Palavra surpresa

Tia Odete é Homenageada

– Puxa, pessoal, eu realmente não estou acostumada a falar em público, exceto para as crianças da minha aulinha. Como? Não preciso gritar tanto assim? Está certo, desculpem , é o hábito.

Mas que surpresa! Bem que ontem eu vi o pessoal preparando esses cartazes de “Viva a Tia Odete!”, mas não podia imaginar que fosse para mim, apesar de hoje ser o “Dia da Funcionária do Mês”.

E surpresa, não se esqueçam, vem do Francês surprendre, de sur, “sobre”, mais prendre, “pegar, prender”, do Latim prehendere, “agarrar, prender, pegar à força”. Imaginem o que o bandido sente quando está achando que escapou e o mocinho pula de uma árvore em cima dele. Essa é a idéia.

Mas, como eu ia dizendo, apesar da minha falta de experiência com uma audiência adulta, não posso me furtar a dizer uma ou duas palavras para agradecer a esta homenagem tão sincera e tão espontânea de que sou alvo.

E, falando em homenagem, posso dizer desde já que essa palavra provém do Provençal Antigo, onde era omenatge, derivado do Latim hominaticus, de homo, “homem”. Era uma forma de um homem prestar vassalagem a outro nas épocas feudais, mas acabou tendo um sentido geral de “fazer honrarias”.

É claro que eu sei que nossa escolinha está fazendo um daqueles programas de qualidade que são usados para extrair até o bagaço de quem trabalha, fazendo muitos cumprimentos e recusando aumentos.

E todos nós aqui sabemos que, como parte desse programa, cada pessoa daqui já foi nomeada “Funcionária do Mês”, desde o pessoal que varre o pátio até a Diretora que está ali ruborizada e que eu sou a última da lista e que no próximo mês tudo vai recomeçar, mas tudo bem.

Já que eu disse funcionária, não custa lembrar que esta palavra vem do Latim functio, “função”, de fungi, “cumprir, realizar, desempenhar”. Functionarius era quem exercia uma função. Chegou até nós pelo Francês fonctionnaire.

Em todo caso, agradeço comovida esta medalha de plástico dourado numa corrente de alumínio também dourado que estão me entregando.

Engraçado, há uma figura de atleta nela. Ou não havia outra na casa das medalhas ou então estão dizendo que sou uma verdadeira atleta por agüentar essa turma. Prefiro esta hipótese.

Colho a ocasião para contar aos presentes que agradecer vem do Latim gratus, “o que agrada ou que reconhece um agrado”.

E que comover vem do Latim commovere, “mobilizar, mover conjuntamente”, formado de com-, “junto”, mais movere, “mexer, deslocar, mover”. Uma pessoa comovida é alguém que foi retirada do seu estado natural pelo esforço de outros, mesmo que eles não estejam muito desejosos de fazer isso.

E medalha tem uma história até bastante longa. Em Francês é médaille, em Italiano é medaglia, e derivou do Latim metallea moneta, “moeda feita de metal”. Nesse idioma, metallum queria dizer “metal”, e derivou do Grego metallon, “minério, metal” . Só que o sentido original desta palavra era “mina, escavação para buscar material”, derivado de metalleúein, “escavar, minar”, relacionado ao verbo metallan, “procurar, pesquisar”.

Quem diria, um caminho ininterrupto entre os gregos que procuravam materiais úteis e esta coisinha barata que acabam de pendurar no meu pescoço!

Por sua vez, alumínio é da palavra cunhada por Sir Humphrey Davy, que lá pelo fim do século dezoito, descobriu este elemento. Inicialmente ele o chamou de alumium e depois aluminum. Este nome foi mantido pelos americanos, mas os ingleses preferiram aluminium, “que soava mais clássico”, conforme uma publicação de 1812.

O nome foi escolhido por ele devido ao alume, sal mineral usado como adstringente, que em Latim se chamava alumen, “sal amargo”, com a mesma origem do Grego aludoimos, “amargo”.

Mas acho que estou me desviando do meu objetivo, que é agradecer pelas honrarias de hoje.

E a maior honra foi terem trazido a minha turminha de aluninhos que me olham dali do fundo. Vejam só o Zorzinho escrevendo sem parar, a Valzinha falando sem parar, o Joãozinho muito compenetrado com alguma revistinha misteriosa, a Joana Beatriz ouvindo os sussurros do Sidneizinho no seu ouvido, a Ledinha sem saber o que está acontecendo… São uma turma inesquecível. Mal posso esperar que termine este ano.

Sinceramente, não precisavam tê-los trazido! Principalmente se queriam me homenagear de verdade.

Como dizia eu, é uma honra, palavra que vem do Latim honos, “honra, reputação, dignidade”, ser agraciada com este título e este diploma impresso pelo computador em papel A4 barato, vejam só: vou mostrar e vocês vão aplaudir como se fosse algo fabuloso.

Não vou dizer que diploma, “licença, mapa”, originalmente, vem do Grego diploun, “dobrar”, de diplos, “dobro” porque acho que todos já sabem, mas quero lembrar que esta palavra não deve ser confundida com dilema, um termo técnico de Retórica, do Grego dilemma, “dupla proposição”, formado por di-, “dois” e lemma, “premissa, algo aceito como verdade”. A noção correta é “ter que fazer uma escolha entre duas alternativas desagradáveis”.

