Palavra carga

TREM

 

– Bom dia, senhor vigilante desta bonita estação antiga de trem nesta tão bonita cidadezinha turística. Pode-se entrar? E sem pagar nada? É muita gentileza sua.

Sabe, meu nome é Odete Sinclair e sou professora de um grupo de aluninhos de Maternal muito levados. Eles só se acalmam um pouco quando eu falo sobre Etimologia. Mas eles deixariam até o próprio Satanás arrepiado com o seu comportamento, a ponto que o médico da escola me deu uns dias para descansar e resolvi fazer uma pequena viagem e espairecer por aqui.

É muito bonita a estação, agora adaptada para os dias de hoje. Em nossa região quase não se usa mais o transporte ferroviário para gente, agora que rodoviário tomou o seu lugar.

Olhe só as lojinhas de artesanato, quanto bom gosto! Objetos decorativos feitos de plástico reciclado de garrafas, que original! Numerosos artigos inúteis importados da China, que lindos! Quadros a óleo feitos por aposentadas que fizeram um curso de arte às pressas, que artísticos! Ainda bem que não tenho cartão de crédito, senão eu gastaria tudo aqui.

Mas diga-me, garboso vigilante, quando eu falei em trem poucas linhas acima, o senhor sabia que a origem dessa palavra é o Inglês train, do Latim traginare, uma forma do verbo trahere, “puxar, arrastar”? Isso porque a locomotiva dele é feita para arrastar os vagões, veja só que espertos.

Aliás, locomotiva vem do Inglês locomotive engine, “aparelho ou máquina que se move”, a primeira dessas palavras vindo do Francês locomotif, “relativo a movimento”, por sua vez do Latim locus, “lugar”, mais motivus, “o que se desloca, que se move”, de movere, “deslocar, mudar de lugar”.

Inicialmente essas máquinas, inventadas na Inglaterra, serviam apenas para deslocar cargas em minas. Elas eram movidas por engenhos a vapor, do Latim vapor, que veio do Indo-Europeu kap-, “exalar”.

E os vagões que o engenho puxava receberam esse nome a partir do Inglês wagon, “carro”, que veio do Germânico e Holandês wagen, “veículo com rodas”, do Indo-Europeu wegh-, “puxar, arrastar”. Isso mesmo, o Volkswagen que todos conhecemos descende daí. O seu nome, pelo menos.

O trem, por ser muito pesado, precisa se deslocar sobre trilhos, do latim tribulare, “percorrer uma trilha, um caminho”. Se não fosse assim, destruiria qualquer estrada.

Esses trilhos são mantidos em seu lugar por dormentes, uma tradução literal do Inglês sleeper, “adormecido, o que está dormindo”, já que eles ficam deitadinhos e quietinhos debaixo de todo aquele peso como se estivessem no maior sono.

É importante a gente não se esquecer de citar a origem de bitola, que expressa a distância entre os trilhos. Essa palavra não tem origem bem definida; sugere-se que ela venha do Anglo-Saxão wittol, “medida”.

As bitolas precisam ser muito bem definidas em cada região, senão um trem simplesmente não poderá trafegar porque suas rodas não caberão nos trilhos.

É muito romântico ver a fumaça saindo da chaminé de uma locomotiva ao longe. Romântico para quem não mora perto dos trilhos nem tem que estender os lençóis lavados para secar quando o trem passa, claro.

Chaminé vem do Francês cheminée, “lareira”, do Latim tardio camera caminata, “aposento com uma lareira” de caminus, “fogo, forno”, do Grego kaminos, “fornalha”.

Ao olhar uma locomotiva, destacam-se sempre as rodas, que vêm do Latim rota, “roda”, aparentemente do Indo-Europeu ra-, “mover, fazer girar”. Elas são sempre bem grandes, para dar bastante tração ao veículo.

A máquina a vapor funciona com a energia da queima de carvão, que veio do  Latim carbo, “carvão” mesmo.

Mas ela também pode queimar madeira, do Latim materia, “substância de que é feito um objeto físico”, bem como “a parte interna de uma árvore”, possivelmente relacionada com mater, “mãe, fonte, origem”.

Sim, a palavra matéria é outra descendente. O senhor é mais imteligente do que aparenta, parabéns.

Antes que o senhor fique por demais envaidecido com meu elogio, vou acrescentando que uma locomotiva também pode ser tracionada por um motor Diesel, cujo nome não veio do Latim, não; veio do nome do engenheiro alemão Rudolf Diesel, que desenhou em 1894 o motor potente e econômico que consome este combustível.

