Palavra expressão

Pressa

Aiaiai, que gritaria é essa? E estes pulos? E estas crianças indo de um lado para o outro, à toda? Houve algum ataque de demônios contra meus alunos? Não… Pensando bem, eles não se atreveriam a entrar aqui. Só gente burra como eu.

Por que estão todos correndo? Ah, estão com pressa para que a aula termine e possam voltar para casa e querem ver se uma correria ajuda? Bem, não deixam de exercer algum espírito científico…

Vamos nos sentar um pouco enquanto eu falo sobre umas palavras relacionadas com pressa.

Esta veio do Latim pressus, “apertado”, particípio passado de premere, “apertar, pressionar, incomodar, derrotar” e muitos outros significados ainda. Acho que os romanos estavam meio pão-duros quando atribuíram tantos significados a esta palavra.

O Sidneizinho está com pressa para ir ao banheiro porque está apertado? Está bem, meu filho, vá e pode demorar o quanto quiser.

Sim, Valzinha, muito bem, pressão é uma derivada em nosso idioma e… não, muito obrigado, não queremos realmente saber o que foi que a pressão dos gases fez no abdome da sua tia que estava operada dos intestinos e desembestou de tomar Fanta Uva. Isto é uma  aula, não um filme de terror.

Vamos para outra palavra: comprimir, que vem desse premere com o prefixo com-, para dar a idéia de “apertar em conjunto, conter, reprimir”.

E, se alguém empurra uma pessoa para baixo em seus sentimentos, a vítima se deprime, a partir agora do prefixo de-, no sentido de “para baixo”.

E fique quieto aí, Joãozinho, que eu estou vendo muito bem que está tratando de se aproximar sorrateiro das meninas para alguma malfeitoria. E não me venha com essa de que se trata da expressão de sua espontaneidade, que em minha época isso tinha outro nome.

Falando nisso, expressão usa o prefixo ex-, “fora”, para formar expressio, “fazer sair apertando, tirar de, extrair”. Metaforicamente se aplica a  fazer sair uma manifestação do pensamento, da mente de uma pessoa. Às vezes é difícil a gente conseguir extrair um pensamento que preste de certas pessoas!

Em Latim, imprimere era “apertar sobre, calcar, pesar, gravar, marcar”, com o prefixo in-, “em, sobre”.  Como a impressão dos livros começou a ser feita usando essa ação, temos aí onipresente, hoje em dia, a imprensa.

Mas até aqui lidamos com o que nos veio à cabeça das origens de pressa. Há sinônimos para esta palavra, como celeridade. Nunca ouviram falar, não é? É no que dá nunca terem lido os clássicos.

Ah, é verdade, Leonorzinha, que vocês ainda não aprenderam a ler, mas isso não é grande desculpa. E vamos à explicação da origem: ela vem do Latim celer, “rápido, apressado, veloz”, que também originou aceleração.

Pois é, qualquer coisa que passe pela gente muito rápido pode ser chamada de célere. Sim, Valzinha? Uma de suas vizinhas do edifício é célere lá  pelas coisas que joga no marido quando está irritada? Não, menina, você quis dizer célebre, que vem do Latim celebris, “afamado, numeroso, abundante, ilustre”. E eu estou falando num adjetivo que vem de celer, “rápido, veloz, expedito, apressado”.

Poderíamos também falar em rapidez, que vem do Latim rapidus, “veloz, apressado”, de rapere, “levar embora, saquear, apoderar-se”.

Sim, Zorzinho, muito bem, daí vem o nome de alguns dinossauros terminados por  –raptor, como o velociraptor.

Certo, Robertinho, o verbo raptar também.

Algo que vocês ignoram é que a palavra rapaz também derivou daí.

Por que? Olhem o comportamento dos adolescentes numa reunião qualquer e descobrirão.

E veloz? É do Latim velox, “rápido, veloz”, possivelmente relacionado ao verbo vehere, “levar, carregar”.

Sim, Ledinha, velocidade também vem daí. Como você está inteligente hoje!

