Palavra corte

BARBA

 

Quando eu tinha us 15 anos, estava visitando meu avô e ele disse:

– Rapaz, você nunca foi mesmo muito bonito, mas agora que sua barba está começando a crescer você parece uma cruza de cacto com mendigo.

Nós tínhamos um jeito de provocar um ao outro que depois vim a perceber que era uma maneira de disfarçar o tanto de afeição que fluía entre nós.

– Se sou feio, deve ser porque herdei os seus genes, Vô.

– Devo reconhecer que a resposta foi boa. Não vou dar a sova que você merece porque vou passar os próximos minutos tentando colocar mais ensinamentos dentro desse seu crânio duro e oco.

Olhe aqui: por mais que seja moda, as moças acabam preferindo um rosto mais liso para acariciar. Portanto, hoje vou-lhe ensinar coisas sobre barba e seus cuidados. Sobre a sua Etimologia, claro.

– Vai começar me dizendo de onde vem barba, aposto.

– Seus eventuais vislumbres de inteligência me surpreendem. Se continuar assim, em breve vai aprender a tabuada de somar.

Mas está certo, vamos começar pala palavra barba, que vem do Latim barba, de mesmo significado. E que veio, ao que parece, do Sânscrito bhar-, “portar”, referindo-se ao que homem  leva no rosto.

A barba tem um significado cultural muito importante. Havia uma expressão, “No fio da barba”, que queria dizer que um negócio era feito com toda a confiança; dizem que uma das partes, se fosse homem e barbudo, claro, para afiançar que iria cumprir à rica o combinado, entregava um fio de sua barba para a outra, dispensando assim contratos escritos e outras formalidades.

– É mesmo Vô? O senhor já fez isso?

– Eu nasci um tantinho depois dessa época, meu caro. E mesmo que vivesse nela, exigiria meus negócios sacramentados de forma mais legal.

Mas deixe-me continuar: você está deixando de ser imberbe e…

– Essa não, Vô, nunca fui isso!

– Foi, sim, desde que nasceu. Essa palavra quer dizer “sem barba” e vem do Latim in, “não”, mais barba.

– Ah, bem.

– Enfim, agora que você está com pelos no rosto vai começar a usar equipamentos para retirá-los, pois criança barbuda é coisa muito feia. No início você talvez use o barbeador elétrico, do Latim científico electricus, “o que lembra o âmbar”.

– E o que é o âmbar? Como foi que entrou na história?

– É uma resina fóssil, vem do Grego elektron, “âmbar”. Ao ser esfregada, ela gera eletricidade estática. Mas o que eu quero dizer é que, mais tarde, você vai acabar usando algum aparelho com fio, para ficar melhor e porque, por estranho que pareça, irrita menos a pele do que o elétrico.

– Como assim?

– Ouça a voz da experiência, rapaz. Agora estamos lidando com Etimologia, outro dia eu explico o resto.

Enfim, um dia você vai usar algo que tenha o efeito de uma navalha, que deriva do Latim novacula, “instrumento afiado para raspar pelos”.

As navalhas propriamente ditas são muito raras atualmente. Acabaram sendo substituídas pelos aparelhos de barbear de segurança, dos quais uma marca foi tão comum que virou substantivo em Português, a gilete. Ela vem da marca americana Gillette, o nome do inventor que em 1903 lançou o aparelho com lâminas de barbear descartáveis.

– Muito bem, e esse nome veio daonde?

– Entrou para o Inglês a partir do Francês Giles, derivado do Grego aigidion, “filhote da cabra”.

– E o que é que o idioma inglês tem a ver com o francês?

– Muitíssimo. Em 1066, os normandos, gente do norte da França descendente de viquingues, invadiram a Inglaterra, mataram o seu rei e tomaram conta do país. Trouxeram consigo o idioma francês, que acabou fazendo uma grande contribuição para a língua dos habitantes locais. Por séculos os governantes da Inglaterra falaram Francês.

Mas, voltando ao nosso assunto, as lâminas, do Latim lamina, “folha, camada, prato, peça achatada de metal” que ele inventou se tornaram um sucesso em pouco tempo.