Os trens começaram transportando carga; esta palavrinha vem de carregar e começou a vida como “aquilo que pode ser levado num carro ou carreta”, do Latim carrum, “veículo com rodas”, do Indo-Europeu kers-, “correr”.

Depois o grande sucesso deles passou a ser o transporte de passageiros, o que deriva do Latim passus, “passo”, que é o particípio passado de pandere, “esticar (no caso, as pernas)”.

Mas até se chegar a isso, houve uma certa polêmica. No começo do século dezenove se acreditava que andar de trem seria impossível porque a pessoa simplesmente não conseguiria respirar devido à velocidade e porque os seus olhos não conseguiriam acompanhar a constante mudança da imagem que passava. A primeira locomotiva era precedida por um homem a cavalo para afastar pessoas e animais do seu caminho.

Mas saiba o prezado jovem que já existiram até trens militares, com blindagem, defesa com metralhadoras e canhões e transportando soldados. Não devia ser um alvo muito difícil de atingir, mas tudo dependia das armas dos eventuais atacantes.

Militares vem do Latim miles, “soldado”, talvez derivado do Etrusco, mas quem se importa com uma minúcia dessas durante uma conversa estimulante que nem a nossa?

Seja como for, todos eles param nas estações, do Latim statio, “posto, lugar que se ocupa”, de stare, “estar, ficar”, que é onde os passageiros e a carga aguardam direitinho para entrar no trem.

Meu jovem, você parece não estar passando bem. O seu olhar esgazeado e o seu silêncio me informam que você não deve estar em plena posse de suas capacidades. Talvez se eu lhe falar mais sobre Etimologia… Não? Tem certeza de que já está melhor? Chegou a hora de deixar o trabalho, já?

É uma pena, nossa conversa estava muito boa. Mas, enfim, desejo-lhe um bom descanso e pronta recuperação.

 

Resposta:

Ginástica

Meninada! Todos quietos! Agora é hora de Educação Física, mas está chovendo e a Diretora decidiu que eu vou ficar com vocês na aulinha e distrair a turma até o fim do período, como se ela achasse que eu tenho sete vidas que nem os gatos. E olha que não tenho feito nada contra ela!

Mas está bem; se eu morrer de stress fechada aqui com vocês, ela vai ter que gastar com uma coroa de flores e duvido que consiga uma substituta com a calma e a paciência que eu tenho.

E quanto a vocês, podem ter certeza de que eu vou puxar os pés de cada um na cama por muito tempo. Sabiam que quando a gente incomoda uma pessoa que morre, ela volta para fazer isso?

Imaginem vocês no quarto escuro, tentando ficar acordados e sendo vencidos pelo sono e sentindo de repente aquele puxão no pé, um puxão que parece querer levar vocês para um lugar muito, muito quente, onde vocês vão ficar num caldeirão ainda mais quente para sempre…

Agora que consegui chamar a atenção de vocês, parem de chorar. Vamos nos sentar em roda que a Tia Odete vai contar umas coisas sobre Ginástica para a turma.

Podemos começar com esta palavra mesmo. Ela vem do Grego gymno, “despido, nu”. Os gregos faziam os seus exercícios desse jeito, pois ainda não tinham sido inventados os calções nem os abrigos nem as roupinhas bonitinhas de ginástica.

Joãozinho e Sidneizinho! Parem com essas caras! Estou vendo muito bem que essas cabecinhas sujas devem estar planejando alguma aula privada de ginástica com as suas coleguinhas, mas agora as coisas são diferentes, ouviram? Aliás, naquela época antiga as moças simplesmente não faziam ginástica, de modo que podem ir parando de imaginar.

Mas esse nome ainda é usado para nosso exercícios. Tempos atrás, se usou bastante o que era chamado de Ginástica Sueca, por ter sido divulgada conforme um método sueco, a partir de 1886. Era um sistema de exercícios em que não havia muito deslocamento do corpo.

Havia também a ginástica calistênica, que enfatizava o ritmo, desprovida de aparelhos. Dizia-se que ela trazia mais harmonia ao corpo. Daí o nome, que vem do Grego kalos, “bonito”, mais sthenos, “força”. Anotou, Zorzinho? Gostaria de saber o que é que você faz com esses escritos depois.

