Palavra musa

MUSEU

 

Crianças, antes que vocês comecem a trocar os habituais golpes uns nos outros, a Tia Odete aqui vai lhes projetar umas imagens bem bonitas.

Trata-se de umas fotos sobre um passeio a um museu, que eu fiz quando ainda era viva.

Esta palavra vem do Latim museum, “biblioteca, lugar de estudo”, do Grego mouseion, “altar para as Musas”. Mais tarde seu sentido mudou para abranger um local onde são guardados exemplos de Artes e História.

E Musa vem de mousa, literalmente “música, canção”, nome que foi dado a divindades protetoras e personificadoras das Artes, de uma raiz Indo-Europeia men-, “pensar, lembrar-se”, relacionada à palavra  mente.

O que está adequado, porque só quem tem uma mente que pensa se interessa por um museu.

Há gente que vai ao Exterior e não visita museus. Há quem nunca tenha colocado o pé num museu, nem mesmo nos de sua cidade.

Não ouvi bem, Valzinha, como é? Hum, sua mãe pegou seu pai falando ao telefone com uma moça que ele chamava de “minha musa” e o pau quebrou em casa? Ora, decerto foi um mal-entendido e ele estava era marcando uma visita ao um museu e explicando a origem da palavra.

Mas vamos falar noutras coisas… vejam aqui, que lindos e grandes quadros. Esta palavra vem do Latim quadrum, “o que tem quatro lados”, de quattuor, “quatro”.

Ao redor dele há uma preciosa moldura, olhem como é bem trabalhada. Sua origem é o Latim modulus, “medida, modelo”, de modus, “maneira, medida, modo”.

Não, Zorzinho, não acredito que os moços do museu deixariam você rabiscar nas margens do quadro, não. Quando for visitar um, aconselho-o a não tentar.

Os quadros são feitos através da pintura, que vem do Latim pingere, “pintar”. A raiz Indo-Europeia dessa palavra era pik-, “cortar”.  Que, aliás, deu origem a pigmento.

Calma, pessoal, já explico: é que o sentido dela deve ter variado de “decorar com sulcos” para “decorar com pintura, com cores”.

Muitos museus têm uma loja onde são vendidas reproduções de suas obras de mais fama. Esta palavra vem do Latim reproductio, “ato de dar forma novamente”, de re-, “outra vez”, mais producere, “produzir, tornar realidade”.

A inauguração de uma exposição de arte se chama vernissage. É uma parte importante da exposição; é quando vão os críticos para avaliar as obras, as famílias dos artistas para parecer que alguém se interessa pelo que ele fez, uma porção de gente para comer os salgadinhos e tomar as bebidinhas que são oferecidas.

E esse nome, que surgiu entre 1910e 1915, vem do Francês vernis, “verniz”. Isso porque, no dia antes de ser aberta a exposição, os pintores iam passar uma última camada protetora de verniz sobre as telas.

Se alguém aí perguntasse de onde vem a palavra “verniz” eu contaria que deriva do Grego berenike, nome de uma cidade na Líbia – a atual Bengazi – onde se diz que começou o uso dessa substância tão útil.

Mas além de pinturas, que apresentam uma imagem bidimensional, temos a escultura, que faz objetos nas três dimensões e vem do Latim sculpere, “desbastar, escavar”.

A próxima imagem mostra uma estátua de… Não, essa está sem roupa e o Joãozinho ali fica agitado… Esta, então – hum, também não dá! Deixem a Tia procurar uma coisa mais palatável.

Aqui está. Sei, é apenas uma cabeça, mas o escultor só queria mostrar mesmo isso.

Estátua vem do Latim statua, “imagem, figura em relevo”, literalmente “o que é colocado em algum lugar”, derivado de statuere, “instalar, colocar de pé”, de stare, “estar de pé, ficar”.

Existe uma palavra bem parecida que também vem daí: estatuto. De statuere, com o sentido de “estabelecer, definir através de lei” se fez em Latim statutum, “lei, decreto”, ligado a status, “situação, posição”.

Os museus costumam guardar muitas obras-primas… Hein? Como assim, primas de quem? De ninguém, crianças.

Mas esta expressão tem uma origem muito interessante. Na época medieval, as atividades artesanais como marcenaria, carpintaria, joalheria e outras formavam guildas com os seus profissionais. Esta palavra vem do Germânico arcaico gelth-, “pagamento”.

Já explico, parem de pular e perguntar! Vocês são impossíveis até quando prestam atenção.

