Palavra patronímico

Sobrenomes II

Meu avô havia começado e me ensinar a origem dos sobrenomes. E eu, que nunca tinha pensado que uma coisa tão óbvia tinha origens! Eu saíra fascinado da conversa anterior e, assim que pude, voltei a visitar o velho em seu gabinete rodeado de paz encadernada.

Assim que me viu, ele me testou:

– Você por aqui! Veio fazer alguma coisa?

– Vim saber mais a respeito dos sobrenomes, Vô. E não me enrole, que você tinha prometido falar mais!

– Está bem. Eu só queria ver se você ainda se lembrava do assunto. O pessoal da sua idade anda tão dispersivo que pensei que o assunto já tivessa saído da sua cabeça. Pelo menos um dos meus netos tem algo mais do que ar na cabeça. Vamos ver, o que é que a gente havia falado mesmo?

– O senhor disse que havia apenas quatro tipos básicos de sobrenomes e falou sobre o primeiro. E eu continuo achando difícil de acreditar que haja tão poucos.

– Ah, sim. Comecei pelo patronímico, o nome formado a partir do nome do pai, não foi? Então vou-lhe contar agora sobre os toponímicos ou topônimos.

Não pude resistir:

– Já sei, ofereciam um sobrenome à pessoa e perguntavam se ela topava, era isso?

– Às vezes ouvir as suas asneiras é pior do que dar uma topada com o dedão descalço numa pedra afiada. Feche a matraca e ouça:

Essa palavra vem do Grego topos, “lugar”, mais onymos, “nome”. Indica os nomes feitos a partir do lugar de origem da pessoa que iniciou a linhagem ou família.

Qualificar a pessoa de acordo com seu lugar de origem é um hábito muito antigo e ainda hoje não é raro, embora não sirva mais para construir sobrenomes. Tive mais de um colega no secundário e na faculdade que eram chamados simplesmente pelo nome da cidade natal.

Esses topônimos podem variar desde o nome de um país ou região até o de uma cidade, acidente geográfico ou pequena propriedade. Em Onomástica – lembra-se o que é isso?

– A ciência que estuda os nomes – disse eu, satisfeito.

– Muito bem, ainda não emburreceu de todo. Como eu dizia, nessa matéria há uma divisão em topônimos maiores, os que usam nomes de aldeias até países, e em topônimos menores, aqueles que se referem a características geográficas menos significativas.

Exemplo dos maiores são Portugal; Aragonês, da cidade de Aragão; Xavier, uma localidade em Portugal.

Entre os menores, temos Penha (uma rocha grande), Torres, Ribeiro. Estes começaram em localidades onde só havia um acidente geográfico destes.

Não podemos esquecer dos muitos sobrenomes referentes à vegetação local, como Carvalho, Vinhais.

Eles podem ter começado porque o André Figueiredo tinha muitas árvores desse tipo em suas terras, porque o José morava numa casa que ficava depois de uma Pereira grande – tudo vale.

Silva, por exemplo, o sobrenome português mais comum, vem do Latim silva, “mato, floresta, selva”. Muita gente que morava nos arredores das povoações, já perto dos matagais, acabou formando essas famílias.

Jesus era designado também por um topônimo. Jesus de “Nazaré” ou “Nazareno” indicam que ele morava nessa cidade, aliás não muito bem vista pelo pessoal de Jerusalém.

– Puxa, Vô, acho que se eu vivesse essa época acabaria só inventando sobrenomes desse tipo.

– São fáceis, né? Talvez por isso sejam tão comuns.

Mas há outra espécie fácil de entender também: é a dos baseados na ocupação ou atividade das pessoas. Assim, o sujeito que lidava com metal numa aldeia gerou a família Ferreira.

Em Inglês esse profissional era chamado de Smith, e deu o sobrenome mais comum entre eles. O moleiro, o dono do moinho local, também era importante na Europa e gerou os sobrenomes Miller em Ingês e Moeller/Müller em Alemão.

Outros podiam se chamar Bispo, talvez por serem parentes dele ou amigos dele ou por serem muito religiosos. Entre os alemães é comum o Ritter, “cavaleiro”. Temos também em Português o Correia…

– Que era alguém que vivia atrasado, correndo de um lado para o outro?

