Palavra corredor

TIA ODETE VIAJA DE AVIÃO – II

– Interessante casalzinho sentado ao meu lado aqui no avião, findo o lanche – palavra que veio do Inglês lunch, um encurtamento de luncheon, a qual veio lá dos mil quinhentos e setenta, quando se dizia nonechenche, que queria dizer “repasto leve de meio-dia”, de noon, “meio-dia” e schench, “bebida”, e que foi alterada por uma palavra do Norte do país, lunch, “pedaço de carne ou de pão”, e mais tarde foi aplicada a “comidinha leve entre refeições” – onde estava eu ?

Ah, sim, ia dizer que vou pedir licença para me levantar e caminhar um pouco pelo corredor, para fazer a digestão dessa coisa que aqui nas alturas eles denominam de “lanche”.

Antes que perguntem, explico que corredor vem do Italiano corridore, “corredor” mesmo, do Latim currere “correr”. O uso original era relativo a fortificações, onde muitas vezes era necessário correr mesmo, para fugir das balas inimigas. Não digo pedras e flechas porque o uso dessa palavra  data apenas de 1814, quando a humanidade estava mais avançadinha na arte de matar seus semelhantes e usava projéteis de chumbo impulsionados por pólvora.

– Boa tarde, senhoritas comissárias que estão reunidas aqui no fim do corredor, poderiam me dizer aonde levam estas portas? Dá para abrir um pouco para olhar lá para fora e ver se há mesmo anjinhos brincando nas nuvens? Ah, são os banheiros, posso olhar?

Nossa, mas que interessante o que há aí dentro! Pena que o nome esteja errado. Não entenderam? Ora, banheiro vem de banho, que vem do Latim  balneum, “lavagem corporal”, e aí dentro não vi nenhum chuveiro ou banheira. Pensando bem, não é má idéia, hein? Que tal instalar uma banheira nesse local, para maior relaxamento dos passageiros durante a viagem… ah, não digam, está por começar uma grande turbulência que vai derrubar todos os que estão em pé? Nossa, vou correndo de volta para meu assento e colocar o cinto bonitinho! Até logo, mas pensem em minha sugestão.

Com licença, doce casalzinho, já voltei para lhes contar mais coisas interessantes. Vocês – ops, desculpe o joelhaço – devem estar já com saudades do aprendizado grátis que estão recebendo.

Bem, de volta ao meu confortável assento – que deriva do Latim adsentare, “sentar-se em”, formado por ad, “a”, mais sentare, “sentar-se”… mas o que é aquilo ali na ponta da asa, que só notei agora?

Ou alguém colocou ali enquanto eu saí? Hum, o senhor diz que se chama winglet, é? Veja só, eu não conhecia o objeto em pessoa, mas já sabia que seu nome vem do Inglês wing, “asa”, mais –let, usado como sufixo diminutivo. Também sei que essa projeção vertical na extremidade de uma asa serve para dissipar os turbilhões de ar por ela gerados e assim reduzir o arrasto aerodinâmico.

Bem, vamos ver se vocês têm mais alguma dúvida etimológica – oh, coitadinhos, ambos tiveram uma súbita necessidade de ir ao banheiro ao mesmo tempo. Vão, por favor, que depois a gente continua. Ah, pretendem se trancar neles e só sair depois que o avião parar? Bem, se a coisa está assim…

– Por favor, senhora outra comissária que está passando por aqui, a que hora chegaremos? Ah, já estamos chegando, pois a tripulação implorou ao piloto acelerar ao máximo e usar todos os atalhos possíveis?

Curioso, parece que hoje todas as pessoas estão com pressa ao meu redor.

– Boa tarde, agradável senhor que desceu do avião comigo, pode me dizer o que estamos fazendo parados aqui? Ahn, esta é a esteira por onde serão entregues as nossas bagagens.  Enquanto elas não chegam, vou contar que esta palavra vem do Espanhol estera, que veio do Latim storea, “esteira” mesmo.

E colho também a ocasião para dizer que bagagem veio do Francês bagage, inicialmente “equipamento militar”, de bague, “saco, pacote”, provavelmente da mesma fonte escandinava que originou o bag inglês.

Ué, mais um que resolve ir correndo para o banheiro. Será que o lanche que serviram não estava bom? Para mim, que não estou acostumada a comer, acho que nada faz mal.

Ah, eis que chega a minha mala pela esteira.