Essas guildas eram sociedades de apoio mútuo, que pagavam os enterros dos sócios, providenciavam orações para os mortos, ajudavam as suas famílias, pagavam multas em caso de crimes justificados e muitas outras coisas.

 E daí? E daí que, quando um aprendiz queria passar à categoria de “mestre”, com direito a cobrar mais e ter alunos, ele se submetia a uma prova. Devia fazer sem qualquer auxílio uma das obras de seu ofício; ela era então avaliada por uma junta de profissionais e, se estivesse bem feita, o autor era promovido.

Esta era chamada a “obra-prima”, a “primeira obra” em excelentes condições daquela pessoa.

Em Inglês a expressão é masterwork, “obra de mestre”.  Ou seja, a obra que caracteriza o mestre.

Não, Mariazinha, eu não participei de guilda nenhuma. Elas já tinham terminado quando eu nasci, por incrível que  pareça.

E as associações de professores dão saudades das guildas antigas. No meu caso, a obra-prima seria controlar esta turma por uma aula inteira, ah, ah! Eu jamais sairia de aprendiz.

Bem, talvez com a aula de hoje eu ganhasse o título de mestra, pois todos ficaram razoavelmente quietos e não houve briga nenhuma.

Agora vão para casa e peçam a seus pais para fazerem uma visita ao museu.

Favor não me convidarem.

Resposta:

Pejota e o Som

Palavras: barulho , embrulho , musa , música , rádio , ruído , som

O bravo detetive, impoluta e discreta figura com uma gabardine enorme e chapéu desabado que lhe oculta a face implacável, está nas ruas de seu bairro, o pior de toda a cidade e quiçá do mundo, correndo gravíssimo perigo.

Ele está à cata de um perigoso terrorista, contrabandista de armas nucleares, traficante de drogas, assassino contumaz e ladrão de doces de criancinhas, cujos capangas se espalham por todo lugar.

Disfarçadamente, ele chega perto do esconderijo onde sabe que se encontra o bem-equipado quartel-general do todo-poderoso fora-da-lei e seus mal-intencionados paus-mandados.

Sua mão desliza de modo discreto para os grandes bolsos da gabardine, grandes o suficiente para levar uma Uzi 9mm com supressor de ruído e diversos carregadores, bem como um kit de limpeza de armas, com escovinhas, paninhos, óleo lubrificante e até um saco de pipocas doces.

Bem, na verdade, ele não está atrás de um bandido; resolveu comer um cachorro-quente na barraca nova que abriu há pouco perto do Edifício Éden, onde ele tem seu endereço profissional.

Exercer a fantasia é sempre criativo, e X-8 cultiva esse tipo de atividade.

Sua mão entrou no seu bolso apenas para pegar o dinheiro para um Auauzão, nome comercial de algo enorme que mal é contido por um grande pão fofo, com molho escorrendo por todos os lados, boa parte do qual acaba invariavelmente se acomodando na detetivesca gabardine.

X-8 simplesmente não consegue resistir a comidas desse tipo, mesmo sabendo que tal vício pode lhe custar a vida algum dia.

Ao dar a primeira mordida, o detetive percebe que ao seu lado está Paulo Geraldo, Pejota para os amigos, o semiadolescente com QI negativo que é genro do Garcia da Pizzaria do Porco.

Pejota é seu grande admirador, desde que descobriu que o detetive tem mais de um livro e que, ademais, já os leu.

Hoje Pejota olha para ele e diz:

Som .

– Hum, Pejota, você quer saber a origem dessa palavra? Ela vem do Latim sonus , “som, ruído”, de uma base Indo-Européia swen –, “ruído”.

O que lembra que temos também barulho , que estranhamente veio de embrulho, pela sua acepção de “confusão, engano, falta de nitidez”, do Latim involucrum , “material para enrolar alguma coisa”. Estranho, não é? Mas é assim mesmo, Pejota – X-8 se sentia meio exuberante; o rapaz tinha o inefável dom de, por comparação, ressaltar a inteligência de todos os que lhe estavam próximos.

Podemos falar também na palavra ruído , que veio do Latim rugitus , “barulho forte, estrondo”, do verbo rugire, aquilo que o leão fazia quando via um cristão gordinho sobrando na arena dos circos romanos.

Em oposição a esses significados, temos, por exemplo, música , derivada do Latim musica, do Grego mousike tekhne, “arte das musas”, pois ela era considerada a manifestação por excelência dessas divindades protetoras das artes.

