Palavra sede

E o Assessor

 

Noite de verão. O único e mais famoso detetive etimológico do pior bairro da cidade está amaldiçoando o calor.

Suas roupas em nada melhoram sua situação: uma capa de gabardine com chapéu de feltro enterrado na cabeça. Mas se não for assim, ele teme chamar muita atenção quando está trabalhando.

Ele está, como todas as noites, sentado em seu escritório cheio de sujeira, poeira e teias de aranha, à espera de que apareçam palavras para consultar sobre as suas origens.

É verão e muitas delas foram à praia, para poderem se dedicar a um merecido descanso.

“Mas um detetive etimológico não pode tirar férias, não pode descansar nunca. Jamais se sabe quando ele vai ser necessário para aliviar a angústia de uma palavra quanto às suas origens. Não se pode baixar a guarda, pois uma urgência etimológica pode aparecer a qualquer momento. E se não houver ninguém para atender? Quem é que vai recolher o dinheiro pelo serviço?” – são os pensamentos daquele que nunca repousa.

Um tanto melhorados por uma cuidadosa interpretação positiva. Em todo caso…

É então que ele ouve uma voz vibrante que se aproxima pelo corredor, lançando cumprimentos a torto e a direito. Como ninguém tem a imprudência de ficar pelos corredores desleixados e escuros do Edifício Éden, X-8 deduz que a voz está cumprimentando os ratos e baratas que encontra pelo caminho.

Em seguida batem à sua porta. Antes que ele possa mandar entrar com a voz fria que treinou tantas vezes em frente ao espelho, a porta é aberta.

Surge uma palavra grandalhona muito expansiva, com um traje apertado e brilhante de microfibra, camisa azulão e gravata florida, cabelos curtos pingando gel, falando alto como se fosse para ser ouvida por muitas pessoas.

É Assessor que entra, com uma presença que enche o escritório inteiro.

– Senhor detetive X-8, muito prazer! É para mim causa de elevada honra simplesmente vê-lo, que dirá poder falar com o senhor. Encontrá-lo sempre foi um grande sonho, que vejo realizado neste precioso instante. Imaginar que eu estou no seu sancta sanctorum, neste seu escritório tão notavelmente arrumado e equipado, de um bom gosto extraordinário, no edifício mais luxuoso de um bairro exclusivíssimo… Ah, se houvesse fotógrafos por aqui para eu poder enviar um instantâneo meu para meus idosos pais, na nossa pequenina cidade do interior! Mas por certo bastará que eu lhes conte para que eles possam morrer em paz, sabendo que o seu filho alcançou algo que nunca ocorreria a uma família de palavras pobres porém honestas e trabalhadoras, que…

X-8, meio tonto com tanto palavrório, se ergueu com seu melhor jeito ameaçador e apontou para uma cadeira, sem dizer nada. O falador se sentou e ia retomar a sua interminável conversa, quando X-8 lhe empurrou por sobre a mesa um dos seus folhetos em que estavam descritos os seus serviços e citados os seus salgados preços.

Por conhecer tanto as palavras, X-8 lhes tinha profundo respeito. E não gostava de vê-las espalhadas como gotas de chuva.

Assessor ficou um pouco atrapalhado porque percebeu que sua verborragia não estava levando a nada. Ele não estava acostumado a isso. Resolveu ir direto ao ponto:

– Seu X-8, glória detetivesca nacional, vim aqui para tentar descobrir onde mais eu tenho parentes neste nosso idioma e, se for possível, de onde veio a minha família.

O detetive apontou para o folheto na mão gorda, anelada e próspera da palavra, sem dizer nada.

– Ah sim, são estas as condições… Hum, uma semana para vir receber por escrito as informações, seladas e certificadas… O preço é este… Puxa!… Manter segredo… Ética… Ética é comigo! Sei tudo sobre isso. Muito bem. Mas quero saber se o senhor pode fazer também um serviço botânico para mim.

Um olhar interrogativo brilhou sob a aba do chapéu. A palavra continuou:

– Arrumando as minhas coisas em casa, encontrei algo que era de um bisavô meu – e puxou do bolso de dentro do casaco um frasco de vidro com algo esquisito dentro.

– É uma raiz de palavra, e sobre ela só sei que está passando de um para outro na família há muito tempo. O senhor pode tentar descobrir alguma coisa a partir dela?

