Palavra impedir

NÃO PODE

Para poder manter inteira uma sociedade certas regras precisam ser impostas, de modo a evitar danos à coletividade. Para tornar claro que umas coisas podem ser feitas e outras não, as leis e os costumes definem processos que se aplicam em determinadas circunstâncias, isso antes da aplicação de uma penalidade. Eis alguns exemplos de palavras relacionadas, com as respectivas origens.

PROIBIÇÃO – do Latim prohibire, “manter afastado, impedir”, formado por pro-, “à frente”, mais uma forma combinante do verbo habere, “ter”. O que é proibido originalmente, devia ser mantido longe, afastado.

PROSCRIÇÃO  – do Latim proscribere, “trazer a público”, literalmente “escrever na frente dos outros”, de pro-, mais scribere, “escrever”.  Ao redor do séc. XIV, uma proscrição era um decreto declarando alguém fora da lei, condenando essa pessoa por alguma transgressão.

RESTRIÇÃO –  do Latim restrictio, “limitação”, de restringere, “tirar a ação, impedir” formada por re-, intensificativo, mais stringere, “amarrar fortemente”.

Uma palavra derivada deste verbo é estrito, “rigoroso, rígido”, de strictus, particípio passado de stringere.

REJEIÇÃO – do Latim reicere, “atirar de volta”, formado por re-, “de volta, para trás”, mais jacere, “jogar, atirar”.

REPRESSÃO – do Latim reprimere, “empurrar de volta, manter à distância”, de re-, mais primere, “apertar, comprimir”. Reprimenda, reprimir são derivados.

SUPRESSÃO – do Latim supprimere, “empurrar para baixo, impedir de se mover, fazer parar”, de sub-, “para baixo”, mais primere.

Um regime ditatorial muitas vezes recorre à supressão quando a repressão não dá resultado.

DESAPROVAÇÃO – do Latim dis-, indicando contrariedade, oposição, mais approbare, “demonstrar, tomar como certo”, por sua vez formada por ad-, “junto a”, mais probare, “provar, testar”, de probus, “honesto, genuíno”.

Ou seja, algo que não é considerado honesto provocará um movimento contrário das pessoas. Pelo menos era a ideia quando se instituiu o sistema eleitoral.

EMBARGO –   esta vem do Latim imbarricare, que não quer dizer “embarrigar” nem
“colocar dentro de uma barrica”, não. Esse verbo significa “colocar um obstáculo à
frente de” e vem de barra, “tranca, pedaço de madeira ou ferro colocado numa porta”.

Um embargo é uma ação legal feita para impedir que alguma coisa aconteça ou seja levada a efeito.

INTERDIÇÃO – em Latim  se dizia interdictio de um decreto de proibição, sendo a palavra formada por inter, “entre”, mais dicere, “dizer”.

VETAR – vem do Latim veto, “eu proíbo”, de vetare, “proibir”, que era o que um tribuno em Roma dizia formalmente quando se opunha a alguma medida dos senadores ou magistrados. Nem sempre dava certo, mas eles tentavam.
BANIMENTO – veio do Germânico bannan, “proclamar, proibir, ordenar” e originalmente queria dizer “declarar em público”. Deriva da base Indo-Europeia bha-, “falar”.  O sentido evoluiu no Germânico de “falar” para “proibir, expelir, impedir” e passou ao nosso idioma através do Francês banir, “proclamar, condenar ao exílio”.

IMPEDIR – do Latim impedire, “amarrar os pés”, de in-, negativo, mais pes, “pé”. Uma pessoa nestas condições obviamente não consegue fazer muita coisa.

Sabem o Santo Expedito? Seu nome vem da palavra expeditus. Ela era usada para nomear os soldados que deixavam para trás a impedimenta, ou seja, o material pesado que carregavam, fora as armas, para poderem se deslocar mais rapidamente em determinadas situações.

Por isso esse santo ele foi nomeado patrono das situações de emergência, nas quais tudo precisa ficar pronto para anteontem.
ABOLIÇÃO – veio do Latim abolere, “destruir, retardar o crescimento, fazer
morrer”, de ab-, dando a noção de “afastamento”, mais adolere, “crescer”. Por um certo tempo se aplicou a pessoas ou objetos, uso há muito ultrapassado.