Mais remotamente, Musa vem do Indo-Europeu men-, “pensar, lembrar”, coisa que todos têm que fazer quando praticam uma arte. Não é bonita a Etimologia?

Seu interlocutor, com o costumeiro olhar de vácuo mental de sempre, naturalmente nem sabia do que falava o detetive.

Quando este teve que parar de falar um pouco para tentar remediar a insistente tendência em entrar mangas adentro que o molho do cachorro-quente apresentava, Pejota falou:

– Comprei um som. Ó! – e mostrou um radinho de pilha com fones de ouvido.

– Ah. – disse o detetive, sacudindo ervilhas e queijo ralado ao seu redor; bem lhe tinha parecido que Pejota estava intelectual demais naquele dia.

– Enfim, para não desperdiçar os arquivos que abri em meu poderoso cérebro, acrescentarei que rádio vem do Latim radium, “vareta, vara de uma roda, raio de luz”, talvez relacionado com a raiz de radix “raiz”, o que é incerto ainda, embora os trabalhos de Tucker na área sugiram que…

Sua voz murchou ao ver que Pejota tinha colocado os fones nos ouvidos, embora o radinho tivesse sido ligado tão alto que eles não fossem necessários, e que se afastava sacudindo-se ao som de alguma coisa inominável.

Voltou a lutar com seu problemático alimento, resmungando algo contra os adolescentes de hoje em dia.

Resposta:

Mais Deuses Na Nossa Vida Diária

 

Na nossa terceira edição falamos da freqüência com que se usam os derivados de nomes das divindades greco-romanas em nosso idioma. Pois ainda há mais, e hoje vamos entrar novamente no assunto.

TITÂNICO – todos conhecem esta palavra, que hoje significa “gigantesco, enorme”. Os Titãs, Titanes em Grego, eram os seis filhos de Úrano e Géia, ou seja, o Céu e a Terra.

Eles receberam os nomes de Oceano, Ceos, Crio, Jápeto, Hiperíon e Crono, pelo lado masculino. Tiveram seis irmãs, Tétis, Febe, Réia, Mnemósine, Têmis e Téia, as Titânidas. Os deuses do Olimpo viriam a ser gerados por um dos Titãs, Crono.

Crono mutilou o seu pai, Úrano, e assumiu o comando do universo, juntamente com os seus irmãos. Devido à sua crueldade, no entanto, e após uma enorme confusão, Zeus, o filho mais novo de Crono, começou uma luta contra papai e titios ajudado pelos seus irmãos.

As tias não se meteram no assunto, decerto achando que isso era coisa de homens desocupados e cheios de hormônios. A luta foi longa e árdua, mas a turma da segunda geração divina venceu os Titãs e os lançou no Tártaro, abaixo da terra, onde eles ficaram.

Prevendo uma pergunta que vai surgir: sim, o nome do Titanic, o navio cujo naufrágio anda tão em moda há alguns anos, se origina daí: significava Titânico, “semelhante aos Titãs por seu tamanho ou força”.

SÁTIROS – também chamados Silenos, eram divindades da Natureza. No começo era um só, que depois foi transformado em vários à medida que eram feitos acréscimos ao mito. Andavam sempre em volta de Dioniso, festeando todo o tempo. Eram em geral representados como metade homem, metade bode (esta, a de baixo). Eram extremamente ligados ao sexo; daí às vezes algumas esposas se queixarem de que os maridos “são uns sátiros”, para inveja das amigas.

E a palavra Satírico? – “Ah, mas esta eu sei!”, dirão muitos. “Vem justamente dos Sátiros, essa turma aí de cima que andava tocando flauta atrás das ninfas e fazendo versinhos engraçados e indecentes”.

Pois não vem daí, não, por incrível que pareça. Vem de sátira, que era originalmente uma “mistura” poética. A expressão original que foi aplicada ao trabalho escrito era satyra lanx, um “prato completo”, certamente da noção de diversos alimentos juntos. Este satyra vem de sat, “bastante, suficiente”, que originou também “satisfazer” e “saturar”. Com o tempo, este gênero acabou passando a ser um texto visando a ridicularizar uma pessoa.

Vejam só como, em Etimologia, nem tudo o que parece é.

PRÍAPO – já que estamos falando nessa turma que se divertia tão livremente, tão sem superego… Este era uma divindade originária da Ásia. Era o protetor dos jardins, dos pomares e das parreiras. Por esta razão era freqüente colocar-se uma estátua dele à entrada das plantações.