– Com licença, minha senhora, desculpe empurrá-la bem quando a senhora ia pegar a sua mala, mas aqui vem a minha e eu tenho medo que, se não a pegar agora, os moços a agarrem e recoloquem no avião. Para compensar o empurrão, vou-lhe ensinar que mala vem do Francês malle, “saco de couro, cofre”, do Frâncico malha, de mesmo significado.

– Até logo, aeroporto de chegada! Em breve estarei aqui para ensinar mais coisas às pessoas que freqüentam este lugar tão interessante e moderno. Agora vou para o meu hotel…

– Boa tarde, senhor taxista, o senhor sabe de onde vem a palavra táxi?

Resposta:

Moradas

 

Desde que a nossa civilização fixou geograficamente para cuidar da agricultura, todos nós nos abrigamos em algum tipo de residência, trabalhamos em alguma edificação, nos divertimos dentro de algum prédio. Já que isso é tão comum, vamos dar uma olhada na origem de palavras relacionadas com esse assunto.

CASA- em Latim, esta palavra designava uma cabana, barraca, tugúrio, choça, edificação rural de pequeno porte. Ela não era usada para nomear moradas de boa qualidade. Com o correr do tempo, no entanto, ela passou a ser usada para residências térreas, independente de qualidade.

As moradas melhores eram chamadas de domus. Daí resultaram derivados como domínio, domo, domicílio e muitos outros.

Domus também podia ser usado para dizer “pátria, país”: domo emigrare, “sair do seu país”.

Para aqueles que confiam na recompensa futura aos seus bons feitos nesta vida, existe uma inscrição muito sonora e concisa para uma lápide: Domus Secunda Donec Tertia. Como tantas frases latinas, a tradução direta é impossível. O sentido da frase é “Esta é a minha segunda casa, enquanto espero a terceira”, isto é, o Céu.

CABANA – vem do Latim capanna, com poucas alterações.

CHOÇA – é uma palavra que se originou de pluteus, que era o nome dado pelos romanos a uma fortificação temporária feita em madeira, complementando as de pedra.

TUGÚRIO – esta palavra de som meio fúnebre, usada para designar uma morada de muito baixo nível, era quase a mesma em Latim: tugurium.

EDIFÍCIO – vem do Latim aedes, “casa, mansão”. O nome acabou se fixando nos edifícios que existiam em Roma e que tinham até cinco andares, usados como morada para as pessoas de baixa renda. Eles eram chamados insulae, “ilhas”. Continham apartamentos muito pequenos, absolutamente desconfortáveis, com péssimas condições de ocupação. Formavam verdadeiras armadilhas em caso de incêndio.

Havia um magistrado romano que era chamado de aedilis. Competia-lhe cuidar de questões de habitação (daí o nome), abastecimento, inspeção dos mercados, etc. Derivou daí o outro nome dado aos nossos vereadores, que às vezes se tratam um ao outro de “nobre edil”.

Um acréscimo feito a uma residência, como uma peça a mais, costuma ser chamado de “edícula”. Esse nome vem justamente de aedes, com o acréscimo do sufixo diminutivo.

MANSÃO – vem do Latim mansio, de mansus, particípio passado de manere, “ficar, permanecer”, relacionado com o Grego menein, “permanecer”.

Tal palavra acabou designando uma casa de grandes dimensões e de muito boa apresentação.

MANSARDA – apesar da semelhança, não tem relação direta com “mansão”. Vem do Francês mansarde, palavra feita a partir do sobrenome de François Mansart, arquiteto falecido em 1666. Foi ele quem criou os telhados com duas inclinações de cada lado, a de baixo mais inclinada que a de cima.

Até hoje casas com este tipo de cobertura são as preferidas para histórias assustadoras. Nada como um telhado destes para evocar fantasmas desembestando de correr atrás de mocinhas indefesas que serão defendidas por mocinhos intrépidos e que logo depois de resolverem a questão vão ser felizes para sempre.

TELHADO – esta palavra se impõe a partir do paragráfo aí acima. Veio do Latim tegula, “telha”, de tegere, “cobrir”. Em Biologia, tegumento é o nome dado à pele que cobre um animal.

PRÉDIO – do Latim praedium, que vem de praes, “fiador, aquele que garante um empréstimo, bens do fiador”. Em Direito Romano, era a garantia em imóveis que era dada para se obter um empréstimo.

Ou vocês acham que naquela época os negócios ainda eram feitos com o fio da barba? Isto deve ter terminado com a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden.