Falando em exercício, esta palavrinha vem do Latim exercere, “guiar, manter ocupado”, o que é também a origem de exército, já que os soldados, pelo menos em campanha, se mantêm muito ocupados.

Um dos exercícios que nós não fazemos, graças aos céus, neste coleginho, é o lançamento de dardo. Se ele fosse praticado, em pouco tempo estaríamos com muitas vagas em nossas salas.

Mas os Gregos praticavam muito esta modalidade, que era relacionada com as suas atividades guerreiras. Só que a palavra que hoje usamos para designar essa espécie de lança curta não vem daquele idioma, não. Vem de uma gente que deixou muitas palavras relacionadas com “guerra”, o povo germânico. Eles diziam tart.

Outro esporte de lançamento é o do disco. Em Latim, discus significava “prato” ou outros objetos com esse formato. Em Grego, dikhein era “lançar”.

Não, crianças, não creio que os pais de vocês vão se orgulhar se vocês começarem a praticar o lançamento de pratos à mesa. Melhor não tentarem fazer esta mostra de cultura geral. Vão por mim, eu sei o que digo.

Uma das coisas que a gente faz para aquecer o corpo, isto é, prepará-lo para os exercícios, é correr. Esta palavra vem do Latim currere.

Pare de correr pela sala, Artur! Não, ninguém precisa saber como é que se faz isso, todos já sabem. Obrigado pela ilustração, mas ela é desnecessária. Sente e fique quieto.

Uma coisa que os latinos diziam, usando esse verbo, era Aetas currit. Isso quer dizer “A idade passa”, e posso acrescentar que, se ela passa com a gente sofrendo as barbaridades de certos aluninhos, é bem incômodo.

Mas podem deixar: o futuro vai transformar os mais inquietos em professores.

Este verbo, currere, era relacionado com currus, “carro”. Certo, Ledinha,você tem razão. Os romanos não tinham automóveis; você é muito culta. Mas tinham veículos hipomóveis, isto é, puxados a cavalo.

Vejam vocês, a palavra carga vem também daí. Antes queria dizer “aquilo que vai num carro, numa carreta”.

Ela pode ser usada em sentido metafórico, para falar no peso que uma pobre professora leva nas costas e que deve ser fruto de más ações em alguma vida anterior, pois nesta não há a menor justificativa.

Essa palavra vem do Sânscrito kar, “mover, deslocar”.

Quando há competições de corrida, é para ver quem corre mais rápido. Isto vem do Latim rapere, “tomar à força”. Rapidus era “aquele que é levado à força”, coisa que acontecia bastante naquelas épocas em que as pessoas eram tomadas como escravos. Com o tempo, a palavra incorporou mais a noção de velocidade do que a de violência, passando a ter a conotação que usamos hoje em dia.

Mas a noção de “forçar” existe ainda em palavras que descendem dessa, como raptar, rapina e até rapaz. Há dinossauros que levam um nome composto de raptor, “aquele que pega à força”, como o Eoraptor.

Crianças! Parem de fazer cara de dinossauro!

Outra coisa que se faz como preparação para um exercício ou esporte é o alongamento, sem o qual a pessoa pode sentir dores muito fortes depois. Tal palavra vem do Latim ad-, “para” mais longum, “longo, comprido”.

Joãozinho! Quieto!

Sim, Humbertinho, alongar é o mesmo que esticar. Esta palavra vem do Latim sticha e do Grego stikhé, “vinha”. Para quem não sabe, “vinha” é a planta da uva. Não, seus citadinos, não se trata de uma árvore. É uma planta trepadeira cujo fruto serve para fazer vinho, daí o nome. Pode ser chamada de “parreira” também.

Calma, já explico o que é que esticar tem a ver com esta planta. É que ela tem uns ramos muito finos e delgados, as gavinhas ou vergônteas, que servem para ela se prender e poder subir para expor as folhas ao sol. Os antigos compararam coisas que tinham uma proporção que predominava muito sobre as outras aos galhinhos dessa planta. Não é bonito?

Houve época em que se dizia que uma pessoa bem arrumada, com suas melhores roupas, estava “na estica”. Isso porque as roupas nessa condição se apresentavam bem passadas, isto é, esticadas.

Muitos dos movimentos feitos nos exercícios são ritmados. Esta palavrinha veio do Grego rhytmós, “movimento repetido”, que por sua vez veio do verbo rhein, “deslizar, fluir, correr”.

Mais uma vez, quieto, Joãozinho!