Andava sempre em ereção. Como era de se esperar, meteu-se numa série de situações inconvenientes por causa disso.

Há uma doença, o priapismo, que é um estado de ereção continuada. E os engraçadinhos ou preguiçosos de plantão que não queiram sofrer disso, pois essa situação é dolorosa e não permite aproveitar nada.

FAUNO – situa-se na linha dos dois últimos deuses citados. Ele era protetor da fecundidade das mulheres, da terra e dos rebanhos. Era também uma divindade com dons proféticos, pois podia revelar o futuro através do farfalhar do vento nas folhas das árvores. Bastava saber ouvir.

Com o tempo, a religião também tornou múltipla esta divindade, atribuindo-lhe o papel de espíritos das florestas, identificados com os Sátiros na libidinagem .

Era uma época mais básica, aquela.

MUSA – é comum se ver, na imprensa, uma moça bonita e com pouca roupa citada como “a musa disso ou daquilo”.

Mas o que diabo é essa palavra com som estranho? Vem de mousa, em Grego. Elas eram nove divindades e nasceram por encomenda. Sim, foi porque os outros deuses pediram a Zeus que ele providenciasse alguém para cantar os feitos de todos na luta contra os Titãs.

Ele, muito bonzinho na hora de unir útil com agradável, as gerou com Mnemósine, a personificação da Memória.

Essa turma que fez a Mitologia da época era genial! Não admira que Freud tenha ido buscar ali as imagens que usou.

Portanto, as Musas eram as cantoras divinas que alegravam os imortais. Presidiam o pensamento sob diversas formas.

Já que se dedicavam à Poesia, à História, Astronomia, Matemática e outras matérias que exigem muito estudo, elas provavelmente não tinham tempo para malhar na academia, cuidar do bronzeado com ultravioleta, usar diversos shampoos nos cabelos longos, escolher túnicas de alta costura, etc. Ou seja, fica claro que elas não eram deusas da beleza feminina. Nada as impedia de serem bonitas, mas não é essa a idéia do seu mito.

Portanto, marmanjos, parem de babar automaticamente quando virem a palavra musa em alguma revista, que ela não vem sendo bem usada.

NARCISISMO – já que citamos Freud logo acima… Narciso, Nárkissos em Grego, era filho de um deus-rio e de uma ninfa. Ele era inacreditavelmente belo, a ponto de sua mãe se preocupar com os riscos decorrentes dessa formosura.

Por isso, ela foi consultar um adivinho sobre o futuro do menino. A resposta foi de que o jovem “poderia viver muito, se não se visse”. Mamãe acabou com todos os espelhos de casa e a vida seguiu.

Naturalmente que acabou surgindo um enorme bando de moças interessadas nele. Entre elas se destacava uma ninfa que o seguia aonde ele fosse. Mas ele não se interessava. Repelida com frieza por ele, a coitada parou de comer, definhou e acabou se transformando numa rocha, seca e sem vida.

As demais ninfas, movidas pelo espírito corporativo, solicitaram vingança a Nêmesis, a reparadora das injustiças. Esta, comovida com o sofrimento da ninfa, condenou o rapaz a “amar um amor impossível”. E o que ela resolvia se cumpria!

Pouco depois disso, ele foi beber numa fonte e viu, no espelho das águas, a imagem de uma pessoa tão bela que ele se apaixonou instantânea e irremediavelmente. Não saiu mais dali, olhando e fazendo apelos não respondidos. Acabou morrendo de amor insatisfeito.

Os deuses, que adoravam uma boa novela à mexicana, transformaram o seu corpo numa bela flor, o narciso.

Daí é que a palavra narcisismo, indicando um apreço exagerado pela própria pessoa, foi cunhada.

Todos nós conhecemos alguém que corre perigo ao se ver num espelho, mesmo que metafórico.

ECO – ah, não. Até aqui se manifesta a Mitologia antiga? Ah, sim, até aqui, na palavra que descreve um fenômeno tão banal.

Eco, em Grego Ekhó, era uma ninfa que um dia teve o azar de ver o rapaz mais belo do mundo e de se apaixonar loucamente por ele.

Ele era, isso mesmo, o Narciso de quem falamos no item anterior. Como dissemos, a ninfa acabou se transformando num rochedo, ressequida de amor não-correspondido. A única coisa que ela podia fazer era repetir o final das palavras que eram lançadas em sua direção.