TERRENO – todo prédio se situa num terreno, pelo menos aqui neste mundo. E esta palavra vem do Latim terrenum, “formado de terra”.

A linguagem eclesiástica passou a usar esta palavra com o sentido de “ligado a este mundo”, em oposição às coisas relativas ao outro mundo, isto é, “celestiais”.

PÁTIO – seria bom que todas as moradas tivessem um pátio para as crianças poderem brincar. Tal palavra vem do Latim patere, “aberto, amplo, visível”.

CORREDOR – o nome vem do verbo latino currere, “correr”. É uma peça da casa que interliga as outras e normalmente se mantém desimpedida, de modo que dá até para correr ao longo dela. Em Português a sua origem é evidente, mas para os povos de língua inglesa é um achado.

Nos palácios dos últimos Luíses da França os arquitetos ainda não tinham incorporado a idéia do corredor, de modo que se tinha que passar de um quarto para outro para chegar até onde se queria. Essa é mais uma razão para as camas antigas terem aquelas colunas nos cantos e dosséis de tecido que ocultavam o seu interior.

QUARTO – vem do Latim quatuor, “quatro”. Inicialmente teve a significação de “a quarta parte da casa”, talvez não em área mas em função.

Essa denominação foi usada numa frase de pára-choque de caminhão: “Estou rezando 1/3 para encontrar 1/2 de te levar para 1/4.” O motorista era sincero.

COZINHA – do Latim coquere, “cozinhar”. Seu particípio passado era coctus. Nas longas viagens marítimas a massa era cozida duas vezes para formar uma espécie de bolacha, para evitar o bolor. Por isso aquele alimento era chamado de bis, “duas vezes” + coctus, “cozido”. Era o nosso conhecido biscoito, que ficava com uma consistência semelhante à madeira de lei.

Os enfeites em biscuit, um tipo de porcelana, se chamam assim porque o material é cozido duas vezes também. O nome dado a eles é o que se usa em Francês.

BANHEIRO – era o local do domus dedicado à higiene pessoal. Como se podia tomar banho ali, o nome veio de balneum, “banho privado”. A palavra “privado” é usada aqui porque, na antiga Roma, era costume se tomar banho em estabelecimentos públicos, onde eram feitos encontros entre amigos e se discutiam as fofocas mais recentes.

ESCADA- muitas vezes se necessita este meio de passar de um andar para outro numa edificação. Seu nome vem do Latim scalare, “subir”.

A comparação entre uma escada, com os degraus por onde a pessoa se desloca em comprimentos predeterminados, deu origem à escala, uma série de notas musicais com intervalos definidos ou uma convenção para efetuar diversas medidas..

Na Idade Média, as escadas que levavam aos torreões dos castelos voltavam-se sempre para a direita de quem subia. A idéia era facilitar o eventual uso da espada de um defensor que estivesse na posição mais elevada e dificultar a manobra da arma por parte de quem atacava.

Dá para imaginar um corpo de elite para atacar torres de castelos, composto apenas por canhotos.

ELEVADOR – quando este existe, é mais fácil usá-lo do que subir pela escada… O seu nome vem do Latim elevare, “erguer”.

Note-se que a construção de edifícios com mais de cinco andares só foi possível a partir da sua invenção. E como se deu esta?

Um certo Elisha Otis era chefe dos mecânicos numa fábrica de camas em Nova Iorque, em 1852. Em certo momento, foi preciso levar máquinas pesadas para os andares superiores do prédio e ele inventou um mecanismo de alçar pesos com dispositivo de segurança automático que impedia a queda.

Sua idéia fincionou tão bem que ele saiu da empresa, fundou a Otis Steam Elevator Company e em 1857 instalou o primeiro elevador de passageiros numa loja de louças na Broadway.

Note-se que os primeiros elevadores, como diz o no
me da empresa pioneira, eram movidos a vapor. O primeiro elevador elétrico começou a funcionar em 1899.

ESCADA ROLANTE – rolante vem de rotulum, “cilindro, pequena roda”, que vem do Latim rota, “roda”.

A mesma empresa Otis desenvolveu este equipamento em 1900, para a Exposição de Paris. A idéia já existia, mas o que se usava eram rampas rolantes, as quais ocupavam mais espaço porque precisavam ser mais inclinadas.