– Acho melhor é que você se apronte para correr no momento em que eu perder definitivamente a paciência. Esse sobrenome deve vir da atividade do correeiro, aquele que lidava com couros para fazer cintos, arreios para os cavalos, etc.

Na verdade, este tipo de sobrenome é menos freqüente do que os dois anteriores nos idiomas europeus. Nele se situam alguns menos evidentes, como Leite, que deve descender de uma pessoa que fazia a coleta ou a venda desse líquido.

E, para terminar os quatro tipos, temos os sobrenomes derivados de apelidos, palavras descritivas usadas para caracterização de uma pessoa. Um deles, que ninguém desconfia, é Pinto.

– Ué, esse não viria de uma ocupação? Um vendedor de pintos?

– Não. Veio de um sujeito em Portugal que tinha manchas na pele; ele era pinto, ou seja, “pintado”, “manchado”. Veloso é outro, do Latim vellum, “pêlo”. O iniciador da família devia ter abundância de pêlos no corpo.

Provavelmente Salgado venha de alguém que gostava de carregar no saleiro na hora da comida.

– Ou de um cozinheiro que não sabia temperar direito.

– É bem possível. Mas devo acrescentar que, como toda classificação, esta não é perfeita, não abrange todas as possibilidades. Há outros tipos de sobrenomes.

– Ora, o senhor disse que só havia quatro!

– Preste mais atenção nas palavras dos grandes sábios como eu, rapazinho. Eu disse que eram na maioria de quatro tipos. Outras espécies são menos freqüentes, mas existem.

Por exemplo, há um tipo que se refere a desejos ou votos para o futuro, como Galhardo, Valente. Há os de conotação religiosa, como de Deus, de Jesus. Em outros idiomas são comuns os que expressam a frase Dado por Deus: Diosdado em Espanhol, Dieudonné em Francês, Deodato do Latim, Teodósio do Grego.

Existe o sobrenome Esposito em Italiano, que quer dizer “exposto”. Essa era a designação de crianças abandonadas pelos pais, numa época em esse ato era praticamente oficializado.

No Brasil, até o século 20 houve hospitais que tinham uma “roda dos expostos”. Era uma espécie de cilindro baixo, aberto na parte de cima, que girava ao redor de um eixo vertical. Situava-se numa porta ou parede de hospital, metade para dentro, metade para fora, de forma que uma criança recém-nascida pudesse ser colocada do lado de fora e recolhida por dentro mediante o girar da “roda”, sem que se visse a pessoa que tinha deixado ali o coitadinho.

– Puxa, Vô, que situação!

– Pois trate de não incomodar mais senão eu o enfio numa roda dessas!

– Tá bom, tá bom, Vô, não faça isso.

– Certo . Às vezes só uma boa ameaça aquieta você. Voltando ao nosso assunto: também há os sobrenomes que podem ter vindo de idiomas pré-romanos da Península Ibérica, por exemplo, ou de palavras até bem conhecidas mas que foram se alterando com o correr do tempo e que agora simplesmente não podem ser identificadas. Desses não me ocorre nenhum exemplo de momento, antes que você pergunte.

Bem, se as suas dúvidas iniciais quanto aos sobrenomes não foram esclarecidas com esta minha magistral e perfeita dissertação, você não tem saída.

Agora desapareça que eu quero ler um pouco!

Resposta:

Sobrenomes I

Eu estava lá pelo fim do secundário quando fui visitar meu avô com uma dúvida específica.

Como sempre, encontrei-o na sua biblioteca a furungar nas suas gavetas e papéis.

– Quer uma ajuda para botar fora essas velharias todas, Vô? – intiquei.

– Quero. Mas só depois que eu me livrar de certas novarias de dezesseis anos que nem abriram os olhos para o mundo e já acham que tudo o mais não presta – o velho nunca se apertava para dar uma resposta desaforada.

– Tá bom, Vô. Por hoje vou deixá-lo continuar com as suas coisas, se o senhor me ajudar com algo que estou querendo saber.

O velhote de cabelos brancos e barba curta se sentou em sua cadeira forrada de couro, apontou para o banco onde eu sempre me acomodava ao conversarmos e disse:

– Não sabe como eu agradeço poder ficar com este material cultural que juntei ao longo de uma vida inteira. É muita generosidade de sua parte. Agora desembuche.

