Palavra ruído

RUÍDO

Muito bem, terminou o recreio. Entrem todos e sentem-se em seus lugarzinhos que hoje temos um assunto etimológico de muita base na realidade.

Eu estava escutando os assustadores sons que vocês há pouco produziam no pátio e aproveitei para elaborar um ofício à direção solicitando proteção de ouvidos para quem está por perto nessa hora, a fim de evitar perdas auditivas, como está contemplado na legislação de nosso país.

Ainda está por ser feito um estudo para descobrir como é que o aparelho fonador de vocês, em conjunto com esses seus pulmões, pode gerar tamanho volume de som.

Aproveitando que vocês devem estar com as gargantas ardendo de tanto gritar, começo a dar o étimo de, por exemplo, gritar, que vem do Latim quiritare, “gritar, pedir por socorro”. Coisa que muitas vezes a pobre Tia Odete aqui tem vontade de fazer em plena aula.

Ruído vem do Latim rugitus, o mesmo que o rugido dos animais ferozes, com os quais devo dizer que meus aluninhos apresentam uma extraordinária semelhança.

rumor vem do Latim rumor, “barulho, ruído”, mas também “conversa, boato, fofoca”. Ali a nossa Valzinha já é uma campeã disso, imaginem só quando for grandinha.

Não entendo o que você falou, Valzinha, pode repetir? Não, não! Não queremos saber nada sobre os rumores que correm no seu condomínio sobre a prima do Síndico e a Subsíndica, isso não é assunto que interesse a gente de uma aulinha família como esta.

E passemos rapidamente para a origem de barulho, que uns dizem que veio de “embrulho”, apesar de ser difícil entender a relação, e que outros autores dizem vir de “marulho”, o ruído do mar, hipótese mais razoável.

Já que não há certeza, quando vocês forem grandes etimologistas, respondam “origem incerta” a esta pergunta e não se comprometam.

Por sua parte, estrépito vem do Latim strepitus, “grande ruído”, de strepere, “fazer barulho”. Parece que eles estavam bem acostumados com isso, pois tinham uma porção de palavras derivadas que não deixaram descendentes entre nós.

Por exemplo, adstrepere, “fazer ruído do lado”, circumstrepere, “fazer ruído ao redor”, instrepere, “ressoar em”, substrepere, “murmurar”,  perstrepere, “ressoar fortemente”.

Eu poderia lançar um movimento para reinstituir essas palavrinhas antigas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, já que vocês aqui usam abundantemente os seus conceitos.

Tumulto, que se usa para “motim, levante, rebelião”, tem também o significado de “barulho, alvoroço”.

Deriva do Latim tumultus, de mesmo significado, e que era inicialmente usado para qualificar o estado de guerra resultante de um ataque súbito.

Há quem diga que existe uma relação com o verbo timere, “temer”, mas isso não foi confirmado.

Realmente, quando meus queridos aluninhos entram em tumulto, a sensação é de que uma tribo inteira de bárbaros se lança ao ataque sem quartel.

E já que falei há pouco em alvoroço, explico que essa palavra vem do Árabe al-buruz, “sair dando gritos de alegria para receber alguém”.

No caso aqui da Tia Odete, eu dou gritos de alegria quando certos alguéns se afastam de mim, mas esqueçam.

Estrondo, outra coisa que vocês produzem a torto e a direito, vem do Latim extonitrus, “grande barulho”, formado por ex-, “fora”, mais tonitrus, “trovão”.

Liga-se a tono, “atroar, ribombar”. Uma das apresentações de Júpiter era o Júpiter Tonante, “o que ribomba, que ressoa como um trovão”.

Bem que eu gostaria de poder lançar raios que nem ele sobre aqueles que me incomodam. Ah, aqueles tempos antigos eram maravilhosos!

Vejam que tono é uma palavra onomatopaica; ela foi feita imitando o som profundo de um trovão e…

Parem já de dizer tono com voz grossa em uníssono! Não tem graça!

Aliás, levem esse trovão para casa com vocês, que graças aos deuses do Olimpo nossa aula terminou e vocês poderão presentear seus pais com um pouco do que aprenderam aqui hoje.

Até amanhã!

Resposta:

Pejota e o Som

Palavras: barulho , embrulho , musa , música , rádio , ruído , som

O bravo detetive, impoluta e discreta figura com uma gabardine enorme e chapéu desabado que lhe oculta a face implacável, está nas ruas de seu bairro, o pior de toda a cidade e quiçá do mundo, correndo gravíssimo perigo.

