Palavra champagne

Lida Com O Campo

Hoje o bravo detetive etimológico, aquele profissional certificado por si mesmo, aquele que faz tudo pelas suas palavras clientes contanto que elas paguem, está esperando uma palavra que marcou com antecipação sua consulta.

Estas são suas ocasiões preferidas: assim ele tem tempo de fazer uma boa pesquisa e impressionar a consulente, parecendo que sabe tudinho de cor. Se elas quiserem por escrito, vão ter que pagar mais, lógico.

Ela está à sua frente, desconfiada, mas logo se rende à conversa segura do detetive enfronhado numa enorme gabardine, com um chapéu que impede a visão do seu rosto.

– Muito bem, Campo. Você é uma palavra de grande antiguidade, com numerosas aplicações em diversos idiomas.

Seu início se calcula ser o Indo-Europeu kamp-, “dobrar”. Ainda nesse idioma não-atestado, kampos quereria dizer “canto de terreno ou pequena baía arredondada”.

Foi no Latim que uma descendente das anteriores começou sua prolífica carreira. Neste idioma, primeiro se dizia campus para “área cercada”, mesmo que fosse por obstáculos naturais, como bosques ou colinas.

Mais adiante, campus passou a designar uma área plana, adequada para plantio. Por extensão, passou a designar os hábitos e modo de viver de pessoas que se dedicavam à agricultura e à criação, em oposição aos que viviam na urbs, na cidade.

Apesar das cenas bucólicas que você traz ao pensamento, há termos militares que são seus derivados.

Por exemplo, campeão. Antes de ser “o vencedor” numa disputa qualquer, essa palavra designava o guerreiro que lutava no campo, em lugar aberto e exposto, não um bandido que atacava à traição nos bosques.

Uma campanha militar recebeu esse nome porque os enfrentamentos entre exércitos costumavam ser feitos em campo aberto. E acho que eles tinham razão; como se não bastasse os soldados enfrentarem outros que os queriam matar, ainda iam lutar em terreno irregular, subindo e descendo morros?

Até há poucos séculos, os exércitos europeus passavam o inverno aquartelados e iam fazer suas campanhas no verão, que lutar no frio não estava com nada.

Aliás, em épocas muito mais antigas há mais de 2000 anos, os exércitos na região da Babilônia, antes de se defrontarem, chegavam ao extremo de aplanar o chão entre eles previamente à batalha.

Do Latim campania nos veio também a campanha com o significado de “terreno aberto, planície”.

Uma missa campal é uma cerimônia feita em lugar aberto, fora da igreja.

E daí também, por estranho que pareça, campanário, “torre de sinos numa igreja”. Em nosso idioma usamos pouco a palavra campana para “sino”, mas ela resiste nos dicionários. Em Espanhol ela é amplamente usada.

Para designar esse instrumento que se usa para conclamar os fiéis à missa, a palavra veio do Latim vasa campana, “”vasos de bronze feitos na região da Campania”, que recebeu esse nome justamente por ser plana.

Antes que me esqueça, devo registrar que campainha é um diminutivo em pleno uso de campana.

E campânula é uma palavra que designa um objeto de forma de sino. Pode ser de vidro, como uma manga de lampião, ou pode designar a forma de um tipo de flor, por exemplo.

Naturalmente que acampar, “estabelecer-se temporariamente fora de prédios” vem de campo. E campesino, “habitante do campo”, também.

Em certos lugares do país, se usa a palavra campear para “procurar”. Esse sentido se origina da busca de animais desgarrados no campo.

Em outros pontos, designa-se uma jaqueta curta como campeira, pois se trata de uma jaqueta, abrigo curto para o tórax, peça de roupa que não prejudica o ato de montar para percorrer o campo.

Outro uso pacífico de campus é para designar a área de uma universidade; isso começou em Princeton, em 1774.

Entre as palavras estrangeiras suas parentas que estão estabelecidas entre nós, temos champagne, o vinho espumante bem conhecido, feito na região da França que atende por esse nome.

Também nesse caso está o conhecido champignon, derivado do Latim campaniolus, o que indicava ser ele colhido nos campos.

E, entre usos beligerantes e outros, essa é a sua história, prezada cliente.