Podemos também falar em movimento, que nem sempre é rápido: vejam o exemplo do Soneca ali, ressonando e quietinho como eu gostaria que o resto da aula estivesse.

Essa palavra vem do Latim movere, “deslocar, colocar em deslocamento”. Por exemplo, os móveis desta sala, como a minha mesa, se chamam assim  porque podem ser deslocados, tirados do lugar. Menos quando a Aninha e o Tiaconinho ali estão dançando em cima.

Ah, os dois nunca fizeram isso, é? Tá bom então.

E quando uma coisa, como um terreno, ou uma casa, não pode ser retirada do lugar, chama-se imóvel. Existem até classificados nos jornais oferecendo-os à venda.

Quando um carro é muito veloz, há quem o descreva como um bólido, que vem do Latim bolis, “meteoro”, do Grego bolís, “dardo, projétil”.

Outra palavra com este sentido geral é lesto, que quem tem bom vocabulário usa para dizer “rápido, desembaraçado, ágil”. Ela vem do Latim lestes, mas pouco mais se sabe sobre sua origem.

Lépido está no mesmo caso: vem do Latim lepidus, “jovial, espirituoso, rápido”. Um bom nome para um galgo, não acham?

Pronto, o tempo passou e vocês chegaram ao fim do período sem precisarem fazer correria. Não é melhor assim?

Agora a Tia Odete vai célere para casa, para ver se descansa um pouco. Até amanhã, se com a graça divina não acontecer uma boa calamidade que suspenda as aulas.

Resposta:

Depressão

Outra noite de trabalho para X-8, o mais famoso detetive etimológico do seu bairro. Bairro, aliás, que está muito mais quieto do que costuma. O ar está imóvel e abafado nas ruas mal-iluminadas. Elas contêm muito mais lixo do que de costume. Quase ninguém é visto caminhando pelas ruas. Até os ratos do esgoto estão quietos hoje.

O que houve? Sequelas das festas de fim de ano, ora. Muitas pessoas e palavras estão curtindo monstruosas ressacas ou descomunais indigestões. Ou então estão fazendo curativos por causa das brigas em que se meteram durante os festejos pela paz, pelo amor e pela renovação das esperanças. Ou as três coisas.

Não é o caso de X-8. Ele é abstêmio e não dá muita bola para comida. As únicas brigas em que ele se mete são no terreno das idéias, o que não machuca ninguém.

Assim, ele está inteirinho e aberto normalmente para o trabalho nesta noite anormalmente quieta. Está pensando que talvez devesse fazer um recesso, entrar em férias ou algo assim. Claro que “tirar férias” para ele seria ficar no seu escritório apenas lendo, pesquisando e enchendo a cara de refrigerante bem gelado, mas ele apreciava essa forma de descansar.

De modo que ele está no claro-escuro do seu escritório, sentado à cadeira giratória guenza de madeira, pés sobre a enorme escrivaninha, o chapéu enterrado na cabeça, suando sob a sua gabardine folgada, nesse processo de matutar, quando batem à porta.

Enquanto ele se levanta para atender – lentamente, que ele não quer dar a impressão de que está muito disponível ou ansioso por clientela – ouve sussurros nervosos do outro lado da porta.

Ele a abre e vê dois vultos, mal iluminados pelas escassas e fracas lâmpadas do corredor. Convida-os a entrar, acomoda-os em duas cadeiras e se senta atrás da escrivaninha.

Olhando melhor, vê que são as palavras Expresso e Depressão. Em seu melhor estilo lacônico Clint Eastwood, ele as olha sem dizer nada.

Nesse momento, Depressão parece achatar-se e tenta escapar. A outra palavra a agarra pela gola e a obriga a sentar, falando com o profissional durão que tem à frente:

– Senhor X-8, viemos para ver se o senhor pode fazer alguma coisa pela minha amiga aqui. Desde que nasceu ela anda assim, se arrastando pela vida, sem achar graça em nada, dizendo que nada vai dar certo…

A família e os amigos já tentaram de tudo: vitaminas, cirurgia pelo astral, rezas a Santo Expedito… Nada. Inclusive já fizeram várias promessas para ela cumprir, como ir de joelhos até o topo do Cristo Redentor, mas nada funcionou.