CANCELAMENTO – do Latim cancellare, “cruzar um texto  com linhas”, literalmente “lembrar uma cancela, uma grade”, uma variante de carcer, “prisão”, pela analogia com as barras cruzadas desta.

Resposta:

Cheguei mancando na casa do meu avô e logo fui contando:

– Eu estava jogando bola na aula e um dos meus colegas pisou no meu pé! Ui, como dói!

O velho me fez tirar o calçado e a meia, examinou-me gentilmente e concluiu que não havia motivo para preocupação pelo pé.

Mas pintou um  quadro horroroso do que ia ser do meu futuro se eu me dedicasse ao esporte bretão – ou qualquer outro – em aula. E não houve jeito de o convencer de que não fazia mal porque a professora não estava presente e um de nós estava cuidando à porta.

Fiquei achando que prontamente iria acabar atrás das grades, dado o meu potencial criminoso.

Mas me parece que até ele achou demais a sua preleção e começou a me falar da origem dessa palavra e dos seus parentescos. Acomodei-me deitado no chão sobre o tapete, junto à sua cadeira, coloquei o pé machucado para cima, sobre o banquinho, e escutei.

–  Essa palavra de tanto uso vem do Latim pes, tendo passado pelo Grego como pous, que se torna podos ao entrar na composição de palavras.

– Por que?

– Por causa das declinações do idioma. E garanto que você não vai querer saber desse assunto por ora, de modo que fique quieto e escute.

– Como eu ia dizendo antes de ser tolamente interrompido, essa palavrinha tão curta, que em Indo-Europeu era ped-, gerou enorme descendência em nosso idioma e em outros. Por exemplo, o Inglês foot vem desse ped-.

Começando, sem ordem alguma, dá para lembrar a palavra podálico, “referente aos pés”.

Em Botânica, temos pedúnculo, do Latim pedunculus, “pezinho”, pois é através dele que uma flor se mantém erguida.  O pecíolo, que mantém o fruto unido à planta, vem de petiolus, também de pes.

Evidentemente que a pessoa que não usa veículo ou animal para se deslocar é chamada de pedestre porque…

– Vai a pé!

Ele me olhou com um cínico ar espantado:

– Impressionante, eu jamais pensaria que você percebesse isso.

Aquilo me calou por um tempo. Com um ar de sarcasmo, ele continuou:

– Os peões que fazem trabalho pesado em diversas áreas de nossa economia são assim chamados porque em geral não dispõem de veículo próprio.

Um animal pode ser bípede, como é o caso do bípede implume esparramado aqui na minha frente, quadrúpede, centípede, milípede, conforme o número de pés que porta, do Latim bis, “dois”, quattuor, “quatro”, centum, “cem”, mille, “mil”…

– Hah! Sendo assim, não existe nada com três pés! E há bichos com cem e mil pés mesmo?

– Vá até à cozinha então, seu bobo, e conte quanto pés tem as banquetas de lá. São trípodes. E quanto aos pés de certos artrópodes como a lacraia, eles não são mesmo em tamanha quantidade. O povo é que colocou esses nomes neles e pegou.

Quando você anda de bicicleta, sua energia é colocada diretamente nos pedais, eis aí mais um derivado.

Mas essas palavras nem sempre designam órgãos ou artefatos que fazem a gente se deslocar. Por exemplo, em Latim pedica queria dizer “armadilha para prender os pés de um animal” e adquiriu o significado também de “engano, engodo, cilada”.

Daí que impedir alguém de fazer alguma coisa se relaciona com os laços de corda que os meninos romanos faziam, há milhares de anos, para pegar passarinhos.

Despachar vem do Latim disimpedicare, “livrar de peias, soltar”; expedir vem de ex-, “fora”, mais pes, algo como “desimpedir, liberar os pés, o andamento de alguma coisa”.

Daí vem o expedicionário, que é quem participa de uma expedição, seja ela militar ou não.