– É o seguinte: outro dia, na aula, estávamos falando no Alexandre Magno, no Júlio César, no Napoleão Bonaparte, no Winston Churchill, e nos demos conta de que a História nunca cita os sobrenomes de Moisés, de Platão, de Hipócrates… Por que isso? Por acaso não são conhecidos?

– Vejam só. Para um grupo de burrinhos como você e seus colegas, até que por acaso vocês tocaram num ponto interessante. E isso partindo de uma premissa que não estava certa, pois nos dois primeiros casos não há propriamente sobrenome. Depois eu vou falar especificamente neles.

Acontece o seguinte: a humanidade nem sempre usou sobrenomes. Na verdade, eles são usados há relativamente pouco tempo.

– Ué, mas como é que eles se distinguiam entre si então?

– Bem no comecinho, cada um tinha lá seu nome e não havia problema nas cavernas, com tão poucos indivíduos. Havia, digamos, o Glurbz, o Ugha, o Clunco, o Mongulala e todos se entendiam.

Depois, à medida que as populações foram aumentando, precisaram usar qualificativos para evitar confusão.

Assim, um belo dia o Glurbz teve um filhinho que era a coisa mais lindinha, tão parecido com o compadre e vizinho de caverna Ugha que ele quis colocar o nome deste grande amigo no rebento. Então a criança passou a ser conhecida como Ugha, filho de Glurbz, para não ser confundido com o Ugha, compadre de Glurbz.

Já o Clunco teve um neto que recebeu o nome do avô, por idéia da nora, que estava de olho nas conchas da herança. Para distingui-los, a criança passou a ser Clunco, o Novo.

Pelas tantas, o nome Mongulala entrou na moda e os Mongulalinhos tiveram que ser distinguidos como “Mongulala, o Porco “, “Mongulala Vesgo” e coisas desse tipo.

Estou fazendo essas caricaturas que é para que você veja a origem dos sobrenomes: como não é possível dar um nome único para cada pessoa, elas precisam receber pelo menos mais uma palavra para diminuir as possibilidades de confusão.

No começo, isso era feito só por quem queria. Mas na Europa, a partir da Idade Média, começou a ser indispensável o sobrenome, a partir da difusão do uso dos registros notariais e eclesiásticos. Fazia-se necessário caracterizar com precisão quem ia receber tais e tais bens como herança, ou definir bem quem vendia e comprava terras ou outras propriedades.

A Igreja Católica teve papel relevante na fixação de sobrenomes, pois as pessoas passaram a ter registros de nascimento, batismo, casamento e falecimento em suas paróquias.

Lá pelos séculos 11 ou 12, o repertório de nomes na Europa começou a ficar empobrecido. Uma razão reconhecida para isso foram as “modas”. Assim como hoje a moda é colocar o nome do cantor ou da modelo que estão se sobressaindo por ocasião do nascimento, naquelas épocas se colocavam os nomes dos personagens nobres e das outras pessoas de relevo, bem como dos santos católicos mais venerados.

Dá para deduzir que os sobrenomes começassem a se difundir pelas classes mais altas, aquelas que tinham interesse em definir heranças, títulos nobiliárquicos, negócios. Isto ficou mais nítido entre os séculos 13 e 15 na Europa. Só bem mais tarde essa característica se estendeu a outras camadas sócio-econômicas.

Note-se que, para iniciar um sobrenome, havia absoluta liberdade de escolha, já que simplesmente não havia regras e a adoção dele inicialmente era um ato de todo voluntário.

As palavras usadas como sobrenomes, em quase todas as culturas, vêm a ser na sua maioria de quatro tipos.

– Só quatro tipos de sobrenomes, Vô? Essa eu quero ver.

– Já estaria vendo se não fosse impaciente e não me interrompesse. Eis um dos mistérios do mundo: por que é que os jovens vivem como se estivessem para terminar logo a vida e nós, jovens de outrora, temos a calma de quem tem muito tempo pela frente.

Mas deixe-me prosseguir. Um desses tipos é o que chamamos de patronímico. Essa palavra vem do Grego patér, “pai”, mais ónoma, “nome”. Ou seja, é o nome do pai que se usa para definir o sobrenome do filho.

