Palavra creme

BANANA SPLIT

 

– Boa tarde, senhorinha uniformizada que atende ao balcão desta lancheria. Eu gostaria de pedir, se não fosse atrapalhar a sua leitura do WhatsApp, que me confeccionasse uma banana split.

Ah, ela vai ser feita logo aqui na minha frente? Ótimo, assim poderemos passar algum tempo em sã e educativa palestra.

A senhorinha sabia, por exemplo, que essa sobremesa foi inventada numa farmácia em 1904? Veja só, ela é mais velha do que eu, dá para acreditar?

Pois é, isso aconteceu na cidadezinha de Latrobe, estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Havia ali um rapaz que atendia ao balcão enquanto seguia seus estudos para farmacêutico.

Ele gostava, como bom químico, de inventar sobremesas para servir, numa época em que as farmácias se distinguiam por prestar esse tipo de serviço além de dispensar medicamentos.

Um belo dia ele resolveu cortar uma banana ao meio, servi-la numa taça alongada e colocar bolas de sorvete e outros ingredientes entre os pedaços da fruta.

Daí vem o nome, já que em Inglês split quer dizer “partido, dividido, separado”, do Holandês splitten, de uma origem Indo-Europeia splei-, de mesmo significado.

Quem diria, minha cara, que hoje você estaria aprendendo uma palavra pertencente a um idioma desaparecido há milênios! E de graça!

Mas, como eu ia dizendo, esse rapaz, que se chamava David e tinha 23 anos, obteve grande êxito com sua invenção. Os estudantes que ali compareciam para passar o tempo logo espalharam a novidade e a febre pegou país afora.

Claro que, a esta altura, minha interlocutora deve estar se perguntando qual a origem da palavra banana. Ela vem do Árabe banana, “dedo”, devido à sua forma.

E agora me antecipo ensinando-lhe a origem de sorvete. Ela vem do Persa sharbat, “bebida com suco de fruta, açúcar e gelo”.

Deixe-me ver… Um dos sabores de sorvete que você vai colocar é chocolate, não? Este vem do Náhuatl –  que era o idioma dos Astecas  – xocolatl,  formado por xococ, “amargo”, mais atl, “água”.

O espanto em seus olhos demonstra que você não entende o que isso tem a ver com o seu conhecido chocolate. É que originalmente ele não era nem doce nem sólido, era uma bebida e com sabor bem amargo. Quando ele foi levado para a Europa é que foram feitas as alterações que hoje o caracterizam.

Vejamos, o próximo sabor é de baunilha? Esta palavrinha nos veio do Espanhol vainilla, diminutivo de vaina, “bainha”, do Latim vagina, “bainha”. Isso porque os grãos dos quais se retira o extrato são contidos em longas vagens.

Aliás, desde já informo que a baunilha é a segunda especiaria mais cara do mundo, o que infelizmente me deixa um tantinho duvidosa da legitimidade do que me vai ser servido. Ela precisa ser polinizada à mão, o que encarece em muito a mão-de-obra.

Bem, o terceiro sorvete vejo que é de creme, que veio de uma palavra latina de origem gaulesa, cramum, misturada com o Latim chrisma, outra palavra que eles tinham para “unguento”; e esta veio do Grego khrisma, de mesmo significado.

Mesmo embasbacada perante a torrente de cultura que emana de meus lábios, esta moça continua montando o prato solicitado, ela merece encômios.

Falando em prato, essa taça onde estão sendo colocados materiais que me satisfarão a gula vem do Árabe tasa, “taça, vaso raso para beber”.

E esse chantilly que jorra da sua máquina parece ter sido inventado no Castelo de Chantilly, na França, palavra que derivou do Latim medieval chantileium, uma alteração do nome próprio Cantilius, que imagino que tenha sido um habitante do local.

A espécie de biscoitinho que se coloca sobre o ponto mais alto desse amontoado de calorias, qual bandeira de alpinista após um glorioso feito de escalada, se chama em Inglês wafer. Assim mesmo, com um “F” só. Ela deriva do Holandês wafel, “favo de mel”, pois as formas para assar a massinha apresentavam um padrão em treliça como as casinhas das abelhinhas.

Ah, a calda! Não podia faltar. Seu nome vem do Latim calidus, “quente”.

E, representando o alpinista de que falei há pouco, eis a cereja. Ela vem do Latim cerisia, tanto o nome do fruto quanto o da árvore, do Grego kérasos, “cerejeira”.

