Palavra rodríguez

Sobrenomes I

Eu estava lá pelo fim do secundário quando fui visitar meu avô com uma dúvida específica.

Como sempre, encontrei-o na sua biblioteca a furungar nas suas gavetas e papéis.

– Quer uma ajuda para botar fora essas velharias todas, Vô? – intiquei.

– Quero. Mas só depois que eu me livrar de certas novarias de dezesseis anos que nem abriram os olhos para o mundo e já acham que tudo o mais não presta – o velho nunca se apertava para dar uma resposta desaforada.

– Tá bom, Vô. Por hoje vou deixá-lo continuar com as suas coisas, se o senhor me ajudar com algo que estou querendo saber.

O velhote de cabelos brancos e barba curta se sentou em sua cadeira forrada de couro, apontou para o banco onde eu sempre me acomodava ao conversarmos e disse:

– Não sabe como eu agradeço poder ficar com este material cultural que juntei ao longo de uma vida inteira. É muita generosidade de sua parte. Agora desembuche.

– É o seguinte: outro dia, na aula, estávamos falando no Alexandre Magno, no Júlio César, no Napoleão Bonaparte, no Winston Churchill, e nos demos conta de que a História nunca cita os sobrenomes de Moisés, de Platão, de Hipócrates… Por que isso? Por acaso não são conhecidos?

– Vejam só. Para um grupo de burrinhos como você e seus colegas, até que por acaso vocês tocaram num ponto interessante. E isso partindo de uma premissa que não estava certa, pois nos dois primeiros casos não há propriamente sobrenome. Depois eu vou falar especificamente neles.

Acontece o seguinte: a humanidade nem sempre usou sobrenomes. Na verdade, eles são usados há relativamente pouco tempo.

– Ué, mas como é que eles se distinguiam entre si então?

– Bem no comecinho, cada um tinha lá seu nome e não havia problema nas cavernas, com tão poucos indivíduos. Havia, digamos, o Glurbz, o Ugha, o Clunco, o Mongulala e todos se entendiam.

Depois, à medida que as populações foram aumentando, precisaram usar qualificativos para evitar confusão.

Assim, um belo dia o Glurbz teve um filhinho que era a coisa mais lindinha, tão parecido com o compadre e vizinho de caverna Ugha que ele quis colocar o nome deste grande amigo no rebento. Então a criança passou a ser conhecida como Ugha, filho de Glurbz, para não ser confundido com o Ugha, compadre de Glurbz.

Já o Clunco teve um neto que recebeu o nome do avô, por idéia da nora, que estava de olho nas conchas da herança. Para distingui-los, a criança passou a ser Clunco, o Novo.

Pelas tantas, o nome Mongulala entrou na moda e os Mongulalinhos tiveram que ser distinguidos como “Mongulala, o Porco “, “Mongulala Vesgo” e coisas desse tipo.

Estou fazendo essas caricaturas que é para que você veja a origem dos sobrenomes: como não é possível dar um nome único para cada pessoa, elas precisam receber pelo menos mais uma palavra para diminuir as possibilidades de confusão.

No começo, isso era feito só por quem queria. Mas na Europa, a partir da Idade Média, começou a ser indispensável o sobrenome, a partir da difusão do uso dos registros notariais e eclesiásticos. Fazia-se necessário caracterizar com precisão quem ia receber tais e tais bens como herança, ou definir bem quem vendia e comprava terras ou outras propriedades.

A Igreja Católica teve papel relevante na fixação de sobrenomes, pois as pessoas passaram a ter registros de nascimento, batismo, casamento e falecimento em suas paróquias.

Lá pelos séculos 11 ou 12, o repertório de nomes na Europa começou a ficar empobrecido. Uma razão reconhecida para isso foram as “modas”. Assim como hoje a moda é colocar o nome do cantor ou da modelo que estão se sobressaindo por ocasião do nascimento, naquelas épocas se colocavam os nomes dos personagens nobres e das outras pessoas de relevo, bem como dos santos católicos mais venerados.

Dá para deduzir que os sobrenomes começassem a se difundir pelas classes mais altas, aquelas que tinham interesse em definir heranças, títulos nobiliárquicos, negócios. Isto ficou mais nítido entre os séculos 13 e 15 na Europa. Só bem mais tarde essa característica se estendeu a outras camadas sócio-econômicas.

Note-se que, para iniciar um sobrenome, havia absoluta liberdade de escolha, já que simplesmente não havia regras e a adoção dele inicialmente era um ato de todo voluntário.

As palavras usadas como sobrenomes, em quase todas as culturas, vêm a ser na sua maioria de quatro tipos.

– Só quatro tipos de sobrenomes, Vô? Essa eu quero ver.

