Palavra discordar

ACHANDO RUIM

Nem sempre o que acontece ao nosso redor é de nosso agrado. Para expressar esse nosso sentimento e até para evitar que passemos a uma ação pouco educada, nosso idioma tem várias palavras. Vamos pesquisar a origem de algumas.

 

DESCONTENTAMENTO – forma-se de dis-, negativo ou indicativo de oposição, mais o Latim contentus, “contente, satisfeito, agradado”.

E esta palavra veio de continere, “segurar junto, rodear”, formada por com-, “junto”, mais tenere, “agarrar, segurar”.

 

DESAPROVAÇÃO  –  usa-se o dis- citado logo acima e se acrescenta o “aprovar”, do latim approbare, “considerar bom, tomar como bom”, de ad, “a”, mais probare, “experimentar, testar algo”, derivado de probus, “honesto, genuíno”.

 

DISCREPAR – vem do Latim discrepare, “soar diferente, discordar”, de dis- mais o verbo crepare, “chacoalhar, quebrar, fazer ruído”. Os cidadãos romanos, quando a banda de rock do filho do vizinho estava fazendo muito barulho na garagem das bigas, discrepavam.

Então eles increpavam os responsáveis, ou seja, repreendiam-nos, censuravam-nos. Este verbo vem de in-, outro prefixo negativo, mais crepare. O seu significado básico de “fazer barulho, fazer-se ouvir” passou a significar “repreender, acusar”.

 

REPREENDER – do Latim reprehendere, “restringir, imobilizar”, literalmente “puxar de volta”, de re-, “para trás”, mais prehendere, “agarrar firme”.

Esta, por sua vez, é formada de prae-, “antes”, mais hendere, “subir agarrado a algo”, derivado de hedera, “hera”, a planta que sobre pelos muros e os deixa tão bonitos enquanto se dedica a estragar o seu reboco.

 

OBJETAR – do Latim objectare, “citar como motivo de desaprovação”, um derivado de obicere, “apresentar, opor, colocar no caminho de”, formado por ob-, “à frente de”, mais jacere, “atirar, jogar”.

 

DIVERGIR – do Latim divergere, “ir em direções diferentes”, de dis-, mais vergere, “torcer, dobrar”.  Quando cada um toma um lado numa discussão, houve uma divergência.

 

DISSENTIR – de dis- mais sentire, “sentir, perceber”. Se uma pessoa sente diferente de outra, elas não poderão se acertar em algum assunto importante.

 

CRITICAR – do Latim criticus, “juiz, crítico literário”, do Grego kritikos, “pessoa com capacidade de fazer julgamentos”, de krinein, “separar, decidir, julgar”.

Claro que nem todo crítico tem condições de julgar com equidade. É por isso que criticar é tão fácil.

 

QUEIXAR-SE – vem do Latim quassare, “sacudir, mover, abalar”. A ideia subjacente é a de uma pessoa manifestar ruidosamente sua irritação contra algo que a incomoda.

 

OPOR-SE – do Latim opponere, “colocar contra”, formada por ob-, “contra, no caminho de”, mais ponere, “botar, colocar”. Quando um partido político deixa a oposição, começa a se queixar das pedras que os outros colocam em seu caminho.

 

REFUTAR – veio do Latim refutare, “repelir, levar de volta, reprimir”, de re-, mais futare, “bater, golpear”.  Aviso: nada a ver com “futebol”.

 

NEGAR – do latim negare, “recusar, dizer não”, de nec, uma forma de “não”.

Aliás, é interessante saber que o idioma latino não tinha uma palavra para “sim”. Mas tinha mais de uma para “não”, o que mostra que é sempre mais fácil recusar do que concordar.

 

DISCORDAR – do Latim discordia, “discordância”, que se forma por dis- mais cor, “coração”. Note-se como ficou expressiva a palavra: se dois corações não estão juntos, não se chega a uma conclusão.

 

DISSONAR – de dissonare, “emitir som diferente”, de dis- mais sonare, “emitir som”, de sonus, “som, ruído, música”.

Esta vai ser desagradável aos ouvidos se suas notas não mostrarem  harmonia.

