Palavra embrulho

Pejota e o Som

Palavras: barulho , embrulho , musa , música , rádio , ruído , som

O bravo detetive, impoluta e discreta figura com uma gabardine enorme e chapéu desabado que lhe oculta a face implacável, está nas ruas de seu bairro, o pior de toda a cidade e quiçá do mundo, correndo gravíssimo perigo.

Ele está à cata de um perigoso terrorista, contrabandista de armas nucleares, traficante de drogas, assassino contumaz e ladrão de doces de criancinhas, cujos capangas se espalham por todo lugar.

Disfarçadamente, ele chega perto do esconderijo onde sabe que se encontra o bem-equipado quartel-general do todo-poderoso fora-da-lei e seus mal-intencionados paus-mandados.

Sua mão desliza de modo discreto para os grandes bolsos da gabardine, grandes o suficiente para levar uma Uzi 9mm com supressor de ruído e diversos carregadores, bem como um kit de limpeza de armas, com escovinhas, paninhos, óleo lubrificante e até um saco de pipocas doces.

Bem, na verdade, ele não está atrás de um bandido; resolveu comer um cachorro-quente na barraca nova que abriu há pouco perto do Edifício Éden, onde ele tem seu endereço profissional.

Exercer a fantasia é sempre criativo, e X-8 cultiva esse tipo de atividade.

Sua mão entrou no seu bolso apenas para pegar o dinheiro para um Auauzão, nome comercial de algo enorme que mal é contido por um grande pão fofo, com molho escorrendo por todos os lados, boa parte do qual acaba invariavelmente se acomodando na detetivesca gabardine.

X-8 simplesmente não consegue resistir a comidas desse tipo, mesmo sabendo que tal vício pode lhe custar a vida algum dia.

Ao dar a primeira mordida, o detetive percebe que ao seu lado está Paulo Geraldo, Pejota para os amigos, o semiadolescente com QI negativo que é genro do Garcia da Pizzaria do Porco.

Pejota é seu grande admirador, desde que descobriu que o detetive tem mais de um livro e que, ademais, já os leu.

Hoje Pejota olha para ele e diz:

Som .

– Hum, Pejota, você quer saber a origem dessa palavra? Ela vem do Latim sonus , “som, ruído”, de uma base Indo-Européia swen –, “ruído”.

O que lembra que temos também barulho , que estranhamente veio de embrulho, pela sua acepção de “confusão, engano, falta de nitidez”, do Latim involucrum , “material para enrolar alguma coisa”. Estranho, não é? Mas é assim mesmo, Pejota – X-8 se sentia meio exuberante; o rapaz tinha o inefável dom de, por comparação, ressaltar a inteligência de todos os que lhe estavam próximos.

Podemos falar também na palavra ruído , que veio do Latim rugitus , “barulho forte, estrondo”, do verbo rugire, aquilo que o leão fazia quando via um cristão gordinho sobrando na arena dos circos romanos.

Em oposição a esses significados, temos, por exemplo, música , derivada do Latim musica, do Grego mousike tekhne, “arte das musas”, pois ela era considerada a manifestação por excelência dessas divindades protetoras das artes.

Mais remotamente, Musa vem do Indo-Europeu men-, “pensar, lembrar”, coisa que todos têm que fazer quando praticam uma arte. Não é bonita a Etimologia?

Seu interlocutor, com o costumeiro olhar de vácuo mental de sempre, naturalmente nem sabia do que falava o detetive.

Quando este teve que parar de falar um pouco para tentar remediar a insistente tendência em entrar mangas adentro que o molho do cachorro-quente apresentava, Pejota falou:

– Comprei um som. Ó! – e mostrou um radinho de pilha com fones de ouvido.

– Ah. – disse o detetive, sacudindo ervilhas e queijo ralado ao seu redor; bem lhe tinha parecido que Pejota estava intelectual demais naquele dia.

– Enfim, para não desperdiçar os arquivos que abri em meu poderoso cérebro, acrescentarei que rádio vem do Latim radium, “vareta, vara de uma roda, raio de luz”, talvez relacionado com a raiz de radix “raiz”, o que é incerto ainda, embora os trabalhos de Tucker na área sugiram que…

Sua voz murchou ao ver que Pejota tinha colocado os fones nos ouvidos, embora o radinho tivesse sido ligado tão alto que eles não fossem necessários, e que se afastava sacudindo-se ao som de alguma coisa inominável.

Voltou a lutar com seu problemático alimento, resmungando algo contra os adolescentes de hoje em dia.

Resposta:

Ajuda Mais Uma Palavrinha

X-8 estava bastante mudado ultimamente. Ele percebia que não ficava mais tanto tempo em seu escritório, que não se dedicava mais tanto a ganhar dinheiro ajudando as palavras que desejavam saber das suas origens.

