Palavra ginástica

Esportes

Este é um assunto que mobiliza uma quantidade enorme de pessoas mundo afora. O interesse pelas competições esportivas nunca tem fim, e um público ávido faz a alegria de boa parte da imprensa, bem como da indústria e do comércio.

Logo, está na hora de se lidar com as origens de alguns nomes bem conhecidos de todos.

ESPORTE – para iniciar, claro… Esta palavra vem do Inglês sport, “esporte”. E ali ela entrou do Francês antigo desport, “passatempo, recreação, prazer”, do verbo desporter, “divertir-se, distrair-se, jogar”, literalmente “levar embora, retirar” – no sentido de desviar a cabeça dos assuntos sérios.

A palavra se formou por des-, “fora, embora”, mais porter, “levar, carregar”, do Latim portare, com o mesmo sentido.

Mas não termina aqui a história, não. O verbo portare deriva de portus, “porto”, local de onde e para onde as mercadorias eram levadas.

MARATONA – falando em coisas da Antigüidade, ocorre-nos esta competição, que se destaca como símbolo das Olimpíadas.

Esta corrida tem origem numa batalha travada entre gregos e persas em 490 AC, numa planície chamada Maratona devido à grande quantidade de uma planta que ali crescia, o funcho (márathos).

Vitoriosos, os gregos enviaram seu corredor mais veloz, Feidípedes, dar o aviso em Atenas, a cerca de 42 quilômetros dali.

Muitos pensam que uma corrida longa é assim chamada desde aquela época, mas não é verdade. O nome foi dado em 1896, quando do reinício das competições olímpicas.

TURFE – aproveitando que estamos falando em corrida, informamos que esta palavra vem do Inglês turf, “pedaço de solo com grama”, por extensão “terreno coberto com grama”.

Como corridas de cavalos muitas vezes eram feitas em terrenos gramados, o nome do terreno acabou designando o chamado “esporte dos reis”.

Quando se trata de montar o cavalo mais do que vê-lo correr, temos o hipismo, cujo nome vem do Grego hippos, “cavalo”.

Para os que perguntam por que o nome não é “cavalismo”, informamos que o Latim chamava o nobre animal tanto de caballus como de equus.

Foi caballus que predominou nas línguas derivadas, tendo ficado o equus para formar palavras de uso culto, como eqüestre, equitação.

Também foram formadas palavras cultas do Grego hippos: hípico, hipódromo, hipocampo.

SURFE – nome parecido com o anterior, implicando em deslocamento rápido… É uma associação mental óbvia.

Vem do Inglês surf, “rebentação das ondas”, antigamente suffe, originalmente usado em relação à costa da Índia, talvez de origem local. É mais um nome do local de prática que passou para o esporte ali exercido.

No sentido de “deslizar sobre a crista das ondas” se usa desde 1917.

NATAÇÃO – vem do Latim natare, “banhar-se, nadar, encher dágua”. A maioria das competições desta modalidade são feitas em piscinas, cujo nome vem do Latim pisces, “peixe”.

Isso não quer dizer que as primeiras disputas fossem feitas entre peixes, não; é que os romanos tinham piscinas em casa, não para uso humano, mas para poderem manter vivos os peixes para as refeições, enquanto não se inventava a geladeira.

ESGRIMA – vem do Italiano scrima, que derivou do antigo Germânico skrimjan, “proteger”.

Em épocas difíceis, às vezes a única proteção que se tinha era saber manejar a espada.

BOXE – é um esporte que em Inglês se chama boxing, nome que começou a ser usado em 1711. Vem provavelmente do Holandês boke, “golpe”, provavelmente onomatopaico.

Nada tem a ver com box, “caixa”.

GOLFE – vem do Escocês couf, provavelmente do Holandês colf, “bastão, vara”. Foi mencionada pela primeira vez numa lista de esportes proibidos em 1457.

