Palavra folga

Folclore e antropologia

Palavras: folga , folguedo

Qual a etmologia da palavra folguedo?

Resposta:

Ela vem de folga. E esta vem do Latim follicare, de follere, “assoprar, respirar”. Relaciona-se com follis, “fole”, um instrumento usado para forçar o ar no fogo, de modo a avivar as chamas.

O sentido de “descanso” e depois de “distração, diversão” que se fixou em folga é porque follere também queria dizer “respirar, tomar fôlego depois de um esforço”.

PREGUIÇA

 

Ora, vejam só. Eu estava me aproximando da sala de aula e ouvia um ameaçador silêncio. Eu sabia que meus aluninhos já estavam em sala, pois ninguém se atreveria a raptá-los, de tão insuportáveis que são.

Pensei em outras possibilidades agradáveis, como uma definitiva fuga em massa ou um alistamento conjunto na Legião Estrangeira, mas nada disso.

O que eu encontro é uma turma amolecida, em arrasador surto de preguiça devido ao calor.

Já que estão assim prostrados e incapazes de reagir, Tia Odete vai lhes falar sobre a preguiça que os assola.

Esta palavra vem do Latim pigritia, de piger, “preguiçoso, tardo na ação, vadio”. Possivelmente ela derive de pinguis, “gordo, pesado”, características às vezes associadas ao preguiçoso.

Antes que perguntem se esta palavra originou também o nome do pinguim, aquele bichinho simpático que trabalha de garçom na Antártida, devo dizer que não se sabe ao certo. Alguns sugerem que sim, já que eles armazenam calorias como tecido subcutâneo e, portanto, são gordos. Mas outros pensam que possa vir do Galês pen gwin, “cabeça branca”.

Bem, da preguiça facilmente se passa para a modorra. Esta vem do Espanhol modorro, uma doença que aflige os ovinos, afetando-lhes o cérebro e deixando-os sonolentos e letárgicos.

Vocês hoje estão que nem um rebanho de ovelhinhas doentes.

Enfim, daí é um passo para o sono, que vem do Latim somnus, “sono” mesmo. Vejam que a palavra mudou pouco neste últimos mais de dois mil anos; acho que essa é uma atividade tão apreciada que ninguém tenta inventar novidades sobre ela.

Quando a gente está em pleno sono e sobrevém um sonho, que são aquelas imagens que vemos ao dormir, saibam que esta vem do Latim somnium, com a mesma origem de somnum. Tanto é que, em Espanhol, a palavra sueño serve para as duas coisas.

Agora, se a gente não vai dormir a noite inteira, mas apenas um pouquinho de tarde, coisa que poderia acontecer com alguma professora demasiado estressada pelos seus alunos se ela não tivesse que ganhar a vida honestamente dando aula em tudo que é turno, a gente dia que vai dormir a sesta.

Esta deriva do Latim hora sexta, “a sexta hora”. Eles começavam a contar as horas a partir do amanhecer, de modo que a sexta hora se situava pelo meio-dia. Num dia muito quente, às vezes é o único que resta a fazer a essa altura.

Não é o caso de vocês, que normalmente são possuídos por uma energia das mais diabólicas.

Mas, às vezes,  gente mais experiente que nem eu precisa de um descanso. Ela vem de des-, um prefixo negativo, mais cansar, que deriva do Latim campsare, “rodear algo, dobrar uma ponta de terra”.

Agora é tudo muito fácil, mas esta palavra vem de quando se precisava manobrar os remos ou as velas de uma embarcação, o que deixava os marinheiros com as energias gastas e precisando de uma folga.

Falando nesta, folga vem do Latim follicare, de follere, “assoprar, respirar”. Relaciona-se com follis, “fole”, um instrumento usado para forçar o ar no fogo, de modo a avivar as chamas.

O sentido de “descanso” que se fixou em folga é porque follere também queria dizer “respirar, tomar fôlego depois de um esforço”.

Um sinônimo de descanso é repouso, do Latim repausare, de re-, “outra vez”, mais pausare, “fazer uma parada, descansar”. E esta vem de pausa, do Grego pausis, “parada”, de paúein, “parar”.

Quando a gente sai esgotada de suas atividades com certos aluninhos, qualquer parada é bem recebida. Digo isso de forma genérica, naturalmente; nem pensaria em me referir a vocês.

Há uma palavra pouco usada em nossos tempos, letargo. Ela vem do Latim lethargus, do Grego lethargos, “sonolência”, de lethes, “esquecimento”. Isso porque uma sonolência dificulta várias coisas, entre elas a capacidade de memória.

E, se uma pobre profissional do magistério está perto do fim de sua vida útil neste planeta devido ao desgaste pelo trabalho, ela só deseja um mortório. Esta é usada em certas regiões do Brasil para designar, além de um enterro, um saudável descanso, um ócio.

Deriva, como até vocês podem deduzir, de morte, do Latim mors, “estado do que deixa de ser vivo”.

