio saber se era preciso me defender, não é? Dê-me um abraço, meu campeão! Com você por perto não preciso temer nada. Mas deixe-me explicar direito, que você fez uma salada. É o seguinte:

– Sua tia, como todo o mundo, gostaria que eu apreciasse festas, que eu gostasse de jogar conversa fora num grupo grande, de viajar em bandos, etcétera. Está certo, é saudável, a maior parte das pessoas é assim. Talvez por isso é que a Humanidade tenha tido tanto sucesso como espécie. Mas as pessoas não são todas iguais. Desde menino (não faça cara de espanto! Já fui até menor do que você. E não era no tempo dos dinossauros!), nunca gostei de estar com muita gente.

Quando a sua tia diz que não sou gregário, ela quer dizer que não me agrada estar em companhia de muita gente. Essa palavra veio do Latim grex – sonora, não? – que significa “rebanho, manada, bando de aves, reunião”. Gregário é aquele que gosta de andar com os outros, de reunir-se com os seus.

Há uma palavra em Português que veio direto daí. É pouco usada hoje em dia, mas perfeitamente válida. É a grei, ou seja, os seus semelhantes, o seu grupo, a sua laia.

Se você quiser xingar alguém de modo pedante e talvez pouco compreensível, em vez de dizer “Não sou da sua laia”, diga “Não compartilho da vossa grei”. A outra pessoa vai ficar atrapalhada…

– Certo, Vô, mas o seu Gregório lá do bar do colégio está sempre batendo papo com todo o mundo. Como é que os pais dele adivinharam na hora de escolher o nome? Gregório Gregário?

– Pare, menino, que você me lembra a sua avó quando ela começa a deduzir errado e inventar histórias. Gregório é um nome que veio do Grego gregoréo, “cuidar, vigiar”. Queria dizer “vigilante, sentinela”.

– O senhor seguido diz que uma palavra veio do Grego. E Grego, veio de grex?

– Não, seu espertinho, não veio daí. O que aconteceu foi que, quando os romanos fizeram os contatos iniciais com o país que veio a ser conhecido como Grécia, o primeiro povo que eles encontraram no caminho foi o dos grekkoi. Não consta que estes tenham trazido grande acréscimo à História, mas o nome deles foi imortalizado, sendo aplicado ao país todo. O conjunto de estados daquela região era conhecido por Hélade, e eles se intitulavam Helenos.

Na linguagem erudita se fala em helenização quando se quer falar da influência grega em alguma cultura ou idioma. Pode-se usar também grecização com o mesmo significado, embora essa palavra soe meio esquisita.

Continuando com os derivados de grex: há um deles que se usa para fazer alto elogio. É egrégio, que vem de ex (ou e, antes de consoante), “fora” e grex, ou seja, aquele cujas qualidades positivas o colocam fora do grupo, alguém excepcional, acima dos outros.

– Se o senhor não é gregário, então o senhor é egrégio, Vô?

Ele riu de novo.

– Bem… as opiniões divergem, de modo que vamos deixar isso para lá. Vou acrescentar mais uma palavrinha à nossa lista: segregar. Esta vem de se-, Latim, com o significado de “afastar, retirar do meio, separar” e o tal grex. Logo, segregar é retirar alguém de entre os seus. Houve época, não muito remota, em que as leis de alguns países permitiam fazer isso. Ou até exigiam. Pelo menos em alguma coisa a sociedade melhorou!

E, com sentido oposto ao de segregar mas com as mesmas origens, temos agregar, de ad, “junto” e grex. Significa “colocar junto com os outros, somar, acrescentar”. Ao lermos as histórias que tratam da nossa sociedade no século 19 vemos como era comum a figura do agregado.

– Era um sujeito que gostava de estar com os outros?

– Mais ou menos. Era algo que é difícil encontrar hoje em dia, pelo menos nas cidades maiores. Tratava-se de alguém, às vezes com laços de parentesco distante, que simplesmente passava a fazer parte de uma família e vivia na casa junto com os outros, muitas vezes sem trabalhar nem ajudar com o sustento. Beleza, a época em que um sujeito sozinho podia sustentar uma família numerosa e ainda arcar com os agregados…

Suspirou.

– A última palavra relacionada a rebanho que me ocorre no momento é congregar. Esta vem do Latim con-, que aqui também tem o sentido de “juntar” e grex. Uma congregação é um grupo de pessoas com pontos comuns em ideologia ou em religião ou filosofia de vida, por exemplo.

– Acho que sei mais uma palavra dessas aí: segredo. Acertei?

– Chii, mais salada! Não, não! Segredo vem do Latim secretus, que significa “à parte, isolado, oculto”. Nada a ver, menino, mas sempre é bom perguntar.

– Mas grupo está nessa, né?

– Você está tentando às cegas, para ver se acerta. Não faz mal, assim você treina o seu vocabulário. Só que se deu mal de novo. Grupo vem de uma fonte pré-Germânica kruppaz, “inchaço, relevo”. Essa palavra passou ao Italiano como gruppo e ao Francês como groupe. Originalmente era usada nos meios artísticos, pois se referia à disposição das figuras num quadro ou numa escultura.

– Como é que eu nunca ouvi falar numa “grex de vacas” ou numa “grex de ovelhas”?

– Grande pergunta, meu rapaz. Não se sabe com certeza de onde é que veio rebanho. Como essa palavra só existe em Espanhol e em Português, presume-se que tenha vindo do Árabe.Os derivados de grex foram assimilados a outras palavras, como vimos.

Uma palavra correlata com o assunto mas bem diferente veio do Latim sequi, “seguir” – no sentido de “acompanhar por concordância de idéias”, não no de “perseguir, caçar”. Daí se formou socius, “companheiro”. Também sequaz, séquito e outras.

Associar vem de ad, “junto”, e socius; é algo como “juntar companheiros”. Com o sentido oposto temos dissociar, “separar, afastar, desligar”, que deriva de dis, “afastar” e socius.

Enfim, sei que há quem diga que eu sou um solitário, o que vem do Latim solus, “sozinho, único”. Pena que as pessoas costumem confundir solitário com ranzinza.

Esta palavra parece que vem de ranza, a madeira sobre a qual gira o eixo do moinho, e que faz muito barulho, que range muito, como alguém que está constantemente resmungando. E não digam que é o meu caso, senão eu me ponho a resmungar.

Bom. Fiquei com sede após falar tanto para tentar colocar algo nessa cabeça de esponja que você felizmente tem.

Agora faça um favor para este egrégio: vá até os gregários que estão lá na cozinha falando mal da vida alheia e peça um pouco de suco e alguma coisinha para a gente comer.

Resposta:

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