Descer de um cavalo e ficar a pé se diz apear.

Maltratar uma pessoa, usar de desdém ou tirania contra ela, é espezinhar, como se o malvado estivesse pulando em cima.

Falando nisso, tripudiar vem de um sinal grego que se fazia batendo os pés três vezes quando se queria afastar uma pessoa ou desfazer dela.

Quando a gente tem que pagar pedágio  para andar numa estrada a gente está lidando com essa antiga palavra.

E o pedestal onde se coloca uma estátua, vem de, de…

Pes! E aposto que o Pediatra com quem eu consultava também vem daí. Ele sempre vai a pé até o seu consultório?

– Estava demorando para sair bobagem. Essa palavra vem do Grego pais, “criança”, mais iatrós, “médico”.

– Mas exatamente como se dizia “pediatra” em Grego?

– Não se dizia. Essa palavra foi criada no século XIX, na França, a partir das raízes gregas.

– Tá bom, e pedicure?

Essa sim, vem de pes mais curare, “tomar conta, cuidar”. E temos outra palavra que, pelo sentido, nem parece relacionada: o do verso. Lembra-se do falecido Tio Venâncio, que insistia em declamar nas festas suas poesias feitas a machado?

– Sim! Todos falavam alguma coisa sobre “pé quebrado” e eu não entendia como é que ele caminhava sem mancar.

– Quebrado estava outro , não o dele. Esta palavra também se usa para expressar o ritmo dos versos, do hábito instintivo de acompanhar as notas mais fortes numa música ou poema com um pé. Quando os versos não mantêm adequadamente o ritmo, a leitura fica desagradável, antiestética, e se diz que “o verso é de pé quebrado”.

Muito bem. Agora vá para casa cuidar desse seu pé não-quebrado, que eu tenho mais coisas a fazer do que dar aulas a um possível foragido da Justiça.

Resposta:

Panne

Eu estava com meus dez anos quando cheguei timidamente ao escritório de meu avô cheio de livros, na peça que ele havia construído no fundo do seu pátio.

Ele voltou para mim aquele olhar claro e assustador, que imediatamente se suavizou:

– Ora, quem está aqui! Quais são as novidades, meu menino?

– O Pai chegou atrasado da viagem dele porque houve uma panne no avião. E eu queria perguntar para o senhor se isso é o que estou pensando.

– Bem. Imaginemos o seguinte: você está num avião. Ocorre uma panne. O que é que você espera ver?

– Bom, eu acho que de repente todos se levantam e começar a gritar e correr que nem galinhas assustadas, atirando as bandejas de comida para todos os lados, abrindo as maletas e bolsas e atirando roupas uns nos outros, derrubando as aeromoscas, indo até a cabine do piloto e batendo nele até o avião quase cair, enquanto todos berram “Panne! Panne!”

Parei de teatralizar os movimentos tal como eu os imaginava e perguntei:

– É assim, Vô?

Meu digno e sério avô, com todos os cursos e estudos que tinha, foi abrindo a boca e arregalando os olhos enquanto me ouvia e começou a rir até acabar deitado no chão, com lágrimas nos olhos, batendo os pés:

– Pare, pare, que você me mata! Não agüento mais! De onde é que você tira tanta bobagem? Você ainda vai ser um grande escritor de ficção. Agora deixe eu me ajeitar que vou lhe contar alguma coisa sobre o assunto.

Sentou-se na sua poltrona de couro e começou a falar, entre acessos de riso:

– Inicialmente, não é “aeromosca”, é “aeromoça”. Elas já têm incomodações bastantes no seu trabalho para ainda serem chamadas assim por um pirralho, de modo que não se esqueça.

Quanto à panne, é assim, ó: essa palavra vem de uma raiz indo-européia pete-, “lançar-se contra”, aparentada com ped-, “cair”.

Ela gerou um número grande de descendentes, muitos com significados pouco relacionados com o antepassado remoto.

Por exemplo, temos o Grego pteron, asa. Só esta já nos deu muitas outras palavras.

– Que nem pterodáctilo, Vô?