Já que falamos em ócio, informo que esta veio do Latim otium, “inatividade, ócio”. E esta palavra latina derivou de autium, que se originou em av-eo, “estou bem, vou bem”. Vejam com que propriedade foi feita esta palavra, pois para a maioria das pessoas normais estar sem obrigações a cumprir é bem gostoso.

E estar sem fazer nada nos lembra o lazer. Esta veio do Latim licere, “ser permitido”, já que só se deve desfrutar de lazer quando ele é permitido, isto é, quando as obrigações estão todas realizadas. Não que seja o caso de certos aluninhos, claro.

Pronto, está terminando o nosso período e hoje Tia Odete vivenciou algo extraordinário; Valzinha não veio contar histórias escabrosas do seu condomínio, Ledinha não fez perguntas descabeladas, Patty não puxou o cabelo de ninguém…

Para dizer a verdade, estou sentindo falta de alguma coisa.

Peguem seu material a raspem-se daqui antes que eu pense que vocês não gostam mais de mim.

 

Resposta:

Ginástica

Meninada! Todos quietos! Agora é hora de Educação Física, mas está chovendo e a Diretora decidiu que eu vou ficar com vocês na aulinha e distrair a turma até o fim do período, como se ela achasse que eu tenho sete vidas que nem os gatos. E olha que não tenho feito nada contra ela!

Mas está bem; se eu morrer de stress fechada aqui com vocês, ela vai ter que gastar com uma coroa de flores e duvido que consiga uma substituta com a calma e a paciência que eu tenho.

E quanto a vocês, podem ter certeza de que eu vou puxar os pés de cada um na cama por muito tempo. Sabiam que quando a gente incomoda uma pessoa que morre, ela volta para fazer isso?

Imaginem vocês no quarto escuro, tentando ficar acordados e sendo vencidos pelo sono e sentindo de repente aquele puxão no pé, um puxão que parece querer levar vocês para um lugar muito, muito quente, onde vocês vão ficar num caldeirão ainda mais quente para sempre…

Agora que consegui chamar a atenção de vocês, parem de chorar. Vamos nos sentar em roda que a Tia Odete vai contar umas coisas sobre Ginástica para a turma.

Podemos começar com esta palavra mesmo. Ela vem do Grego gymno, “despido, nu”. Os gregos faziam os seus exercícios desse jeito, pois ainda não tinham sido inventados os calções nem os abrigos nem as roupinhas bonitinhas de ginástica.

Joãozinho e Sidneizinho! Parem com essas caras! Estou vendo muito bem que essas cabecinhas sujas devem estar planejando alguma aula privada de ginástica com as suas coleguinhas, mas agora as coisas são diferentes, ouviram? Aliás, naquela época antiga as moças simplesmente não faziam ginástica, de modo que podem ir parando de imaginar.

Mas esse nome ainda é usado para nosso exercícios. Tempos atrás, se usou bastante o que era chamado de Ginástica Sueca, por ter sido divulgada conforme um método sueco, a partir de 1886. Era um sistema de exercícios em que não havia muito deslocamento do corpo.

Havia também a ginástica calistênica, que enfatizava o ritmo, desprovida de aparelhos. Dizia-se que ela trazia mais harmonia ao corpo. Daí o nome, que vem do Grego kalos, “bonito”, mais sthenos, “força”. Anotou, Zorzinho? Gostaria de saber o que é que você faz com esses escritos depois.

Falando em exercício, esta palavrinha vem do Latim exercere, “guiar, manter ocupado”, o que é também a origem de exército, já que os soldados, pelo menos em campanha, se mantêm muito ocupados.

Um dos exercícios que nós não fazemos, graças aos céus, neste coleginho, é o lançamento de dardo. Se ele fosse praticado, em pouco tempo estaríamos com muitas vagas em nossas salas.

Mas os Gregos praticavam muito esta modalidade, que era relacionada com as suas atividades guerreiras. Só que a palavra que hoje usamos para designar essa espécie de lança curta não vem daquele idioma, não. Vem de uma gente que deixou muitas palavras relacionadas com “guerra”, o povo germânico. Eles diziam tart.

Outro esporte de lançamento é o do disco. Em Latim, discus significava “prato” ou outros objetos com esse formato. Em Grego, dikhein era “lançar”.

Não, crianças, não creio que os pais de vocês vão se orgulhar se vocês começarem a praticar o lançamento de pratos à mesa. Melhor não tentarem fazer esta mostra de cultura geral. Vão por mim, eu sei o que digo.

Uma das coisas que a gente faz para aquecer o corpo, isto é, prepará-lo para os exercícios, é correr. Esta palavra vem do Latim currere.

Pare de correr pela sala, Artur! Não, ninguém precisa saber como é que se faz isso, todos já sabem. Obrigado pela ilustração, mas ela é desnecessária. Sente e fique quieto.

Uma coisa que os latinos diziam, usando esse verbo, era Aetas currit. Isso quer dizer “A idade passa”, e posso acrescentar que, se ela passa com a gente sofrendo as barbaridades de certos aluninhos, é bem incômodo.

Mas podem deixar: o futuro vai transformar os mais inquietos em professores.

