Palavra sela

Etmologia “Selá”

Palavras: sela

Olá,

Mais uma vez volto ao site para tirar uma dúvida, visto que a qualidade e agilidade com que os questionamentos são respondidos é excelente.
Lendo a Bíblia encontrei a palavra “Selá” presente em um dos Salmos, pesquisando mais a fundo percebi que ela se repete em outros deles. Qual a etimologia dela e o que ela quer dizer?

Mais uma vez obrigado!
😉

Resposta:

Tanto a etimologia quanto o significado dessa palavras são objeto de discussão. Uma das hipóteses prevalentes é de que ela indicaria uma pausa durante o entoar dos salmos, mas nada há de certo.

CAVALO

Olhem, a criançada toda ao redor da Lary, que não para de falar sobre… sobre o que mesmo?

Ah, você foi dar um passeio a cavalo neste fim de semana com a sua família, que bonito! Gostou? Não diga, em certo momento, teve que se segurar na crina dele para não cair? É, ainda não inventaram cinto de segurança para andar neles.

Sim, crianças, eu já sabia que cavalos não têm mudança de marcha nem sinais de luz. Mas não se preocupem, com o avanço da tecnologia talvez um dia venham a ter.

Vamos aproveitar então o seu exemplo e falar sobre a origem de palavras relacionadas aos nossos amigos quadrúpedes.

Para começar vamos ver cavalo:  em Latim, caballus era o nome dado ao cavalo de carga. Os cavalarianos de Roma não montavam um caballus, montavam um equus, palavra que veio do Indo-Europeu ekwos, “cavalo”.

Aliás, essa palavra originou termos de uso culto, como equestre, equídeo, equino. E não nos esqueçamos que a senhora do cavalo é chamada de égua, outro derivado de equus.

Não, Faustinho, a palavra equivalente não vem daí, não. Ela vem de aequus, que tem uma letrinha a mais e significa “igual”; é absolutamente diferente. Mas não fique emburrado, por favor; além de mim, ninguém é perfeito.

Já que se falou em crina, informo que ela vem do Latim crinis, “cabeleira, pelo, trança”.

E desde já aviso que se deve evitar passar perto dos cascos, cujo nome vem do Latim casicare, relacionado a cadere, com o sentido de “bater, quebrar, golpear”.

Como, Patty? Os sapatos do cavalo?… Não, aquilo se chama ferradura e deriva de ferro, o material de que é feito. Mas de qualquer modo tem o mesmo uso de nossos sapatinhos, serve para proteger as extremidades do contato com o solo. E vem do Latim ferrum, o nome do metal.

Para a gente se acomodar no lombo do animal, usa-se um assento chamado sela, do Latim sella, de sedes, “assento, lugar para sentar”.

Por muito tempo as pessoas montaram o cavalo em pelo…

Não, Valzinha, “em pelo” se refere ao cavalo, não às pessoas. E não nos interessa saber o que a sua vizinha da fente costuma fazer quando está com calor.

Como eu dizia antes de ser interrompida por essa menina fofoqueira, as pessoas montavam diretamente sobre o cavalo, no máximo colocando uma coberta sobre o dorso. Do cavalo, não da pessoa, Faustinho!

Mas se tem notícia de estruturas que serviam de sela já no ano 700 AC; assim ficou mais seguro e confortável montar.

Outra invenção que ajudou foi o estribo, do Latim strepum. Muita queda eles evitaram.

Nãão, crianças, o cavalo não tem guidom; para manobrá-lo, usam-se rédeas, do Latim retina, de retinere, “conter, reprimir, reter”. É desta maneira que se controla esse bicho. Mas em certos aluninhos nem colocando rédeas se consegue algum domínio.

Não nos esqueçamos que há um lugar onde eles são postos para disputar corridas, o hipódromo. Este nome vem do Grego hippos, “cavalo”, mais dromos, “corrida”.

Outro parente é hipismo… nada disso, Zorzinho, esta palavra significa “conjunto de esportes praticados sobre cavalos”; nada a vem com hippie, que vem do Inglês hip, “pessoa a par das últimas ideias e tendências”. Este menino é muito solerte, aposto que ele sabia direitinho disso.

O conjunto de atividades relacionadas às corridas de cavalos se chama turfe, do Inglês turf, “pedaço de solo com grama”, por extensão “terreno coberto com grama”.