TÊNIS – seu nome vem do Anglo-Francês tenetz, “receba,segure, tome”, do verbo tenir, “segurar, receber”. Tratava-se de um aviso de que o saque ia ser dado.

O nome do esporte com as regras atuais (1874) foi lawn tennis, “tênis sobre a grama”.

BASQUETE – já era hora de se falar nos esportes coletivos. Este nome vem do Inglês basket, “cesta”, derivado do Anglo-Francês bascat, “cesta”.

Foi aplicado ao basketball, esporte inventado em 1892 em Springfield, nos Estados Unidos, por motivos óbvios.

VÔLEI – vem do Inglês volleyball, derivado do Francês volée, “vôo” (da bola).

FUTEBOL – este esporte, embora diferente do atual, era praticado já em 1409 e se tornou mania nacional na Inglaterra a partir de 1630. Seu nome deriva de FOOT, “pé”, e BALL, “bola”.

Mas, atenção! Por esse nome os povos de língua inglesa conhecem o que nós aqui chamamos de futebol americano, aquele em que os jogadores usam couraças para se movimentarem com a bola, principalmente carregando-a.

Na Inglaterra se fez, pelo fim do século dezoito, uma associação entre diversas universidades inglesas com a finalidade de unificar as regras, pois cada uma tinha as suas, variando o peso da bola, número de jogadores, permissão para jogo bruto, etc.

Dessa Football Association surgiu o nome de gíria universitária socca, depois socker, depois soccer, que é o nome que ficou até hoje em Inglês.

BEISEBOL – é do Inglês baseball, formado de base, “base”, derivado do Latim basis, “alicerce, fundação”, do Grego basis, “degrau, pedestal”, do verbo bainein, “pisar”.

No caso, “base” se refere a um ponto seguro no campo, onde o jogador não pode ser tocado.

A segunda palavra, ball, “bola”, vem do Germânico antigo balluz, do Indo-Europeu bhel-, “inchar”.

GINÁSTICA – tem diversas formas de competição. Esta palavra vem do Grego gymnazein, “treinar, exercitar-se”, literalmente “exercitar-se nu”, de gymnos, “nu”, já que era neste estado que os atletas gregos competiam.

Naquela época, os fabricantes de vestimentas e calçados esportivos se veriam mal.

ATLETA – em Latim, athleta, em Grego athletes, “competidor nos jogos”. Vem de athlein, “competir por um prêmio”, relacionado a athlos, “disputa” e a athlon, “prêmio”.

Resposta:

Ginástica

Meninada! Todos quietos! Agora é hora de Educação Física, mas está chovendo e a Diretora decidiu que eu vou ficar com vocês na aulinha e distrair a turma até o fim do período, como se ela achasse que eu tenho sete vidas que nem os gatos. E olha que não tenho feito nada contra ela!

Mas está bem; se eu morrer de stress fechada aqui com vocês, ela vai ter que gastar com uma coroa de flores e duvido que consiga uma substituta com a calma e a paciência que eu tenho.

E quanto a vocês, podem ter certeza de que eu vou puxar os pés de cada um na cama por muito tempo. Sabiam que quando a gente incomoda uma pessoa que morre, ela volta para fazer isso?

Imaginem vocês no quarto escuro, tentando ficar acordados e sendo vencidos pelo sono e sentindo de repente aquele puxão no pé, um puxão que parece querer levar vocês para um lugar muito, muito quente, onde vocês vão ficar num caldeirão ainda mais quente para sempre…

Agora que consegui chamar a atenção de vocês, parem de chorar. Vamos nos sentar em roda que a Tia Odete vai contar umas coisas sobre Ginástica para a turma.

Podemos começar com esta palavra mesmo. Ela vem do Grego gymno, “despido, nu”. Os gregos faziam os seus exercícios desse jeito, pois ainda não tinham sido inventados os calções nem os abrigos nem as roupinhas bonitinhas de ginástica.