Este verbo, currere, era relacionado com currus, “carro”. Certo, Ledinha,você tem razão. Os romanos não tinham automóveis; você é muito culta. Mas tinham veículos hipomóveis, isto é, puxados a cavalo.

Vejam vocês, a palavra carga vem também daí. Antes queria dizer “aquilo que vai num carro, numa carreta”.

Ela pode ser usada em sentido metafórico, para falar no peso que uma pobre professora leva nas costas e que deve ser fruto de más ações em alguma vida anterior, pois nesta não há a menor justificativa.

Essa palavra vem do Sânscrito kar, “mover, deslocar”.

Quando há competições de corrida, é para ver quem corre mais rápido. Isto vem do Latim rapere, “tomar à força”. Rapidus era “aquele que é levado à força”, coisa que acontecia bastante naquelas épocas em que as pessoas eram tomadas como escravos. Com o tempo, a palavra incorporou mais a noção de velocidade do que a de violência, passando a ter a conotação que usamos hoje em dia.

Mas a noção de “forçar” existe ainda em palavras que descendem dessa, como raptar, rapina e até rapaz. Há dinossauros que levam um nome composto de raptor, “aquele que pega à força”, como o Eoraptor.

Crianças! Parem de fazer cara de dinossauro!

Outra coisa que se faz como preparação para um exercício ou esporte é o alongamento, sem o qual a pessoa pode sentir dores muito fortes depois. Tal palavra vem do Latim ad-, “para” mais longum, “longo, comprido”.

Joãozinho! Quieto!

Sim, Humbertinho, alongar é o mesmo que esticar. Esta palavra vem do Latim sticha e do Grego stikhé, “vinha”. Para quem não sabe, “vinha” é a planta da uva. Não, seus citadinos, não se trata de uma árvore. É uma planta trepadeira cujo fruto serve para fazer vinho, daí o nome. Pode ser chamada de “parreira” também.

Calma, já explico o que é que esticar tem a ver com esta planta. É que ela tem uns ramos muito finos e delgados, as gavinhas ou vergônteas, que servem para ela se prender e poder subir para expor as folhas ao sol. Os antigos compararam coisas que tinham uma proporção que predominava muito sobre as outras aos galhinhos dessa planta. Não é bonito?

Houve época em que se dizia que uma pessoa bem arrumada, com suas melhores roupas, estava “na estica”. Isso porque as roupas nessa condição se apresentavam bem passadas, isto é, esticadas.

Muitos dos movimentos feitos nos exercícios são ritmados. Esta palavrinha veio do Grego rhytmós, “movimento repetido”, que por sua vez veio do verbo rhein, “deslizar, fluir, correr”.

Mais uma vez, quieto, Joãozinho!

Outra competição que se faz é para ver quem pula mais alto ou mais longe. A palavra vem, podem se espantar, do Latim pullus, que quer dizer “frango”. Como este animal dá longos pulos ajudado pelas asas, foi feito o verbo pular.

Não, Ledinha, se sua mãe diz que a vizinha é uma galinha que vive pulando a cerca, não sei de que se trata, não temos nada que ver com isso e vamos mudar de assunto já-já. São coisas em que a Etimologia não se mete, muito menos eu.

Muitas vezes os atletas desenvolvem seus músculos pulando corda. Esta palavra vem do Grego khordé, “fio, corda”, originalmente “tripa de animal”.

Não, Soneca (ué, você acordado?), esta corda nada tem a ver com os acordes que você vai fazer quando for um famoso guitarrista. Acorde vem do Latim cor, “coração”.  O que era feito ad cordis era um “acordo”, algo harmonioso como certos conjuntos de notas musicais.

Falando no Soneca, não sei por que me vieram à mente palavras opostas aos exercícios físicos, como moleza, que vem do Latim mollis, e preguiça, que em Latim era pigritia.

O Bicho-Preguiça das nossas matas se chama assim porque se mexe muito lentamente. Não senhor, Soneca, não é por preguiça, não. É porque a massa muscular dele é tão escassa que ele simplesmente não tem como fazer movimentos rápidos. Mas ele tem lá seu jeito brasileiro de sobreviver, ou não estaria ainda nas copas das árvores.

Também entre estas palavras que expressam pouca atividade se inclui folga. Esta tem uma história interessante. Vem do Latim follicare, de follere, “assoprar, respirar”. Relaciona-se com follis, “fole”, um instrumento usado para forçar o ar para um fogo, de modo a avivar as chamas. O sentido de “descanso” que se fixou em folga é porque follere também queria dizer “respirar, tomar fôlego depois de um esforço”.

Em Espanhol, huelga, da mesma origem, quer dizer “greve”.

A palavra follis deu, em Francês, fou, “louco”. E, em Inglês, fool, “tolo”. Ambos os idiomas relacionaram metaforicamente o conteúdo do fole, que é apenas ar, com o conteúdo da cabeça dessas pessoas.

E agora está chegando a hora de vocês irem para casa, graças sejam dadas ao Céu. Antes que eu fique maluca, dêem-me uma folga. Até amanhã.

Resposta:

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