Outra competição que se faz é para ver quem pula mais alto ou mais longe. A palavra vem, podem se espantar, do Latim pullus, que quer dizer “frango”. Como este animal dá longos pulos ajudado pelas asas, foi feito o verbo pular.

Não, Ledinha, se sua mãe diz que a vizinha é uma galinha que vive pulando a cerca, não sei de que se trata, não temos nada que ver com isso e vamos mudar de assunto já-já. São coisas em que a Etimologia não se mete, muito menos eu.

Muitas vezes os atletas desenvolvem seus músculos pulando corda. Esta palavra vem do Grego khordé, “fio, corda”, originalmente “tripa de animal”.

Não, Soneca (ué, você acordado?), esta corda nada tem a ver com os acordes que você vai fazer quando for um famoso guitarrista. Acorde vem do Latim cor, “coração”.  O que era feito ad cordis era um “acordo”, algo harmonioso como certos conjuntos de notas musicais.

Falando no Soneca, não sei por que me vieram à mente palavras opostas aos exercícios físicos, como moleza, que vem do Latim mollis, e preguiça, que em Latim era pigritia.

O Bicho-Preguiça das nossas matas se chama assim porque se mexe muito lentamente. Não senhor, Soneca, não é por preguiça, não. É porque a massa muscular dele é tão escassa que ele simplesmente não tem como fazer movimentos rápidos. Mas ele tem lá seu jeito brasileiro de sobreviver, ou não estaria ainda nas copas das árvores.

Também entre estas palavras que expressam pouca atividade se inclui folga. Esta tem uma história interessante. Vem do Latim follicare, de follere, “assoprar, respirar”. Relaciona-se com follis, “fole”, um instrumento usado para forçar o ar para um fogo, de modo a avivar as chamas. O sentido de “descanso” que se fixou em folga é porque follere também queria dizer “respirar, tomar fôlego depois de um esforço”.

Em Espanhol, huelga, da mesma origem, quer dizer “greve”.

A palavra follis deu, em Francês, fou, “louco”. E, em Inglês, fool, “tolo”. Ambos os idiomas relacionaram metaforicamente o conteúdo do fole, que é apenas ar, com o conteúdo da cabeça dessas pessoas.

E agora está chegando a hora de vocês irem para casa, graças sejam dadas ao Céu. Antes que eu fique maluca, dêem-me uma folga. Até amanhã.

Resposta:

Corrente

 

A banda termina de tocar o Hino Nacional. O estádio atopetado de gente e de palavras mantém um silêncio respeitoso quando a figura de gabardine clara, com o chapéu bem enterrado na cabeça de modo a lhe ocultar totalmente o rosto, sai de um dos vestiários e se dirige ao estrado erguido perto de uma extremidade do gramado.

O misterioso indivíduo se põe em impecável posição de sentido à frente das altas autoridades que o aguardam lado a lado. Ali estão o representante do Presidente, do Governador e do Prefeito, entre muitos outros.

Cada um faz uma breve alocução referindo-se aos feitos de X-8 – pois é ele o homenageado nesta cerimônia cívica.

Os discursos são curtos, tal como ele havia exigido antes de aceitar a homenagem. Não que ele não goste de ser elogiado, até pelo contrário, mas a idéia de ficar estaqueado ali por muito tempo não lhe agrada.

Findos os discursos, o Núncio Apostólico lhe coloca no peito a Comenda de São Cipriano e anuncia que a Biblioteca do Vaticano está aberta para as suas pesquisas sempre que lhe aprouver.

A seguir, o Ministro da Marinha o condecora com a Ordem da Banana-Boat, pelos bons serviços prestados às palavras náuticas e coloca ao seu dispor as belonaves da Marinha.

Agora vem o do Exército e lhe entrega a Medalha do Mérito do Borzeguim e diz que X-8 pode contar com o apoio das tropas de elite sempre que precisar de algum reforço na sua segurança pessoal.

O Ministro da Aeronáutica avança e prende na frente da gabardine recém-tirada da lavanderia a Grã-Cruz da Pandorga no grau de Cavaleiro, acrescentando que sempre haverá um helicópetro à sua disposição para quando ele quiser se deslocar para lugares de difícil acesso em suas missões.

O Núncio e os Ministros recuam, uniformes coloridos e vistosos, condecorações rebrilhando ao sol de outono. Em uníssono, as quatro espadas são retiradas das bainhas, e o punho é levado à altura dos lábios; a seguir, elas são erguidas, indo retas até o alto e depois elas se abatem para a frente e para a direita, em continência .