Ele está à cata de um perigoso terrorista, contrabandista de armas nucleares, traficante de drogas, assassino contumaz e ladrão de doces de criancinhas, cujos capangas se espalham por todo lugar.

Disfarçadamente, ele chega perto do esconderijo onde sabe que se encontra o bem-equipado quartel-general do todo-poderoso fora-da-lei e seus mal-intencionados paus-mandados.

Sua mão desliza de modo discreto para os grandes bolsos da gabardine, grandes o suficiente para levar uma Uzi 9mm com supressor de ruído e diversos carregadores, bem como um kit de limpeza de armas, com escovinhas, paninhos, óleo lubrificante e até um saco de pipocas doces.

Bem, na verdade, ele não está atrás de um bandido; resolveu comer um cachorro-quente na barraca nova que abriu há pouco perto do Edifício Éden, onde ele tem seu endereço profissional.

Exercer a fantasia é sempre criativo, e X-8 cultiva esse tipo de atividade.

Sua mão entrou no seu bolso apenas para pegar o dinheiro para um Auauzão, nome comercial de algo enorme que mal é contido por um grande pão fofo, com molho escorrendo por todos os lados, boa parte do qual acaba invariavelmente se acomodando na detetivesca gabardine.

X-8 simplesmente não consegue resistir a comidas desse tipo, mesmo sabendo que tal vício pode lhe custar a vida algum dia.

Ao dar a primeira mordida, o detetive percebe que ao seu lado está Paulo Geraldo, Pejota para os amigos, o semiadolescente com QI negativo que é genro do Garcia da Pizzaria do Porco.

Pejota é seu grande admirador, desde que descobriu que o detetive tem mais de um livro e que, ademais, já os leu.

Hoje Pejota olha para ele e diz:

Som .

– Hum, Pejota, você quer saber a origem dessa palavra? Ela vem do Latim sonus , “som, ruído”, de uma base Indo-Européia swen –, “ruído”.

O que lembra que temos também barulho , que estranhamente veio de embrulho, pela sua acepção de “confusão, engano, falta de nitidez”, do Latim involucrum , “material para enrolar alguma coisa”. Estranho, não é? Mas é assim mesmo, Pejota – X-8 se sentia meio exuberante; o rapaz tinha o inefável dom de, por comparação, ressaltar a inteligência de todos os que lhe estavam próximos.

Podemos falar também na palavra ruído , que veio do Latim rugitus , “barulho forte, estrondo”, do verbo rugire, aquilo que o leão fazia quando via um cristão gordinho sobrando na arena dos circos romanos.

Em oposição a esses significados, temos, por exemplo, música , derivada do Latim musica, do Grego mousike tekhne, “arte das musas”, pois ela era considerada a manifestação por excelência dessas divindades protetoras das artes.

Mais remotamente, Musa vem do Indo-Europeu men-, “pensar, lembrar”, coisa que todos têm que fazer quando praticam uma arte. Não é bonita a Etimologia?

Seu interlocutor, com o costumeiro olhar de vácuo mental de sempre, naturalmente nem sabia do que falava o detetive.

Quando este teve que parar de falar um pouco para tentar remediar a insistente tendência em entrar mangas adentro que o molho do cachorro-quente apresentava, Pejota falou:

– Comprei um som. Ó! – e mostrou um radinho de pilha com fones de ouvido.

– Ah. – disse o detetive, sacudindo ervilhas e queijo ralado ao seu redor; bem lhe tinha parecido que Pejota estava intelectual demais naquele dia.

– Enfim, para não desperdiçar os arquivos que abri em meu poderoso cérebro, acrescentarei que rádio vem do Latim radium, “vareta, vara de uma roda, raio de luz”, talvez relacionado com a raiz de radix “raiz”, o que é incerto ainda, embora os trabalhos de Tucker na área sugiram que…

Sua voz murchou ao ver que Pejota tinha colocado os fones nos ouvidos, embora o radinho tivesse sido ligado tão alto que eles não fossem necessários, e que se afastava sacudindo-se ao som de alguma coisa inominável.

Voltou a lutar com seu problemático alimento, resmungando algo contra os adolescentes de hoje em dia.

Resposta:

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!