Palavra quadrado

Quatro

O detetive das palavras, X-8, está à espera da sua palavra-cliente desta noite. Ela havia marcado uma sessão antecipadamente, de modo que o detetive havia feito as devidas pesquisas nos seus alfarrábios e estava com o resultado delas devidamente datilografado num papel meio amassado com uma máquina de escrever antiga.

Datilografar à moda da Idade da Pedra era a parte do trabalho que não agradava a X-8: ele estava acostumado a lidar com o seu atualizadíssimo computador, que se escondia na sala ao lado da sala de atendimento.

Essa sala era bem diferente desta em que ele se encontrava: em vez de se mostrar suja, com teias de aranha cuidadosamente colocadas e frestas na madeira feitas com toda a atenção, a sala do computador apresentava prateleiras limpas, uma estação de trabalho potente e bem cuidada, luz bem clara, móveis modernos.

A sala para a clientela era um esforço de marketing de X-8, que sabia que palavras são românticas incuráveis e que quando saem à procura de suas origens se sentem o máximo se estiverem num ambiente sórdido dos Anos Cinquenta.

Não era diferente neste caso: a palavra-cliente era Quatro, e olhava ao seu redor com o ar de quem queria decorar o ambiente para contar depois às suas amigas.

– Pois é, cara cliente – o detetive começou a desenrolar o discurso que, com pequenas modificações, fazia para todas – consegui, depois de muito trabalho e perigos, desencavar a verdade que se esconde por trás de suas origens, bem como localizar algumas parentas suas que atualmente se encontram em uso. Saiba que muitas clientes minhas acabaram fazendo clubes de parentesco a partir de minhas informações.

– Que perigos eu corri? – a voz do intrépido detetive soou mais gelada por trás da capa levantada da gabardine – não, não falarei nisso, para sua própria segurança. Vamos apenas dizer que, se alguns malfeitores se encontram agora sete palmos abaixo da terra, foi porque eles mereceram.

Isso sempre dava certo; palavras são muito crédulas, por isso se faz o que se quiser com elas.

Agora o detetive entrava no assunto:

– Sua origem é o Latim quattuor, do Indo-Europeu qwettuor, “quatro”. E daí surgiu uma enormidade de primas suas, como por exemplo quadrúmano, “o que tem quatro mãos”, feito em conjunto com o Latim manus, “mão”; quadrifólio, “o que tem quatro folhas”, com o Latim folia, “folha”.

Também está o quadro, que assim se chama por ter quatro lados, o mesmo acontecendo com o quadrado e as quadras da cidade por onde andamos.

E a quadrilha, que agora pode ter qualquer número de pessoas, mas que começou como um grupo de quatro malfeitores. Confesso que não sei se é porque eles achavam uma trinca muito pouca gente para os atos malvados e uma quintilha gente demais para repartir os lucros, sei lá.

Mas, falando em coisas mais elevadas, um quarteto, em música, é uma composição feita para apenas quatro executantes, coisa boa de se ouvir.

E os soldados se reúnem no quartel, que veio do Latim quartarius, “a quarta parte”, usado para designar uma parte ou distrito de uma cidade; mais tarde, esse termo passou a designar “alojamento militar”.

A frase “não dar quartel” significa que, numa batalha, não se acolhe o inimigo, mesmo que ele se renda. Coisa feia, isso.

Existe um tipo de malária chamado quartã porque as crises febris se dão a cada quatro dias.

Mas também existem suas parentas que não apresentam a origem de forma tão óbvia. Por exemplo, caderno, que vem de quaternus, “de quatro em quatro”, porque para se fazer um se tomava uma folha padrão do tamanho chamado in-fólio, que era dobrada quatro vezes. É claro que atualmente os cadernos nem sempre seguem esse tamanho, mas a origem foi essa.

E há uma palavra que menos parecida com você não pode ser, mas que tem a mesma antepassada: é xadrez, o jogo. O qual, por sua vez, originou o nome do padrão de tecido.