– Muito bem! Isso mesmo: esse nome foi inventado de pteron, asa, mais daktylon, “dedo”, pois as membranas das asas daqueles bichos eram esticadas em estruturas ósseas derivadas dos dedos.

Há muitas outras palavras de uso em diversas ciências que se aproveitam de pteron, como pteridófita, “certo tipo de planta”; pterígio, “membrana que cresce no olho”; pterigóide, “ponta de um osso do crânio”; pterigoto, “classe de insetos alados”; pterocarpo, “fruto que tem membranas alares para melhor se difundir”.

Todas essas coisas têm em comum o fato de terem alguma relação com asa, seja na forma, seja na função.

Outra palavra que derivou desses sons é o verbo petere, “procurar atendimento, pedir”. Daí temos petição, o ato de pedir, transformado num documento oficial para produzir determinados efeitos na Justiça.

– O Pai, quando chegou dessa panne toda, disse que estava “em petição de miséria”. Então ele estava pedindo miséria?

– Não, meu guri, não… Acontece que, até certa época, em nosso país, quando uma pessoa estava realmente sem dinheiro para pagar as suas dívidas, ela tratava de obter com as autoridades uma petição de miséria, uma declaração oficial de que ela não podia pagar as suas contas.

Mais um derivado é o verbo petulare “ser fogoso, pronto para o ataque”. Do seu particípio passado, petulans, temos a palavra petulante, que hoje significa “arrogante, atrevido, ousado”.

– Foi por isso que a Vó disse que o gato do vizinho era um petulante quando ele entrou no quarto e molhou os sapatos dela?

– Isso mesmo. Mas há mais. Em Latim, appetere era “cobiçar”. Daí que appetitus passou a significar “instinto, desejo”.

– Quando estou com muito apetite, é instinto ou desejo?

– Instinto, desejo, olho grande e falta de laço. Tudo isso em grandes doses. Não me faça perder o fio! Senão eu não lhe conto que competere significava “encontrar-se no mesmo ponto” ou “estar adequado ou conveniente para”.

Pessoas que competem entre si têm todas a pretensão de se encontrarem no mesmo lugar no fim da corrida. Claro que cada uma espera chegar antes das outras.

E “ser um profissional competente” é “estar adequado ao que se espera dele”. As autoridades competentes são aquelas que têm os poderes adequados para lidar com determinada situação.

impedir vem do verbo impetere, “lançar-se sobre”. Se uma pessoa se lança sobre outra, física ou metaforicamente, não está deixando que a outra faça o que pretende.

Daí também ímpeto, “vitalidade, ardor, movimento intenso”.

E também repetir, de repetere, “atacar de novo, ir procurar”.

E mais ainda: de per-pet-s se fez perpes, “o que avança de modo contínuo”, que nos deu perpétuo, “eterno”, através do Latim perpetuum.

– Muito bem Vô, até agora saiu um monte de palavras aí mas nada de panne. O senhor está me enrolando?

– Seu impaciente, agora é que eu ia entrar numa subfamília desta inicial. Em Latim, há a palavra penna, derivada do Indo-Europeu pet-sna, significando pena, asa.

Na Idade Média, a palavra panne teve diversos significados, como “estofado macio como uma almofada de penas” e, por extensão, “camada de gordura da barriga de certos animais”.

Também queria dizer “parte lateral de um tipo de verga”. Verga é aquela peça horizontal que se situa nos mastros e da qual são penduradas as velas.

Mettre en panne, em Francês, era “imobilizar um barco manobrando as vergas de modo a impedir as velas de colher vento”. Pronto: aí está a sua panne.

– Puxa, Vô, de barcos à vela a um avião a jato! Essa viagem foi boa.

– E longa em termos de tempo, meu rapaz. E não pense que pára por aí a história dessa palavra. Só para falar um pouquinho mais, sem pretender acabar com o assunto: daí também derivou o Latim pannum, “tecido, trapo, pano”.

E então temos pendão, do Francês pennon, “bandeira triangular” e outras que não vou citar porque você me obrigou a rir demais e estou com medo de ter uma panne na minha cabeça. Noutro dia a gente conversa mais.

Resposta:

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