Palavra liquidificador

NA COZINHA

Visitando meu avô, comentei que, ao passar pela cozinha, tinha visto a Avó preparando um suco.

– Oba, disse ele, vai sair coisa gostosa para o nosso lanche. Falando nisso, sabe de onde vem a palavra liquidificador?

–  Apesar de ser seu neto, não são tão ignorante, Vô. Deve vir de líquido, não?

–  Vejam só, ele sabe! Isso mesmo, e esta vem do Latim liquidus, “fluido, umidade, líquido”, de liqui, “derreter, escorrer, fluir”. Junte-se a esta raiz a palavra facere, “fazer”, e temos o nome do aparelho que transforma certos materiais em líquido para aliviar nossas sedes.

– E como se chama em Inglês, liquidificator ou algo assim?

– Nada disso, por lá eles dizem blender ou  mixer, “misturador”. Liquidificador  se usa é no Brasil, desde 1939, quando uma empresa local lançou esse aparelho com base numa invenção americana de 1919. Veja só, ele vai cumprir cem aninhos em breve.

–  Humm… e geladeira, vem de gelo?

–  Você está espantosamente esperto hoje, menino. Sim, e gelo vem do Latim gelus; esta se usava para dizer tanto “gelo” como “frio intenso” como “geada” e “caramelo, revestimento doce”. Daí o uso da palavra glacê, aquele revestimento clarinho dos bolos; em Francês, “gelo” se diz glace.

–  Pareceu-me que está saindo um bolo também. Vai ver que leva glacê.

– Você talvez não conheça um nome que se usava para a geladeira, que era frigidaire. Essa foi a marca inicial desses aparelhos, lançados nos Estados Unidos em 1916. Foram tão divulgados que em vários países ainda se usa esta marca como nome genérico para geladeira.

–  E frigidaire vem de?…

– Do Latim frigidus, “o que apresenta baixa temperatura”, de frigus, “frio”.

Falando nisso, não nos esqueçamos que congelador também deriva de gelus.

– Claro, meu antepassado; bem como freezer, – disse eu, me achando o máximo.

–  Estava demorando para dizer besteira.

–  Mas isso não é o mesmo que congelador?

– É o mesmo conceito, o mesmo objeto, mas a palavra tem outra origem, rapaz! Essa vem do Inglês antigo freosan, do antigo Germânico friosan, tendo parentesco com o Latim prurire, “coçar”, já que sentir frio pode lembrar a sensação de coceira.

–  Aah… E indo para o outro lado, de onde veio fogão?

–  Claramente de fogo, que vem do Latim focus, “lareira, local de fazer fogo numa casa”.  Temos um equivalente mais moderno deste, o forno de microondas, do Latim furnus, “câmara para assar alimentos”.

– Minha professora disse que fez recentemente uma visita a Furnas. Será que eles assam muito pão por lá?

–  Não, mas a origem de furna, que quer dizer “gruta, caverna” é a mesma de forno.  

O que me lembra outro aparelho, a torradeira, que vem do Latim torrere, “queimar, secar, tostar ao fogo”.

–  Uma torrada com presunto e queijo por dentro e uma generosa manteiga por fora, hein, Vô?

–  Nem me fale, que maravilha! Ainda mais acompanhada por algo feito numa cafeteira, que vem…

–  Já sei, de café, que veio de cafajeste!

–  Começou bem a frase e terminou muito mal. Café veio foi do Turco kahweh, que veio do Árabe kahwah, que provavelmente se relaciona com Kaffa, região da Etiópia que era grande produtora.

–  E cafajeste, Vô?  –  eu gostava de espicaçar o velho.

–  Essa tem origem desconhecida. E pare de incomodar um pobre idoso ou eu chamo a Polícia. E não conto de onde vem outro aparelho, a centrífuga.

–  Aquela que faz lindos sucos?