Antes que alguém me pergunte de onde vem título, respondo que é do Latim titulus, “cabeçalho, inscrição”, de origem obscura. Adquiriu o sentido de “palavra que indica a posição hierárquica de uma pessoa” lá pelo século quinze.

E fabuloso vem de fabula, como se chamava em Latim uma história. Literalmente, quer dizer “o que é contado”, do verbo fari, “falar, contar”, com base Indo-Européia bha-, “falar”.

Os mais velhinhos, como eu, se lembrarão das fábulas que ouvíamos na infância, histórias edificantes passadas entre animais, cuja idéia era nos incutir moral e sentimentos elevados. Pelo que se vê do mundo ao nosso redor, parece que não deu muito certo.

Mas, senhora Diretora, – ei, a senhora sabia que esse seu cargo se chama assim porque em Latim dirigere era “colocar certo, determinar corretamente”, formado por dis, “fora” e regere, “guiar”? E que isso vem do Indo-Europeu reg-, “mover em linha reta”?

Como se supunha que o soberano de um povo fizesse tudo certinho, tudo direitinho – que tempos aqueles, não? – daí veio o Latim rex, “rei”. Em Sânscrito, era rajan, “rei, líder”, que originou rajá e marajá. Essa base também originou em nosso idioma as palavras reto e correto.

Como eu dizia antes de interromper a mim mesma, senhora Diretora, não posso senão expressar meus grandes agradecimentos por esta homenagem tão espontânea, tão sincera, tão pura, tão especial, tão… faltam-me as palavras, exceto para perguntar se já definiram um aumento de salário para nós, pobres seres que aguentam a dureza sem praticamente emitir uma queixa que seja.

Ah, puxa, desculpe, a senhora está atrasada para o dentista e vai ter que sair correndo, eu não sabia! Diga a ele que a senhora merece o prêmio de Paciente do Mês!

Resposta:

Limites

– Robertinho, desça de cima da mesa! Sidneizinho, deixe a roupa da Helô em paz! Miguelito, pare de comer lápis que isso dá prisão de ventre! Mariazinha, tire o nariz daí! Crianças, chega! Parem! Eu vou matar alguém hoje!

Hein? Ah, Humbertinho, pelo menos você se importa com uma pobre professora e me traz um copo dágua com açúcar. Se depender desses outros aí, vou até o limite e me arrebento.

Antes que isso aconteça, para tentarmos nos acalmar, nada como falar um pouco sobre Etimologia.

Vejamos: eu falei em limite. Esta palavrinha vem do Latim limes, “caminho entre dois campos, fronteira, sulco”. É mais uma daquelas que demonstram a origem camponesa do idioma romano.

Outra deste tipo que me vem à mente é rival. Ela deriva de rivus, “pequeno curso dágua, riacho”, que também originou o nosso rio. Como surgiam muitas diferenças, inimizades e roubos por causa da divisão das águas para irrigar as plantações, as pessoas que tinham que dividir a água de um rivus muitas vezes competiam entre si, ficando rivais.

Mas, voltando ao limes: se vocês não aprenderem a ter limites no seu comportamento, não me surpreenderia de ver todos vocês na prisão, lavando o piso com escova de dentes e comendo apenas minhoca crua com suco de morcego.

Calma! Não chorem! Não quer dizer que vá acontecer com todos! Está bem, na verdade, foi um certo exagero de minha parte. Eu estava meio zonza por causa daquela bagunça toda.

Como, Ledinha? Se a minhoca é lavada antes e se o suco tem açúcar? Deixe isso para lá, nem pense mais. Olha ali, o Robertinho quer fazer uma pergunta. Isso geralmente é sinal de besteira, mas vamos lá.

Não, não, meu filho. Uma liminar não é um ato da Justiça que ocorre quando a gente está no limite e não agüenta mais. Essa palavra vem de uma parente próxima de limes. Ela deriva de limen, “limiar, fim, fronteira”.

Esta, além de limiar em nosso idioma, nos trouxe eliminar, de e-, ex-, “fora, além” mais limen. Queria dizer “colocar porta afora”, já que a porta era a fronteira da casa. Depois veio a significar “livrar-se de”, coisa que infelizmente uma professora não pode fazer à sua vontade.

As professoras agora mal podem fazer propaganda subliminar, de sub, “abaixo” e limen, ou seja, “aquilo que está abaixo do limiar de percepção”. Se o mau comportamento de vocês todos me levar para o caixão, eu apareço de noite para puxar os pés de vocês nas caminhas, isso é uma promessa de agonizante!

Ah, vocês querem outro, digo, um exemplo de propaganda subliminar? Na década de 1950, os americanos se entusiasmaram com os resultados de se escrever uma palavra em apenas um dos quadros de um filme.

Isso porque descobriram que, embora aparecendo apenas na tela por 0,041 segundos e sem entrar para a consciência, as pessoas conseguiam entender mesmo sem perceber e reagir de acordo.