Você vai usar, quando chegar a hora, um creme de barbear. Esse nome veio de uma palavra latina de origem gaulesa, cramum, misturada com o Latim chrisma, outra palavra que eles tinham para unguento; e esta veio do Grego khrisma, de mesmo significado.

Ele vai fazer uma espuma do Latim spuma, de mesmo significado, de spuere, “ejetar, vomitar, lançar”.

E depois você vai passar uma loção no rosto, que é para ficar cheirosinho e irresistível que nem eu. Loção vem do Latim lotio, “ato de lavar”, de lavare, “lavar”.

Mas lembre-se de cuidar muito para não se fazer um corte. Esta palavra vem do Latim curtare, “cortar”, e faz um desastre no rosto da gente, além de doer.

Se ocorrer um ferimento, do Latim ferire, “golpear, bater”, faça rapidamente compressão com um pano limpo.

Bem, dou por encerrada a nossa palestra. Espero que você se lembre do que aprendeu e pelo menos não se apresente com o rosto lanhado de brigar com sua barba.

 

Resposta:

CURATIVOS

Ao longo da vida a gente sempre acaba se machucando, a maior parte das vezes sem maiores consequências. Mas algumas dessas vezes  requerem uma atenção pronta como um curativo para evitar maiores complicações. Lidaremos então com as origens de palavras relacionadas.

 

 

CURATIVO  –  do Latim curare, “cuidar, tomar conta de”.

 

GAZE  –  muitas vezes é colocada sobre um corte, por exemplo, para evitar que ele se contamine. Viria do Persa gaz, “vara”, medida de comprimento que servia para tecidos também.

 

ATADURA –  muitas vezes é elástica e pode ser usada sobre a gaze, para mantê-la no lugar. Naturalmente vem de atar, do Latim atare, “unir, juntar, ligar”.

 

ESPARADRAPO  –  entre outras coisas, usa-se para manter a compressa no lugar.

Vem do Francês sparadrap, do Latim sparadrappum. Sua origem não está definida, mas parece que tem a ver com o Italiano drappo, “pano, trapo”. Existe uma história não confirmada que diz que na Idade Média um soldado ferido, voltando para suas linhas, gritava para os outros  “- Spara il drappo!”, ou seja, “-Corta o pano!”, para fazer um curativo.

Em Portugal a palavra se aplica ao curativo com substância medicamentosa aplicado à ferida; no Brasil, a palavra indica uma fita adesiva que se pode usar sobre a pele.

 

COMPRESSA  –   é do Latim com-, “junto”, mais  premere, “apertar, pressionar”. Muito útil para estancar sangramentos.

 

BAND-AID  –  não estamos fazendo propaganda, mas o produto tem tão longa tradição e uso que muitos nem sonham que ele tem certa história.

Ele foi inventado em 1920 por um sujeito cuja esposa vivia se queimando e se cortando na cozinha; desta forma ela podia tratar sozinha de seus machucados.

Na verdade, não sabemos se ele foi feito por carinho ou para o marido da desastrada ser deixado em paz…

Seja como for, ele o mostrou para sua empresa, a Johnson & Johnson, que tratou de o colocar em produção. O inventor teve uma carreira bem-sucedida na empresa.

 

TIPOIA  –  do Tupi ti’poya, “rede de dormir”.

 

SABÃO  –  o que é que este tem a ver com um curativo? Muito. Sempre que for possível, um machucado na pele deve ser lavado, mesmo que seja com sabão. Esta palavra veio do Latim sapo, “sabão”, que veio de uma palavra germânica saipo-, “material para lavar ou tingir o cabelo”.

 

CORTE  –  como causa para curativos, os cortes são frequentes. Sua origem é o Latim curtare, “cortar”.

 

LACERAÇÃO  –  é um machucado que não segue uma linha como no caso do dorte; os tecidos são rompidos irregularmente. Do Latim lacerare, “romper, machucar, fazer em pedaços”.

 

MACHUCAR  –  do Espanhol machacar, “bater, golpear”, do Latim maculus, “martelo pequeno”.

 

FERIMENTO  –  do Latim ferire, “golpear, machucar”.

 

URGÊNCIA  –  caracteriza-se quando há a necessidade de uma ação sem perda de tempo. Um corte com a borda de um papel no dedo exige que se tome uma providência logo, para aliviar o sangramento e evitar uma infecção secundária, mas o risco não é dos maiores.

