Palavra tempestade

Uma Tempestade

Eu tinha ido visitar meu avô e cheguei à sua casa sob uma cobertura de nuvens bem escuras, num dia ventoso e frio. Percorri o pátio entre as folhas em revoada e entrei em seu gabinete.

Uma gostosura: madeira, couro, livros cuidadosamente arrumados por toda parte, um fogo aceso na pequena lareira. O velho se alegrou em me ver. O gato Ernesto Sábato, que estava em seu colo, miou e veio me fazer festa, bem no momento em que o vento uivou mais forte lá fora e a chuva começou a cair com força no telhado.

– Escapou da procela bem na hora, hein, meu neto?

– Sei que escapei da chuva, nisso aí nunca ouvi falar, Vô! – e me acomodei no banco macio onde eu costumava ficar horas perdidas ouvindo-o falar.

– Claro, na época atual os jovens que sabem mais de 500 palavras em nosso idioma são raros. Com sua idade eu já estava cansado de saber que essa palavra significa “tempestade”. Só levei algum tempo para descobrir que vinha direto do  Latim procella.

– Quer dizer que há duas palavras para designar um tempo destes?

– Hum, mais que duas. Por exemplo, pode-se usar tormenta para o mesmo fim. Esta vem também do Latim, no qual tormentum designava uma máquina de guerra usada para arremessar pedras ou um instrumento de tortura.

– Ué, e o que tem a ver com tempo ruim?

– Tem que, naquelas épocas, as pessoas eram muito mais afetadas pelas variações climáticas: elas eram apanhadas no campo, suas plantações eram destruídas, seus parentes que trabalhavam em barcos muitas vezes não voltavam. Daí o sentido atual de tormento, de “sofrimento, dor moral”.

Por falar nisso, tempestade vem do Latim tempestas, relacionado com tempus, “tempo”, que inicialmente queria dizer “espaço transcorrido entre dois momentos” – e mantém esse significado – e depois passou a expressar “período de clima”.

Mas em Inglês há palavras separadas para isso: o tempo do relógio é time e o do clima é weather.

– Veja só. Mas como sopra o vento! Assim a gente se sente mais abrigado aqui dentro, não é?

– Verdade, e antes que você pergunte, vou dizer que ventania vem de ventus, “vento” mesmo, que não mudou muito com os séculos.

Um trovão soou e o gato se enfiou debaixo de uma mesa, orelhas para trás e pupilas dilatadas. O velho disse:

– Por mais que eu explique, esse gato não acredita que esse barulho não vai machucá-lo.

– Se o senhor tivesse orelhas que nem as dele aposto que não ia gostar de trovoada também.

– Tem razão, rapaz, tem razão… E sabe que trovão vem do Latim turbo, “turbilhão”?

E sabe que antigamente uma canhão podia ser chamado de trom, por derivação de trovão?

– E o furacão, Vô, é verdade que quando passa um deixa todos os cachorros com um buraco?

– Mais uma dessas e eu o jogo lá fora na borrasca, seu gracioso. Essa palavra vem, através do Espanhol huracán, do idioma Taino, do Caribe, onde essas tempestades complexas são comuns.

Existe também o tufão, que representa um caso muito curioso de origens totalmente diferentes com sons semelhantes e mesmo significado.  Deriva tanto do Grego Typhon, um deus dos ventos, talvez relacionado a typhein, “fazer fumaça”, como do Cantonês tai fung, “grande vento”.

E não se esqueça que furacão acontece no Atlântico e que tufão ocorre nos mares asiáticos.

– Quando tiver meu iate transoceânico vou me lembrar disso, Vô. Mas o senhor disse que ia me jogar na borrasca. E esta, de onde vem?

– Parece vir do nome de outro deus grego dos ventos, um tal de Bóreas “o vento Norte”.

– Daí a “aurora boreal”?

– Muito bem, meu neto, eu sempre disse que você é mais inteligente do que parece. Perfeito, “boreal” é sinônimo de “setentrional”, de “relativo ao norte”.

Eu não sabia se me animava com aquele duvidoso elogio ou não, de modo que perguntei de onde vinha tornado.

– Essa vem de outra mistura; tanto do Latim tornare, “virar”, coisa que o vento faz com alta velocidade, como de tonare, “trovoar, fazer barulho”.

– E os ciclones ?

– Essa é do Grego kyklos, “o que se move em círculos”.

– Imagino os faunos e ninfas correndo de um ciclone naquelas épocas antigas…

– Pois pode parar, que essa palavra é moderna. Começou a ser usada em 1848, por obra de um funcionário inglês na Índia, ao descrever uma tempestade enorme que se formou lá.

– Enfim, e o toró?

– Essa parece ser de origem onomatopaica, ou seja, imitativa de um som.

Mas agora vamos ficar ouvindo a chuva e curtindo esse barulhinho gostoso, que muita Etimologia pode fazer mal para cabecinhas ocas.

E assim ficamos, olhando o fogo e ouvindo a chuva.

