Palavra régua

Ferramentas II

Eu me tinha interessado tanto com o que meu avô tinha falado sobre a origem do nome das ferramentas comuns que fiz uma lista mental e, assim que pude, fui visitá-lo para aprender mais.

– Hum, um jovem que não está apenas querendo saber de futebol e pagode. Só pode ter puxado a mim! – disse ele, tentando disfarçar seu contentamento.

– Nada disso, Vô, eu fui adotado – respondi, com a maior cara-de-pau.

– Então é um milagre. Ajoelhemo-nos para rezar.

– Quem sabe a gente pula essa parte e o senhor responde às minhas perguntas?

– Está bem, seu incréu, está bem. Mande.

– Vamos ver então… tesoura de onde vem, Vô?

– Do Latim tonsorius, “o que serve para cortar”, do verbo tondere, “cortar, tirar o pelo”.

Existe um outro derivado desse verbo que é tonsura, aquele corte circular do cabelo que os padres ostentam na cabeça, como um sinal de que são servos do Senhor.

– Ué, por que?

– É que entre os romanos os escravos tinham o cabelo raspado para serem facilmente distinguidos dos cidadãos livres. Esta pequena zona raspada ficou como um símbolo dessa relação.

Já que falamos em tesoura, cabe lembrar o podão, que veio do verbo latino putare

– Ei, essa não! Não me esqueci de que o senhor uma vez disse que esse verbo queria dizer “calcular, estimar, considerar”. Mudou agora, é?

– Calma, seu afoito. Esse verbo também era usado para “desbastar, cortar o que não é necessário, podar”. Aliás, deve ter sido esse o seu sentido inicial, seguindo o fato tão comum de que palavras relacionadas à agricultura acabaram tendo outros significados na civilização romana. Veja bem a analogia entre podar uma planta e podar os fatos para se poder fazer uma estimativa.

– É disso que eu gosto nestas histórias, Vô.

– Para mim, essa é a maior graça da Etimologia.

– E a espátula que se usa para alisar coisas?

– Veio do Latim spatula, diminutivo de spata, “instrumento largo e achatado, espada larga”, do Grego spathe, “lâmina, instrumento achatado”.

Aqui me ocorre a palavra sapador, aplicada ao militar que se encarregava de abalar muralhas cavando túneis por baixo. Ele se chamava assim devido à sua ferramenta básica, a sapa, uma pá cujo nome vem de spata.

Mas saiba que o nome da que usamos modernamente, quando os explosivos se encarregam de destruir obstáculos, deriva do Latim pala, também “pá”.

– Muito bem; e a picareta?

– Do verbo picar, que se origina de um som imitativo, uma onomatopéia de batida: “pic, pic”. Usar uma picareta num terreno acaba deixando tudo fragmentado, picado.

Isso me lembra um instrumento que se usa para fazer furos, a pua. O nome dela não tem origem muito certa, mas pode estar relacionado com o verbo latino pungere, “fazer furos, fincar”.

Há outra ferramenta que se usa para fazer furos retirando a parte do meio do material, de modo a que a borda não fique irregular; é o vazador, do Latim vacivus, “desocupado, vago, vazio”, pois ele deixa um espaço vazio no meio. Sem ele, fazer furo num cinto acaba saindo uma porcaria.

– Para construir casas, sei que era muito usado o esquadro.

– Palavra que vem de exquadrare, “partir em quatro”, de quattuor, “quatro”. O ângulo de noventa graus resulta de cortar um círculo em quatro partes iguais. Você sabia que o ângulo reto é o ângulo que ferve a noventa graus?

– Como é isso, Vô?

– Deixe para lá, que em troca eu lhe digo de onde veio a palavra régua. Foi de regula, que veio do verbo regere, “determinar, dirigir, guiar”, ligado a rex, “rei”, pois a idéia era que ele fizesse exatamente isso.

– Espertinhos, esses romanos. Deixe ver, tenho mais um nome para saber… ah, prumo.

– Este vem do Latim plumbum, “chumbo”. É que se usavam pesos desse metal presos a fios, para que estes representassem bem a perpendicular dum dado ponto, já que as paredes deviam subir bem retinhas para cima, para poderem se sustentar melhor.

– E o que pesa mais, Vô, um quilo de chumbo ou um quilo de penas?

– Um quilo de chumbo – disse o velho cara-de-pau muito rapidamente.

– Peguei o senhor, Vô! Que vergoonha! Pois, se se trata de um quilo, os dois pesam a mesma coisa! Mas que vexame, meu avô, tão preparado…

– Ah, é, espertinho? Pois então me diga o que você prefere que lhe caia na cabeça, um quilo de chumbo ou um quilo de penas?

Aquilo me deixou balbuciando, tentando falar em densidade e coisas assim, mas o velho não parava de rir de mim, de modo que desisti. O velho estava impossível naquele dia.

Resposta:

Material Escolar

Muito bem. Quem foi que escondeu o caderno do Oscarzinho? Por que tanta risada, Sidneyzinho, foi você? Tem certeza que não?

Enquanto o criminoso que fez isso não se acusar, a Tia Odete vai contar para vocês a origem dos nomes do materialzinho que vocês trazem nas mochilinhas para fingir que estudam.

Caderno, por exemplo, vem do Latim quaternum, de quattuor, “quatro”, porque eles começaram sendo feitos com folhas de tamanho padrão dobradas em quatro e juntadas pela dobra. Os caderninhos devem ser guardados com muito cuidado para não ficarem com orelhas de burro, parecidas com as de certos alunos.