Vem do Latim urgentia, de urgere, “apertar, comprimir, impelir”.

 

EMERGÊNCIA  –  é uma ocorrência que entra num nível de necessidade mais elevado, exigindo que se tome a ação imediata.

É do Latim emergens, de emergere, “trazer à luz, vir à frente, erguer-se”, de ex-, “fora”, mais mergere, “afundar, mergulhar”. A  imagem corresponde à de uma criatura perigosa saindo da água para atacar.

Resposta:

ORIGEM DA PALAVRA CORTE

Palavras: cortar , corte

Prezados, estamos fazendo uma reportagem traçando paralelo entre o corte físico, que provoca dor e sofrimento, ao “corte”, à exclusão de um grupo, no caso, a seleção brasileira.
Queremos estabelecer uma relação entre os termos, usando sua origem etimológica como base.

Resposta:

Corte vem de cortar, do Latim CURTARE, “reduzir, tornar menor, eliminar”, de CURTUS, “reduzido, de menor dimensão”.

Não há muito paralelo a se fazer, trata-se exatamente da mesma palavra.

Nobres

Senhor, guardai-me dos meus arroubos de entusiasmo! Por que é que eu fui propor um dia para fazer uma corte medieval de fantasia aqui na aulinha, para passar noções de História?

Agora olha aí, ninguém quer ser menos que ser rei e rainha. Alguns vieram antecipadamente com as fantasias.

Dez minutos depois de começar a aulinha, nenhuma estava inteira. Ou porque a pestinha estava correndo e tropeçando em tudo ou porque os outros rasgaram. Resultado: choradeiras intermináveis.

A da Bebel a Patty rasgou; a da Patty, a Sheila arrancou; a da Sheila, a Bebel e a Deli descosturaram, tudo de inveja.

Outras foram rasgadas não por inveja mas por safadeza, pelo Joãozinho. Só a Maria Tereza, naturalmente, está sentadinha no canto, insuportavelmente bem-comportada, mas o resto corre e pula como se os demônios estivessem aqui. Ai, quem dera!

Crianças, crianças! Sentem-se em roda agora que a Tia Odete vai contar umas coisas sobre os títulos antigos de nobreza. Isso se a Valzinha tiver a bondade de parar de falar um pouco para que a gente possa pensar.

Quando se fala em cortes antigas, não se imagina que essa palavra se originou do lado de fora dos palácios. Ela vem do Latim cors (antigamente cohors), “pátio cercado”, denominação que se estendeu para as pessoas ali reunidas e depois passou para “os que se reúnem em torno da autoridade”.

E essa palavra se formava por com, “junto”, mais a base hort-, relacionada com hortus, “jardim, lugar plantado”.

Os lugares onde moravam as autoridades tinham que ser especiais; assim que pôde, a humanidade começou a fazer palácios para elas viverem.

Esta palavra vem do Latim palatium, “morada oficial de um soberano”, que era o nome da residência de César Augusto, por ter sido erguida no Mons Palatinus, “Monte Palatino”, uma das sete colinas de Roma antiga.

Por sua vez, a colina recebeu este nome da palavra palus, “estaca”, dando a noção de um lugar cercado.

Pois bem. Então já localizamos a corte, em sua maioria composta por um bando de puxa-sacos, dentro do seu palácio.

Hein? Se eles poderiam estar também num castelo? Muito bem, poderiam, sim. A diferença é que este nome se aplica a um prédio defendido com muralhas. Ele vem do Latim castellum, “vila fortificada”, diminutivo de castrum, “acampamento militar romano, forte”.

Mas, dizia eu, estamos vendo uma reunião da nobreza. O título mais alto na nobreza européia foi o de imperador.

Esta palavra vem do Latim imperator, “chefe, comandante”, um título inicialmente dado a um general romano vitorioso, do verbo imperare, “comandar”, formado por im-, “em”, mais parare, “ordenar, preparar”.

Houve muito mais reis que imperadores, no entanto. Tal palavra vem do Latim rex, “rei”, derivada do Indo-Europeu reg-, “mover-se em linha reta”, daí “dirigir, guiar, comandar”.