Joãozinho e Sidneizinho! Parem com essas caras! Estou vendo muito bem que essas cabecinhas sujas devem estar planejando alguma aula privada de ginástica com as suas coleguinhas, mas agora as coisas são diferentes, ouviram? Aliás, naquela época antiga as moças simplesmente não faziam ginástica, de modo que podem ir parando de imaginar.

Mas esse nome ainda é usado para nosso exercícios. Tempos atrás, se usou bastante o que era chamado de Ginástica Sueca, por ter sido divulgada conforme um método sueco, a partir de 1886. Era um sistema de exercícios em que não havia muito deslocamento do corpo.

Havia também a ginástica calistênica, que enfatizava o ritmo, desprovida de aparelhos. Dizia-se que ela trazia mais harmonia ao corpo. Daí o nome, que vem do Grego kalos, “bonito”, mais sthenos, “força”. Anotou, Zorzinho? Gostaria de saber o que é que você faz com esses escritos depois.

Falando em exercício, esta palavrinha vem do Latim exercere, “guiar, manter ocupado”, o que é também a origem de exército, já que os soldados, pelo menos em campanha, se mantêm muito ocupados.

Um dos exercícios que nós não fazemos, graças aos céus, neste coleginho, é o lançamento de dardo. Se ele fosse praticado, em pouco tempo estaríamos com muitas vagas em nossas salas.

Mas os Gregos praticavam muito esta modalidade, que era relacionada com as suas atividades guerreiras. Só que a palavra que hoje usamos para designar essa espécie de lança curta não vem daquele idioma, não. Vem de uma gente que deixou muitas palavras relacionadas com “guerra”, o povo germânico. Eles diziam tart.

Outro esporte de lançamento é o do disco. Em Latim, discus significava “prato” ou outros objetos com esse formato. Em Grego, dikhein era “lançar”.

Não, crianças, não creio que os pais de vocês vão se orgulhar se vocês começarem a praticar o lançamento de pratos à mesa. Melhor não tentarem fazer esta mostra de cultura geral. Vão por mim, eu sei o que digo.

Uma das coisas que a gente faz para aquecer o corpo, isto é, prepará-lo para os exercícios, é correr. Esta palavra vem do Latim currere.

Pare de correr pela sala, Artur! Não, ninguém precisa saber como é que se faz isso, todos já sabem. Obrigado pela ilustração, mas ela é desnecessária. Sente e fique quieto.

Uma coisa que os latinos diziam, usando esse verbo, era Aetas currit. Isso quer dizer “A idade passa”, e posso acrescentar que, se ela passa com a gente sofrendo as barbaridades de certos aluninhos, é bem incômodo.

Mas podem deixar: o futuro vai transformar os mais inquietos em professores.

Este verbo, currere, era relacionado com currus, “carro”. Certo, Ledinha,você tem razão. Os romanos não tinham automóveis; você é muito culta. Mas tinham veículos hipomóveis, isto é, puxados a cavalo.

Vejam vocês, a palavra carga vem também daí. Antes queria dizer “aquilo que vai num carro, numa carreta”.

Ela pode ser usada em sentido metafórico, para falar no peso que uma pobre professora leva nas costas e que deve ser fruto de más ações em alguma vida anterior, pois nesta não há a menor justificativa.

Essa palavra vem do Sânscrito kar, “mover, deslocar”.

Quando há competições de corrida, é para ver quem corre mais rápido. Isto vem do Latim rapere, “tomar à força”. Rapidus era “aquele que é levado à força”, coisa que acontecia bastante naquelas épocas em que as pessoas eram tomadas como escravos. Com o tempo, a palavra incorporou mais a noção de velocidade do que a de violência, passando a ter a conotação que usamos hoje em dia.

Mas a noção de “forçar” existe ainda em palavras que descendem dessa, como raptar, rapina e até rapaz. Há dinossauros que levam um nome composto de raptor, “aquele que pega à força”, como o Eoraptor.