Essa era a explicação dos antigos para o fenômeno da reflexão das ondas sonoras. E tem muito mais graça do que as leis da Física atuais.

NINFAS – tanto falamos nelas que é melhor explicar alguma coisa sobre esta palavra que evoca bosques, propósitos inconfessáveis, gritinhos e correrias em tardes de verão.

Na Mitologia grega, Nymphe eram divindades menores. Como tal, elas não habitavam o Olimpo, mas se espalhavam por florestas, cursos dágua, mares, vales, montanhas, árvores. Ligadas à terra e à água, eram símbolos da força criadora da natureza.

Elas não eram imortais, mas podiam viver dez mil anos. Não envelheciam, de modo que passavam longe do silicone e do botox.

Elas tinham o dom de profetizar, de nutrir e de curar. Mas podiam também ser maléficas, chegando a raptar mortais.

Especialmente perigoso para as pessoas é se aproximar de fontes e bosques ou de determinadas árvores ao meio-dia, quando elas estão com seus poderes no auge. Enxergar uma ninfa pode levar a um entusiasmo ninfoléptico que abale para sempre a razão do infeliz. Abra o olho! Depois não diga que não avisamos!

SATURNISMO – esta palavra é usada em Medicina. Significa “intoxicação por chumbo”, que pode ocorrer em certas atividades.

Seu nome deriva de Saturnus, a divindade romana identificada com o Crono dos gregos. Na Astrologia e Alquimia, ele era associado ao chumbo, daí a doença causada pelo chumbo ter recebido esse nome. Era mau sinal nascer sob esse planeta; sinal pior ainda é trabalhar com esse metal sem que sejam tomadas medidas de proteção.

BACO, DIONISO – o deus grego Diónyso tinha a sua contrapartida entre os romanos como Bacchus, nosso conhecido “Baco”. Note-se que Dionísio quer dizer “referente a Dioniso“, que era o nome verdadeiro deste deus.

Ele tinha um mito muito complexo; relacionava-se com a videira, o vinho, o teatro, o delírio místico, as orgias.

Os espertinhos da época, por ocasião da vindima, celebravam a festa do vinho novo, quando bebiam, cantavam e dançavam até à exaustão, tudo em homenagem ao tal deus. Os de hoje nem essa desculpa dão.

As festas em honra dele eram chamadas, em Roma, de Bacchanalia, hoje “bacanais”. Foram proibidas devido aos excessos nelas praticados pelo Senado Romano no ano 186, mas esse decreto até hoje não foi levado muito a sério.

ARGÚCIA – na Mitologia Grega havia diversos Argos: um era o cão de Ulisses, o único que o reconheceu ao voltar para casa após mais de vinte anos; outro foi foi um filho de Zeus com uma mortal, o introdutor da técnica do preparo da terra para as plantações; havia mais um que foi o construtor da nave dos Argonautas, a qual se chamou Argó, no feminino.

E havia um Argos que era um gigante, dizem que provido de cem olhos. Imaginem a quantidade de colírio que ele deveria gastar para tratar uma conjuntivite! E quando precisasse de óculos, então? Sua consulta com o oftalmologista devia levar uns três dias.

Ele era um sujeito muito forte e realizou diversas façanhas (pudera! Com esse tamanho, qualquer um!). Quando tinha que vigiar alguma coisa, ele podia dormir com cinqüenta olhos, que os outros davam conta da missão.

Daí que uma pessoa atilada, alerta, inteligente, possa ser comparada com o Argos da história, pois se mantém focada no assunto como se tivesse cem olhos.

MOMO – parece mentira, mas nosso simpático Rei Momo aparenta ter-se originado de uma divindade bem diferente do que ele agora representa.

Para início de conversa, Momo era do sexo feminino, filha da Noite (Nix) . Ela personificava o sarcasmo, e talvez esse aspecto de deboche tenha sido o início da transformação conceitual que essa entidade sofreu até passar a simbolizar as festas de Carnaval.

Mas Momo não era moleza, não. De certa feita, Zeus desejou aliviar a Mãe Terra do peso da humanidade sobre ela. Já estava planejando uma enchente enorme, um dilúvio que praticamente acabasse com a espécie, quando Momo deu uma sugestão: por meio de uniões feitas de propósito, nasceriam Aquiles, um herói grego responsável por muitas mortes, e Helena, que seria raptada por Páris e daria início à Guerra de Tróia.