Não, não se espante, é verdade. O nome original desse jogo, em Sânscrito, é chaturanga, onde chatur quer dizer “quatro” – é um antepassado do quattuor latino – e anga era o nome das partes em que se dividia o exército da Índia: infantaria, cavalaria, carros de guerra e elefantes.

Sei que a mudança foi grande; é que esse nome passou a chatrang em Persa, a chatranj em Árabe, depois, na Península Ibérica, virou ajedrez em Espanhol e xadrez em Português.

Não se esqueça disso, você vai fazer sucesso contando essa para suas amigas.

Também a quaresma, os 40 dias entre o Carnaval e a Páscoa, vem do Latim quadragesima, “período de 40 dias”.

E, para aqueles que usam muito as folhas de tamanho A4, saibam que elas se chamam assim porque representam o tamanho de uma folha A-zero dobrada pela metade 4 vezes.

Como? Existe, sim, essa folha grande. Ela tem um metro quadrado, e a divisão da sua altura pela sua largura é exatamente igual à raiz quadrada de 2, o que permite padronizar os diversos tamanhos resultantes dela pela simples divisão de cada um deles pelo meio. Foi muito bem bolado, isso.

Bem, por ora e pelo que você pagou, é isto. Estou às suas ordens para outras consultas no futuro, naturalmente mediante pagamento adiantado.

Resposta:

Mais Inesperadas

Um dia eu estava ajudando meu avô a arrumar seu escritório. Era uma honra que ele me fazia, pois ninguém mais tinha autorização para tocar em seus livros e preciosidades. Mas dava trabalho retirar a poeira de tudo aquilo.

Quando lhe perguntei onde colocar um determinado caderno com capa xadrez, ele disse:

– Acho que por hoje já avançamos bastante. Como vou aceitar o seu trabalho voluntário amanhã também, podemos nos acomodar e conversar sobre o que você disse.

Acomodei-me para ouvi-lo trazer à luz aqueles assuntos tão interessantes que só ele sabia.

– Imagine só que xadrez e caderno têm exatamente a mesma origem.

– Não, esta é demais. Tente convencer-me.

Caderno vem do Latim quaternus, “a cada quatro”, de quattuor, “quatro”. Isso porque eles eram feitos de conjuntos de folhas de tamanho padrão dobradas em quatro.

– Mas daí para xadrez

– Quieto, impaciente. O nome desse padrão foi tirado do nome do jogo, até aí sua cabecinha consegue entender?

– Até aí minha cabecinha consegue entender, meu resmunguento avô.

– Pois o jogo era chamado na Índia, onde foi inventado, de chaturanga.

Essa palavra, que era usada para designar “exército”, se formava pelas palavras sânscritas chatur, “quatro”, mais anga, “divisão específica de um exército”. Note bem a semelhança entre as palavras chatur e quatro, já que esta veio daquela.

Naquela época e lugar, este era composto por quatro tipos de soldados: os da infantaria, os de cavalaria, os que usavam carros de guerra e os que andavam nos elefantes.

– Mas de chaturanga para “xadrez”…

– Ora, a palavra passou para o Persa como chatrang, daí para o Árabe como shatranj, e daí para o Espanhol como ajedrez, o que deu o nosso “xadrez”.

– E a cartolina, Vô? Com certeza veio de “quatro” também!

– É o que dá alguém se meter em Etimologia sem estudar antes. É bem assim que surgem os chutes e as interpretações populares.

Essa palavra não tem coisa alguma a ver com o número. Ela vem do Latim charta, do Grego khartes, “folha de papel”.

– Ora…

– Para você não se decepcionar tanto, vou contar que há outras palavras que vêm de quattuor. Por exemplo, quadrilha, que nos veio do Espanhol cuadrilla, “bando armado para exercer malfeitorias”, quando se considerava legalmente que um grupo com mais de três bandidos era circunstância agravante caso fossem apanhados.

Podemos lembrar também a palavra quartel, que lembra a época em que se considerava que uma cidade tinha seus quatro cantos, num dos quais se situavam as instalações militares, cujos prédios acabaram recebendo esse nome.