–  Isso, e que é incômoda de limpar. Por algo não usamos a nossa há tempo. Mas, enfim, essa palavra vem do Latim centrum, originalmente “ponta seca do compasso”, do Grego kentron, “objeto pontiagudo, ferrão”, mais fugire, “escapar, afastar-se, fugir”.

–  E quem foge de quê aí?

–  Os pedaços de frutas, que se afastam do centro do aparelho e são empurrados contra as suas paredes perfuradas, que deixam sair o líquido e juntam montes de bagaço.

Falando nela, lembrei-me de outro aparelho, a processadora. Nunca entendi bem a vantagem dele, que me parece ser apenas um liquidificador lento; mas, para nossos fins aqui, o que conta é que esse nome vem do Latim, procedere, “avançar, mover adiante”, de pro, “à frente”, mais cedere, “ir”.

Um processo, em qualquer área, implica num conjunto ordenado de passos no tempo para se chegar a um objetivo. Vale tanto na cozinha como na mais alta instância da Justiça, passando pela indústria e por várias outras áreas.

E depois que a gente sujou um monte de pratos e aparelhos na cozinha, usa a lavadora, que vem de lavar, que vem do Latim lavare, “lavar”.

Mas preste atenção! Cheiro de bolo. Nosso lanche já deve estar pronto. Vamos até à cozinha para ver o que é que conseguimos.

 

Resposta:

Material De Cozinha

Me-ni-nas! Parem de puxar os cabelos umas das outras! Onde já se viu? Hoje eu estava tão cansada que passei os meninos para a coitada da Professora de Educação Física e resolvi fazer uma brincadeira só com vocês, com os nossos brinquedos de cozinha, e já deu a maior confusão.

Também, pudera: Maria Tereza, reclamando que quer forminhas para bombons de ameixa – eu já disse que não há! -, Patty quer o liquidificadorzinho sabe-se lá para quê, os pratinhos de plástico a Bebel pegou e não empresta prá ninguém; a Ana Maria, em contrapartida, agarrou todos os talheres e não quer largar, enquando a Deli ameaça bater na cabeça de todo o mundo com a frigideirinha.

Não vai dar desse jeito, meninas. Vamos sentar em roda aqui e falar sobre os nomes desses utensílios.

Olhem aqui os pratos. Essa palavrinha vem do Francês plat, “chato”, que veio do Latim plattus e do Grego platys, ambos querendo dizer “plano, achatado”.

Sabem o ornitorrinco, aquele bicho que vive na Austrália, tem um ferrão com veneno nas patas de trás, é mamífero e tem bico e pés de pato? Pois o nome cientifico dele é Platypus, formado por esse mesmo platys mais pous, “pé”: é o “pé-chato”. Os ingleses o chamam assim, platypus. Acho que ornitorrinco é complicado demais para eles.

Como é, Leda? O quê? O Pir? Não conheço, é algum grupo de música? Ah… Não, meu anjo, essa palavra só se usa assim: pires. O singular não é “pir”, não.

O nome desses pratos pequenos vem do Malaio piring, palavra que os portugueses levaram primeiro para a Índia e depois para a Europa.

Calma, calma, Valzinha, já vou dizer de onde vem xícara. Esta tem origem nas Américas mesmo, do Náhuatl jicalli, “tipo de vasilha”. É por isso que se deve escrever com “X” e não com “CH”. Mas por que você estava tão ansiosa por saber sobre essa palavra?

Chii, lá vem história sobre as vizinhas… Ah, uma delas é apelidada “Xicrinha” no seu edifício porque, quando vê que uma das outras vizinhas saiu, vai pedir uma xicrinha de açúcar ou farinha ao marido que está em casa. E daí? Ela pode ser imprevidente ou meio pobre e… Ah, vai vestida só com uma camisola curtinha e salto alto e então…

Certo, isso não interessa num lugar sério como este e vamos já-já aprender a origem dos talheres. Esta palavra vem do Latim tardio taliare, “cortar”. Como os instrumentos do faqueiro servem para isso, foi usada para denominar o conjunto deles. O nome do talharim vem daí também, pois a massa achatada era enrolada e cortada em tiras finas.