– Mas desse jeito cada geração de uma família vai ter um sobrenome diferente!

– Certo. Você entendeu bem. Só que o uso do patronímico se dá uma vez numa linhagem e fica por aí. Vou dar exemplos: um belo dia em Portugal, há alguns séculos, um senhor chamado Nuno teve um filho, José, que começou a ser chamado de “José do Nuno” ou, conforme o costume de usar o genitivo latino (a forma de indicar posse), José Nunes. Daí então veio a família Nunes.

Na mesma época, na Espanha, o Seu Rodrigo teve filhos que, pelo mesmo mecanismo, passaram a ser conhecidos como Fulano e Beltrano Rodríguez, “de Rodrigo”.

– Eu tenho um colega que é Nunes. Então se sabe direitinho quem foi o primeiro antepassado dele com sobrenome? Vou contar para ele!

– Não o entusiasme indevidamente. O fato é que o lugar exato de origem dos patronímicos é muito difícil de apurar. Esse tipo de sobrenome se caracteriza justamente por poder aparecer várias vezes em qualquer ponto dum país, ao longo dum período extenso, sem parentesco entre as famílias.

Os nomes assim formados são a maioria, pelo menos nos idiomas europeus. É claro que, fora da Península Ibérica, a partícula que indica o genitivo é diferente.

Assim, os Celtas usavam M′ ou Mac, que estão ainda em uso na Irlanda e Escócia. Logo, o MacAdam que inventou o macadame descende de alguém que um dia foi reconhecido como “o filho de Adam”.

Outro indicativo de patronímico em Irlandês é O′. A dona Georgia O′Keefe é descendente de alguém que era filho do Seu Keefe.

Muitíssimos nomes de origem germânica mostram que são patronímicos pelo final –sen ou –son, que quer dizer “filho”: Johanssen, “filho de Johann”, Nicholson, “filho de Nichols”.

Nos idiomas eslavos se usa -itch, -ov, -off para indicar patronímico: Ilitch, Romanov, Orloff.

O Italiano usa muito a terminação -ini: Zanini, Moschini.

– Vô, acho que a maioria das pessoas nem desconfia disso tudo.

– Correto. Este assunto faz parte de uma matéria chamada Onomástica, que lida com nomes e sobrenomes. Poucos têm a noção de que isso seja assunto de estudos e livros. Provavelmente você seja o único aluno do seu colégio a ter notícia disso.

Mas, meu rapaz, preciso sair daqui a pouco; vamos continuar a conversa da próxima vez?

– Vamos, Vô. Mas antes o senhor não pode me falar sobre aqueles que eu citei e que o senhor disse que não eram sobrenomes?

– Ah, sim. Um era Alexandre Magno, não? Isso não é sobrenome; é o Latim magnus, “grande”. Trata-se de um apelido honorífico, não sobrenome. O outro era…

– Júlio César.

– O nome dele era Gaius (ou Caius, dá no mesmo) Julius Caesar. O primeiro era o praenomen, o “nome inicial”. Havia pouquíssimos deles entre os romanos, a ponto de muitas vezes eles usarem apenas a inicial da palavra.

O segundo era o nomen gentilicium, que era o nome da gens, um aglomerado de famílias. O terceiro era o cognomen, que era o mais equivalente ao nosso sobrenome. No caso, caesar correspondia a “cabeleira”, pois algum antepassado dele devia ter sido muito pão-duro para gastar com o barbeiro.

Os outros que você disse, como Moisés, Hipócrates, não tinham sobrenomes definidos porque estes ainda não tinham regras na época. Posso dizer que Hipócrates, o Pai da Medicina, era conhecido como Hipócrates de Cós, o nome da ilha grega onde ele nasceu.

E Platão simplesmente não era o nome do filósofo. Seu nome era Arístocles, mas ele recebeu o apelido Plato (grande, largo), dizem uns porque seus ombros eram muito largos, dizem outros que era devido à largura da fronte. Seja como for, consta que ele era muito feio. E muito inteligente.

Mas muito bem, volte neste fim de semana que a gente continua a conversa. Ainda não resolvi de todo a sua dúvida.

Resposta:

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