Lembro-me de um desses quadros que saiu numa revista quando eu era menina: aparecia só o rosto da mocinha com cara de horror, e acima dela estava escrito blood, “sangue”, antecipando o que ela estava vendo no defunto que acabava de encontrar.

Dizem que os resultados foram muito bons. E justamente por isso é que isso foi proibido.

Se bem que eu tenho minhas dúvidas. Tenho a sensação de que a maioria dos filmes atualmente traz escrito em alguns quadros: “Sejam burros!” “Aceitem qualquer porcaria!” “Não leiam!” “Livro faz mal!”. Isso explicaria muita coisa.

Ainda explorando nosso Latim, preliminar quer dizer “o que ocorre antes de ultrapassar o limite e entrar na verdadeira ação”.

Não, Sidneizinho cabeça suja, não me venha falar nesse tipo de preliminares. E fique quieto aí. Aliás, saia de perto da Helozinha, que é um amor mas é muito inocente. Sente-se ali do lado da Mariazinha, onde a coisa é outra.

Limen também significava a parte alta da abertura da porta, lintel, como dizem os arquitetos. Daí sublime, “o que ficava o mais alto possível” numa abertura.

Em Química temos sublimação, “algo elevado a um estado mais alto”, o que ocorre quando um sólido passa direto ao estado gasoso. Isso acontece com as bolinhas de naftalina que eu coloco no meu roupeiro contra as traças, por exemplo. Bem, ou isso ou as traças as comem, não posso garantir.

As traças de lá são famintas, já que há muito pouco o que comer no meu roupeiro. Fazer um esforço titânico para educar certas crianças não rende muito.

Em Psicologia também se usa sublimação. Mas há umas experiências que a gente não consegue sublimar, como por exemplo ter que lidar com um grupo de demônios agitados.

Se eu alguma vez na vida eu já tive que fazer isso, Ledinha? Já, minha filha, já. Mas vamos voltar à nossa conversa.

Quando eu estava um pouco alterada, minutos atrás, disse que não me surpreenderia de os ver na prisão. Vejam só, há uma forte relação entre essas duas palavras.

Surpresa vem do Latim prehendere, “pegar, levar adiante de si, capturar, segurar”. Foi formada de super, “sobre” mais prehendere. Significava “apanhar no ato, cair em cima”. Depois passou a significar a sensação causada por ser apanhado sem aviso.

Este prehendere também originou as palavras prender e prisão, para onde vão os que foram capturados, os que foram presos.

Dessa palavrinha também veio o Francês prendre, com particípio passado pris, “tomado, pegado”. O feminino prise é usado em certos meios para dizer uma dose de alguma coisa, nunca muito boa.

Os pais de vocês os colocaram aqui para aprender, o que vocês pouco fazem. Esse verbo vem justamente de ad, “junto” mais prehendere, com o sentido de “levar para junto de si, para junto da memória”.

Tecnicamente vocês são, portanto, aprendizes. Mas o que vocês aprendem de mau no recreio – principalmente com as revistinhas que o Sidneizinho traz – costuma ultrapassar o que uma pobre e dedicada professora no extremo de suas forças consegue. Isto é um fato.

Falando em fato, sabiam que esta palavrinha vem do Latim facere, “fazer”, uma avó latina que tem muitos e muitos netinhos trabalhando no nosso idioma?

Um deles é facção. Inicialmente, queria dizer “o ato de fazer”. Lá pelas tantas, esta palavra foi usada para designar um grupo de pessoas que trabalhavam para as corridas do Circo em Roma. Esse significado se estendeu para designar um partido ou grupo com interesses em comum, nem sempre muito limpos.

Não, Robertinho, Santa Paciência me proteja, facção nada tem a ver com ficção. Esta vem do Latim fingere, originalmente “covardia”. Como é comum que uma pessoa covarde, para obter o que deseja, simule algo que não sente ou que não é, esta palavra acabou designando o ato de “fingir”.

Aquilo que é fácil de fazer, como incomodar uma professora que é boazinha demais, era dito facilis. O contrário, como tentar ensinar umas letrinhas e numerozinhos ou conseguir um pouco de paz na aulinha, era difficilis, “difícil”, de dis, “mau” e facilis.

Satisfazer vem de satis, “bastante, suficiente, em quantidade adequada” mais facere: “fazer do modo desejado”. Ah, se meus desejos fossem satisfeitos, muitos conhecidinhos meus seriam mudos!

Benefício tem a mesma origem: de bene mais facere, “fazer bem, fazer certo”. Se a turminha continuar se comportando desse jeito, não terá benefício nenhum na vida, pois não vão aprender nada.

Este facere, transformado em sufixo (aquele pedacinho da palavrinha que fica no fim, quando ela é formada por mais de uma, que nem as que estamos vendo), virou -ficere ou -ficare. E gerou as nossas palavras que terminam por -ficação, como: clarificação, amplificação, liquidificação, ramificação e um monte de outras.

O que eu gostaria mesmo é que algum milagre conseguisse a pacificação deste grupo incontrolável. Mas acho que não existe santo tão forte!

Resposta:

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