O detetive estendeu a mão para o frasco, puxou uma grande lupa do bolso. Era a primeira vez que ele precisava fazer isso em muitos anos, apesar de estar sempre com ela. Afinal, ela era parte do equipamento obrigatório de um detetive.

Olhou atentamente o conteúdo do vidro. Fez que sim com a cabeça. Esticou-se, pegou o folheto que Assessor estava segurando e apontou para a parte da tabela que falava em “serviços extras”.

– Tudo bem, seu detetive, tudo bem. Arranjei uma boquinha boa neste governo também – aliás, em todos os destes últimos vinte anos – e posso pagar por um serviço bem feito destes.

Falando nisso, sempre achei uma barbaridade, uma injustiça de marca maior, que não exista ainda o cargo de assessor etimológico obrigatório no mais alto escalão do governo. Se eu fizer uns contatos e obtiver uma alteração da Constituição nesse sentido, o que o senhor acharia de ser convidado para ser Assessor Etimológico-Chefe?

O detetive ficou estarrecido. Numa fração de segundo, passaram pela sua cabeça as visões dele num gabinete com ar condicionado, secretárias escolhidas a dedo, uma biblioteca inteira ao seu dispor, garçons vestidos de pingüim com copos dágua gelada, auxiliares para fazer as pesquisas, carro oficial, viagens…

Assessor sabia o que fazia. Disse para X-8 pensar com carinho na idéia, despediu-se efusivamente e saiu do edifício desalinhado, certo de que tinha conseguido alguém que se dedicaria a ele para sempre enquanto dissesse que o cobiçado cargo estava quase para sair.

Ainda zonzo com aquele falatório todo, X-8 trancou a porta atrás do cliente e começou o seu trabalho. Livros, caneta-tinteiro, papel especial… Essa era a parte que lhe agradava.

Dali a umas duas horas seu rascunho estava pronto. Sentou-se atrás da sua máquina de escrever antiga e barulhenta. Colocou nela papel de jornal e começou a datilografar:

A raiz contida no frasco apresentado pelo distinto cliente é nada menos que a raiz Indo-Européia sed-, “estar sentado”, geradora de enorme descendência nas línguas ocidentais.

Como exemplo, citaremos algumas das palavras dela derivadas, sem pensar em tentar esgotar o assunto:

Em Grego, esta raiz gerou a palavra hedra, “assento, lugar que se ocupa, superfície”.

Por sua vez, ela é usada em palavras como poliedro, de poli-, “muitos, vários” mais hedra. Descreve um sólido geométrico com várias faces (cubo, pirâmide, etc.).

Também aparece em catedral, de cathedra, “assento, cadeira”. A igreja catedral é aquela em que se situa a cátedra, a sede do bispo.

O que no colégio se chama “Matéria” (Matemática, História, Geografia..) é chamado de “Cadeira” nas faculdades, o que se refere às Cátedras dos mestres. Estas eram cadeiras enfeitadas, com apoio para os braços, em contraste com os assentos simples dos alunos.

E aliás, quando os rapazes olham as cadeiras das moças que passam estão olhando mais um derivado de sed-; tal parte do corpo recebeu esse nome por ser a que se acomoda nesse móvel ao sentar.

A assembléia dos judeus recebeu um nome grego na época em que esta cultura era muito difundida na comunidade israelita: sinédrio, de syn-, “junto”, mais hedra. As pessoas “se sentavam junto” para resolver as questões importantes do momento.

Em Latim se formou, a partir de sed-la, a sella, “cadeira de pernas curtas, sela para cavalos”.

Nesse idioma também surgiu a palavra sedes, “fundação, residência, assento”, que resultou em sede em Português.

O Latim muito usou a palavra sedere, “sentar”, óbvio derivado de sed-, para fazer outras palavras.

Do particípio passado desse verbo, sessus, “estar sentado”, portanto “inativo”, se fez sedimentum, sedimento. Um material só pode sedimentar-se se estiver “parado, sentado, inativo” por um certo tempo.

Sedentário, que é um verdadeiro palavrão para a turma que malha, tem a mesma origem. Originalmente, sedentarius era “o que trabalha sentado”.

Sessão vem de sessio, “o fato de se sentar”. As sessões políticas costumam ser nessa posição, facilitando inclusive o sono dos menos interessados.