Quando escadas rolantes foram instaladas no Metrô de Londres, em 1911, a maioria das pessoas se recusava a usá-las, por medo. A Direção do Metrô resolveu o problema com um belo golpe de “marketing”: contratou um homem com uma perna de pau para ficar subindo e descendo o dia inteiro por ali, de modo a tranqüilizar o público.

SÓTÃO – vem do Latim subtulum, de subtus, “o que está debaixo”. Debaixo do telhado, da cobertura da casa, subentende-se.

Hoje são poucas as casas que têm um espaço utilizável entre o telhado e o forro. Mas, quando existe, ele é ideal para se guardar aquelas coisas que jamais vão ser usadas mas que não temos coragem de botar fora. Ou que vão ser necessárias três dias depois que a gente criou coragem para se livrar delas.

A expressão “ter macaquinhos no sótão” era muito usada para designar uma pessoa que tinha alguma coisa estranha por dentro da cabeça.

FORRO – esta palavra, ao contrário das outras, não tem origem latina. Vem do Francês antigo feurre, “guarnição interna”, de origem germânica.

Além de designar a separação horizontal entre o telhado e os aposentos, numa casa, nomeia a colocação de tecido acompanhando o interior de uma peça de vestuário, seja por estética, seja para conforto tátil e térmico.

GOTEIRA – quem vive numa casa que tem telhado e forro muitas vezes tem que se livrar de uma goteira. Este nome vem do Latim gutta, “gota”.

Existe uma substância elástica como borracha chamada guta-percha, que é um material gelatinoso retirado de plantas sapotáceas, cujo nome nada tem a ver com o Latim gutta.

A palavra vem do Inglês gutta-percha, que a tirou do Malaio getah percah, de getah, “seiva, látex” e percah, “a árvore que produz esta seiva”. Trata-se de material de uso importante em Odontologia.

PORÃO – vem do Latim planus, “liso, chato, plano”. É termo náutico; nos navios, designa “o espaço entre o convés mais baixo e o fundo do casco”.

É mais uma peça que não existe nas casas atuais. Parece ser comum ainda em casas americanas. E aparenta ser uma escolha preferencial para esconder corpos, se dá para acreditar nos filmes que passam na TV.

DESPENSA – eis mais uma peça difícil de encontrar numa casa hoje. Seu nome vem de despender, do Latim dispendere, “gastar”, pois era ali que se guardavam as coisas necessárias ao funcionamento da casa e com as quais se havia feito gastos.

Atualmente, nas cidades maiores, os supermercados sempre à mão dispensam a despensa, tomando-lhe o lugar.

Resposta:

Corrente

 

A banda termina de tocar o Hino Nacional. O estádio atopetado de gente e de palavras mantém um silêncio respeitoso quando a figura de gabardine clara, com o chapéu bem enterrado na cabeça de modo a lhe ocultar totalmente o rosto, sai de um dos vestiários e se dirige ao estrado erguido perto de uma extremidade do gramado.

O misterioso indivíduo se põe em impecável posição de sentido à frente das altas autoridades que o aguardam lado a lado. Ali estão o representante do Presidente, do Governador e do Prefeito, entre muitos outros.

Cada um faz uma breve alocução referindo-se aos feitos de X-8 – pois é ele o homenageado nesta cerimônia cívica.

Os discursos são curtos, tal como ele havia exigido antes de aceitar a homenagem. Não que ele não goste de ser elogiado, até pelo contrário, mas a idéia de ficar estaqueado ali por muito tempo não lhe agrada.

Findos os discursos, o Núncio Apostólico lhe coloca no peito a Comenda de São Cipriano e anuncia que a Biblioteca do Vaticano está aberta para as suas pesquisas sempre que lhe aprouver.

A seguir, o Ministro da Marinha o condecora com a Ordem da Banana-Boat, pelos bons serviços prestados às palavras náuticas e coloca ao seu dispor as belonaves da Marinha.

Agora vem o do Exército e lhe entrega a Medalha do Mérito do Borzeguim e diz que X-8 pode contar com o apoio das tropas de elite sempre que precisar de algum reforço na sua segurança pessoal.

O Ministro da Aeronáutica avança e prende na frente da gabardine recém-tirada da lavanderia a Grã-Cruz da Pandorga no grau de Cavaleiro, acrescentando que sempre haverá um helicópetro à sua disposição para quando ele quiser se deslocar para lugares de difícil acesso em suas missões.

O Núncio e os Ministros recuam, uniformes coloridos e vistosos, condecorações rebrilhando ao sol de outono. Em uníssono, as quatro espadas são retiradas das bainhas, e o punho é levado à altura dos lábios; a seguir, elas são erguidas, indo retas até o alto e depois elas se abatem para a frente e para a direita, em continência .