E, naturalmente, um quarteirão se chama assim porque tem quatro lados. O mesmo vale para quadro, quadrado, enquadrar, etc.

– E quadrúpede?

– É o que tem quatro patas, do Latim pes, “pé”. Falando nisso, um cavalo que tem manchas brancas em todas as patas se chama quatralvo, de “quatro” mais “alvo”.

E por hoje chega, amanhã quando você vier prestar serviço grátis tem mais.

Resposta:

Geometria

Você se lembra de quando lidava com Geometria na aula? Não lhe pareciam quase extraterrestres palavras como cateto, hipotenusa, secante, isósceles?

Pois está na hora de saber a razão de ser dessas palavras que a maioria decorou às cegas.

Pode ser que chegue tarde, mas vale a pena. Certamente se isso tivesse sido ensinado junto com a matéria propriamente dita seria mais fácil entender e gravar na memória o significado daqueles palavrões.

GEOMETRIA – para começar.

Vem do Grego geometria, “medida da terra”, de geo, “terra”, mais metrein, “medir” (de metron, “medida”, derivado do Indo-Europeu me-, “medir”).

Essa matéria teve início a partir da necessidade de definir com precisão os terrenos cultiváveis, quando a espécie humana passou a se ocupar com a agricultura. Se isso não fosse feito, haveria muita briga e disputa de terrenos. Ou seja, a Geometria ajudou a evitar mortes.

Os métodos usados para fazer essas medidas passaram de uma utilidade tão direta para outras, às vezes menos palpáveis mas igualmente importantes.

Uma dessas utilidades é definir figuras geométricas, das quais citaremos algumas.

CÍRCULO – vem do Latim circulus, “pequeno anel”, diminutivo de circus, “arena redonda”, do Grego kyklos, “redondo, circular”, do Indo-Europeu sker-, “dobrar, curvar”.

Esta palavra originou também o nome dos cíclopes, os gigantes com um só olho redondo que Ulisses teve que enfrentar na sua volta para casa. O nome deles se refere ao formato do olho, não ao fato de ele ser único.

QUADRADO – significa “o que foi cortado seguindo ângulos retos”, do particípio passado quadratus, do verbo latino quadrare, “tornar simétrico, esquadrar”, de quattuor, “quatro”.

RETÂNGULO – foi o nome que deram a um quadrado espichado, já que ele também tinha quatro ângulos retos. Estes são os que medem noventa graus.

POLÍGONO – nós o definimos como uma figura de duas dimensões com vários lados, mas o nome grego se ateve aos vários ângulos definidos por esses lados. Formou-se a partir de POLYS-, “vários, muitos”, mais GONIA, “ângulo”.

TRIÂNGULO – este tá na cara, né? De tri, “três”, “três vezes”, mais “ângulo”. Mas e esta palavra? Olhem só:

ÂNGULO – aqui há uma história bem interessante. A palavra vem do Latim angulum, “esquina, canto, dobra”. É o diminutivo de uma base Indo-Européia ank-, “dobrar”.

Pois bem, desta fonte surgiu o nome de um lugar, hoje conhecido como Holstein, na Alemanha; em épocas remotas ele se chamava Angul, porque as terras formam um ângulo bem pronunciado no mapa. Em conseqüência, o povo dali passou a ser chamado de Angli, em Latim.

No século 5, não tendo nada melhor para fazer, eles invadiram e colonizaram algumas regiões da Grã-Bretanha. Como o dialeto deles casualmente foi o primeiro a ser registrado de forma escrita, o lugar acabou sendo conhecido como “a terra dos Anglos” – nossa velha conhecida Inglaterra.

Ou seja, apenas com esta historinha temos o encontro de Geometria, História, Geografia e de uma parte do Português. Para quem ensina, é uma beleza.

ISÓSCELES – este triângulo com dois lados iguais se chama assim de isos, “igual” em Grego, mais skelos, “perna”, aqui com o sentido de “lado”.

ESCALENO – tendo os lados desiguais, este triângulo era chamado, em Grego, skalenos, “desigual, desparelho, grosseiro”, de skallein, “cortar, limpar vegetação”.