Está muito bem, Ledinha, a colher não é para cortar, mas entrou para a lista dos talheres e pronto. O nome dela, aliás, vem do Francês cuillère, do Latim cochlear, do Grego kokhliárion, de kokhlios, “caracol”, pela sua forma côncava.

O garfo não tem origem totalmente definida. Parece ter vindo do Árabe garfa, “punhado”, do verbo gáraf, “empunhar, tirar água”.

E a faca tem também étimo duvidoso. Pode vir do Latim falx, “foice”, cuja função também era cortar.

Está bem, Lúcia, já vou chegar lá: a panela vem do Grego patane, “raso, liso, prato”, do Indo-Europeu pet-, “espalhar”. Certo, a pátena, aquele disco metálico que se usa na missa para cobrir o cálice vem daí também. Tão pequena e já sabe dessas coisas!

E a sua prima, a frigideira, vem do Latim frigere, “fritar, tostar”, do Indo-Europeu bhreu-, “tostar”.

Ai, que vontade de comer uns sanduichinhos com um bom chá! Se fôssemos todas educadas como a Maria Tereza ali, que depois de bater e arranhar as outras se sentou com os pezinhos cruzados debaixo da cadeira, poderíamos fazer isso.

Usaríamos um bule para servir o líquido umas às outras. Essa palavra vem do Malaio buli, “frasco”, mais uma que os portugueses, em suas explorações, trouxeram da Ásia.

Entre estas está, aliás, chávena, que poucas de vocês conhecem, aposto. É pouco usada hoje em dia, mas era muito chique oferecer uma chávena de chá ou café nas outroras. É sinônimo de xícara e vem do Malaio chavan, “xícara”.

Também seria bom comer um bolo, que seria feito numa forma, cujo nome vem do Latim forma, “aspecto, aparência, molde”.

Ou então, acompanhar o chá com algo feito numa torradeira, que vem do Latim torrere, “queimar, secar, tostar ao fogo”. Daí veio a palavra torresmo, que os doutores dizem que faz mal para o coração mas que eu acho que faz bem ao paladar.

Em vez de chá, poderíamos bebericar chocolate quente com chantilly em cima, que seria preparado numa batedeira. Este utensílio se chama assim a partir do verbo latino battere, “atacar, golpear”.

Comendo e bebendo qualquer coisa, usaríamos lindos guardanapos de linho irlandês. Eles se chamam assim a partir do Francês garde-nappe, “proteção de toalha-de-mesa”. Eles foram inventados para evitar que os convidados a usassem para limpar mãos e bocas, com o emporcalhamento que se pode imaginar.

Nappe era como os franceses chamavam as toalhas-de-mesa, do Latim mappa, “tecido”.

Sim, Ledinha, existe um outro tipo de mapa. E o nome deste vem daí também, pois muitas vezes ele era desenhado em tecido, para durar mais e agüentar o uso, principalmente em campanhas militares.

Como, Patty? Ah, o liquidificador de brinquedo que você usou nas cabeças das suas coleguinhas vem do Latim liquidus, “fluido, líquido”, do verbo liquere, “ser fluido”, ligado a liqui, “derreter, fluir”. Juntou-se a essa palavra o verbo facere, “fazer, tornar” e aí está o nome desse eletrodoméstico.

Não, menina, os romanos não tinham um nome para isso porque ele não existia naquela época. O nome foi feito só quando inventaram o aparelho, entende agora?

Liquidificador em Roma, só me faltava essa.

Hein? Nada, meninas, nada; uma pessoa sábia e pouco reconhecida que nem eu tem o direito de dar uma resmungada de vez em quando.

Bem, agora que estão mais calminhas podem sair. Mas deixem os brinquedinhos todos aqui.

Amanhã tem mais, a menos que haja uma misericordiosa catástrofe e as aulas sejam suspensas.

Resposta:

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