Seria porque já havia ganho bastante? Por causa da idade mesmo? Mudanças internas por algum motivo desconhecido? Seja pelo que fosse, hoje ele havia encerrado mais cedo sua atividade no escritório detetivesco e tinha saído a passear pelo bairro.

Por mais que fosse o pior bairro do mundo, aquele aspecto dele à noite sempre fascinava a alma artística do detetive: o contraste entre a luz clara da lua (parecia ser sempre lua cheia e dramática ali) e as sombras cruas lançadas pelas paredes e postes sobre o chão, os volumes assim delineados, o movimento de palavras e pessoas duvidosas pelas calçadas… Tudo isso mexia estranhamente com ele, que andava devaneando com fazer um curso de desenho para registrar aquelas imagens.

Lá se deslocava ele, em sua gabardine folgada e seu chapéu desabado, que serviam para ele não ser reconhecido – pelo menos era o que ele pensava – quando percebeu que estava sendo seguido.

Rapidamente tratou de fazer uma das sutis e desconcertantes manobras evasivas que aprendera na Academia: saiu correndo desabaladamente para a frente, até parar num beco, completamente fora das vistas do perseguidor.

Novamente: pelo menos era o que ele pensava, pois sentiu um cutucão nas costas e se deu por entregue. O misterioso assaltante era mais esperto e rápido do que ele. Virou-se, pronto para entregar os seus trocados bravamente, sem reclamar, mas parou ao ver que era uma palavrinha quem estava ali.

– O… o que você quer? – disse ele, tentando não demonstrar como havia ficado confortado.

– Eu sou uma pequena palavra pobre que quer saber o seu lugar na vida, disse vol-, que assim se chamava a interlocutora do detetive.

X-8, para não dar a impressão errada de que se assustara com a palavra, se dispôs, com loquaz alívio, a contar tudo o que lhe vinha à cabeça sobre a etimologia daquela pequena.

Puxou uma lente do bolso e a examinou com atenção.

Foi rápido, pois não havia muito a olhar.

– Muito bem, vol-, você é uma partícula antepositiva, ou seja, é usada para começar palavras. Você descende de uma fonte Indo-Européia wel-, “rolar, rodar, fazer movimentos giratórios”.

E você tem uso em numerosas palavras no nosso idioma e em outros ocidentais. Quer ver?

Para começar, em Latim se formou, graças a você, o verbo volvere, “rolar, fazer girar”. E dele saíram, por exemplo, volumen, que quer dizer “ato de fazer rodar” e que acabou se aplicando aos livros da época de Roma antiga, aqueles que eram de papiro e a gente precisava fazer girar na mão para ler.

Como, no caso de um livro ser grande, ele ocupava mais espaço, a palavra volume acabou sendo aplicada a objetos que ocupam muito espaço. O mesmo aconteceu com a intensidade do som: às vezes a gente tem que pedir ao vizinho que baixe o volume do aparelho de som novo que ele deseja exibir para a quadra inteira.

De volvere veio a palavra voluta, do Latim volutus, “revirado, encurvado”, que se aplica a decorações e aos meneios da fumaça do cigarro numa história de detetive.

Esse volutus passou a volvita, no Latim tardio, de onde acabou saindo nossa conhecida abóbada. Com “A”, viu? Nada de dizer abóboda.

Saindo um pouco do Latim, temos que vol- gerou, no Grego, hélix, “movimento giratório, espiral”. Daí que você faz parte das hélices e helicópteros que andam zumbindo em nossos céus. E, voltando ao Latim, temos volubilis, “aquilo que gira com facilidade”, que virou o atual volúvel, qualidade que caracteriza uma pessoa que muda de idéia e de desejos com facilidade, que nem catavento.

Do verbo involvere, “rolar sobre”, saiu o nosso envolver, do qual inclusive derivou embrulho.

Naturalmente, colocando-se o prefixo negativo des– antes de envolver, temos desenvolver, que descreve um ato de “desenrolar, permitir a saída ou aparecimento de algo que estava tolhido”.

E, se colocarmos o prefixo intensificativo re– antes, temos o nosso conhecido revólver, que se chama assim porque tem um tambor que gira.

– Puxa, seu detetive, tudo isso?

– Isso e muito mais, minha cara, disse o bondoso e aliviado profissional – mas vamos fazer o seguinte: você estuda, cresce, ganha um dinheirinho e depois faz uma consulta comigo ali no Edifício Éden, que pagando meus emolumentos você ficará sabendo muito mais sobre a sua importância. Certo? Agora o Tio X-8 aqui precisa olhar a paisagem deste nosso lindo bairro.

E se afastou, passando um lenço na testa para secar o suor do susto que havia levado.

Resposta:

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