Um dissidente é uma pessoa que se sentou com o partido oposto: dis-, “contra, em discordância”, mais sedere.

Quem se senta sempre junto a outro é assíduo, de ad-, “junto”, mais sedere.

A história do adjetivo insidioso é muito interessante: vem de insidia, “emboscada, traição”. E esta palavra se forma por in-, “em, dentro”, mais sedere. Mostra que aquele que está “sentado, estabelecido dentro” de uma situação pode acarretar muito dano.

De ob-, “à frente”, mais sedere se fez obsidere, “cerco a uma praça forte”. Seu significado militar passou à palavra obsessão. Só quem teve uma obsessão sabe da sensação de estar cercado, com o inimigo estabelecido às suas portas, louco para entrar e destruir tudo.

Mesmo a palavra sedar, “acalmar, tranqüilizar” vem da raiz citada: quando se consegue fazer sentar uma pessoa que está muito nervosa, via de regra é porque ela já está melhorando.

Existe uma planta cujo chá se diz ser calmante. Como ela, em princípio, faz a pessoa “ficar sentada”, recebeu o nome de resedá, de re-, intensificativo, mais sedere.

Para completar, e para surpresa do distinto cliente, outro derivado de ad- mais sedere é… assessor. Exatamente, aquele que “se senta junto” a outra pessoa para a auxiliar no trabalho é um assessor.

De tal modo, prezado cliente, a raiz pelo senhor achada é sua antepassada remota, de quando ainda não havia roupas elegantes como a sua, de quando não se obtinha o sustento sentando ao lado de um poderoso e sim saindo para caçar e colher frutas.

Na semana seguinte, Assessor foi levar o pagamento. Recebeu o papel, leu-o uma vez, rapidamente e ficou fascinado por ter em seu poder a antepassada que, agora seca, havia gerado tantas palavras.

Renovou o convite para que X-8, por seu notório saber, fosse assessor ou quiçá Ministro da Etimologia, assim que as leis fossem alteradas para incluir matéria de tanta importância na estrutura de Estado.

X-8 respondeu que iria falar com as suas bases e que lhe telefonaria quando tivesse resolvido.

Ficou vendo-o afastar-se pelas ruas cheias de sujeira, cumprimentando os postes e as portas dos prédios, com sua vibração tão peculiar.

Não, decididamente aquele tipo de vida não lhe servia. Mesmo que fosse Ministro, ele iria ter que bajular alguém. Melhor ficar naquele bairro obscuro fazendo o seu serviço!

Resposta:

Acampamentos

Eu tinha quatorze anos e estava assanhadíssimo. Queria dar logo a notícia ao meu avô.

Cheguei ao seu gabinete, entrei e o vi sentado à sua poltrona de couro, fazendo consertos com agulha e linha forte num guardachuva.

– Vô, posso entrar?

– Se não for para incomodar… sua expressão desmentia a resposta mal-encarada – Você parece agitado, seus olhos estão que nem um par de faróis. Que é que há?

– É que vou acampar com uns colegas agora nas férias do meio do ano! Estou louco para ir!

– Ora, ora. Então o meu pequeno citadino vai ficar telúrico e andar pelos matos, hein?

– É. Quase todo o mundo que eu conheço já foi e eu nunca tive ocasião. O senhor sabe que os meus pais não são chegados, daí que nunca fui antes.

– Muito bem. Há quem goste e quem não goste; as pessoas nunca vão chegar a um acordo quanto a isso. Eu, particularmente, sou da mesma opinião de um escritor que eu admiro muito e que disse que não ia acampar porque era injusto a humanidade ter levado milênios para deixar de fazer as necessidades no mato e agora voltar a fazer isso.

Mas há quem não se incomode, e na sua idade é uma experiência que a gente precisa ter mesmo.

Sente-se aqui e vamos ver se você aprende alguma coisa para contar aos outros enquanto estão reunidos ao redor da fogueira, à noite, sendo comidos pelos mosquitos.

Acomodei-me na banqueta.

– Naturalmente vocês vão dormir numa barraca. Espero que tenham uma e que saibam montá-la.

– Sim, o pai de um dos meus amigos vai junto e é um grande acampador.