A gente escreve nos cadernos com o lápis. Esta palavra vem do Latim lapis, que queria dizer “pedra”. Parece que, no começo, a pedra usada era uma que dava uma escrita vermelha, a lithos haimatites, “pedra vermelha” dos gregos, depois lapis haimatites dos romanos.

Hematita é uma pedra que ainda é usada para fazer jóias. Bem que uma professora sacrificada mereceria ganhar uma jóia dos seus aluninhos no fim do ano, mas ninguém se lembra disso.

Mais adiante, quando vocês forem maiorzinhos, vão usar a caneta para escrever. O nome dela se origina do Grego káuna, canna em Latim, e que queria dizer “cana, talo de vegetal”. Nas épocas antigas, cortava-se um talo desses, fazia-se uma ponta nele e se mergulhava a ponta na tinta para escrever. Era bem trabalhoso.

Não senhora, Mariazinha, eu não fui dessa época. Nasci séculos depois, está bom? Não é porque você é baixinha que pode ser abusada desse jeito!

Falando em tinta, este nome vem de acqua tincta, do Latim, que queria dizer “água pintada, colorida”. Tincta é o particípio de tingere, “colorir, tingir”.

Sim, senhores, vinho tinto vem daí, é o vinho “com cor”, mas não serve para escrever, não. Não interessa o que alguns pais digam, não é para escrever que eles compram vinho.

Os cadernos são formados por folhas, cujo nome vem do Latim folia, plural de folium, “folha de vegetal”. Aqui se revela de novo a importância da agricultura na formação das palavras latinas.

Atualmente, as folhas são de papel, que veio do Grego pápyros, provavelmente derivado de algum idioma oriental. No Latim era papyrus e acabou virando papel na Península Ibérica.

Não, Sidneyzinho, acho que na Antigüidade não se usava papiro higiênico e vamos mudar de assunto imediatamente.

Quando eu era estudante – não, eu não nasci deste jeito! Já fui estudante que nem vocês, com a diferença que eu respeitava meus professores e era bem comportada em aula. Como eu dizia, naquela época – não, não conheci nenhum faraó, Mariazinha! Naquela época a gente usava arquivos, que agora estão fora de moda.

Eram capas com garras metálicas onde a gente colocava folhas de papel já perfuradas. O nome deles vem do Grego arkhein, originalmente “começar” e depois, da noção de que quem começa fica na frente, “estar em primeiro lugar, dominar, reinar”. O arkheion era um prédio público. O plural dessa palavra, arkheia, era usado com o sentido de “registros públicos”.

Passou a archia em Latim, depois, archiva e agora está conosco nomeando ou “lugar onde se guardam informações e documentos” ou a espécie de caderno desmontável que eu citei para vocês, que também é um lugar para informações.

Se vocês cometerem um erro escrevendo a lápis, podem corrigi-lo com a borracha. Quem dera que a gente pudesse fazer o mesmo com as profissões mal escolhidas e que deixam a gente de cabelos brancos! Mas, enfim, o nome deste artigo tão útil parece vir do Espanhol borrar, que significa apagar. Hein? O Sidney está apagado de medo do Oscarzinho? Não, vocês já estão fazendo confusão. Quietos!

Algum dia vocês ainda vão usar um compasso, o instrumento que serve para fazer círculos e, por incrível que pareça, sem o qual não se pode desenhar um quadrado bem feito. O nome dele vem do Latim cumpassare, de cum, “com”, mais passare, de passus, “passo”. Dar passos regulares servia para algumas medidas, então esse nome foi aplicado ao instrumento que também serve para medir distâncias num mapa.

Ao fazer um desenho, vocês têm que cuidar para que a linha não fique torta. E linha vem do Latim linea, “corda, linha”, que era naquelas épocas feita com fios de um tecido chamado linho.

E, para que a linha saia bem retinha e bonitinha, vocês talvez tenham que usar uma régua. Esta vem de regula, do Latim, “padrão, bastão estreito, vara de medida”. Ah, se eu pudesse usar a régua de madeira de quarenta centímetros como a minha professoa usava…

Como era? Nada, deixem para lá. É apenas inveja dos bons tempos.

Mas, como eu dizia, esta palavra regula é parente de rex, “rei” e regere, “comandar, reger”. Daí o sentido de manter as coisas retas, de acordo com o prescrito. Para o pessoal que, aos domingos, não tem nada melhor para fazer e fica vendo as corridas de carro na TV, uma informação: o tal de guard-rail que se usa aos lados das curvas para que os carros não saiam da pista e não matem os espectadores que foram lá para ver os acidentes deriva daí. A palavra rail em Inglês foi formada a partir de regula.

Mas o que é aquilo? Ah, apareceu no chão o caderno do Oscarzinho? Que bom, não?

Estou tão contente que até vou deixar vocês saírem. Mas antes, só vou falar sobre a origem da palavra livro, que é tão importante no materialzinho de vocês. Agora não, mas um dia vocês estarão lendo, claro, Machado de Assis, Dostoyevski, Dickens, Balzac, e vão se lembrar que livro vem do Latim librum, que era o nome da película que fica entre a casca e o tronco das árvores, e que era usada para escrever antes da invenção do papiro.

Oscarzinho, fique aqui até que o Sidneyzinho pegue a condução escolar. E não discuta.

Resposta:

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