Crianças! Parem de fazer cara de dinossauro!

Outra coisa que se faz como preparação para um exercício ou esporte é o alongamento, sem o qual a pessoa pode sentir dores muito fortes depois. Tal palavra vem do Latim ad-, “para” mais longum, “longo, comprido”.

Joãozinho! Quieto!

Sim, Humbertinho, alongar é o mesmo que esticar. Esta palavra vem do Latim sticha e do Grego stikhé, “vinha”. Para quem não sabe, “vinha” é a planta da uva. Não, seus citadinos, não se trata de uma árvore. É uma planta trepadeira cujo fruto serve para fazer vinho, daí o nome. Pode ser chamada de “parreira” também.

Calma, já explico o que é que esticar tem a ver com esta planta. É que ela tem uns ramos muito finos e delgados, as gavinhas ou vergônteas, que servem para ela se prender e poder subir para expor as folhas ao sol. Os antigos compararam coisas que tinham uma proporção que predominava muito sobre as outras aos galhinhos dessa planta. Não é bonito?

Houve época em que se dizia que uma pessoa bem arrumada, com suas melhores roupas, estava “na estica”. Isso porque as roupas nessa condição se apresentavam bem passadas, isto é, esticadas.

Muitos dos movimentos feitos nos exercícios são ritmados. Esta palavrinha veio do Grego rhytmós, “movimento repetido”, que por sua vez veio do verbo rhein, “deslizar, fluir, correr”.

Mais uma vez, quieto, Joãozinho!

Outra competição que se faz é para ver quem pula mais alto ou mais longe. A palavra vem, podem se espantar, do Latim pullus, que quer dizer “frango”. Como este animal dá longos pulos ajudado pelas asas, foi feito o verbo pular.

Não, Ledinha, se sua mãe diz que a vizinha é uma galinha que vive pulando a cerca, não sei de que se trata, não temos nada que ver com isso e vamos mudar de assunto já-já. São coisas em que a Etimologia não se mete, muito menos eu.

Muitas vezes os atletas desenvolvem seus músculos pulando corda. Esta palavra vem do Grego khordé, “fio, corda”, originalmente “tripa de animal”.

Não, Soneca (ué, você acordado?), esta corda nada tem a ver com os acordes que você vai fazer quando for um famoso guitarrista. Acorde vem do Latim cor, “coração”.  O que era feito ad cordis era um “acordo”, algo harmonioso como certos conjuntos de notas musicais.

Falando no Soneca, não sei por que me vieram à mente palavras opostas aos exercícios físicos, como moleza, que vem do Latim mollis, e preguiça, que em Latim era pigritia.

O Bicho-Preguiça das nossas matas se chama assim porque se mexe muito lentamente. Não senhor, Soneca, não é por preguiça, não. É porque a massa muscular dele é tão escassa que ele simplesmente não tem como fazer movimentos rápidos. Mas ele tem lá seu jeito brasileiro de sobreviver, ou não estaria ainda nas copas das árvores.

Também entre estas palavras que expressam pouca atividade se inclui folga. Esta tem uma história interessante. Vem do Latim follicare, de follere, “assoprar, respirar”. Relaciona-se com follis, “fole”, um instrumento usado para forçar o ar para um fogo, de modo a avivar as chamas. O sentido de “descanso” que se fixou em folga é porque follere também queria dizer “respirar, tomar fôlego depois de um esforço”.

Em Espanhol, huelga, da mesma origem, quer dizer “greve”.

A palavra follis deu, em Francês, fou, “louco”. E, em Inglês, fool, “tolo”. Ambos os idiomas relacionaram metaforicamente o conteúdo do fole, que é apenas ar, com o conteúdo da cabeça dessas pessoas.

E agora está chegando a hora de vocês irem para casa, graças sejam dadas ao Céu. Antes que eu fique maluca, dêem-me uma folga. Até amanhã.

Resposta:

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