Talvez não lhe tenham ensinado isso no Maternal, mas devo dizer que muitas das cerejas em compota vendidas às lancherias para enfeitar suas lindas sobremesas não são cerejas. São, na verdade, bolotinhas feitas com mamão.

O material deste é retirado sob essa forma com boleadeiras, recebe um tratamento para retirar o sabor próprio e depois se lhe acrescenta um corante vermelho e um flavorizante de cereja. Para conferir, basta olhar bem: a cereja verdadeira apresenta um pequeno oco onde havia as sementinhas e a imitação nada tem.

Hum, parece que é este o caso aqui. Bem, isso não é importante, a falsa cereja não faz mal algum à saúde. Só à moral de quem vende.

Não, minha cara, prefiro sem granulado. Embora bonitos e coloridos, esses fragmentos em forma de bactéria me parecem pouco imaginativos. Imagino que a senhorinha saiba que essa palavra vem de grânulo, “pequeno grão”, do Latim granus, “grão”.

Muito, muito bem! Agora o prato completo me é servido com um guardanapo, que se chama assim a partir do Francês garde-nappe, “proteção de toalha-de-mesa”. Eles foram inventados para evitar que os convidados a usassem para limpar mãos e bocas à mesa, com o emporcalhamento que se pode imaginar.

Nappe era como os franceses chamavam as toalhas-de-mesa, do Latim mappa, “tecido”.

E eu não poderia me servir sem esta colher. O nome dela, aliás, vem do Francês cuillère, do Latim cochlear, do Grego kokhliárion, de kokhlios, “caracol”, pela sua forma côncava.

Muito agradecida desde já, prezada, gentil e eficiente senhorinha que agora está retirando o avental, descabelando-se, pulando sobre o balcão e fugindo aos gritos como se os demônios a perseguissem… Ué, o que será que houve com ela?

Parecia tão interessada em nossa conversa!

Bem, isso não me impedirá de comer a sobremesa que ela fez.

 

Resposta:

BARBA

 

Quando eu tinha us 15 anos, estava visitando meu avô e ele disse:

– Rapaz, você nunca foi mesmo muito bonito, mas agora que sua barba está começando a crescer você parece uma cruza de cacto com mendigo.

Nós tínhamos um jeito de provocar um ao outro que depois vim a perceber que era uma maneira de disfarçar o tanto de afeição que fluía entre nós.

– Se sou feio, deve ser porque herdei os seus genes, Vô.

– Devo reconhecer que a resposta foi boa. Não vou dar a sova que você merece porque vou passar os próximos minutos tentando colocar mais ensinamentos dentro desse seu crânio duro e oco.

Olhe aqui: por mais que seja moda, as moças acabam preferindo um rosto mais liso para acariciar. Portanto, hoje vou-lhe ensinar coisas sobre barba e seus cuidados. Sobre a sua Etimologia, claro.

– Vai começar me dizendo de onde vem barba, aposto.

– Seus eventuais vislumbres de inteligência me surpreendem. Se continuar assim, em breve vai aprender a tabuada de somar.

Mas está certo, vamos começar pala palavra barba, que vem do Latim barba, de mesmo significado. E que veio, ao que parece, do Sânscrito bhar-, “portar”, referindo-se ao que homem  leva no rosto.

A barba tem um significado cultural muito importante. Havia uma expressão, “No fio da barba”, que queria dizer que um negócio era feito com toda a confiança; dizem que uma das partes, se fosse homem e barbudo, claro, para afiançar que iria cumprir à rica o combinado, entregava um fio de sua barba para a outra, dispensando assim contratos escritos e outras formalidades.

– É mesmo Vô? O senhor já fez isso?

– Eu nasci um tantinho depois dessa época, meu caro. E mesmo que vivesse nela, exigiria meus negócios sacramentados de forma mais legal.

Mas deixe-me continuar: você está deixando de ser imberbe e…

– Essa não, Vô, nunca fui isso!

– Foi, sim, desde que nasceu. Essa palavra quer dizer “sem barba” e vem do Latim in, “não”, mais barba.

– Ah, bem.

– Enfim, agora que você está com pelos no rosto vai começar a usar equipamentos para retirá-los, pois criança barbuda é coisa muito feia. No início você talvez use o barbeador elétrico, do Latim científico electricus, “o que lembra o âmbar”.

– E o que é o âmbar? Como foi que entrou na história?