Não se esqueça de passar às suas amigas desejosas de saber suas origens o meu cartãozinho; até logo.

Resposta:

Bebidas: Vinho

As bebidas alcoólicas desde muito cedo acompanharam o homem, graças à facilidade com que frutas e grãos fermentam e produzem álcool etílico, o mesmo que etanol.

Dentro do corpo humano, os metabólitos desta substância causam diversos efeitos, que podem variar desde uma leve euforia até o coma, passando pelas fases de chatice, porquice e até violência.

Foi criado um número imenso de bebidas alcoólicas, com diversas variantes. Vamos esquadrinhar algumas palavras relacionadas.

ETANOL – iniciando pela Química… Essa palavra foi cunhada em 1873, a partir do Grego AITHER, “o ar das camadas superiores da atmosfera”, derivado do verbo AITHEIN, “queimar, brilhar”, de uma raiz Indo-Européia aidh-, “queimar”.

O “éter” era visto como uma forma mais pura de ar que, segundo a antiga Cosmologia, preenchia o espaço para além da Lua.

Esse nome foi dado a uma determinada substância química em 1757, pela sua leveza, cor clara e volatilidade. Mais de um século depois seria descoberto que ela tem qualidades anestésicas.

VINIL – mas ainda a Química? O que tem o material dos discos antigos com o vinho?

– Muito. O nome desse tipo de plástico, criado em 1939, é um encurtamento de polivinil, pois é constituído por numerosas moléculas chamadas radicais vinila.

Esta molécula foi descoberta em 1863, como um derivado do etileno. E este se obtinha através do álcool etílico, que faz parte do vinho. Talvez o profissional que fez esta cadeia de raciocínio estivesse entusiasmado por algumas taças de bebida no momento de escolher o nome.

ÚVULA – agora, um pouco de Anatomia; esta parte do corpo, bem lá no fim da boca, no andar de cima, recebeu o seu nome porque pela forma lembra uma pequena uva, uvula em Latim, de uva, o fruto da videira.

LIBAÇÃO – desde o Século 12, significa “verter vinho em honra a um deus”. Vem do Latim libatio, “oferta de bebida”, do Indo-Europeu leib-, “derramar, pingar”. Hoje o sentido é mais aproximado de “líquido derramado na goela para embebedar”.

Os bebedores de cachaça que gostam das tradições ainda vertem umas gotas “para o santo”, antes de virar o copo no bucho.

VINHO – deste há muito que falar. É uma das mais antigas bebidas alcoólicas existentes. Em Grego se chamava oinos, palavra que deu origem a enologia (“estudo do vinho”) e seus derivados.

E oinos se associa ao mito de Oineus, “Eneu”, rei de Cálidon, na antiga Grécia.

Diz-se que um pastor chamado Estáfilo percebeu que alguns dos bodes que ele guardava apresentavam uma especial afeição por mastigar os frutos de uma determinada planta até então desconhecida.

Por algum motivo estranho, em vez de as comer, ele espremeu as frutinhas e as misturou com água do rio. Deve ter esperado algum tempo, que permitiu a fermentação, pois quando bebeu ficou tão faceiro quanto os bodes.

Após se recuperar do que deve ter sido o primeiro porre do mundo, ele foi contar ao seu rei sobre aquele estranho achado. O rei, vaidoso, colocou o seu próprio nome na bebida e hoje temos uma pujante indústria resultante da atenção de um pastor aos seus bodes.

Note-se que o nome do pastor quer dizer “cacho”, numa referência à apresentação dos frutos. Essa palavra também foi usada para designar um tipo de bactéria redonda que cresce aglomerada em cachos e que às vezes nos dá muito trabalho, o Estafilococo.

Em Latim, o nome da bebida era vinum. Tanto esta palavra como a grega vêm do Indo-Europeu win-o-, com o mesmo significado.

Na Idade Média, os bons frades costumavam dizer que Vinum bonum Dei donum, “o vinho bom é um presente de Deus”. Espertos, eles.

VINHA – não é a mulher do vinho, não. É a plantação de onde se extrai a uva, que os romanos chamavam de vinea.