Resposta:

Coisas Que Estão No Ar

Se olharmos para cima, poderemos ver fenômenos típicos de nossa atmosfera. Em retribuição, eles até podem fazer contato com a gente, como a chuva que nos molha, o trovão que nos atordoa ou o raio que nos pode torrar. Enquanto nada disso acontece, vamos ver o que se pode comentar sobre os seus nomes.

CÉU – do Latim Caelus, que era como se designava em Roma o que era Ouranós para os gregos. Este era o deus que personificava o céu, um dos primeiros a surgirem no Universo.

Ele era casado com Gea, a Terra. Isso a mesmíssima Terra que agora está na moda chamar, com ar virtuoso e verde, de “Gaia”.

Supõe-se que a palavra derive de uma raiz muito antiga que significava “brilhante, claro”, donde o céu seria “o iluminado, o brilhante”.

O nome Urano foi aplicado a um dos planetas exteriores (o sétimo a contar do sol) em épocas mais recentes; os antigos não o conheciam.

Urânia era o nome da Musa dedicada à Astronomia.

CREPÚSCULO – do Latim crepusculum, diminutivo de creper, “escuro”. Será que os romanos convidavam as romanas para sentarem no crepusculum do Circo Máximo para trocarem uns amassos?

Antes que alguém pense em crêpes Suzettes, informamos que crêpe vem do Latim crispus, “ondulado, frisado”, (o tecido crepe e o papel crepom têm a mesma origem) e nada tem a ver com o momento do dia em que está meio escuro porque o sol ainda não se pôs ou ainda não nasceu.

Isso mesmo, há dois crepúsculos por dia: um matutino e outro vespertino.

METEOROLOGIA – em Grego, metá significava “além, mais adiante” e aeirô, “ergo, elevo, levanto no ar”.

Daí temos a palavra meteoro que, diferentemente do que pensa a maioria, tem o significado básico de “qualquer fenômeno natural que se manifeste na atmosfera”

Assim, a chuva é um meteoro hídrico, o raio é um meteoro luminoso, o trovão é um meteoro acústico.

Meteorologia é a ciência que estuda esses fenômenos com o objetivo de fazer previsão climática, o que tem enorme importância para evitar desastres naturais e para orientar atividades como a agricultura.

A estrela cadente que costumamos chamar chamar de meteoro é dita meteoróide em linguagem científica. Se for apanhada de onde caiu, é chamada de meteorito.

Meteorismo é a formação de gases nos intestinos.

NUVENS – em Latim, diz-se nubes. Como na antiga Roma já havia o costume de a noiva usar véus cobrindo o rosto durante a cerimônia de casamento, e estes eram meio transparentes como as nuvens, formou-se o verbo nubere, “contrair matrimônio, casar”.

Dessa palavra se formaram núpcias, “casamento”; núbil, “apto para casar” (em geral usado para a mulher); nubente, “pessoa que está por casar”.

De nubes se formaram também palavras de uso mais raro, como:

Nubifrágio, com o uso de frangere, “partir, quebrar. romper”, significando “aguaceiro, chuva forte”. É como se a própria nuvem tivesse se partido e derramado toda a sua carga de repente.

Que tal chegarmos encharcados no trabalho, resmungando contra o nubifrágio que nos apanhou? Não parece chique?

Nubívago, com vagare, “vagar, errar, deslocar-se sem destino”. Significa “pessoa que vive nas nuvens”. Fenômeno comum entre etimologistas. Sinônimo: nefelibata.

Núbilo, nubiloso: “nublado, coberto por nuvens”.

Névoa, neblina: de nebula, diminutivo de nubes. É alusão à sensação de se estar numa nuvem quando estamos em meio à neblina. Algo nebuloso é uma coisa que não se pode distinguir direito porque está meio oculto, como um negócio escuso.

CHUVA: vem direto do Latim pluvia, que deu lluvia em Espanhol e pluie em Francês.

RAIO: em Roma, era chamado de radium.

RELÂMPAGO: parece vir de re-, que indica repetição ou reforça o sentido, e lampadare ou lampadicare, de lampada, “tocha”.

TROVÃO: do Latim turbare, “confundir, fazer girar, perturbar”.

ARCO-ÍRIS: Íris, para os gregos, era uma deusa que formava como uma ponte entre o céu e a terra, entre os deuses e os homens. Poético, bonito, não?

Essa palavra vem de uma raiz Indoeuropéia wi-, “dobrar, encurvar”. Deste modo, dizer arco-íris é uma duplicação, pois ambas as partes da palavra dão a noção de arco, curva.

TURBILHÃO – já que falamos nele… Vem do Francês turbillion, que veio do Latim turbo, “que gira“. Se algo gira, tem uso em Mecânica, como se vê das numerosas aplicações que os derivados de turbo têm nessa área.

REDEMOINHO – antes era rodomoinho, passando a rodamoinho e à forma atual. É uma palavra formada em alusão ao movimento que a roda do moinho efetua para moer o grão.

CERRAÇÃO – do Latim serare, “fechar, cerrar”. Sim, era com “S” mesmo que começava. Aplica-se ao tempo fechado, com visibilidade restrita.

TEMPESTADE – vem do Latim tempestas, que além de mau tempo” significava “época, lapso de tempo” um uso que agora não temos mais.

Resposta:

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