– Agora fico mais tranqüiilo. Deixe-me dizer que o nome do abrigo temporário que vocês vão usar vem de barro, pois as primeiras construções deste tipo eram feitas com barro e galhos. A palavra barro, por sua vez, vem de uma palavra Ibérica barr-, “lodo, lama”. Outra derivada daí que nós temos é a palavra barranco.

– Como foi aquela vez que o senhor escorregou e caiu sentado no barro com um prato de comida emborcado em cima, Vô?

– Isso tudo são intrigas da sua avó e do seu pai quando era pequeno. Uma pessoa com o meu absoluto controle físico não pode, por definição, passar por uma situação ridícula dessas. É pura inveja da parte deles – fez sua melhor cara de dignidade ofendida.

Mas não me atrapalhe com essas besteiras. Deixe-me lembrar que você tem que levar algo que lhe sirva de colchão. Esta palavra é um aumentativo de colcha – outra coisa que você não pode esquecer de levar. E colcha vem de do Francês Antigo colche, do verbo colchier, que por sua vez veio do Latim collocare, “colocar”.

– O que é que se colocava? A pessoa na colcha ou a colcha na pessoa?

– Escolha você, gracioso. Sei é que agora a pessoa se coloca no colchão e coloca a colcha por cima.

Você pode usar também um cobertor para evitar o frio. Essa palavra também vem de Roma, do verbo cooperire, que queria dizer “tapar, cobrir”.

E, para folgar durante o dia, se puder, leve uma rede. Esta é mais uma palavra que vem do Latim, onde era rete.

– O pessoal em Roma colocava suas redes entre as colunas dos templos para descansar, Vô?

– Você está impossível hoje. Tamanho assanhamento está perturbando essa sua cabeça ventosa.

Naquela época ainda não se tinha inventado a rede de dormir, mas havia vários outros tipos. Uma delas era um enfeite para conter os cabelos das damas. Outra era a que os pescadores usavam para retirar os peixes da água. Ainda outra era a que os reciários usavam nas suas lutas contra os gladiadores.

– Oba, luta!

– Claro, “oba, luta!”, mas na hora de fazer algo criativo ou trabalhoso, não querem saber.

– Os mais velhos da sua geração também resmungavam contra os jovens, Vô?

– Também. Mas, no caso, eles não tinham razão e vamos mudar de assunto. Os reciários (em Latim, retiarii) eram aqueles sujeitos que usavam uma rede, um tridente, um capacete e uma proteção no braço esquerdo.

– E qual dos dois o senhor queria ser, Vô?

– Nenhum. Preferiria estar longe dos circos, procurando as ninfas pelos campos. Onde, aliás, qualquer pessoa tem que se precaver contra moscas e mosquitos. Ambas essas palavras derivam do Latim musca, “mosca”. Mosquito é um diminutivo de mosca formado no Espanhol. A notícia mais remota dessa palavra é que talvez tenha vindo do Indo-Europeu mu-, um som imitativo do zumbir dos insetos.

– Uma vez o Pai estava faceiro, dizendo que “tinha acertado na mosca”. Fiquei achando que ele tinha muito boa pontaria, ainda mais que elas não costumam ficar paradas. Ou será que ele usou uma lata de inseticida?

– “Acertar na mosca” é uma expressão que significa “atingir o alvo bem no centro”. Como o centro exato dele é um círculo pequeno, ele foi comparado a uma mosca. Claro que há um certo exagero nisso. Os ingleses o chamam de bull’s eye, “o olho do touro”, pela forma e tamanho, o que descreve melhor a verdade.

– Eu me lembro direitinho daquela constelação da Mosca, Vô.

– Isso, a que eu lhe mostrei daquela vez na praia. É um conjunto de quatro estrelas pequenas bem aos pés do Cruzeiro do Sul. Talvez você possa mostrá-la aos seus amigos no acampamento. Não se esqueça de que, nesta época do meio do ano, o Cruzeiro está quase deitado com o pé para a esquerda, no começo da noite.

E falando em insetos, cuidem-se para não montar a barraca sobre um formigueiro, que as donas não aceitam desculpas depois. Formiga vem do Latim formica, que se relaciona com o Grego myrmex.

– E as formigas fabricam Fórmica?

– Mais uma dessas e eu vou pedir ao pai dos seus amigos que não o traga de volta. Essa marca de material de revestimento vem da empresa que começou a fabricá-lo, uma tal Formica Insulation. E parece que o nome foi escolhido porque o formol ou o ácido fórmico entravam na composição do material.