VINTAGE – é uma palavra inglesa que está registrada em alguns dicionários nossos. Naquele idioma está atestada desde 1450, com o sentido de “colheita de uma vinha”, do Latim vindemia, formado por vinum mais demere. E esta palavra vem de de-, “fora”, mais emere, “tirar”.

Em 1746 passou a significar “ano em que foi feito um vinho”. Em linguagem geral, agora significa “algo antigo e bom”, “um clássico”.

CHAMPAGNE – vinho espumante criado em 1664. O nome vem da região em que ele era feito, a Champagne, antiga província do noroeste da França, cujo nome significava “campo aberto”. Vem do Latim campus, originalmente “espaço aberto para exercícios militares”.

VINHO DO PORTO – esse vinho adocicado e forte, criado em 1691, recebeu tal nome porque era embarcado na cidade do Porto, em Portugal. Em Espanhol ele é chamado vino de Oporto, tendo-se julgado que “O Porto” fosse uma palavra só.

CLARETE – é um tipo que parece andar em desfavor entre os conhecedores. Seu nome vem da expressão francesa vin claret, “vinho claro”, do Latim clarus, “claro, brilhante”.

ROSÉ – é da expressão francesa vin rosé, “vinho cor-de-rosa”, de 1897.

SHERRY – é o mesmo que Xerez. Vem do Espanhol vino de Xerez (hoje Jerez), cidade próxima a Cádiz, onde ele era feito, e cujo nome é uma corruptela de Urbs Caesaris, “cidade de César”. O nome em Inglês se definiu numa época em que o “X” castelhano ainda soava como “SH”.

CONHAQUE – é o vinho produzido em Cognac, uma comuna do Departamento de Charente, no oeste da França.

Foi criado no Século 16. Diz-se que ele foi inventado por comerciantes ingleses e holandeses que resolveram fazer uma dupla destilação para evaporar boa parte do volume, o que permitiria levar uma quantidade maior por barril. Chegada a mercadoria ao destino, o volume seria reposto com etanol.

Mas, logo no começo, alguém resolveu provar aquele líquido escuro e gostou. Daí ele passou a ser vendido como era, sem adição de mais nada.

Os povos de língua inglesa chamam esta bebida de brandy. Este nome vem de brandywine, que deriva de brandewijn, “vinho queimado” em Holandês, devido à dupla destilação.

VINAGRE – isto atualmente não é bebida. Mas já foi, e de qualquer maneira é uma palavra que deriva de vinho. Da expressão latina vinum acetum, “vinho azedo”, veio a expressão francesa vin aigre, idem. E daí se passou ao nosso vinagre.

Os romanos usavam o vinagre diluído em água, que chamavam posca, como bebida. A passagem do Novo Testamento que diz que Cristo crucificado foi torturado ao receber vinagre para beber mais provavelmente corresponde a um soldado romano penalizado, oferecendo ao agonizante um pouco da sua própria bebida.

MOSTARDA – não, não vou dizer que esta é uma bebida. Mas o tempero era feito com uma pasta dos grãos da mostarda, uma planta crucífera, misturada a vinho recém-feito. O nome deste era musteum, “vinho novo” em Latim, de mustus, “fresco, novo”.

Portanto, o nome desse tempero indispensável ao cachorro-quente é intimamente relacionado ao vinho em sua origem.

GRAPA – é uma espécie de conhaque feito com resíduos de vinho, criada em 1893. Seu nome vem do Italiano grappa, “uva”. Aquele refrigerante que surgiu no Brasil na década de 50, a Grapette, deriva o seu nome de grape, “uva” em Inglês.

E grappa vem do Frâncico krappon, “gancho”. Originalmente, era o gancho usado para pegar uvas, passando depois o nome às frutas apanhadas com ele.

A grapefruit é uma fruta cítrica que recebeu esse nome porque cresce aglomerada, lembrando cachos.

GOURMET – por incrível que pareça, esta palavra também tem
algo a ver com vinho. Formou-se em 1820 do Francês arcaico grommes (com influência de gourmand, “guloso”), “criados de mercadores de vinho”, de origem incerta. Seja como for, parece que eles eram chegados a uma boa alimentação.

Resposta:

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