Palavra trinca

Três

Santa Verbena, poupai-me esta cena! Segurai-me, Santa Sofia, para que eu não mate alguém um dia! Ai, São Nicanor, que pavor!

A gente não pode sair para beber um pouco d’água, que é o único que uma pobre professora pode usar para matar a sua sede hoje em dia, pois certamente não haverá ninguém suficientemente agradecido para lhe comprar uma champanhe Veuve Cliquot, que ao voltar acaba descobrindo Tiácono e Aninha dançando em cima da mesa – um talento para subir ao palco, esses dois – Valesquinha puxando os cabelos do Sidneyzinho, que desmancha a chapinha da Leonorzinha, que morde uma orelha do Zorzinho, que bate com um pen-drive na Ledinha… e mais coisas eu diria se achasse que vale a pena descrever situações tão horríveis.

Ah, foi porque alguém – já nem sabem quem – pegou três lápis de cor de outro alguém, igualmente esquecido, aí uns e outros tomaram as dores de outros e uns… Como sempre, o caso é fazer confusão.

Parem com isso – JÁ!!

Ajudem sua boa e sacrificada Tia Odete, que deve ter sido muito má em vidas passadas e agora está, por desígnio dos deuses, pagando caríssimo sem sequer saber o que fez, a arrumar um pouco esta sala.

Pensando bem, não ajudem em nada, apenas sentem em rodinha aqui no chão que eu vou contar uma coisa para vocês. Por exemplo, a origem da palavra três. Ela vem do Latim tres, do Grego treis, do Indo-Europeu trejes.

E dessa raiz vieram muitas palavras de uso atual. Umas são evidentes, como tricampeão, “o que é três vezes campeão”, da forma combinante tri-, mais o Latim campio, “gladiador, combatente no campo”, de campus, “campo”.

Ou como trimotor, do Latim motor, “aquele que empurra, que desloca”, de movere, “mover”.

Há mais umas palavrinhas bem evidentes, como tritongo, que vocês ainda não aprenderam porque ainda são analfabetos mas que quer dizer “grupo de três vogais numa sílaba”, formada com o Grego phtongos, “ruído, voz”. Isso ocorre, por exemplo, na palavra cachoeira.

Ou o trissílabo, “palavra formada por três sílabas”, com o Grego syllabe, “sílaba, sons tomados juntos numa emissão de voz”, de syn-, “junto”, mais lambanein, “tomar”.

Ou o conhecido isótopo do Hidrogênio, o trítio, assim chamado por ter massa atômica três.

Como, Ledinha? O que é ? Ué, minha filha, nunca ouvi falar… Onde é que você viu?… Não, não é assim! Tricô não são três côs, essa palavra vem do Francês tricot, “agulha para tecer”, originalmente “vara, bastão”, nada a ver.

Pare de bobagem e aprenda que a trípode, o banquinho de três pernas, vem de tri mais o Grego pous, “pé”.

E que trivial é do Latim trivialis, “vulgar, comum”, possivelmente porque esse nome era dado a um encontro de três vias ou ruas, onde as pessoas ficavam conversando besteira, não dizendo nada que prestasse, que nem aqueles dois dançarinos ali, que aparentam estar combinando a próxima barbaridade.

Mas a explicação mais complexa é de que essa palavra vem do Latim trivium, as três primeiras das sete artes liberais, tal como eram estudadas na Idade Média.

Claro que triplicar tem a mesma origem, com o verbo latino plicare, “dobrar uma folha ou tecido”.

O mesmo vale para TNT, ou trinitrotolueno, uma substância que apresenta três átomos de Nitrogênio ligados a uma molécula de tolueno, e que atende também pelo nome de “dinamite”, que já tentei comprar uma vez para me livrar de certos problemas mas não consegui.

Quando a gente vê uma trinca de pessoas reunida num canto com cara de quem planeja maldades, está lidando com outra palavra com a origem de que falamos. Neste caso temos que nos cuidar, né, Joãozinho, Mariazinha e Robertinho?

O nome da cidade de Trípoli, na Líbia, vem do fato de que inicialmente ali havia três cidades: polis em Grego é “cidade”.

A palavra tribo é outra descendente… Calma, Leonorzinha, isso não é palavra índia coisa nenhuma.

Leve para o seu clube a notícia de que ela vem do Latim tribus, cada uma das três divisões étnico-políticas originais do Estado romano. Foi aplicada às nações indígenas pelos descobridores da América, mas é de uso muito mais antigo na Europa.

Outra apresentação dessa raiz são diversas palavras iniciadas por ter-, como terciário, “relativo ao terceiro numa ordem”, ou terciopelo, que poucos conhecem mas que é outro nome do veludo, por ser trançado com três fios na máquina.

Mas já consegui juntar o material esparramado, junto com muitos cabelos arrancados, e está soando o sinal de fim de aula, graças aos céus. Voltem para suas casinhas e contem aos seus papais, que não se importam com as dores de uma certa professora, tudo o que aprenderam hoje.