Eu sou um amigo devotado dela, acho que ela tem um grande potencial – inclusive as oportunidades de trabalho dela têm aumentado constantemente – mas ela só pensa que está tudo ruim, que nada presta, tem idéias até perigosas.

O senhor é o nosso último recurso. Mesmo não sendo médico, o senhor lida com palavras e talvez consiga fazer algo por ela.

O detetive assentiu com a cabeça. Expresso continuou:

– Tenho aqui um folheto com os honorários que o senhor cobra, que outra cliente sua nos emprestou e juntamos o dinheiro… – o detetive, achando-se o máximo porque até agora não tinha dito nada, estendeu a mão para o folheto, que lhe foi entregue.

Para espanto das palavras, rasgou o papel e o jogou num cesto de lixo. Abriu uma gaveta, puxou outro folheto e o entregou à palavra, rosnando:

– Ano novo, preços novos.

E eram bem salgados os ditos cujos. Que fazer? As palavras entregaram o dinheiro que tinham levado e combinaram de pagar o resto quando viessem receber o resultado das perigosas investigações que o detetive faria destemidamente para servir à sua cliente. Pelo menos foi disso que ele as convenceu.

Depois que elas saíram, ele pegou sua caneta Parker 51 da década de 40, com tinta azul-real, o papel creme que ele gostava de usar para seus rascunhos, e se dirigiu aos livros que lotavam suas estantes.

Feita a pesquisa, ele sentou em frente à máquina de escrever antiga e desalinhada e bateu o seguinte:

DEPRESSÃO

Eis aqui uma palavra pertencente a uma antiga e muito espalhada família nos idiomas ocidentais. Ela deriva de uma raiz Indo-Européia prem-, “atacar, golpear”, que se fixou no Latim como premere, “apertar, comprimir, empurrar contra”. Podemos citar algumas parentes:

Opressão: de oppressio, “esmagamento, aperto”, formado por ob-, “contra”, mais premere. Quem é oprimido conhece a desagradável sensação de ser apertado contra alguma coisa sólida, sem possibilidade de escapar.

Supressão: de supprimere, “fazer parar, esmagar”, de sub-, “para baixo”, mais premere.

Gethsemani: por esta ninguém esperava, hein? O local onde conta a Bíblia que Jesus passou sua última noite era chamado, em Aramaico, gath shemani, “prensa de óleo”, porque era por ali que eram processadas as azeitonas colhidas no local, o Horto das Oliveiras. Tem parentesco com premere apenas pelo sentido, não pela palavra, mas incluímos essas informações gratuitamente aqui apenas como demonstração de nossos bons serviços.

Reprimir: de reprimere, “manter fora, repelir”, formado por re-, “para trás”, mais premere, aqui com o sentido de “empurrar”. É uma palavra usada desde 1471 com o sentido de “acabar com uma rebelião”.

No sentido psicológico, é usada desde 1904.

Espresso: isso mesmo, com “S”. É como se chama, na Itália, o tipo de café que é coado sob pressão em máquina especial e particularmente barulhenta. Em nosso país, talvez poucas cafeterias tenham coragem de oferecer Caffè Espresso, que é o nome italiano, porque a maioria ia achar que está mal escrito.

Expressão: vem de exprimere, “representar, descrever”, literalmente “imprimir, moldar”, tendo passado pelo sentido intermediário de “material moldável que toma forma sob pressão”.

O verbo se forma por ex-, “fora”, mais pressare, “apertar, empurrar”.

Essa palavra também foi aplicada para designar “mensageiro especial”, de onde nos veio o sentido de “veloz, rápido”, usado para entregas.