 

DESAVIR – de dis- mais “avir”, um verbo meio esquecido mas que ainda faz parte de nosso idioma. Este deriva do Latim advenire, “colocar em harmonia, conciliar, adaptar”, que se forma por ad-, “a”, mais venire, “vir”.

 

 

Resposta:

Cor

Meu avô me recebeu em seu gabinete cheio de livros, estofados em couro e conhecimentos. Da altura dos meus doze anos, eu estava indignado com as exigências do estudo:

– Eles tiveram a coragem de exigir que eu aprenda umas coisas de cor! Onde já se viu?

O cavalheiro magro e com curta barba branca riu e me disse que isso fazia parte do estudo, que sempre haveria algo a saber de memória, e continuou:

– Sua primeira e emburrada frase, por exemplo, me fez lembrar de algo. Sabe a origem da expressão de cor?

– Não, mas tenho a impressão que isso vai terminar já-já  –  e me sentei no banco de couro onde eu aprendia tanto com o velho.

– Pois vem do Latim cor, “coração”. Em épocas antigas, ele era considerado, entre outras coisas, a sede do conhecimento no corpo humano.

– Que burros, Vô! Eles não tinham descoberto o cérebro ainda?

– Há muito tempo, desde que pela primeira vez ocorreu a um homem das cavernas abrir o crânio de outro para ver o que tinha dentro. Mas não sabiam para que servia aquele material cinzento e desestruturado, além de dar dor de cabeça.

Essa noção era tão forte que ficou também no Inglês, onde to know by heart, literalmente “saber pelo coração”, equivale ao nosso “de cor”.

– Daí o verbo “decorar” também, Vô?

– Sim. Eu sempre disse que você é mais inteligente do que parece.  Mas achei graça em perceber que, naquela sua frase, apareceu outra palavra com a mesma origem: coragem.

Ela vem de coraticum, derivado de cor, também pela noção de que o órgão era a sede desta qualidade menos comum do que se pensa.

– Agora me lembro de ter visto um filme com aquele Ricardo Coração de Leão.

– Isso mesmo, seu apelido vinha de sua bravura. Mas parece que, fora isso, ele não tinha muito mais que prestasse, pois era conhecido por se esquecer das promessas e tratos.

Mas do Latim cor também veio a palavra cordial, significando “referente ao coração, ao afeto”. Assim, a cordialidade é algo que deve reinar entre as pessoas numa reunião, embora nem sempre aconteça.

Agora se usa pouco em nosso idioma, mas cordial também tem outro sentido: o de “alimento ou bebida usado para estimular o coração”.

Farmacologicamente isso não tem fundo de verdade; na realidade, era apenas uma desculpa para tomar um trago de álcool fingindo que não era por prazer e sim por imposição da saúde.

– Meio sem-vergonhas, não? Dando desculpas médicas para isso…

– Sem dúvida.

– Deixe ver… E o que corda tem que ver com o assunto?

– Ah, meu neto que deseja ser esperto e não sabe quanta palavra há de rolar pelos seus olhos para ele ter alguma noção mais sólida! Essa palavra nada tem a ver, deriva do Grego khorde, “tripa de animal, corda”.

– Mas não me diga que acordar, aquilo que a gente tem que fazer todos os dias para ir ao colégio tem parentesco!

– Pois tem mesmo. Esse verbo vem de cordatus, “prudente”, que vem de cor. É muito prudente acordar a tempo para ir à aula, ouviu? Ou podem ocorrer danos irreparáveis nas orelhas do aluno teimoso.

E aprenda que o verbo acordar também tem o significado de “combinar, tratar”, provavelmente de ad-, “a, junto”, mais cor.

Outra palavra que vem de cor é, por exemplo, concordar. Forma-se de com-, “junto”, mais cor.

– Ou seja, as pessoas que concordam em algo estão com os “corações juntos” naquele assunto, é isso?

– Perfeito. E as que discordam estão com os corações dis-, isto é, “afastados, fora”.

– Bonito, Vô!

– Eu sei, por isso é que aprendi tanto sobre esse assunto das palavras. Quando a gente aprecia o que está estudando, absorver os conhecimentos fica fácil.

Aprenda de cor essa lição, rapaz. Agora crie coragem e volte a decorar o que for necessário.

Resposta:

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