X-8, frustado por não poder fazer continência, já que não é militar, apenas levanta a mão direita e ergue o polegar com toda a galhardia que pode reunir.

Nesse momento, soam clarins no lado oposto do campo. Todos se viram para lá e o espanto toma conta do estádio. Um pequeno contingente de cavalaria, couraças peitorais ofuscantes, espadas na mão direita, apoiadas ao ombro, segue uma mulher de uniforme e digníssimo porte, sobre um cavalo com preciosos arreios. Esses uniformes não são deste país…

Só pode ser Ela, a Rainha! Logo atrás dela cavalga um oficial com uma caixa revestida de veludo. Só pode ser a condecoração que ela lhe traz. A Ordem da Jarreteira? Seria demais; ela é reservada quase só à Família Real. No Século 20, apenas duas pessoas de fora a receberam, uma delas sendo Winston Churchill.

Bem, a Order of the British Empire, Ordem do Império Britânico, também serve. Seria interessante poder colocar as iniciais O.B.E. depois do seu nome no cartão de visitas e explicar distraidamente de que se trata quando perguntado…

Mas o que é isso? Batidas fortes do lado de fora do estádio? Deve ser mais povo querendo entrar.

X-8 é generoso, especialmente quando isso não implica em gastar nada. Vira-se para as autoridades para pedir que abram os portões, quando nota que a comitiva a cavalo, mesmo não parando de andar para a frente, vai recuando e rapidamente some de vista. Os Ministros e o Núncio – pensando bem, o que fazia este com uma espada à cinta? – não estão mais ali, apenas as suas roupas, medalhas e espadas amontoadas no chão. A luz do dia está escurecendo. Um forte terremoto sacode tudo e atira X-8 ao chão.

A queda com cadeira e tudo acorda o detetive. Abrindo os olhos, ele vê ao seu redor o escritório cuidadosamente desleixado de sempre, meio escuro. Percebe que a porta está se abrindo e vê os pés de alguém que entra, certamente uma palavra cliente.

Esta vê a figura na gabardine amarfanhada no chão e se espanta:

– Que foi que houve? O senhor desmaiou?

X-8 se recusa a reconhecer que adormeceu na cadeira e despencou ao chão vexaminosamente. Pensamento veloz, diz rispidamente:

– Já para o chão! Rápido!

A palavra obedece sem hesitar. Atira-se de bruços no assoalho de madeira, o coração batendo acelerado.

O detetive rasteja até a janela, ergue-se com cuidado, uma mão crispada dentro do bolso da gabardine, e olha rapidamente para fora. Parece tranqüilizar-se e olha mais demoradamente. Vira-se para a palavra que está estendida no chão e pergunta pelo canto da boca, ainda com a mão agarrando firmemente alguma coisa no bolso:

– Você viu algum grupo suspeito lá fora?

– N-não. Fora todo aquele lixo e os ratos, não havia ninguém.

– Está bem, o perigo passou. Pode levantar-se. Eles decerto desistiram. É sempre assim; podem até chegar perto, mas não se atrevem. Peço desculpas por esta situação alheia à minha vontade.

Larga o meio pacote de balas de goma que estava no bolso e ajuda a palavra a se levantar.

– Mas o que foi, quem são “eles”?

– Não pergunte, é bem melhor para você. São coisas que acontecem para quem está em certas profissões. Mas sente-se, por favor, e me diga a que veio.

– Vim procurar o senhor para descobrir minhas origens, mas eu não sabia que era tão perigoso…

– Você nem imagina. Mas enquanto eu estiver aqui você está em segurança. Pelo que eu vejo, você é Corrente.

– Sim, e não sei nada sobre o meu passado, de onde vim, para onde vou. Quero saber se o Sr. pode me ajudar.

– Remunerando bem, eu vou mais além. Vamos estudar meus honorários e, se você aceitar, posso fazer as malas e levar a efeito essa pesquisa. Em menos de um mês poderei entregar algo, se “eles” não me acertarem antes. Mas não vão conseguir nada!

Dali a meia hora, após tudo combinado, a palavra saiu. Estava impressionadíssima com a vida perigosa de um detetive etimológico. Até achou que o elevado preço que estava pagando nem era demais para uma atividade de tamanho risco.

