Palavra campesino

VILA BATATA

 

Uma pequena reunião de casas ao redor de uma praça. Esta é ampla, empoeirada e desprovida de bancos, arbustos, canteiros e vias de passeio. Em compensação, admite peladas simultâneas de futebol.

Ouve-se um ruído vindo do céu. Por vez primeira, este lugar sonolento vê aproximar-se um helicóptero. Pessoas e palavras indolentes que circulavam por ali se reúnem e ficam olhando, espantadas, enquanto a libélula mecânica faz uma elegante curva, paira sobre o meio do espaço aberto e pousa.

Dez minutos depois, a poeira que ela levantou permite que os circunstantes consigam ver a descida de uma pessoa do veículo aéreo.

É um sujeito baixinho, que usa uma gabardine cor-de-areia e um chapéu marrom de aba curta, bem enterrado na cabeça, de modo que não se tem idéia de como seja o seu rosto. Não dá nem mesmo para saber se ele tem um rosto.

Ela arqueja e bufa, puxando atrás de si um caixote de madeira bastante resistente. Arrasta-o para o centro da praça.

Sobe nele, com certo trabalho, fica de pé, sacode a poeira que aderiu à sua estranha vestimenta e olha ao redor.

Faz um gesto amplo com as mãos que usam luvas de fina camurça e abre o verbo:

– Queridas palavras e cidadãos de modo geral, aproximem-se. Permitam que me apresente. Sou X-8, o detetive etimológico que serve às palavras e aos estudiosos. Meu trabalho é descobrir de onde vieram as palavras, qual a história de cada uma, de modo a permitir que elas se integrem melhor ao idioma.

As “palavras e cidadãos de modo geral” se colocam à frente do improvisado palanque, todos muito desconfiados.

Prossegue o orador:

– Moro num bairro da periferia de nossa cidade, onde sou um renomado intelectual. Há muito tempo eu ouvia por lá falar em Vila Batata, que seria a contrapartida rural de nosso bairro. Mas não sabia se ela existia ou se era apenas lenda urbana.

Depois de muitos depoimentos de testemunhas e pesquisa em antigos papiros, descobri onde fica esta progressista vila. Embarquei em meu helicóptero e vim parar aqui, com o intuito de lhes trazer as vantagens do conhecimento da origem das palavras. Sim, podem me considerar um missionário da Etimologia, um Leif Ericsson, um Colombo, um Livingstone.

Sem maior perda de tempo, vou-lhes dizer que o belo nome de sua pujante localidade vem do Latim villa, “casa de campo, casa grande, quinta”, e do Taino, idioma do Caribe, batata mesmo. Se bem que inicialmente ela designava a batata-doce, que foi a primeira a ser conhecida na Europa. Mais tarde o nome se estendeu às outras batatas.

A vocação deste região é visivelmente agrícola, pois não há aqui estabelecimentos de comércio além daquele barzinho minúsulo ali na esquina, e muito menos os pavilhões de grandes indústrias. Nem pequenas, aliás.

Sendo assim, posso desde já informar que agrícola vem do Latim ager, “campo”, mais colligere, “apanhar, reunir, colher um vegetal”, formado por com-, “junto”, mais legere, propriamente “colher, apanhar”. Claro, já que as colheitas são no campo, não nas ruas.

Outra derivada de ager é agreste, “rústico, não-cultivado, do campo”.

Tendo falado em campo, digo que esta vem do Latim campus, “área aberta”, especialmente “espaço aberto para exercícios militares” aparentemente do Indo-Europeu kamp-, “dobrar”. Ainda nesse idioma não-atestado, kampos- quereria dizer “canto de terreno ou pequena baía arredondada”.

Campesino, “habitante do campo” também vem daí, bem como campestre, “relativo ao campo”.

Como isto aqui constitui um subúrbio rural, cabe aprender que a origem desta é o Latim sub, “sob, abaixo, próximo”, mais urbs, “cidade”. Ou seja, é uma região que não tem as características de cidade mas é próxima a ela.

E rural vem do Latim ruralis, “relativo ao campo”, de rus, “campo, terra para agricultura”.

Olhando para as colinas, que me parece que poderiam ser mais cultivadas, acho tudo muito bucólico, palavrinha que nos vem de Roma, de bucolicus, do Grego boukolikos, “rústico, pastoral”, de boukolos, “pastor”, de bous, “boi”, mais kolos, “ato de cuidar”.

Quiçá, se o pessoal aqui fosse mais disposto, houvesse mais árvores para dar alguma sombra para quem discursa no meio desta praça. Esta veio do Latim arbor, que tinha o significado de “árvore”.

Caso houvesse interesse em cultivar, as pessoas por aqui o fariam sabendo que esta vem do Latim cultura, “ato de plantar e desenvolver plantas, atividades agrícolas”, de colere, “cuidar de plantas”. Mais tarde desenvolveu-se o sentido de “cultivar a mente, os conhecimentos, a educação”. Não é bonito?

Nesse caso, veríamos por aqui, em vez poeira e pedras, plantações. Esta vem do Latim plantare, “enterrar, empurrar contra o chão com o pé”, de planta, “sola do pé”. Esta depois passou a significar, ainda em Latim, “broto, rebento, enxerto” e mais tarde “vegetais fixos no solo”.

A essas alturas, os habitantes de Vila Batata, que não se distinguiam exatamente pela paciência e delicadeza para com estranhos, estavam extremamente incomodados com as palavras de X-8, que davam a ideia de que eles ali eram folgados demais e não gostavam de trabalhar.

