Palavra vagão

TREM

 

– Bom dia, senhor vigilante desta bonita estação antiga de trem nesta tão bonita cidadezinha turística. Pode-se entrar? E sem pagar nada? É muita gentileza sua.

Sabe, meu nome é Odete Sinclair e sou professora de um grupo de aluninhos de Maternal muito levados. Eles só se acalmam um pouco quando eu falo sobre Etimologia. Mas eles deixariam até o próprio Satanás arrepiado com o seu comportamento, a ponto que o médico da escola me deu uns dias para descansar e resolvi fazer uma pequena viagem e espairecer por aqui.

É muito bonita a estação, agora adaptada para os dias de hoje. Em nossa região quase não se usa mais o transporte ferroviário para gente, agora que rodoviário tomou o seu lugar.

Olhe só as lojinhas de artesanato, quanto bom gosto! Objetos decorativos feitos de plástico reciclado de garrafas, que original! Numerosos artigos inúteis importados da China, que lindos! Quadros a óleo feitos por aposentadas que fizeram um curso de arte às pressas, que artísticos! Ainda bem que não tenho cartão de crédito, senão eu gastaria tudo aqui.

Mas diga-me, garboso vigilante, quando eu falei em trem poucas linhas acima, o senhor sabia que a origem dessa palavra é o Inglês train, do Latim traginare, uma forma do verbo trahere, “puxar, arrastar”? Isso porque a locomotiva dele é feita para arrastar os vagões, veja só que espertos.

Aliás, locomotiva vem do Inglês locomotive engine, “aparelho ou máquina que se move”, a primeira dessas palavras vindo do Francês locomotif, “relativo a movimento”, por sua vez do Latim locus, “lugar”, mais motivus, “o que se desloca, que se move”, de movere, “deslocar, mudar de lugar”.

Inicialmente essas máquinas, inventadas na Inglaterra, serviam apenas para deslocar cargas em minas. Elas eram movidas por engenhos a vapor, do Latim vapor, que veio do Indo-Europeu kap-, “exalar”.

E os vagões que o engenho puxava receberam esse nome a partir do Inglês wagon, “carro”, que veio do Germânico e Holandês wagen, “veículo com rodas”, do Indo-Europeu wegh-, “puxar, arrastar”. Isso mesmo, o Volkswagen que todos conhecemos descende daí. O seu nome, pelo menos.

O trem, por ser muito pesado, precisa se deslocar sobre trilhos, do latim tribulare, “percorrer uma trilha, um caminho”. Se não fosse assim, destruiria qualquer estrada.

Esses trilhos são mantidos em seu lugar por dormentes, uma tradução literal do Inglês sleeper, “adormecido, o que está dormindo”, já que eles ficam deitadinhos e quietinhos debaixo de todo aquele peso como se estivessem no maior sono.

É importante a gente não se esquecer de citar a origem de bitola, que expressa a distância entre os trilhos. Essa palavra não tem origem bem definida; sugere-se que ela venha do Anglo-Saxão wittol, “medida”.

As bitolas precisam ser muito bem definidas em cada região, senão um trem simplesmente não poderá trafegar porque suas rodas não caberão nos trilhos.

É muito romântico ver a fumaça saindo da chaminé de uma locomotiva ao longe. Romântico para quem não mora perto dos trilhos nem tem que estender os lençóis lavados para secar quando o trem passa, claro.

Chaminé vem do Francês cheminée, “lareira”, do Latim tardio camera caminata, “aposento com uma lareira” de caminus, “fogo, forno”, do Grego kaminos, “fornalha”.

Ao olhar uma locomotiva, destacam-se sempre as rodas, que vêm do Latim rota, “roda”, aparentemente do Indo-Europeu ra-, “mover, fazer girar”. Elas são sempre bem grandes, para dar bastante tração ao veículo.

A máquina a vapor funciona com a energia da queima de carvão, que veio do  Latim carbo, “carvão” mesmo.

Mas ela também pode queimar madeira, do Latim materia, “substância de que é feito um objeto físico”, bem como “a parte interna de uma árvore”, possivelmente relacionada com mater, “mãe, fonte, origem”.

Sim, a palavra matéria é outra descendente. O senhor é mais imteligente do que aparenta, parabéns.

Antes que o senhor fique por demais envaidecido com meu elogio, vou acrescentando que uma locomotiva também pode ser tracionada por um motor Diesel, cujo nome não veio do Latim, não; veio do nome do engenheiro alemão Rudolf Diesel, que desenhou em 1894 o motor potente e econômico que consome este combustível.

Os trens começaram transportando carga; esta palavrinha vem de carregar e começou a vida como “aquilo que pode ser levado num carro ou carreta”, do Latim carrum, “veículo com rodas”, do Indo-Europeu kers-, “correr”.

Depois o grande sucesso deles passou a ser o transporte de passageiros, o que deriva do Latim passus, “passo”, que é o particípio passado de pandere, “esticar (no caso, as pernas)”.