X-8, frustado por não poder fazer continência, já que não é militar, apenas levanta a mão direita e ergue o polegar com toda a galhardia que pode reunir.

Nesse momento, soam clarins no lado oposto do campo. Todos se viram para lá e o espanto toma conta do estádio. Um pequeno contingente de cavalaria, couraças peitorais ofuscantes, espadas na mão direita, apoiadas ao ombro, segue uma mulher de uniforme e digníssimo porte, sobre um cavalo com preciosos arreios. Esses uniformes não são deste país…

Só pode ser Ela, a Rainha! Logo atrás dela cavalga um oficial com uma caixa revestida de veludo. Só pode ser a condecoração que ela lhe traz. A Ordem da Jarreteira? Seria demais; ela é reservada quase só à Família Real. No Século 20, apenas duas pessoas de fora a receberam, uma delas sendo Winston Churchill.

Bem, a Order of the British Empire, Ordem do Império Britânico, também serve. Seria interessante poder colocar as iniciais O.B.E. depois do seu nome no cartão de visitas e explicar distraidamente de que se trata quando perguntado…

Mas o que é isso? Batidas fortes do lado de fora do estádio? Deve ser mais povo querendo entrar.

X-8 é generoso, especialmente quando isso não implica em gastar nada. Vira-se para as autoridades para pedir que abram os portões, quando nota que a comitiva a cavalo, mesmo não parando de andar para a frente, vai recuando e rapidamente some de vista. Os Ministros e o Núncio – pensando bem, o que fazia este com uma espada à cinta? – não estão mais ali, apenas as suas roupas, medalhas e espadas amontoadas no chão. A luz do dia está escurecendo. Um forte terremoto sacode tudo e atira X-8 ao chão.

A queda com cadeira e tudo acorda o detetive. Abrindo os olhos, ele vê ao seu redor o escritório cuidadosamente desleixado de sempre, meio escuro. Percebe que a porta está se abrindo e vê os pés de alguém que entra, certamente uma palavra cliente.

Esta vê a figura na gabardine amarfanhada no chão e se espanta:

– Que foi que houve? O senhor desmaiou?

X-8 se recusa a reconhecer que adormeceu na cadeira e despencou ao chão vexaminosamente. Pensamento veloz, diz rispidamente:

– Já para o chão! Rápido!

A palavra obedece sem hesitar. Atira-se de bruços no assoalho de madeira, o coração batendo acelerado.

O detetive rasteja até a janela, ergue-se com cuidado, uma mão crispada dentro do bolso da gabardine, e olha rapidamente para fora. Parece tranqüilizar-se e olha mais demoradamente. Vira-se para a palavra que está estendida no chão e pergunta pelo canto da boca, ainda com a mão agarrando firmemente alguma coisa no bolso:

– Você viu algum grupo suspeito lá fora?

– N-não. Fora todo aquele lixo e os ratos, não havia ninguém.

– Está bem, o perigo passou. Pode levantar-se. Eles decerto desistiram. É sempre assim; podem até chegar perto, mas não se atrevem. Peço desculpas por esta situação alheia à minha vontade.

Larga o meio pacote de balas de goma que estava no bolso e ajuda a palavra a se levantar.

– Mas o que foi, quem são “eles”?

– Não pergunte, é bem melhor para você. São coisas que acontecem para quem está em certas profissões. Mas sente-se, por favor, e me diga a que veio.

– Vim procurar o senhor para descobrir minhas origens, mas eu não sabia que era tão perigoso…

– Você nem imagina. Mas enquanto eu estiver aqui você está em segurança. Pelo que eu vejo, você é Corrente.

– Sim, e não sei nada sobre o meu passado, de onde vim, para onde vou. Quero saber se o Sr. pode me ajudar.

– Remunerando bem, eu vou mais além. Vamos estudar meus honorários e, se você aceitar, posso fazer as malas e levar a efeito essa pesquisa. Em menos de um mês poderei entregar algo, se “eles” não me acertarem antes. Mas não vão conseguir nada!

Dali a meia hora, após tudo combinado, a palavra saiu. Estava impressionadíssima com a vida perigosa de um detetive etimológico. Até achou que o elevado preço que estava pagando nem era demais para uma atividade de tamanho risco.