Bem, isso eles sabiam que eram mesmo, mas não gostavam que desconhecidos viessem lembrar-lhes essa falha de caráter.

Resolveram deixar inequívoco o seu desagrado. Voltaram-se para o helicóptero ali pousado e num instante rasgaram os seus estofados, arrancaram o painel de instrumentos, torceram as pás do rotor maior, retiraram as do menor, furaram as mangueiras… Para isso eles tinham uma boa capacidade.

Do seu pódio, X-8 berrava:

– Parem com isso! Desse jeito como é que vou voltar? Eu ainda nem disse as origens das palavras preguiça, moleza, relaxamento e tantas outras! Nem mesmo comecei a fazer a cobrança pelos meus serviços!

Então aquela pequena multidão se voltou para ele e foi se aproximando, olhares fixos, má intenção ressumando por todos os poros, ameaçadora, definitiva.

Quando eles derrubaram o caixote com ele em cima, X-8 ainda pensou “Engraçado, não me lembrava de ter um helicóptero” antes de perder os sentidos.

 

Acordou suando,  aos gritos na cama e jurou que ia mandar consertar o seu ventilador de cabeceira no dia seguinte.

Resposta:

Lida Com O Campo

Hoje o bravo detetive etimológico, aquele profissional certificado por si mesmo, aquele que faz tudo pelas suas palavras clientes contanto que elas paguem, está esperando uma palavra que marcou com antecipação sua consulta.

Estas são suas ocasiões preferidas: assim ele tem tempo de fazer uma boa pesquisa e impressionar a consulente, parecendo que sabe tudinho de cor. Se elas quiserem por escrito, vão ter que pagar mais, lógico.

Ela está à sua frente, desconfiada, mas logo se rende à conversa segura do detetive enfronhado numa enorme gabardine, com um chapéu que impede a visão do seu rosto.

– Muito bem, Campo. Você é uma palavra de grande antiguidade, com numerosas aplicações em diversos idiomas.

Seu início se calcula ser o Indo-Europeu kamp-, “dobrar”. Ainda nesse idioma não-atestado, kampos quereria dizer “canto de terreno ou pequena baía arredondada”.

Foi no Latim que uma descendente das anteriores começou sua prolífica carreira. Neste idioma, primeiro se dizia campus para “área cercada”, mesmo que fosse por obstáculos naturais, como bosques ou colinas.

Mais adiante, campus passou a designar uma área plana, adequada para plantio. Por extensão, passou a designar os hábitos e modo de viver de pessoas que se dedicavam à agricultura e à criação, em oposição aos que viviam na urbs, na cidade.

Apesar das cenas bucólicas que você traz ao pensamento, há termos militares que são seus derivados.

Por exemplo, campeão. Antes de ser “o vencedor” numa disputa qualquer, essa palavra designava o guerreiro que lutava no campo, em lugar aberto e exposto, não um bandido que atacava à traição nos bosques.

Uma campanha militar recebeu esse nome porque os enfrentamentos entre exércitos costumavam ser feitos em campo aberto. E acho que eles tinham razão; como se não bastasse os soldados enfrentarem outros que os queriam matar, ainda iam lutar em terreno irregular, subindo e descendo morros?

Até há poucos séculos, os exércitos europeus passavam o inverno aquartelados e iam fazer suas campanhas no verão, que lutar no frio não estava com nada.

Aliás, em épocas muito mais antigas há mais de 2000 anos, os exércitos na região da Babilônia, antes de se defrontarem, chegavam ao extremo de aplanar o chão entre eles previamente à batalha.

Do Latim campania nos veio também a campanha com o significado de “terreno aberto, planície”.

Uma missa campal é uma cerimônia feita em lugar aberto, fora da igreja.

E daí também, por estranho que pareça, campanário, “torre de sinos numa igreja”. Em nosso idioma usamos pouco a palavra campana para “sino”, mas ela resiste nos dicionários. Em Espanhol ela é amplamente usada.

Para designar esse instrumento que se usa para conclamar os fiéis à missa, a palavra veio do Latim vasa campana, “”vasos de bronze feitos na região da Campania”, que recebeu esse nome justamente por ser plana.

Antes que me esqueça, devo registrar que campainha é um diminutivo em pleno uso de campana.

E campânula é uma palavra que designa um objeto de forma de sino. Pode ser de vidro, como uma manga de lampião, ou pode designar a forma de um tipo de flor, por exemplo.

Naturalmente que acampar, “estabelecer-se temporariamente fora de prédios” vem de campo. E campesino, “habitante do campo”, também.

Em certos lugares do país, se usa a palavra campear para “procurar”. Esse sentido se origina da busca de animais desgarrados no campo.

Em outros pontos, designa-se uma jaqueta curta como campeira, pois se trata de uma jaqueta, abrigo curto para o tórax, peça de roupa que não prejudica o ato de montar para percorrer o campo.

Outro uso pacífico de campus é para designar a área de uma universidade; isso começou em Princeton, em 1774.

Entre as palavras estrangeiras suas parentas que estão estabelecidas entre nós, temos champagne, o vinho espumante bem conhecido, feito na região da França que atende por esse nome.

Também nesse caso está o conhecido champignon, derivado do Latim campaniolus, o que indicava ser ele colhido nos campos.

E, entre usos beligerantes e outros, essa é a sua história, prezada cliente.

Não se esqueça de passar às suas amigas desejosas de saber suas origens o meu cartãozinho; até logo.

Resposta:

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