Vendo-se sozinho, X-8 começou a trabalhar, contente com a sua presença de espírito. Remexeu nos seus livros, rabiscou no seu belo papel cor de creme com sua caneta-tinteiro Parker 51, comparou anotações. Sentou-se atrás da velha máquina de escrever, estranhamente parecida com uma locomotiva antiga, colocou no cilindro uma folha de papel de jornal de péssima qualidade e mandou ver:

CORRENTE

Esta palavra veio do Latim currere, “correr”. Esta, por sua vez, foi ligada a uma raiz pré-histórica que denotava “movimento rápido”.

Só do Latim currus, que significava “carro puxado por cavalo”, temos, entre outras:

Carroça – veículo de carga tirado por cavalos, passando pelo Italiano carrozza, do Latim medieval carrotia.

Carroçável – “o que permite a passagem de veículos”.

Carroçada – “o volume ou peso que uma carroça pode transportar”.

Carroceria – “partes situadas sobre a base de um veículo”.

Carruagem – “veículo de tração animal para transporte de pessoas”.

Carreira – “corrida”, “decurso de uma profissão”. Passou pelo Latim medieval carraria, “estrada simples para carros”.

Carrear – “transportar de carro”. Seu derivado mais recente, muito usado por políticos, é Carreata.

Carregar – “levar mercadorias”, inicialmente num carro e depois de qualquer modo.

Carga – deriva de Carregar, e tanto se aplica ao material transportado como a um ataque frontal, de Infantaria ou Cavalaria.

Carreto – “transportar algo em carro”, depois “o preço desse transporte”.

Carretel – o significado de “pequeno carro” acabou reduzido a “cilindro onde se enrola a linha”.

Carrossel – não tem nada a ver com o assunto, apesar da semelhança entre as funções e as palavras. Origina-se no século 16, de um torneio que era feito em Nápoles, chamado carusello, e que consistia em jogarem bolas de lama uns nos outros. Carusello era o diminutivo de caruso, “cabeça de criança” na linguagem local, e designava as bolas de lama. As pessoas inventam cada diversão!

Do sentido de “correr”, temos:

Correio – primeiro designava o mensageiro, depois os serviços de entrega de cartas em geral.

Corredeira – “parte rasa de um curso dágua, que desliza rapidamente”.

Corredor – “parte de uma morada por onde passam as pessoas”.

Corrente – ” o que corre”, “fluxo” de algo, como eletricidade, líquidos, lava, dinheiro (daqui a conta corrente, que tantas vezes corre mais do que queríamos).

X-8 termina a tarefa, dá umas sutis amassadas no papel, esfrega-o de leve no chão e o coloca num envelope que já viu melhores dias.

Dali a algumas semanas, disca para Corrente e marca uma data, às 20h35min.

No dia combinado e à hora precisa, a palavra entreabre a porta com muito cuidado. Quando os seus olhos distinguem a figura abaixada atrás da escrivaninha, mal aparecendo a aba de chapéu, Corrente fecha a porta atrás de si, se atira ao chão e rasteja para a frente. Encontra-se com X-8 no amplo espaço para as pernas debaixo do móvel. Pergunta:

– “Eles” estão por aí de novo?

Sempre estão – responde a voz calma e sibilante. – Trouxe o resto do pagamento?

– Aqui está, diz a palavra, entregando um pacote.

Preciso contar? – a voz parece uma navalha de gelo.

– D-de jeito nenhum, seu X-8. Eu jamais…

– Está bem. Aqui está seu envelope. Aguarde que eu vou ver se é seguro sair. – e novamente desliza até à janela e observa os arredores, de mão no bolso. Dirige-se à palavra deitada no chão:

– Pode ir agora, está tudo bem. Mas afaste-se logo desta vizinhança. Não pare até chegar em casa.

A palavra se escafede tão rápido como consegue. Chega à sua casa e entra embaixo da cama por um bom tempo. Depois de sair dali, revista cuidadosamente a casa toda, com uma colher de pau na mão. Mais tranqüila, senta para ler o papel que recebera há pouco. Fascina-se com as informações dali. Revive as emoções por que passou. Suas amigas vão ficar impressionadas.

Enquanto Corrente se apressa pelas ruas, X-8 come balas de goma e conta o dinheiro. Gostou muito da maneira de impressionar a cliente. Chega à conclusão de que seria bom usar pequenas técnicas de marketing dessas mais seguido. Pega um papel e começa a rabiscar as idéias iniciais.

Resposta:

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