Vendo-se sozinho, X-8 começou a trabalhar, contente com a sua presença de espírito. Remexeu nos seus livros, rabiscou no seu belo papel cor de creme com sua caneta-tinteiro Parker 51, comparou anotações. Sentou-se atrás da velha máquina de escrever, estranhamente parecida com uma locomotiva antiga, colocou no cilindro uma folha de papel de jornal de péssima qualidade e mandou ver:

CORRENTE

Esta palavra veio do Latim currere, “correr”. Esta, por sua vez, foi ligada a uma raiz pré-histórica que denotava “movimento rápido”.

Só do Latim currus, que significava “carro puxado por cavalo”, temos, entre outras:

Carroça – veículo de carga tirado por cavalos, passando pelo Italiano carrozza, do Latim medieval carrotia.

Carroçável – “o que permite a passagem de veículos”.

Carroçada – “o volume ou peso que uma carroça pode transportar”.

Carroceria – “partes situadas sobre a base de um veículo”.

Carruagem – “veículo de tração animal para transporte de pessoas”.

Carreira – “corrida”, “decurso de uma profissão”. Passou pelo Latim medieval carraria, “estrada simples para carros”.

Carrear – “transportar de carro”. Seu derivado mais recente, muito usado por políticos, é Carreata.

Carregar – “levar mercadorias”, inicialmente num carro e depois de qualquer modo.

Carga – deriva de Carregar, e tanto se aplica ao material transportado como a um ataque frontal, de Infantaria ou Cavalaria.

Carreto – “transportar algo em carro”, depois “o preço desse transporte”.

Carretel – o significado de “pequeno carro” acabou reduzido a “cilindro onde se enrola a linha”.

Carrossel – não tem nada a ver com o assunto, apesar da semelhança entre as funções e as palavras. Origina-se no século 16, de um torneio que era feito em Nápoles, chamado carusello, e que consistia em jogarem bolas de lama uns nos outros. Carusello era o diminutivo de caruso, “cabeça de criança” na linguagem local, e designava as bolas de lama. As pessoas inventam cada diversão!

Do sentido de “correr”, temos:

Correio – primeiro designava o mensageiro, depois os serviços de entrega de cartas em geral.

Corredeira – “parte rasa de um curso dágua, que desliza rapidamente”.

Corredor – “parte de uma morada por onde passam as pessoas”.

Corrente – ” o que corre”, “fluxo” de algo, como eletricidade, líquidos, lava, dinheiro (daqui a conta corrente, que tantas vezes corre mais do que queríamos).

X-8 termina a tarefa, dá umas sutis amassadas no papel, esfrega-o de leve no chão e o coloca num envelope que já viu melhores dias.

Dali a algumas semanas, disca para Corrente e marca uma data, às 20h35min.

No dia combinado e à hora precisa, a palavra entreabre a porta com muito cuidado. Quando os seus olhos distinguem a figura abaixada atrás da escrivaninha, mal aparecendo a aba de chapéu, Corrente fecha a porta atrás de si, se atira ao chão e rasteja para a frente. Encontra-se com X-8 no amplo espaço para as pernas debaixo do móvel. Pergunta:

– “Eles” estão por aí de novo?

Sempre estão – responde a voz calma e sibilante. – Trouxe o resto do pagamento?

– Aqui está, diz a palavra, entregando um pacote.

Preciso contar? – a voz parece uma navalha de gelo.

– D-de jeito nenhum, seu X-8. Eu jamais…

– Está bem. Aqui está seu envelope. Aguarde que eu vou ver se é seguro sair. – e novamente desliza até à janela e observa os arredores, de mão no bolso. Dirige-se à palavra deitada no chão:

– Pode ir agora, está tudo bem. Mas afaste-se logo desta vizinhança. Não pare até chegar em casa.

A palavra se escafede tão rápido como consegue. Chega à sua casa e entra embaixo da cama por um bom tempo. Depois de sair dali, revista cuidadosamente a casa toda, com uma colher de pau na mão. Mais tranqüila, senta para ler o papel que recebera há pouco. Fascina-se com as informações dali. Revive as emoções por que passou. Suas amigas vão ficar impressionadas.

Enquanto Corrente se apressa pelas ruas, X-8 come balas de goma e conta o dinheiro. Gostou muito da maneira de impressionar a cliente. Chega à conclusão de que seria bom usar pequenas técnicas de marketing dessas mais seguido. Pega um papel e começa a rabiscar as idéias iniciais.

Resposta:

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