– É uma resina fóssil, vem do Grego elektron, “âmbar”. Ao ser esfregada, ela gera eletricidade estática. Mas o que eu quero dizer é que, mais tarde, você vai acabar usando algum aparelho com fio, para ficar melhor e porque, por estranho que pareça, irrita menos a pele do que o elétrico.

– Como assim?

– Ouça a voz da experiência, rapaz. Agora estamos lidando com Etimologia, outro dia eu explico o resto.

Enfim, um dia você vai usar algo que tenha o efeito de uma navalha, que deriva do Latim novacula, “instrumento afiado para raspar pelos”.

As navalhas propriamente ditas são muito raras atualmente. Acabaram sendo substituídas pelos aparelhos de barbear de segurança, dos quais uma marca foi tão comum que virou substantivo em Português, a gilete. Ela vem da marca americana Gillette, o nome do inventor que em 1903 lançou o aparelho com lâminas de barbear descartáveis.

– Muito bem, e esse nome veio daonde?

– Entrou para o Inglês a partir do Francês Giles, derivado do Grego aigidion, “filhote da cabra”.

– E o que é que o idioma inglês tem a ver com o francês?

– Muitíssimo. Em 1066, os normandos, gente do norte da França descendente de viquingues, invadiram a Inglaterra, mataram o seu rei e tomaram conta do país. Trouxeram consigo o idioma francês, que acabou fazendo uma grande contribuição para a língua dos habitantes locais. Por séculos os governantes da Inglaterra falaram Francês.

Mas, voltando ao nosso assunto, as lâminas, do Latim lamina, “folha, camada, prato, peça achatada de metal” que ele inventou se tornaram um sucesso em pouco tempo.

Você vai usar, quando chegar a hora, um creme de barbear. Esse nome veio de uma palavra latina de origem gaulesa, cramum, misturada com o Latim chrisma, outra palavra que eles tinham para unguento; e esta veio do Grego khrisma, de mesmo significado.

Ele vai fazer uma espuma do Latim spuma, de mesmo significado, de spuere, “ejetar, vomitar, lançar”.

E depois você vai passar uma loção no rosto, que é para ficar cheirosinho e irresistível que nem eu. Loção vem do Latim lotio, “ato de lavar”, de lavare, “lavar”.

Mas lembre-se de cuidar muito para não se fazer um corte. Esta palavra vem do Latim curtare, “cortar”, e faz um desastre no rosto da gente, além de doer.

Se ocorrer um ferimento, do Latim ferire, “golpear, bater”, faça rapidamente compressão com um pano limpo.

Bem, dou por encerrada a nossa palestra. Espero que você se lembre do que aprendeu e pelo menos não se apresente com o rosto lanhado de brigar com sua barba.

 

Resposta:

FORMAS MEDICAMENTOSAS

 

São numerosas as formas que a Farmacologia usa para introduzir no corpo humano substâncias para tratar as doenças. Umas através da pele, outras de engolir, outras doloridas – mas que têm que ser usadas para evitar um mal maior.

A seguir, as origens dos misteriosos nomes usados para elas.

POMADA – veio do Italiano pomata, de pomo, “maçã”, do Latim pomum, “fruta”, porque uma das primeiras receitas incluía maçãs esmagadas.

UNGUENTO – do Latim unguentum, “óleo perfumado, essência”, de unguere, “untar, ungir”.

Na Roma antiga, chamava-se unguentarius o sujeito que trabalhava com esse material, o que hoje diríamos “perfumista”.

CREME – veio de uma palavra latina de origem gaulesa, cramum, misturada com o Latim chrisma, outra palavra que eles tinham para ungüento, essa vinda do Grego khrisma, de mesmo significado.

LOÇÃO – do Latim lotio, “ato de lavar”, de lotus, forma popular de lautus, particípio passado de lavere, “limpar, lavar”.

COLÍRIO – do Latim collyrium, do Grego kollyrion, “emplastro, ungüento para os olhos”.

EMPLASTRO – do Latim emplastrum, “medicamento que permanece sobre a pele”, do Grego emplastron, derivado de plassein, “modelar, dar forma”.

CATAPLASMA – do Grego katáplasma, de kataplassein, “cobrir com gesso”, formado por kata-, “contra, encostado em”, mais plassein.

 SPRAY – é uma palavra inglesa, mas é tão usada que vamos citá-la igualmente. Vem do Germânico antigo spraewjanan, “espalhar”, de uma fonte Indo-Europeia sper-, “espalhar”.

