Palavra destruir

X-8 Ajuda uma Palavrinha

X-8, facilmente reconhecível pela enorme gabardine e pelo chapéu desabado sobre o rosto que usava para não ser facilmente reconhecido, estava caminhando pelas ruas sujas e nada românticas do seu bairro, aquele cuja existência a Prefeitura negava a pés juntos e afirmava não passar de lenda urbana e intriga da oposição.

O detetive tinha acabado de comer no Bar do Garcia um hamburger com bacon, queijo torradinho, alface do dia anterior, tomate da semana anterior e outros materiais suspeitos e indefiníveis, mas que paradoxalmente resultavam num sabor incomparável.

Ele se dava a tal luxo apenas uma vez por mês, cheio de culpas. E não contaria esse deslize ao seu médico nem sob tortura.

Mas, enfim, cabeça culpada, paladar satisfeito, barriga cheia, ia ele andando devagar pelas ruas escuras, chutando pedrinhas, para ajudar uma digestão que invariavelmente se mostrava difícil, quando ouviu uma gritaria de vozes infantis num beco próximo.

A curiosidade o levou a olhar e lhe mostrou um grupo de palavras crianças rodeando uma outra e zombando dela, com gritos de “Esquisita!”, “Prá que que serve?”, “Boba!” e outras coisas pouco edificantes.

Ele olhou para a palavrinha chorosa que estava no centro do círculo e viu que era -stru-. Bem assim, com um tracinho antes e outro depois. Num instante percebeu o que estava acontecendo e se aproximou do grupo.

Ao perceberem um adulto por perto, todas se calaram e o olharam, desconfiadas.

O detetive se acomodou sobre um caixote que estava por ali e estendeu os braços para -stru-, que estava com lágrimas escorrendo pelas faces.

– Venha cá, sente-se aqui no meu colo – disse ele – e vocês outras cheguem até aqui que eu tenho umas coisas para contar. Vocês estão rindo dela aqui porque ela tem esses tracinhos estranhos, eu sei.

Uma das outras, zombaria, disse:

– É que ela é muito esquisita, olha aí!

– Ela apenas é diferente. E sabem por que? Ela é o que se chama interpositivo.

– Isso pega? – disse outra palavrinha, deboche.

– Nada disso. Apenas quer dizer que ela é inserida entre outras partes de palavras para formar uma nova.

Vejam só: eu conheço a antepassada que começou a história dela, nos tempos de Roma.

– Roma? – as demais palavras se aproximaram mais, fascinadas e já olhando -stru- com alguma inveja. Tudo que é palavra se interessa pelas origens, suas e das outras.

O detetive viu que suas aulas de Psicologia Infantil das Palavras tinham rendido; aquelas estavam no papo.

– Sim. Essa antepassada é o verbo struere, que queria dizer “amontoar, empilhar, reunir, criar, erguer”. Tirando-se dela a parte que corresponde à nossa amiguinha aqui e juntando-se outros conjuntos de letras, podemos montar uma porção de palavras diferentes, como se fosse um joguinho de armar.

As palavrinhas, a essa altura, estavam sentadas no chão ao redor de X-8. A que estava no seu colo já estava com os olhos secos, apenas fungando de vez em quando.

– Vejam, por exemplo, estrutura, que se usa para denominar um conjunto de coisas, materiais ou não, fortemente relacionadas entre si; é feita a partir de -stru-.

Se se colocar na frente desta o prefixo in-, “em”, teremos instrução, pois a noção de “empilhar” aqui se refere ao acúmulo de conhecimentos.

Mas se o prefixo for ob-, “à frente de”, teremos obstrução, porque aí se pensou em “empilhar objetos na frente de alguma coisa”, o que costuma implicar em dificuldades de trânsito por ali.

Se quisermos radicalizar, usamos o prefixo des-, que implica em “oposição, afastamento”, e fazemos a palavra destruir, ou seja, acabar com tudo o que outros um dia laboriosamente empilharam.

Mas, se a gente quiser agregar mais do que estragar, colocamos na frente cons-, e aí construímos coisas, seja um prédio, seja uma nova filosofia, seja a felicidade própria ou alheia.

As palavrinhas estavam quietas; uma delas, encabuladamente fez um gesto para -stru-, que saiu do colo de X-8 e foi para o meio delas.

– E o senhor pode falar sobre algumas de nós? – perguntou zombaria.

