Palavra voto

ELEIÇÕES

Nossa Câmara Literária percorre os céus do bairro de X-8. É noite, como sempre por lá. Ruas sujas e desleixadas passam pelas lentes de nosso aparelho, entram em nossas retinas, vão pelo nervo Óptico até… epa, vamos ter que interromper nossa lição de Fisiologia.

Estamos vendo um ajuntamento lá embaixo, o que é isso? Desçamos para investigar.

Trata-se de um terreno baldio onde há alguns caixotes vazios em disposição simétrica, parece que para servir de assento.

Na entrada do terreno, onde estão faltando algumas tábuas na cerca de madeira acinzentada pelo tempo, uma faixa escrita com capricho:

HOJE

GRANDE SESSÃO CULTURAL ETIMOLÓGICA

ELEIÇÕES

(é de grátis, mas aceitamos doações)

 

Uma multidão, tanto de gente como se palavras, está entrando e se acomodando no terreno. Neste bairro as diversões não-violentas são raras, ainda mais se são de graça, como é o caso.

Às 20 horas em ponto, aparece uma figura e se coloca atrás do grande caixote que faz as vezes de tribuna. É um sujeito baixinho, vestido com uma enorme gabardine, com um chapéu que lhe oculta o rosto… é ele, o famoso detetive X-8, aquele que se dedica com afinco à pesquisa das origens das palavras, levado tanto pelo seu amor à Etimologia quanto ao seu interesse por dinheiro.

Ele foi convidado pela Direção da escola local para falar sobre a etimologia de um assunto da maior importância: as eleições.

Ele não precisa se apresentar, todos no bairro sabem quem é ele: o único morador que leu mais de um livro. No seu caso, bem mais.

No momento, ele está sobre um palco precariamente armado à frente do espaço agora tomado por caixotes e cadeiras de plástico, muitas surripiadas de bares de outros bairros.

– Caros concidadãos, caras palavras: vou poupá-los de falas sobre a importância das eleições, do método democrático, da liberdade de escolha, etc., e vou passar direto à origem de palavras correlatas.

E começo já com eleição: vem do Latim electio, “escolha”, de eligere, “escolher, selecionar”, formada por ex-, “fora”, mais legere, que tinha o sentido tanto de “escolher um fruto da planta” como de “ler”.

Numa eleição a gente faz suas escolhas por meio do voto, do Latim votus, “promessa, desejo”, particípio passado de vovere, “prometer, dedicar algo a”.

Os votos são depositados numa urna, do Latim urna, “vaso de argila para líquidos ou grãos”.

Em nosso país se pode votar para vereador, por exemplo. Esta palavra vem do Latim veredus, “cavalo de posta”.

Este animal, usado para o serviço de entrega de correio, acabou dando o seu nome ao caminho que percorria. Havia uma função pública que implicava em cuidar das veredas junto a uma cidade, donde o “vereador”.

Um  sinônimo é o edil, do Latim aedilis, “funcionário encarregado dos prédios e outros serviços públicos numa cidade”, de aedes, “casa, habitação, prédio”.

Também recebe votos o deputado, derivado de deputare, “encarregar, colocar em ofício, considerar como”, formado por de-, “fora”, mais putare, “pensar, considerar, contar”.

E o senador, que fazia parte do senatus, “o mais alto conselho de Estado na antiga Roma”, literalmente “conselho dos mais velhos”, de senex, “idoso, velho”.

As congregações a que essas diversas categorias podem ser as assembleias, do Latim assimulare, “tornar parecido”, de ad, “a”, mais similis, “parecido, semelhante”; depois o sentido mudou para “juntar, reunir”, dado que muitas vezes as reuniões eram compostas de pessoas com ideias semelhantes.

Ou elas se podem chamar câmaras, do Grego kamara e o Latim camera, “quarto com teto abobadado, recurvo”, comum em prédios antigos. Claro que esse pessoal não se reúne num lugar apertado assim, mas a noção de “lugar para reunião” se manteve ao longo dos tempos.

Um corpo deliberativo também pode se chamar de parlamento, que teria vindo do Francês parlement, antigo tribunal de Justiça na França, de parler, “falar”, coisa que muito se faz num local desses.

Em países com sistema bicameral, ou seja, onde há uma câmara e um senado, o conjunto desses órgãos forma o congresso.

Esta palavra vem do Latim congressus, que significava “encontro”, tanto hostil quanto amigável, de congredi, “encontrar-se ou lutar com”, de com-, “junto”, mais gradi, “caminhar”, de gradus, “passo”.

As pessoas eleitas são políticos, que veio do Grego politikos, “cívico”, de polites, “cidadão”, de polis, “cidade”.

As pessoas e palavras seguiam atentamente o que o orador dizia. Ele respirou fundo e abriu os braços, dizendo:

– Para encerrar, uma palavra que é de todos conhecida: corrupção, de corrumpere, “destruir, estragar”, de com-, intensificativo, mais rumpere, “quebrar, partir, arrebentar”. Este substantivo representa tudo o que pode ser feito de mau por poucos para quebrar a esperança e o futuro de muitos. Muito obrigado.