Resposta:

Quatro

O detetive das palavras, X-8, está à espera da sua palavra-cliente desta noite. Ela havia marcado uma sessão antecipadamente, de modo que o detetive havia feito as devidas pesquisas nos seus alfarrábios e estava com o resultado delas devidamente datilografado num papel meio amassado com uma máquina de escrever antiga.

Datilografar à moda da Idade da Pedra era a parte do trabalho que não agradava a X-8: ele estava acostumado a lidar com o seu atualizadíssimo computador, que se escondia na sala ao lado da sala de atendimento.

Essa sala era bem diferente desta em que ele se encontrava: em vez de se mostrar suja, com teias de aranha cuidadosamente colocadas e frestas na madeira feitas com toda a atenção, a sala do computador apresentava prateleiras limpas, uma estação de trabalho potente e bem cuidada, luz bem clara, móveis modernos.

A sala para a clientela era um esforço de marketing de X-8, que sabia que palavras são românticas incuráveis e que quando saem à procura de suas origens se sentem o máximo se estiverem num ambiente sórdido dos Anos Cinquenta.

Não era diferente neste caso: a palavra-cliente era Quatro, e olhava ao seu redor com o ar de quem queria decorar o ambiente para contar depois às suas amigas.

– Pois é, cara cliente – o detetive começou a desenrolar o discurso que, com pequenas modificações, fazia para todas – consegui, depois de muito trabalho e perigos, desencavar a verdade que se esconde por trás de suas origens, bem como localizar algumas parentas suas que atualmente se encontram em uso. Saiba que muitas clientes minhas acabaram fazendo clubes de parentesco a partir de minhas informações.

– Que perigos eu corri? – a voz do intrépido detetive soou mais gelada por trás da capa levantada da gabardine – não, não falarei nisso, para sua própria segurança. Vamos apenas dizer que, se alguns malfeitores se encontram agora sete palmos abaixo da terra, foi porque eles mereceram.

Isso sempre dava certo; palavras são muito crédulas, por isso se faz o que se quiser com elas.

Agora o detetive entrava no assunto:

– Sua origem é o Latim quattuor, do Indo-Europeu qwettuor, “quatro”. E daí surgiu uma enormidade de primas suas, como por exemplo quadrúmano, “o que tem quatro mãos”, feito em conjunto com o Latim manus, “mão”; quadrifólio, “o que tem quatro folhas”, com o Latim folia, “folha”.

Também está o quadro, que assim se chama por ter quatro lados, o mesmo acontecendo com o quadrado e as quadras da cidade por onde andamos.

E a quadrilha, que agora pode ter qualquer número de pessoas, mas que começou como um grupo de quatro malfeitores. Confesso que não sei se é porque eles achavam uma trinca muito pouca gente para os atos malvados e uma quintilha gente demais para repartir os lucros, sei lá.

Mas, falando em coisas mais elevadas, um quarteto, em música, é uma composição feita para apenas quatro executantes, coisa boa de se ouvir.

E os soldados se reúnem no quartel, que veio do Latim quartarius, “a quarta parte”, usado para designar uma parte ou distrito de uma cidade; mais tarde, esse termo passou a designar “alojamento militar”.

A frase “não dar quartel” significa que, numa batalha, não se acolhe o inimigo, mesmo que ele se renda. Coisa feia, isso.

Existe um tipo de malária chamado quartã porque as crises febris se dão a cada quatro dias.

Mas também existem suas parentas que não apresentam a origem de forma tão óbvia. Por exemplo, caderno, que vem de quaternus, “de quatro em quatro”, porque para se fazer um se tomava uma folha padrão do tamanho chamado in-fólio, que era dobrada quatro vezes. É claro que atualmente os cadernos nem sempre seguem esse tamanho, mas a origem foi essa.

E há uma palavra que menos parecida com você não pode ser, mas que tem a mesma antepassada: é xadrez, o jogo. O qual, por sua vez, originou o nome do padrão de tecido.

Não, não se espante, é verdade. O nome original desse jogo, em Sânscrito, é chaturanga, onde chatur quer dizer “quatro” – é um antepassado do quattuor latino – e anga era o nome das partes em que se dividia o exército da Índia: infantaria, cavalaria, carros de guerra e elefantes.

Sei que a mudança foi grande; é que esse nome passou a chatrang em Persa, a chatranj em Árabe, depois, na Península Ibérica, virou ajedrez em Espanhol e xadrez em Português.

Não se esqueça disso, você vai fazer sucesso contando essa para suas amigas.

Também a quaresma, os 40 dias entre o Carnaval e a Páscoa, vem do Latim quadragesima, “período de 40 dias”.

E, para aqueles que usam muito as folhas de tamanho A4, saibam que elas se chamam assim porque representam o tamanho de uma folha A-zero dobrada pela metade 4 vezes.

Como? Existe, sim, essa folha grande. Ela tem um metro quadrado, e a divisão da sua altura pela sua largura é exatamente igual à raiz quadrada de 2, o que permite padronizar os diversos tamanhos resultantes dela pela simples divisão de cada um deles pelo meio. Foi muito bem bolado, isso.

Bem, por ora e pelo que você pagou, é isto. Estou às suas ordens para outras consultas no futuro, naturalmente mediante pagamento adiantado.

Resposta:

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