– Sim. Você, por exemplo, não tem origem muito certa; parece que você veio do Espanhol zumbar, “fazer zumbido como uma abelha”, de origem onomatopaica – ou seja, imitativa de um ruído.

E você aí, deboche, vem do Francês débaucher, que vem de ébaucher, “tirar os galhos de uma árvore”, também com o sentido de “fender, separar”, e com o atual de “afastar do seu trabalho”.

E muito mais falaria o nobre detetive defensor das palavras e das palavrinhas, não fosse o súbito enjôo que o acometeu, acompanhado de mal-estar geral e distensão abdominal, conseqüências certas da sua indulgência com alimentos saborosos mas suspeitos.

Ele disse ao grupo que o Serviço Secreto das Palavras precisava dele com urgência e saiu às carreiras, apressando-se para chegar logo ao seu apartamento e amaldiçoando sua fraqueza de caráter para se alimentar.

Resposta:

Destruição

Por vezes, catástrofes naturais acabam com uma cidade ou com um bairro. Outras vezes, é uma guerra ou um acidente evitável que leva embora vidas valiosas. Pode acontecer também que a política ou a economia de um país o levem a uma situação de perdas e sofrimento.

A destruição tem muitas causas, e a linguagem humana é rica em palavras para a expressar.

DESTRUIR – vem do Latim destruere, “romper, demolir”. Ao pé da letra, esse verbo queria dizer o que está tão na moda hoje, que é “desconstruir”. Formou-se de de-, “para trás, abaixo”, mais struere, “construir, empilhar”.

Os filmes americanos tanto mostram um tipo de navio de guerra chamado destroyer que nós acabamos acreditando que a nossa Marinha tem vários deles.

Não tem nenhum. Tem é “contratorpedeiros”, que é o nome técnico da belonave.

A palavra destroyer vem do nome usado na Marinha americana, que era, primitivamente, torpedo boat destroyer, com o mesmo significado do que nossa Marinha usa.

Eram navios feitos para responder aos ataques dos torpedo boats, “torpedeiros”, barcos pequenos e velozes com capacidade de lançar torpedos. Um dos primeiros navios feitos para combater os torpedeiros foi batizado Destroyer, em 1882, o que firmou o nome desta categoria.

DEPREDAR – há desavisados que acreditam que esta palavra tem relação com uma multidão enfurecida atirando pedras em algum lugar.

Nada disso; ela vem do Latim depraedare, “destruir, devastar, despojar”, verbo formado por de-, no sentido de “botar abaixo”, e praedare, “roubar, destruir”, de praeda, “botim, presa”.

Um derivado de praeda é “predador”.

EMPASTELAR – hoje é uma palavra pouco usada, mas houve época em nosso país em que desordeiros, muitas vezes sob um olho complacente das autoridades, empastelavam uma redação de jornal, isto é, a destruíam.

Tal palavra veio da própria linguagem dos profissionais gráficos, que a usavam para dizer que houve mistura dos tipos de composição.

Vem do Latim pasta, “massa”, no sentido de serem misturados e amassados diversos ingredientes, resultando algo muito diferente dos componentes iniciais.

ARREBENTAR – do Latim repens, “súbito, inesperado, repentino”. O que arrebenta (ou o que rebenta; é a mesma coisa) sempre o faz de modo rápido. Daí também os nossos “repentistas”, cantores que têm uma capacidade espantosa de criar versos em poucos segundos a partir de um dado tema.

ESTRAGO – vem do Latim strages, “amontoado, destruição, escombros, ruína”.

Quando comentamos que uma fruta está estragada, não imaginamos que essa palavra vem de um significado tão radical. Tampouco o imagina o rapaz que diz que “essa moça fez estragos no meu coração”.

MUTILAR – do Latim mutilare, “cortar fora”, de mutilus, “aleijado”. Talvez esta palavra tenha a mesma raiz do Grego mytilos, “sem chifre, corneta”.

Em Roma, os escravos tinham a cabeça raspada e, por isso eram chamados de mutilus. Como muitas vezes eles levavam às costas um saco de tecido para poderem carregar as encomendas dos amos, estes sacos levaram o nome deles e acabaram resultando na nossa palavra “mochila”.

DIZIMAR – já houve quem escrevesse que “o grupo foi totalmente dizimado, não sobrando um só”. Essa frase indica um desconhecimento atroz ou de Português ou de Matemática. Tal palavra vem do Latim decimare, “destruir ou matar um em cada dez”, de decem, “dez”.

Esse era um castigo que muitas vezes se aplicava a uma cidade ou exército que entrassem em rebelião: fazia-se um sorteio e um décimo das pessoas sofria as penas.