EMBROCAÇÃO – poucos conhecem esta palavra, confessem. Ela designa o ato de passar medicação líquida na pele, como se esta estivesse sendo pintada, e deriva do Grego embrokhe, “loção, remédio de passar na pele”.

INJEÇÃO – ui, dá medo! Este nome vem do Latim injectio, de injicere, “lançar em”, formado por in-, “em”, mais jacere, “atirar, lançar”.

ESCARIFICAÇÃO – algumas vacinas são feitas por este método de raspar a pele em alguns pontos e depois pingar o líquido com os vírus desativados no local.

A palavra deriva do verbo latino scarificare, “abrir por meio de raspagem”, do Grego skariphasthai, “riscar um contorno, esboçar”, de skariphos, “estilo, varinha de escrever”.

COMPRIMIDO – é o particípio passado de “comprimir”, já que eles são feitos apertando-se o pó onde estão misturados o veículo e a substância medicamentosa.

E comprimir vem do Latim comprimere, “apertar, comprimir”, formado por com-, “junto”, mais premere, “apertar”.

PÍLULA – do Latim pilula, “objeto pequeno e arredondado”, diminutivo de pila, “bola, bolota”.

DRÁGEA – do Francês dragée, “confeito com nozes, amêndoas e pistache recoberto de açúcar”, originalmente “mistura de grãos variados para forragem animal”.

CÁPSULA – do Latim capsula, diminutivo de capsa, “caixa, baú, arca”.

PASTILHA – do Espanhol pastilla, diminutivo de pasta, “massa”.

XAROPE – do Italiano sciroppo, do Árabe sharab, “bebida, vinho”.

GOTAS – do Latim gutta, “gota”.

Resposta:

Formas Medicamentosas

Existem diversos modos de fazermos uma substância agir em nosso corpo.  Conforme o local a ser atingido, podemos esfregar o medicamento, injetá-lo, engolir… Vamos ver quais as origens das palavras que as nomeiam.

PÍLULA – do Latim pilula, “bolinha”, diminutivo de pila, “bola”.  Originalmente elas eram feitas à mão, com as substâncias sendo misturadas na palma e preparadas como se fossem confeitos. Lá pelo século XVII havia uma pílula que não se gastava nunca. Era uma bolinha de antimônio que era ingerida e provocava uma irritação intestinal daquelas. Depois de fazer efeito, era recuperada, lavada e guardada para usar de novo.

COMPRIMIDO – do Latim comprimere, “apertar junto”, formado por com-, “junto”, mais premere, “apertar”.  Esta apresentação farmacológica consta da substância ativa mais um outro material aglutinante, geralmente amido, tornados em uma só peça por compressão.

CÁPSULA – vem do Latim capsula, diminutivo de capsa, “caixa”. Aqui um fármaco em pó ou grânulos é contido numa pequena “caixa” oblonga, cujas paredes são feitas de gelatina que se dissolve prontamente nos líquidos do trato digestivo.

ELIXIR – do Latim medieval elixir, “pedra filosofal”, que tanto podia transmutar metais como servir para curar qualquer doença;  provavelmente veio do Árabe al-iksir, derivado do Grego xerion, “pó para curar feridas”, de xeros, “seco”.

SOLUÇÃO – do Latim solutio, “afrouxamento, ato de soltar”, de solvere, “afrouxar, soltar, desligar”. É uma mistura de dois líquidos, como o comprimido é uma mistura de dois pós.

CREME – para passar na pele, em princípio sem lipídios na composição. Relaciona-se ao Latim chrisma, “líquido para untar”, do Grego khryein, “untar, ungir”.

Pelo aspecto, o nome creme também se aplicou adiversas apresentações alimentares.

UNGÜENTO – veio do Latim unguentum, “óleo com perfume, essência”, de ungere, “untar, ungir”.  Tem um veículo gorduroso, ao contrário do creme.

GEL – é uma palavra que se começou a usar em 1899, como encurtamento de “gelatina”, que por sua vez deriva do Latim gelare, “tornar frio”.

COLÍRIO – do Latim collirium, do Grego kollyron, “pasta aglutinante”, relacionado com kolla, “cola”.

SORO – Latim, serum, “liquido aquoso”, do Indo-Europeu ser-,  “fluir, correr”.

INJEÇÃO – que medo, ui! Vem do Latim injicere, “lançar em”, formada por in-, “em”, mais jacere, “lançar”. É bem o que a injeção faz: lança uma certa quantidade de líquido no corpo a ser tratado. Pode ser doída, mas muitas vezes é o único jeito de se obter certos resultados.

Resposta:

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