Essa raiz gerou também a palavra rajá, “soberano hindu”.

Sim, Valzinha? Você quer saber como era rainha em Latim? Era regina, por quê?

Aann, você vai passar a chamar assim a filha da síndica porque a sua mãe diz que ela é a rainha da sem-vergonhice? Talvez sua mãe esteja enganada… Hum, sempre anda com roupas de grife e não trabalha, só sai com um senhor diferente a cada noite? Está certo, problema delas, mas isso não é assunto para a gente aqui.

Passando muito rapidamente para outra palavra, temos soberano, que vem do Latim superanus, “chefe, comandante”, derivado de super, “acima”. Ele era o que “ficava acima” dos outros.

Há uma palavra que só se usa em relação aos senhores feudais, suserano, “chefe, soberano”. Ela vem do Francês suzerain, derivado do Latim sursum, “sobre, para cima”, contração de subversum, “de baixo para cima”, formado por sub, “abaixo, sob”, mais versum, “virado”.

Tá, Ledinha, eu já ia chegar lá. Quando o rei e a rainha casavam podiam não ser felizes para todo o sempre como nas histórias de fadas, mas que se enchiam de principezinhos e princesinhas, se enchiam.

Essa palavra vem do Latim princeps, “o primeiro, o que vai à frente”, de primus mais a raiz de capere, “tomar, pegar”. Era “o que ia à frente” nas campanhas militares. Pelo menos em tese…

Em Espanha e Portugal há só um príncipe de cada vez, ao contrário dos outros países europeus, onde eles abundavam. Na Península Ibérica, este título estava reservado ao herdeiro do trono. Seus irmãos eram infantes, do Latim in-, “não”, mais fari, “falar”.

Não, Valzinha, não chore por eles. Não quer dizer que eles fossem proibidos de falar (que horror para algumas pessoas, não?), apenas o título era esse porque, em relação ao trono, eles eram desprovidos de poder como se fossem crianças.

Sim, Zorzinho, claro está que o sonho de muito infante era que o príncipe sumisse do caminho. Antes que você possa inventar muita história, vou responder a outra pergunta ali. Hein?

Calma, Danielzinho, já vou explicar a origem dos nomes dos outros cargos.

Para começar, o mais elevado deles depois do rei era o duque. Este nomezinho vem do Latim dux, “o que guia, líder”, que veio do Indo-Europeu deuk-, “guiar”.

Abaixo dele vem o marquês. Essa palavra vem do Francês arcaico marchi, “comandante de uma área de fronteira”, do Latim marca, “fronteira, território delimitante”. Inicialmente era o cargo de alguém que chefiava áreas de terra junto a outros países, coisa sempre mais complicada que no interior. Depois passou a ser apenas um título de nobreza.

Agora vem o conde, do Latim comes, “servidor, companheiro”, formado por com-, “junto, com”, mais ire, “ir”. Ou seja, era o que “ia junto” com o chefe. E que muitas vezes descolava um titulozinho, porque sabia agradar ou porque era verdadeiramente útil.

Depois dele está o visconde, de vicecomes, que começa por vice, “o que está no lugar de”. Era uma pessoa de confiança do Sr. Conde, inicialmente.

E aí vem o barão, do Frâncico baro, “homem livre”.

E, claro, não poderiam faltar os cavaleiros, cujo nome vem de caballus, “cavalo”, o simpático quadrúpede que os levava à batalha.

Os guerreiros montados sempre foram uma força de ataque especialmente temida, pela sua velocidade e força. Nas suas hostes havia mais possibilidade de um soldado se destacar por feitos brilhantes.

Equipar-se para ir à guerra montado também era consideravelmente mais caro, numa época em que nem isso os soberanos providenciavam; portanto, eles pertenciam a famílias de posses.

Sim, meninas, pode ser que um cavaleiro de armadura brilhante chegue para levar vocês dos seus palácios para instalar uma criação de lindos principezinhos; mas, se quiserem um conselho, estudem e parem de pensar em babaquices do estilo. Viu, Bebel?

Podem guardar seus materiais e sair. Façam o favor de avisar em casa que o “Dia da Fantasia de Nobreza” está suspenso porque recém hoje me lembrei que já foi proclamada a República neste país.

Resposta:

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