A quantidade de mortos dessa guerra aliviou Gea, a Terra, mas não por muito tempo.

Será que neste momento Zeus não está urdindo um novo plano, com Momo ao lado?

GEOGRAFIA – e Geologia, Geomancia, Geocentrismo, Geodo, Geodésico, Geofagia, Geofísica, Geometria, Geopolítica, Geoquímica e dezenas de outras palavras.

Elas todas vêm de Gea, a Terra. Esta divindade surgiu após o Caos e gerou sozinha Úrano, o Céu, os Montes e Pontos, o Mar. Com a ajuda de seres do sexo masculino, gerou os Titãs, os deuses Olímpicos em sua maioria, bem como monstros quais as Harpias, Caribdes, Píton, Équidna e outros horrores.

Com o tempo e o refinamento dos mitos, ela se transformou na mãe dos deuses e de tudo o que habita nela.

Está na moda agora chamá-la de Gaia, mas as pronúncias originais eram “Géa” ou “Guê”.

CALCANHAR DE AQUILES – esta história, sim, é conhecida de todos: o herói grego que era vulnerável apenas no calcanhar, por onde a mãe o segurou para o imergir no sagrado rio Estige. Durante a Guerra de Tróia, Apolo impeliu a flecha de Páris para atingir justamente esta parte do corpo.

A expressão é usada para citar o ponto vulnerável de uma pessoa ou instituição que aparenta ser muito segura.

O que não é de conhecimento geral é que este foi um dos heróis de mito mais complexo. Na Ilíada, ele é citado quase trezentas vezes.

Ele era representado como um homem muito belo, dado às paixões tanto da violência quanto do amor. Em determinado momento, ele pôde escolher entre viver uma longa e humilde vida ou morrer muito jovem, mas com renome eterno. Ele escolheu esta possibilidade, foi para Tróia – e até hoje falamos nele.

Daí se vê que as escolhas maduras não costumam trazer fama. Portanto, exigem muita segurança.

Há uma história que o dá levado pela mãe, a Nereida Tétis, depois de morto, para a Ilha dos Bem-Aventurados, onde ele passa a eternidade se exercitando para a guerra e aproveitando os banquetes perfeitos do local, sem ressaca nem dor de cabeça.

ODISSÉIA – esta palavra originalmente se referiu à demorada viagem de outro herói grego da Guerra de Tróia, Ulisses para os latinos e Odysseus para os gregos.

Ele era um guerreiro que fazia da astúcia a sua arma principal. Foi ele que teve a idéia de fazer um grande cavalo de madeira levando guerreiros gregos no seu interior, que os troianos conduziriam para dentro das muralhas.

Nem por ser esperto ele deixava de ser corajoso e cruel, características comuns aos soldados de uma época em que o Tratado de Genebra estava ainda distante.

Contrariado por deuses adversos, que não lhe perdoavam o papel desempenhado na vitória dos gregos, Odisseu demorou dez anos para voltar à sua casa, em Ítaca.

É por isso que muitas vezes nos queixamos de termos cumprido “uma Odisséia” para conseguir alguma coisa que dê muito trabalho, implicando em muitas voltas e perda de tempo.

PLÊIADES – nos discursos de outrora, eram comuns as referências a “esta Plêiade” de artistas, militares, professores, atletas, etc. etc., querendo dizer que se tratava de um grupo muito destacado.

As Plêiades hoje são uma parte da constelação do Touro, visível no céu de verão. Representam uma mancha sobre o seu ombro esquerdo, formada por sete estrelas visíveis a olho nu. Por isso também é chamada, em alguns pontos do Brasil, de “Sete-Estrelo”.

Mas, na época antiga, elas eram as filhas do Gigante Atlas com Plêione.

Um belo dia, estavam passeando com a mãe pelos campos da Beócia, quando o caçador Órion as viu e se apaixonou por elas.

Ele era exagerado em tudo. Perseguiu-as implacavelmente por cinco anos, até que, cansadas, elas se metamorfosearam em pombas. Com pena delas, Zeus transformou as moças em estrelas.

As moças todas eram casadas com deuses, exceto uma delas, Mérope, que casou com um mortal de nome Sísifo. E que, por sinal, não prestava; era um tremendo mau-caráter. Envergonhada com isso, ela se transformou na estrela menos brilhante do grupo.

Como se vê, paixão é sinônimo de confusão de um modo ou
de outro.

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