As pessoas que montam os cavalos para isso são os jóqueis. Tal palavra vem do uso escocês do nome Jock, uma variante de Jack, diminutivo de John, “João”. Tratava-se de uma palavra usada para designar “rapazes” em geral.

Mais ou menos como o pessoal se chama de “mano” atualmente.

Os cavalos são criados em haras, que veio do Francês haras, “conjunto de cavalos destinado à reprodução”, mais tarde o nome do estabelecimento. Deriva de um radical har-, dando a noção de “cavalo”, possivelmente do escandinavo harr, “grisalho”.

Outro nome para esses estabelecimentos é “coudelaria”; por estranho que pareça, ele tem a ver com “capitão”.

Parece loucura, mas essa palavra vem de “coudel”, que significava “capitão de cavalaria” e mais tarde “chefe de estabelecimento onde se criam cavalos”. Ambas as palavras vêm do Latim caput, “cabeça”, aqui com a conotação de “cabeça pensante, chefia”.

Bonito, não?

Também é interessante aprender que há pelo menos dois nomes próprios de origem grega que fazem referência ao cavalo.

Um deles é Felipe, de Phílippos, “o que gosta dos cavalos”, de philos, “amigo, apreciador”, mais hippos.

O outro é pouco usado em nosso idioma, mas todos já ouviram alguma vez: é Hipócrates, de hippos mais o verbo kratéo, “eu domino, eu tenho poder sobre, eu controlo”. Foi um nome criado numa época em que domar cavalos e cuidar deles tinha um significado especial para uma nação.

A Valzinha ali quer falar algo sobre um vizinho dela. O que é, menina? Sim, o tal menino é muito grosseiro e seus pais dizem que é porque o pai dele é um cavalo e…

Chega, peguem suas coisas e vão galopar lá fora que vai começar o recreio.

 

 

 

Resposta:

E o Assessor

 

Noite de verão. O único e mais famoso detetive etimológico do pior bairro da cidade está amaldiçoando o calor.

Suas roupas em nada melhoram sua situação: uma capa de gabardine com chapéu de feltro enterrado na cabeça. Mas se não for assim, ele teme chamar muita atenção quando está trabalhando.

Ele está, como todas as noites, sentado em seu escritório cheio de sujeira, poeira e teias de aranha, à espera de que apareçam palavras para consultar sobre as suas origens.

É verão e muitas delas foram à praia, para poderem se dedicar a um merecido descanso.

“Mas um detetive etimológico não pode tirar férias, não pode descansar nunca. Jamais se sabe quando ele vai ser necessário para aliviar a angústia de uma palavra quanto às suas origens. Não se pode baixar a guarda, pois uma urgência etimológica pode aparecer a qualquer momento. E se não houver ninguém para atender? Quem é que vai recolher o dinheiro pelo serviço?” – são os pensamentos daquele que nunca repousa.

Um tanto melhorados por uma cuidadosa interpretação positiva. Em todo caso…

É então que ele ouve uma voz vibrante que se aproxima pelo corredor, lançando cumprimentos a torto e a direito. Como ninguém tem a imprudência de ficar pelos corredores desleixados e escuros do Edifício Éden, X-8 deduz que a voz está cumprimentando os ratos e baratas que encontra pelo caminho.

Em seguida batem à sua porta. Antes que ele possa mandar entrar com a voz fria que treinou tantas vezes em frente ao espelho, a porta é aberta.

Surge uma palavra grandalhona muito expansiva, com um traje apertado e brilhante de microfibra, camisa azulão e gravata florida, cabelos curtos pingando gel, falando alto como se fosse para ser ouvida por muitas pessoas.

É Assessor que entra, com uma presença que enche o escritório inteiro.

– Senhor detetive X-8, muito prazer! É para mim causa de elevada honra simplesmente vê-lo, que dirá poder falar com o senhor. Encontrá-lo sempre foi um grande sonho, que vejo realizado neste precioso instante. Imaginar que eu estou no seu sancta sanctorum, neste seu escritório tão notavelmente arrumado e equipado, de um bom gosto extraordinário, no edifício mais luxuoso de um bairro exclusivíssimo… Ah, se houvesse fotógrafos por aqui para eu poder enviar um instantâneo meu para meus idosos pais, na nossa pequenina cidade do interior! Mas por certo bastará que eu lhes conte para que eles possam morrer em paz, sabendo que o seu filho alcançou algo que nunca ocorreria a uma família de palavras pobres porém honestas e trabalhadoras, que…

X-8, meio tonto com tanto palavrório, se ergueu com seu melhor jeito ameaçador e apontou para uma cadeira, sem dizer nada. O falador se sentou e ia retomar a sua interminável conversa, quando X-8 lhe empurrou por sobre a mesa um dos seus folhetos em que estavam descritos os seus serviços e citados os seus salgados preços.