EQUILÁTERO – este está barbada demais, não é? Vem do Latim aequi, “igual”, mais lateralis, “relativo a lado”, de latus, “lado”. Tem três lados iguais entre si.

TRIÂNGULO RETÂNGULO – todos sabem que é aquele que tem um ângulo reto. Falar nele é apenas desculpa para lidar com os estranhos nomes dos seus compnentes, como veremos a seguir.

HIPOTENUSA – o lado mais longo de um triângulo retângulo se chama assim devido ao Grego hypotenousa, “o que se estende debaixo (do ângulo reto)”, já que esse é sempre o lado oposto a tal ângulo. O nome se forma de hypo, “debaixo”, mais teinein, “esticar, alongar”.

CATETO – os outros dois lados do triângulo retângulo têm esse nome do Grego káthetos, “descido, abaixado de maneira reta”, de kathíenai, “fazer descer, empurrar”, de kata, “para baixo”, mais híenai, “enviar, mandar”. Isso tudo porque eles “caem” no ângulo reto, se os projetarmos para o centro da figura.

NORMAL – é a palavra usada para descrever uma linha que é perpendicular a outra, o que intriga muita gente.

Vem do Latim normalis, “de acordo com a regra”, originalmente “feito de acordo com o esquadro do carpinteiro”, que era chamado norma e era usado para marcar ângulos retos. Este esquadro faz parte do símbolo da Maçonaria há muito tempo.

Passou a designar tanto “o que está na perpendicular” como “o que segue o padrão”. Uma situação normal é a que está de acordo com o que se espera. A definição de normas legais é indispensável para que uma sociedade funcione.

TANGENTE – é aquele linha que toca noutra apenas num ponto, sem a cortar. Vem do Latim tangens, “o que toca”, do verbo tangere, “tocar”, de uma fonte Indo-Européia tag-, “tocar, manusear”.

A palavra tangente no sentido geométrico foi usada pela primeira vez pelo matemático dinamarquês Thomas Fincke, em 1583.

SECANTE – é a linha que corta, que passa através de outra. Vem do Latim secans, “o que corta”, do verbo secare, “cortar”. Também foi lançada pelo dinamarquês ali de cima, na mesma ocasião.

ELIPSE – do Grego elleipsis, “falta, defeito”, do verbo elleipein, “não alcançar, deixar de fora”, provavelmente porque a figura parece que tenta mas não consegue chegar a ser um círculo.

Essa é a forma das órbitas planetárias. Na Antigüidade, elas não podiam ser calculadas direito porque se assumia que elas eram circulares.

ESPIRAL – do Latim spiralis, “o que se curva que se torce”, do Grego speira, “volta, torcida”, de uma fonte Indo-Européia sper-, “dobrar, curvar”.

CUBO – está na hora de saber mais sobre os nomes de algumas figuras sólidas. Esta, por exemplo, vem do Grego kybos, “dado, vértebra”, do Indo-Europeu keu-, “torcer, virar”.

PRISMA – era prisma tanto em Latim como em Grego, querendo dizer “algo serrado”. Vem do verbo grego prizein, “serrar”.

O uso dessa palavra em Óptica começou em 1612, depois que se descobriu que um cristal cortado em determinada forma conseguia decompor a luz branca em seus componentes coloridos, separando as freqüências de onda.

PIRÂMIDE – em Latim, os turistas que iam ao Cairo chamavam esses monumentos de pyramis. Em Grego também. Não há certeza absoluta, mas parece que a palavra vem do Egípcio pymar, “pirâmide” mesmo.

TETRAEDRO, HEXAEDRO, DODECAEDRO, etc. – o primeiro elemento dessa palavra indica o número de faces (em nosso exemplos aqui, quatro, seis, doze). A parte final vem do Grego hedra, “base, assento, superfície plana onde se pode sentar”, do Indo-Europeu sed-, “sentar”.

Esta fonte gerou também catedral, o local onde fica a cátedra – cadeira – de um bispo, de kata, “para baixo”, mais hedra.

Resposta:

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