No Velho Oeste havia o Poney Express, que usava mensageiros trocando de cavalos de trecho em trecho. Se confiarmos nos filmes de mocinho, uma das razões da sua excepcional velocidade eram os índios que andavam sempre correndo atrás deles.

De formas que, veja a prezada cliente, a palavra Expressão, que tão gentilmente a acompanha em suas visitas a este escritório detetivesco vem a ser sua parente.

Impressão: de imprimere, “aplicar com pressão, fazer uma imagem em”. O verbo se forma por in-, “em”, mais premere. Tanto se aplica à impressão em papel como à sensação que uma pessoa causa no espírito de outra.

Compressão: de comprimere, “apertar junto”, de com-, “junto”, mais premere.

Depressão propriamente vem de depressare, do verbo deprimere, “prensar, esmagar”, formado por de-, “para baixo”, mais premere, “apertar, comprimir”.

Assumiu o sentido de “afundamento de uma economia” logo depois da Revolução Francesa. Passou o ter significado clínico no jargão psicológico em 1905.

A escolha da palavra manifesta muito bem a sensação de esmagamento sem esperanças que uma pessoa que apresenta doença depressiva sente.

Dali a quinze dias, as visitantes retornam.

Pelo que elas sabem, o corajoso detetive, nesse tempo, viajou para pesquisar em bibliotecas desconhecidas, deslocando-se no submundo da cultura habitado por perigosos rufiões, assaltantes e falsificadores. Ele passou perigos terríveis, dormiu em camas pulguentas em quartos de pensões sórdidas, sempre tendo que se cuidar de um punhal que poderia partir de trás de uma cortina rasgada num cabaré ou da bala que seria desferida de um Smith & Wesson calçando um calibre Magnum .357 ou de uma corda de seda desejosa de conhecer mais de perto o seu pescoço.

Não era difícil imaginá-lo parado numa esquina, confundindo-se com o ambiente sujo ao redor, esperando pelo sinal que um informante lhe faria saindo de um beco mal-cheiroso.

Mas, enfim, elas estavam pagando regiamente por esses serviços.

O detetive entregou o texto, levemente sujo e cuidadosamente amassado, num envelope pardo, sem dizer nada além de estender a outra mão.

Depressão, evidentemente mais animada naquele dia por estar recebendo informações sobre si mesma, atreveu-se a perguntar:

– Foi muito difícil?

– Pfhht! – foi o som que saiu debaixo do chapéu. O gesto da cabeça demonstrava que ele tinha revirado os olhos para o alto.

Expresso, não deprimido nem reprimido, achando o máximo aquela situação (palavras são lou-qui-nhas por aventuras etimológicas), quis saber:

– Houve mortes?

O detetive hesitou. Para as palavras, ele evidentemente se debatia com o seu sentido ético profissional. Na verdade, ele estava era achando que estava falando demais, mas como achou que um pouco de conversa faria bem a Depressão, respondeu levantando dois dedos.

Um arrepio perpassou pelas palavras. Então aquela consulta havia redundado nisso? Não se atreveram a perguntar mais, mas estavam certas de que os bandidos haviam merecido o que lhes havia acontecido.

Depressão indagou ainda:

– Pelo menos foram rápidas?

X-8, profundo conhecedor do íntimo das palavras, percebeu que, se ele desse a entender que as propaladas mortes haviam sido lentas, aquela cliente poderia afundar mais ainda em suas tendências. Ergueu os ombros rapidamente, uma mão com a palma para cima e a outra apontando para si mesmo, querendo dizer “Vocês pensam que sou incompetente, que tenho má pontaria?”

As palavras pegaram o envelope e voltaram prestas para suas casas tranqüilas na parte boa da cidade, bem iluminada, limpa e segura.

O detetive, enquanto contava o dinheiro que tinha recebido, pensava:

– “Puxa, e saber que um comprimidinho por dia faria tanto bem a essa palavra! Acho que vou telefonar para ela e encaminhá-la para tratamento. O meu terapeuta mais cedo ou mais tarde vai ter que começar a tratar palavras, que eu sozinho sou pouco”.

Resposta:

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