Por conhecer tanto as palavras, X-8 lhes tinha profundo respeito. E não gostava de vê-las espalhadas como gotas de chuva.

Assessor ficou um pouco atrapalhado porque percebeu que sua verborragia não estava levando a nada. Ele não estava acostumado a isso. Resolveu ir direto ao ponto:

– Seu X-8, glória detetivesca nacional, vim aqui para tentar descobrir onde mais eu tenho parentes neste nosso idioma e, se for possível, de onde veio a minha família.

O detetive apontou para o folheto na mão gorda, anelada e próspera da palavra, sem dizer nada.

– Ah sim, são estas as condições… Hum, uma semana para vir receber por escrito as informações, seladas e certificadas… O preço é este… Puxa!… Manter segredo… Ética… Ética é comigo! Sei tudo sobre isso. Muito bem. Mas quero saber se o senhor pode fazer também um serviço botânico para mim.

Um olhar interrogativo brilhou sob a aba do chapéu. A palavra continuou:

– Arrumando as minhas coisas em casa, encontrei algo que era de um bisavô meu – e puxou do bolso de dentro do casaco um frasco de vidro com algo esquisito dentro.

– É uma raiz de palavra, e sobre ela só sei que está passando de um para outro na família há muito tempo. O senhor pode tentar descobrir alguma coisa a partir dela?

O detetive estendeu a mão para o frasco, puxou uma grande lupa do bolso. Era a primeira vez que ele precisava fazer isso em muitos anos, apesar de estar sempre com ela. Afinal, ela era parte do equipamento obrigatório de um detetive.

Olhou atentamente o conteúdo do vidro. Fez que sim com a cabeça. Esticou-se, pegou o folheto que Assessor estava segurando e apontou para a parte da tabela que falava em “serviços extras”.

– Tudo bem, seu detetive, tudo bem. Arranjei uma boquinha boa neste governo também – aliás, em todos os destes últimos vinte anos – e posso pagar por um serviço bem feito destes.

Falando nisso, sempre achei uma barbaridade, uma injustiça de marca maior, que não exista ainda o cargo de assessor etimológico obrigatório no mais alto escalão do governo. Se eu fizer uns contatos e obtiver uma alteração da Constituição nesse sentido, o que o senhor acharia de ser convidado para ser Assessor Etimológico-Chefe?

O detetive ficou estarrecido. Numa fração de segundo, passaram pela sua cabeça as visões dele num gabinete com ar condicionado, secretárias escolhidas a dedo, uma biblioteca inteira ao seu dispor, garçons vestidos de pingüim com copos dágua gelada, auxiliares para fazer as pesquisas, carro oficial, viagens…

Assessor sabia o que fazia. Disse para X-8 pensar com carinho na idéia, despediu-se efusivamente e saiu do edifício desalinhado, certo de que tinha conseguido alguém que se dedicaria a ele para sempre enquanto dissesse que o cobiçado cargo estava quase para sair.

Ainda zonzo com aquele falatório todo, X-8 trancou a porta atrás do cliente e começou o seu trabalho. Livros, caneta-tinteiro, papel especial… Essa era a parte que lhe agradava.

Dali a umas duas horas seu rascunho estava pronto. Sentou-se atrás da sua máquina de escrever antiga e barulhenta. Colocou nela papel de jornal e começou a datilografar:

A raiz contida no frasco apresentado pelo distinto cliente é nada menos que a raiz Indo-Européia sed-, “estar sentado”, geradora de enorme descendência nas línguas ocidentais.

Como exemplo, citaremos algumas das palavras dela derivadas, sem pensar em tentar esgotar o assunto:

Em Grego, esta raiz gerou a palavra hedra, “assento, lugar que se ocupa, superfície”.

