Palavra votos

Vazio

O impoluto detetive das palavras, X-8, está se dirigindo ao Bar do Garcia, em frente ao Edifício Éden, onde tem seu escritório de atendimento etimológico.

De vez em quando ele entra numa espécie de surto, diz que morrer todos vão mesmo e pergunta qual é a vantagem de deixar esta vida completamente são; nessas ocasiões,  ele se dedica a pecar contra o seu corpo através do consumo de alguma comida do Garcia.

Atravessa bravamente o lixo que se acumula nas calçadas desta parte olvidada da cidade e adentra o recinto do bar.

É um bar estritamente familiar. Tudo ali é familiar para X-8: o balcão revestido com azulejos que provavelmente haviam sido brancos em épocas pré-históricas, o dono com sua gordura, barba por fazer e jeito silenciosamente mal-encarado, a sujeira das moscas decorando as paredes (havia quem se dedicasse a ler o futuro naqueles aglomerados de manchinhas), os vidros com a poeira grudada na gordura, a empoeirada grinalda plástica de Feliz Natal que fica sobre a porta o ano inteiro.

Ele senta e pede um bauru.

Regala-se ao sentir o cheiro que emana do enorme prato quando este é colocado à sua frente, esparramando bacon para todos os lados. Começa a consumi-lo lentamente, saboreando, sabendo que em poucas horas estará arrependido e jurando nunca mais cair em tentação.

Depois de ter introjetado toda aquela insalubridade, vê-se obrigado a esperar um pouco para poder recobrar o uso das pernas.

É quando vê uma palavra olhando-o fixamente de uma mesa vizinha; Logo percebe que ela está querendo uma consulta. Pensa em atendê-la, assim pagando o bauru com sobra e aproveitando o tempo em que a difícil digestão o mantém inutilizado.

Faz um gesto amável com a luva de couro lambuzada de gordura (ele não a tira em público) e a palavra passa para a sua mesa, confirmando que gostaria de saber a sua origem e que andou guardando o dinheiro para isso, mas não queria incomodar e…

– Sem problemas. Minha vida é fazer sacrifícios pelas palavras, nossas constantes companheiras de toda hora, e… quanto você tem aí no bolso?

Hum, é meio pouco mas hoje estou me sentindo generoso. Passe para cá e ouça.

Você é a palavra Vazio. Deriva do Latim vacivus, “desocupado, vago, desprovido, sem nada”, relacionado ao verbo vacare, “não ter dono, estar isento de algo, estar sem ocupação”.

Outra palavra que vem desse verbo latino é vácuo, “o que não contém nada”.

E falando em “não conter nada”, outro derivado é vaidade, uma qualidade que se firma habitualmente sobre alicerces de fumaça, sem consistência.

Veja só a sabedoria que presidia a invenção das palavras!

Em termos de “vazio”, entre seus parentes contamos com viúvo, do Latim viduus, “solitário, abandonado, vazio”, que é como se sente uma pessoa que foi acompanhada por outra por muito tempo e a perdeu.

O ato de tornar vazio, esvaziar, é um derivado óbvio. O mesmo acontece com vazado, nome dado a certas peças de construção que apresentam espaços ocos.

E um vazamento é algo que saiu e deixou o conteúdo inicial diminuído. Pode ser de uma caixa d’água, de um conjunto de informações, etc.

Em Francês, “vazio” se diz vide; em Italiano, vuoto. Sei que esta última dá vontade de chamar a atenção para o resultado de nossos votos nos políticos que nos representam, mas é melhor não entrarmos nessa área.

Já que você pergunta, voto é do Latim votus, particípio passado de vovere, “prometer solenemente, garantir, jurar”.

Enfim, é o que lhe posso dizer sobre suas origens, considerando o que você pagou.

Falando nisso, acabo de pagar nosso bom amigo Garcia, que nos olha desconfiado ali atrás do balcão, e se você não se incomodar, gostaria de pedir sua ajuda para cruzar a rua e subir até meu escritório, pois sinto-me sem forças para transportar meu abdome, que está apresentando um peso fora do habitual.

Sim? Grato, muito grato.

Resposta:

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