DILAPIDAR – do Latim dilapidare, “arruinar, destruir, estragar a pedradas”, de dis-, “em pedaços”, mais lapidare, “atirar pedras”, de lapis, “pedra”.

Deste último verbo se formou um outro, mais pacífico, lapidar, que significa “trabalhar ou gravar a pedra”, coisa para especialistas.

Em geral, dilapidar se usa para descrever bens desperdiçados por quem não sabe mantê-los, tal como um herdeiro mal-preparado.

DEMOLIR – deriva do verbo latino demoliri, formado por de-, “abaixo”, mais moliri, “construir”. Esta palavra, por sua vez, veio de moles, “grande estrutura”.

Em Português existe a palavra “mole” com este sentido, mas o leitor comum quase nunca a vê. “A mole imensa do rochedo pendia sobre ele”… é coisa que se vê só em algum escrito do século 19.

A palavra “mole” no sentido de “macio, não rígido” vem do Latim mollis. Por convergência de forma, acabamos tendo palavras idênticas para expressar significados absolutamente diferentes.

EXTERMINAR – em Latim, exterminare queria dizer “expulsar, levar para fora”. Tal palavra se originou na expressão ex termine, “além dos limites”, de termen, “fim, limite, fronteira”.

Como uma pessoa expulsa do seu cargo ou lugar muitas vezes corria um risco, tal palavra também queria dizer “destruição”, e com esse significado foi que chegou até os nossos dias.

ANIQUILAR – de uma palavra latina, annihilare, que queria dizer “reduzir a nada”, formada por ad-, “a, para”, e nihil, “nada”.

Dessa fonte se gerou também “nihilismo”, inicialmente “doutrina da negação quanto à religião ou à moral”, depois se aplicando à Filosofia e Política.

ICONOCLASTA – do Grego ikonoklastés, “destruidor de imagens”, de eikon, “imagem, aspecto”, mais klastés, “aquele que quebra”.

Originalmente se aplicava, nos séculos 8 e 9, àqueles que se rebelavam contra a adoração de imagens, na Igreja do Oriente. Atualmente denomina as pessoas que desejariam destruir organizações e instituições.

ANARQUIA – do Grego anarkhia, “sem chefe, sem líder”, formado por an-, “sem” e arkhos, “líder”.

Hoje é sinônimo de “baderna, bagunça, confusão”. Mas a idéia inicial era a de um Estado onde as pessoas pudessem agir sem controles ou tutela de alguma forma de autoridade. Um Estado assim, obviamente, só poderia ser composto de pessoas de altíssimo nível moral e de conduta.

Uma utopia, portanto.

VANDALISMO – do Latim Vandalus, nome dado à tribo germânica que saqueou Roma em 455, sob a chefia de Genserico. O nome que eles haviam atribuído a si mesmos era Wandal, “errante”. O nome da tribo foi associado a depredações sem sentido pela maneira como eles trataram os monumentos da cidade. A eles é atribuída a generalizada falta de narizes das belas estátuas que lá estavam.

BÁRBARO – para os Gregos, barbaros era “estrangeiro, estranho, ignorante”; a rigor, “aqueles que não falavam Grego”. Essa palavra deriva de uma onomatopéia, pois eles diziam que os estrangeiros falavam de modo incompreensível, como “bar-bar”.

Assim, eram considerados “bárbaros” todos aqueles não pertencentes à nação grega e, depois, romana. Hoje a palavra se aplica a condutas desregradas e pouco sociais.

SABOTAGEM – vem da palavra francesa saboter, “caminhar ruidosamente”, de sabot, “calçado com sola de madeira, tamanco”.

Usada desde 1910 com o sentido de “estragar deliberadamente material alheio”, teve origem em situações de disputas trabalhistas na Europa. No entanto, não há confirmação para a explicação popular de que os operários jogavam seus calçados nas máquinas para estragá-las.

O uso da palavra se prende basicamente à metáfora de “agir desajeitadamente” como é o caso de quem tem que caminhar com tamancos volumosos e pesados.

EXTINÇÃO – muitas espécies animais, vegetais e mesmo linguagens estão atua
lmente sob esta ameaça. Essa palavra vem do Latim extinguere, “destruir, apagar, fazer desaparecer”, de ex-, “fora”, mais stinguere, “derrotar, destruir”. A origem mais remota é o Indo-Europeu steig, “furar, espetar”.

Resposta:

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