Por sua vez, ela é usada em palavras como poliedro, de poli-, “muitos, vários” mais hedra. Descreve um sólido geométrico com várias faces (cubo, pirâmide, etc.).

Também aparece em catedral, de cathedra, “assento, cadeira”. A igreja catedral é aquela em que se situa a cátedra, a sede do bispo.

O que no colégio se chama “Matéria” (Matemática, História, Geografia..) é chamado de “Cadeira” nas faculdades, o que se refere às Cátedras dos mestres. Estas eram cadeiras enfeitadas, com apoio para os braços, em contraste com os assentos simples dos alunos.

E aliás, quando os rapazes olham as cadeiras das moças que passam estão olhando mais um derivado de sed-; tal parte do corpo recebeu esse nome por ser a que se acomoda nesse móvel ao sentar.

A assembléia dos judeus recebeu um nome grego na época em que esta cultura era muito difundida na comunidade israelita: sinédrio, de syn-, “junto”, mais hedra. As pessoas “se sentavam junto” para resolver as questões importantes do momento.

Em Latim se formou, a partir de sed-la, a sella, “cadeira de pernas curtas, sela para cavalos”.

Nesse idioma também surgiu a palavra sedes, “fundação, residência, assento”, que resultou em sede em Português.

O Latim muito usou a palavra sedere, “sentar”, óbvio derivado de sed-, para fazer outras palavras.

Do particípio passado desse verbo, sessus, “estar sentado”, portanto “inativo”, se fez sedimentum, sedimento. Um material só pode sedimentar-se se estiver “parado, sentado, inativo” por um certo tempo.

Sedentário, que é um verdadeiro palavrão para a turma que malha, tem a mesma origem. Originalmente, sedentarius era “o que trabalha sentado”.

Sessão vem de sessio, “o fato de se sentar”. As sessões políticas costumam ser nessa posição, facilitando inclusive o sono dos menos interessados.

Um dissidente é uma pessoa que se sentou com o partido oposto: dis-, “contra, em discordância”, mais sedere.

Quem se senta sempre junto a outro é assíduo, de ad-, “junto”, mais sedere.

A história do adjetivo insidioso é muito interessante: vem de insidia, “emboscada, traição”. E esta palavra se forma por in-, “em, dentro”, mais sedere. Mostra que aquele que está “sentado, estabelecido dentro” de uma situação pode acarretar muito dano.

De ob-, “à frente”, mais sedere se fez obsidere, “cerco a uma praça forte”. Seu significado militar passou à palavra obsessão. Só quem teve uma obsessão sabe da sensação de estar cercado, com o inimigo estabelecido às suas portas, louco para entrar e destruir tudo.

Mesmo a palavra sedar, “acalmar, tranqüilizar” vem da raiz citada: quando se consegue fazer sentar uma pessoa que está muito nervosa, via de regra é porque ela já está melhorando.

Existe uma planta cujo chá se diz ser calmante. Como ela, em princípio, faz a pessoa “ficar sentada”, recebeu o nome de resedá, de re-, intensificativo, mais sedere.

Para completar, e para surpresa do distinto cliente, outro derivado de ad- mais sedere é… assessor. Exatamente, aquele que “se senta junto” a outra pessoa para a auxiliar no trabalho é um assessor.

De tal modo, prezado cliente, a raiz pelo senhor achada é sua antepassada remota, de quando ainda não havia roupas elegantes como a sua, de quando não se obtinha o sustento sentando ao lado de um poderoso e sim saindo para caçar e colher frutas.

Na semana seguinte, Assessor foi levar o pagamento. Recebeu o papel, leu-o uma vez, rapidamente e ficou fascinado por ter em seu poder a antepassada que, agora seca, havia gerado tantas palavras.

Renovou o convite para que X-8, por seu notório saber, fosse assessor ou quiçá Ministro da Etimologia, assim que as leis fossem alteradas para incluir matéria de tanta importância na estrutura de Estado.

X-8 respondeu que iria falar com as suas bases e que lhe telefonaria quando tivesse resolvido.

Ficou vendo-o afastar-se pelas ruas cheias de sujeira, cumprimentando os postes e as portas dos prédios, com sua vibração tão peculiar.

Não, decididamente aquele tipo de vida não lhe servia. Mesmo que fosse Ministro, ele iria ter que bajular alguém. Melhor ficar naquele bairro obscuro fazendo o seu serviço!

Resposta:

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