Povo e palavras aplaudiram delirantemente, subiram ao palco improvisado, que cedeu com o peso deles, mas lá se arranjaram para carregar o detetive por uns cinquenta metros, ocasião em que lhe afanaram a carteira, duas canetas e os cartões de visita que ele pretendia distribuir no fim da sua palestra.

 

Resposta:

Etimologia

Palavras: deputado , vereador , voto

Gostaria de saber a origem e o significado das palavras VEREADOR, DEPUTADO, ELEIÇÃO e VOTO.

Resposta:

1) De “verear”, derivado de “vereda”, do Latim VEREDUS, “cavalo de posta”. Este animal, usado para o serviço de entrega de correio, acabou dando o seu nome ao caminho que percorria. Havia uma função pública que implicava em cuidar das veredas junto a uma cidade, donde o “vereador”.

2) Do L. DEPUTARE, “encarregar, colocar em ofício, considerar como”, formado por DE-, “fora”, mais PUTARE, “pensar, considerar, contar”.

3) Veja na Lista de Palavras.

4) Do L. VOTUS, particípio passado de VOVERE, “prometer solenemente, dedicar, jurar”.

Já o significado corre por conta do dicionário.

Vazio

O impoluto detetive das palavras, X-8, está se dirigindo ao Bar do Garcia, em frente ao Edifício Éden, onde tem seu escritório de atendimento etimológico.

De vez em quando ele entra numa espécie de surto, diz que morrer todos vão mesmo e pergunta qual é a vantagem de deixar esta vida completamente são; nessas ocasiões,  ele se dedica a pecar contra o seu corpo através do consumo de alguma comida do Garcia.

Atravessa bravamente o lixo que se acumula nas calçadas desta parte olvidada da cidade e adentra o recinto do bar.

É um bar estritamente familiar. Tudo ali é familiar para X-8: o balcão revestido com azulejos que provavelmente haviam sido brancos em épocas pré-históricas, o dono com sua gordura, barba por fazer e jeito silenciosamente mal-encarado, a sujeira das moscas decorando as paredes (havia quem se dedicasse a ler o futuro naqueles aglomerados de manchinhas), os vidros com a poeira grudada na gordura, a empoeirada grinalda plástica de Feliz Natal que fica sobre a porta o ano inteiro.

Ele senta e pede um bauru.

Regala-se ao sentir o cheiro que emana do enorme prato quando este é colocado à sua frente, esparramando bacon para todos os lados. Começa a consumi-lo lentamente, saboreando, sabendo que em poucas horas estará arrependido e jurando nunca mais cair em tentação.

Depois de ter introjetado toda aquela insalubridade, vê-se obrigado a esperar um pouco para poder recobrar o uso das pernas.

É quando vê uma palavra olhando-o fixamente de uma mesa vizinha; Logo percebe que ela está querendo uma consulta. Pensa em atendê-la, assim pagando o bauru com sobra e aproveitando o tempo em que a difícil digestão o mantém inutilizado.

Faz um gesto amável com a luva de couro lambuzada de gordura (ele não a tira em público) e a palavra passa para a sua mesa, confirmando que gostaria de saber a sua origem e que andou guardando o dinheiro para isso, mas não queria incomodar e…

– Sem problemas. Minha vida é fazer sacrifícios pelas palavras, nossas constantes companheiras de toda hora, e… quanto você tem aí no bolso?

Hum, é meio pouco mas hoje estou me sentindo generoso. Passe para cá e ouça.

Você é a palavra Vazio. Deriva do Latim vacivus, “desocupado, vago, desprovido, sem nada”, relacionado ao verbo vacare, “não ter dono, estar isento de algo, estar sem ocupação”.

Outra palavra que vem desse verbo latino é vácuo, “o que não contém nada”.

E falando em “não conter nada”, outro derivado é vaidade, uma qualidade que se firma habitualmente sobre alicerces de fumaça, sem consistência.

Veja só a sabedoria que presidia a invenção das palavras!

Em termos de “vazio”, entre seus parentes contamos com viúvo, do Latim viduus, “solitário, abandonado, vazio”, que é como se sente uma pessoa que foi acompanhada por outra por muito tempo e a perdeu.

O ato de tornar vazio, esvaziar, é um derivado óbvio. O mesmo acontece com vazado, nome dado a certas peças de construção que apresentam espaços ocos.

E um vazamento é algo que saiu e deixou o conteúdo inicial diminuído. Pode ser de uma caixa d’água, de um conjunto de informações, etc.

Em Francês, “vazio” se diz vide; em Italiano, vuoto. Sei que esta última dá vontade de chamar a atenção para o resultado de nossos votos nos políticos que nos representam, mas é melhor não entrarmos nessa área.

Já que você pergunta, voto é do Latim votus, particípio passado de vovere, “prometer solenemente, garantir, jurar”.

Enfim, é o que lhe posso dizer sobre suas origens, considerando o que você pagou.

Falando nisso, acabo de pagar nosso bom amigo Garcia, que nos olha desconfiado ali atrás do balcão, e se você não se incomodar, gostaria de pedir sua ajuda para cruzar a rua e subir até meu escritório, pois sinto-me sem forças para transportar meu abdome, que está apresentando um peso fora do habitual.

Sim? Grato, muito grato.

Resposta:

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