Palavra clava

HINO NACIONAL BRASILEIRO

Bem, crianças, está na hora de se prepararem para cantar o Hino Nacional Brasileiro. Como todos os setembros, professores e pais vão ser submetidos a essa apresentação.

Mas agora a Tia Odete aqui vai patrocinar uma diferença: vou falar sobre a origem e o significado de certas palavras da letra do hino que não são compreendidas nem pelos marmanjos, que dirá pelas crianças do Maternal, que os Céus as tenham e que eu pare de ter pesadelos com elas todos os dias.

O Hino é muito bonito, o problema são as vozes de meus inesquecíveis aluninhos. Existe uma lei de 22 de setembro de 2009 que determinou que o hino nacional brasileiro deve ser cantado em todas as escolas do país. De acordo com ela, ao menos uma vez por semana todos os alunos do ensino fundamental devem cantá-lo.

Mas eu é que não vou lembrar isso à nossa direção.

Então, para começar, temos:

 

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas…

 

Esta é uma das diversas inversões sintáticas que encontramos. É o mesmo que As margens plácidas do Ipiranga ouviram… Agora pode nos soar estranho, mas é perfeitamente correto e antes as pessoas estavam mais acostumadas a esse recurso, que permitia fazer poesias onde as palavras e sua acentuação se encaixassem na forma exigida.

Sim, Ledinha? Ah, posso explicar de onde vem plácida, sim; é do Latim placidus, “calmo, tranquilo”, palavra parente de placere, “agradar”. Ou seja, as margens do riacho Ipiranga estariam tranquilas no momento descrito na letra.

 

De um povo heroico o brado retumbante…

 

Esta última palavra… pois não, Faustinho? Não, não tem nada a ver com tumba. Ela tem uma origem onomatopaica, ou seja, lembra um ruído forte, como o de um trovão.

 

E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pátria nesse instante…  

 

Este fúlgido quer dizer “brilhante, resplandecente”, do Latim fulgidus, de fulgere, “brilhar, emitir luz forte”.

 

Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte,em teu seio, ó Liberdade,desafia o nosso peito a própria morte…

 

Não, Aninha, está certo assim mesmo. É penhor e não senhor. Essa palavra vem do Latim pignus, “garantia, hipoteca, penhor”, provavelmente relacionado a pangere, “fazer um tratado”. Ou seja, mostrando que somos fortes obtivemos a garantia de sermos iguais.

 

Ó Pátria amada, idolatrada, salve! Salve…

 

Idolatrada vem do Latim medieval idolatria, “adoração de uma imagem”, de idololatria…

Parem de gritar! Eu falei certo, era idololatria mesmo, do Grego eidololatria, formada por eidolon, “imagem”, mais latreia, “serviço, adoração”. Ela acabou perdendo uma sílaba, mas começou a vida assim.

 

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido, de amor e de esperança à terra desce, se em teu formoso céu, risonho e límpido, a imagem do Cruzeiro resplandece…

Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza. Terra adorada entre outras mil és tu, Brasil, ó Pátria amada…

 

Não, meninada, nada a ver com pavê, aquela torta que as mães de vocês fazem para os aniversários e que bem que poderiam enviar um pouco para esta pobre professora.

Este impávido vem do Latim in, “não”, mais pavidus, “medroso, temeroso”, de pavor, “medo”. E colosso vem do Latim colossus, do Grego kolossós, “estátua, imagem”, que passou a representar mais tarde “estátua de grande tamanho”.

 

Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil…

 

Acho que aqui não há nada que exija muita Etimologia.

 

Deitado eternamente em berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo, fulguras, ó Brasil, florão da América, iluminado ao sol do Novo Mundo…

Muito bem, já explico que florão significa “ornamento, ornato”, ou seja, algo que embeleza, e vem do Italiano fiorone, aumentativo de fiore, do Latim flos, “flor”.

E fulguras é do verbo fulgurar, “brilhar”, que veio daquele fulgere que citamos há pouco.

 

Do que a terra mais garrida, teus risonhos, lindos campos têm mais flores, “nossos bosques têm mais vida”, “nossa vida” no teu seio “mais amores”…

 

Pois garrida quer dizer “alegre, gracioso” e vem do Latim garrire, “piar alegremente, chilrear”.

As palavras entre aspas estão assim porque foram retiradas de um poema chamado “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias.

 

Brasil, de amor eterno seja símbolo o lábaro que ostentas estrelado, e diga o verde-louro dessa flâmula – paz no futuro e glória no passado…

 

Não é bárbaro, Patty, é lábaro e tem o significado de “bandeira”. Vem do Latim labarus, o nome usado para certos estandartes militares.

E não, Laryzinha, verde-louro nada tem a ver com um papagaio. Tem o significado de verde e amarelo, as cores que mais se destacam na bandeira. Aqui estão usando louro como metáfora.

Essa árvore se chamava laurus em Latim. A comparação de cor foi feita a partir das suas folhas quando secas, momento em que elas adquirem uma coloração acastanhada-clara. Não lá muito loura, mas naquela época em que muitas definições eram imprecisas quebrava o galho.

Não, Leonorzinha, devo dizer que não se trata de uma homenagem aos seus cabelos, isso foi composto vários anos antes do seu nascimento.

 

Mas se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme quem te adora a própria morte…

 

Clava vem do Latim clava, “maça, porrete”. Quem me dera ter uma à mão quando certos alunos estão muito inquietos.

Bem, o que falta é repetição, já passamos por esse trecho.

Hoje achei que vocês estão excepcionalmente comportados. Agora vão ao pátio exercitar as gargantas, que eu preciso dar um descanso para a minha.

 

Resposta:

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