Uma vez eu ganhei um concurso que desafiava alguém a dizer qual a palavra que se usaria para “genocídio de formigas”, isto é, uma matança generalizada da espécie. Eu falei em mirmicídio, que está certíssimo, e até hoje o malandro não me pagou o prêmio.

– E qual era ele?

– Bem, é verdade que era uma viagem para um lugar aonde eu não iria nem pintado de ouro, só que ele nem fez menção de pagar… Mas vamos ver outra coisa que pode incomodar se os senhores acampadores não estiverem bem preparados: fome. Esta palavra tão curta vem do Latim famis. Deve ser evitado o seu surgimento através de um bom planejamento do que se vai levar para comer.

– Daí foi que a Mãe falou uma vez numa famigerada ex-namorada do Pai? Ela sentia muita fome?

– Chiii… Esses são terrenos perigosos, mesmo que o seu pai nunca mais tenha visto aquela moça. Não, famigerada vem de fama, “reputação, fama” e de gerere, aqui com o sentido de “levar”. A rigor, a palavra designa quem tem uma reputação, mas o sentido em nossa língua se fixou na má reputação.

Lembrem-se de ter também à mão um bom suprimento de água limpa e fresca, para evitarem a sede, palavra que vem de sitim. Esta deu duas palavras com o mesmo significado: sedento e sequioso. Esta última é de uso mais culto.

E não se esqueça de levar os seus talheres, para não ter que matar a fome de maneira muito selvagem. A palavra talheres parece vir do Italiano tagliare, “cortar”, pois são os instrumentos que se usa para cortar
a comida em pedaços que caibam na boca do vivente.

Entre eles encontramos a faca, cuja etimologia não está bem definida. Uma das várias hipóteses é que venha do Latim falx, “foice”.

Colher vem do Latim cochlearis, que vem de cochlea, “caramujo”, pela semelhança de um fragmento de casca deste bicho com a colher. E garfo vem do Árabe garf, “punhado, mancheia”.

A comida vocês vão preparar nas panelas, cujo nome vem do Latim panella, diminutivo de panna, “frigideira”. Vai ser servida nos pratos, do Latim platus, do Grego platys, “amplo, chato”. Acabo de me lembrar que o nome científico do ornitorrinco é Platypous, “pé chato”, de platys mais pous, “pé”.

E não deixem de cuidar do fogo, cujo nome vem de focus, que antigamente designava, nos lares romanos, a lareira ou lugar onde ele era feito. Esta palavra acabou desbancando a que era usada especificamente para fogo, ignis, que acabou ficando com uso restriro a palavras cultas ou técnicas, como ignífugo e outras.

Mas acho que basta por hoje; sua cabecinha quer é se assentar em outros acampamentos que não este. Espere um pouco.

Levantou-se e abriu uma das portas de um armário alto e escuro. Subiu um banquinho e tirou de lá um pacote grande. Deu uma olhada rápida dentro dele e o passou para mim:

– Tome. Acho que isto vai ser útil.

Puxei o conteúdo: uma mochila grande, de lona, com todo o jeito de material militar! Clássica, charmosíssima, desbotada (melhor ainda) mas em excelente estado! Quase caí sentado.

– O-o senhor vai me emprestar sua mochila, Vô?

– Não, seu tolo. Vou dar. Acampar é uma das coisas que eu não vou fazer mais mesmo, e eu estava guardando esta para quando você entrasse nessa fase.

– Mas, Vô! Puxa! O senhor usou esta aqui na Primeira Grande Guerra, com máscara de gás no rosto, capote e um fuzil Lee-Enfield daqueles, com baioneta e tudo?

– Não cheguei a isso, mas se eu tivesse uma baioneta aqui eu sei qual língua eu iria cortar com ela, seu desaforado!

Coloquei-a nas costas. O velho me ensinou a prendê-la. Olhei para ele e tive vontade de fazer uma coisa.

Fiz, e não me arrependi nunca: pulei e lhe dei um abraço longo e forte, que ele retribuiu com um calor que eu sentiria ainda no acampamento.

Saí pulando pelo corredor e o peso da mochila parecia me deixar ainda mais leve.

Resposta:

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