Mas até se chegar a isso, houve uma certa polêmica. No começo do século dezenove se acreditava que andar de trem seria impossível porque a pessoa simplesmente não conseguiria respirar devido à velocidade e porque os seus olhos não conseguiriam acompanhar a constante mudança da imagem que passava. A primeira locomotiva era precedida por um homem a cavalo para afastar pessoas e animais do seu caminho.

Mas saiba o prezado jovem que já existiram até trens militares, com blindagem, defesa com metralhadoras e canhões e transportando soldados. Não devia ser um alvo muito difícil de atingir, mas tudo dependia das armas dos eventuais atacantes.

Militares vem do Latim miles, “soldado”, talvez derivado do Etrusco, mas quem se importa com uma minúcia dessas durante uma conversa estimulante que nem a nossa?

Seja como for, todos eles param nas estações, do Latim statio, “posto, lugar que se ocupa”, de stare, “estar, ficar”, que é onde os passageiros e a carga aguardam direitinho para entrar no trem.

Meu jovem, você parece não estar passando bem. O seu olhar esgazeado e o seu silêncio me informam que você não deve estar em plena posse de suas capacidades. Talvez se eu lhe falar mais sobre Etimologia… Não? Tem certeza de que já está melhor? Chegou a hora de deixar o trabalho, já?

É uma pena, nossa conversa estava muito boa. Mas, enfim, desejo-lhe um bom descanso e pronta recuperação.

 

Resposta:

Veículos 1

Naquele dia meu avô estava resmungando contra automóveis em geral, pois o seu, com apenas um quarto de século, estava tendo problemas com o motor.

Achando graça com a situação e para o distrair um pouco, perguntei qual a origem da palavra veículo. Ele me olhou e disse:

– O melhor que tenho a fazer é lidar um pouco com palavras mesmo, para ver se me esqueço um pouco da indignação com esta traquitana. E pensar que eu a comprei zero quilômetro!

Vamos ver, então. Veículo vem do Latim vehiculum, “meio de transporte”, de vehere, “levar, carregar”. Isto, por sua vez, veio do Indo-Europeu wegh-, “ir, transportar”, que originou também o atual vagão.

carro vem do Latim carrum, originalmente o nome dado a um veículo de guerra celta de duas rodas, do Gaulês karros, duma base Indo-Européia kers-, “correr”.

– Quer dizer que carro e correr têm a mesma origem? Então, quando eu tiver meu carro, vou poder correr à vontade?

– Uma coisa não obriga à outra. Você vai correr só se for muito burro. Pare de asneirar e aprenda agora, já que falamos em veículos de guerra antigos, que a biga, era assim chamada por contração da palavra latina bijugus, “atrelado a dois”, onde bi- era “dois” e jugus significava “atrelamento, canga”.

– Outro dia eu vi, num filme, uma biga de quatro cavalos e…

– Você não viu isso, meu rapaz! O que aparecia ali era então uma quadriga, de quattuor, “quatro”.

– E uma com dez cavalos, querido Vô?

– Não existia, ó gracioso neto. Já não era fácil guiar uma com dois, imagine com uma tropa inteira puxando.

– Falando em filmes, e a diligência dos filmes de mocinho, de onde recebeu o nome?

– Do Latim diligentia, “cuidado, atenção”, de diligere, “valorizar muito, gostar, escolher”, formado por dis-, “fora”, mais legere, “escolher, reunir”. O nome foi dado aos veículos que se dedicavam a transportar os passageiros com atenção especial aos horários e ao conforto.

– Eram os ônibus da época?

– Sim. Aliás, aposto que você não sabe que essa palavra, omnibus em Latim, quer dizer “para todos” e se aplicou a uma espécie de transporte por carruagem que servia a todas as classes sociais, na Inglaterra, em 1832. Mais tarde ela foi aplicada aos veículos de transporte de pessoas movidos a motor e abreviada para bus por lá.

– E os veículos que andam pela água, Vô? A canoa, por exemplo?

– Essa palavra veio dos espanhóis, depois da descoberta da América. Eles a tiraram dos índios Arauaque do Haiti, que chamavam um barco simples desses de canaoua.

Aliás, barco vem do Grego bâris, “embarcação, galeote”, de origem egípcia.

E, se a gente lhe coloca uma vela para não ter que remar, recebe o nome genérico de veleiro. Este vem do Latim vela, “vela para barcos”, o plural de velum, “tecido, véu, cortina”.

Os gregos chamavam um barco de naus. Como muitas vezes as pessoas enjoavam a bordo, devido ao balançar com as ondas, esta reação foi chamada de nausia, “a doença dos navios”: é a nossa desagradável náusea.

E de naus veio o Latim navis, que gerou o nosso navio.

– E aquela coisa com dois cascos?

– Hum, se você não estiver se referindo ao Demônio, deve estar falando no catamarã. Esta palavra vem do Tâmil kattu-maram, “madeira amarrada”, de kattu, “ação de atar”, mais maram, “madeira, árvore”.

E por agora vamos parar, que vejo que está chegando o meu fiel mecânico aí. Outra hora a gente continua. Se o meu humor melhorar!

Resposta:

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