– Já estaria vendo se não fosse impaciente e não me interrompesse. Eis um dos mistérios do mundo: por que é que os jovens vivem como se estivessem para terminar logo a vida e nós, jovens de outrora, temos a calma de quem tem muito tempo pela frente.

Mas deixe-me prosseguir. Um desses tipos é o que chamamos de patronímico. Essa palavra vem do Grego patér, “pai”, mais ónoma, “nome”. Ou seja, é o nome do pai que se usa para definir o sobrenome do filho.

– Mas desse jeito cada geração de uma família vai ter um sobrenome diferente!

– Certo. Você entendeu bem. Só que o uso do patronímico se dá uma vez numa linhagem e fica por aí. Vou dar exemplos: um belo dia em Portugal, há alguns séculos, um senhor chamado Nuno teve um filho, José, que começou a ser chamado de “José do Nuno” ou, conforme o costume de usar o genitivo latino (a forma de indicar posse), José Nunes. Daí então veio a família Nunes.

Na mesma época, na Espanha, o Seu Rodrigo teve filhos que, pelo mesmo mecanismo, passaram a ser conhecidos como Fulano e Beltrano Rodríguez, “de Rodrigo”.

– Eu tenho um colega que é Nunes. Então se sabe direitinho quem foi o primeiro antepassado dele com sobrenome? Vou contar para ele!

– Não o entusiasme indevidamente. O fato é que o lugar exato de origem dos patronímicos é muito difícil de apurar. Esse tipo de sobrenome se caracteriza justamente por poder aparecer várias vezes em qualquer ponto dum país, ao longo dum período extenso, sem parentesco entre as famílias.

Os nomes assim formados são a maioria, pelo menos nos idiomas europeus. É claro que, fora da Península Ibérica, a partícula que indica o genitivo é diferente.

Assim, os Celtas usavam M′ ou Mac, que estão ainda em uso na Irlanda e Escócia. Logo, o MacAdam que inventou o macadame descende de alguém que um dia foi reconhecido como “o filho de Adam”.

Outro indicativo de patronímico em Irlandês é O′. A dona Georgia O′Keefe é descendente de alguém que era filho do Seu Keefe.

Muitíssimos nomes de origem germânica mostram que são patronímicos pelo final –sen ou –son, que quer dizer “filho”: Johanssen, “filho de Johann”, Nicholson, “filho de Nichols”.

Nos idiomas eslavos se usa -itch, -ov, -off para indicar patronímico: Ilitch, Romanov, Orloff.

O Italiano usa muito a terminação -ini: Zanini, Moschini.

– Vô, acho que a maioria das pessoas nem desconfia disso tudo.

– Correto. Este assunto faz parte de uma matéria chamada Onomástica, que lida com nomes e sobrenomes. Poucos têm a noção de que isso seja assunto de estudos e livros. Provavelmente você seja o único aluno do seu colégio a ter notícia disso.

Mas, meu rapaz, preciso sair daqui a pouco; vamos continuar a conversa da próxima vez?

– Vamos, Vô. Mas antes o senhor não pode me falar sobre aqueles que eu citei e que o senhor disse que não eram sobrenomes?

– Ah, sim. Um era Alexandre Magno, não? Isso não é sobrenome; é o Latim magnus, “grande”. Trata-se de um apelido honorífico, não sobrenome. O outro era…

– Júlio César.

– O nome dele era Gaius (ou Caius, dá no mesmo) Julius Caesar. O primeiro era o praenomen, o “nome inicial”. Havia pouquíssimos deles entre os romanos, a ponto de muitas vezes eles usarem apenas a inicial da palavra.

O segundo era o nomen gentilicium, que era o nome da gens, um aglomerado de famílias. O terceiro era o cognomen, que era o mais equivalente ao nosso sobrenome. No caso, caesar correspondia a “cabeleira”, pois algum antepassado dele devia ter sido muito pão-duro para gastar com o barbeiro.

Os outros que você disse, como Moisés, Hipócrates, não tinham sobrenomes definidos porque estes ainda não tinham regras na época. Posso dizer que Hipócrates, o Pai da Medicina, era conhecido como Hipócrates de Cós, o nome da ilha grega onde ele nasceu.

E Platão simplesmente não era o nome do filósofo. Seu nome era Arístocles, mas ele recebeu o apelido Plato (grande, largo), dizem uns porque seus ombros eram muito largos, dizem outros que era devido à largura da fronte. Seja como for, consta que ele era muito feio. E muito inteligente.

Mas muito bem, volte neste fim de semana que a gente continua a conversa. Ainda não resolvi de todo a sua dúvida.

Resposta:

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