Palavra insopitável

Sono

– Que é que foi, Ledinha? Ora, vejam só, nosso Soneca está dormindo, para variar. E no chão. Desta vez ele se superou. Acordem-no e façam-no sentar, que ele sabe muito bem dormir sentadinho na sua classe. Ele tem uma longa experiência nisso. E assim ele não se suja.

Como, Artur? De onde vem essa palavra? Bem, então hoje eu vou falar em sono e assemelhados.

Sono vem do Latim somnus, “sono”, do Indo-Europeu swep-, “dormir”. De sono se fez o apelido do Daniel, Soneca, um diminutivo. Quem não gosta de tirar uma soneca depois do almoço? No caso dele é antes, durante e depois, mas isso é lá com ele.

Outro derivado é insônia, do Latim in-, partícula negativa, mais somnium. A pessoa que tem dificuldades para se manter dormindo é insone.

E o sonambulismo vem de somnium mais ambulare, “andar, caminhar”, já que muitas vezes a pessoa caminha dormindo e depois não se lembra. Existem também, e até são mais comuns, os soníloquos, de somnius mais loquere, “falar”. São os que falam durante o sono.

Como é, Val? O marido de sua vizinha foi apanhado por ela em crise de sonambulismo? Bem, não parece nada de mais. Ah, ele estava entrando no quarto de uma parenta dela que estava passando uns dias com eles? Sei, está bem, vamos mudar de assunto. Não, não queremos saber o que foi que a sua vizinha fez com ele.

Como é? E a vizinha, por sua vez, é soníloqua e andou tendo uns sonhos esquisitos com um antigo namorado e disse o nome dele dormindo e arfando – não, também não queremos saber o que o marido fez com ela. Vamos falar noutras coisas.

Uma palavra que também derivou de swep- foi sopor, do Latim sopor, “sono profundo”. Como tal ela é pouco usada em Português, mas o seu derivado soporífico, “aquilo que dá sono”, como alguns remédios e certas aulas e palestras, está em uso.

Estão rindo de que? Parem de bocejar, seus engraçadinhos!!

Outra palavra que vem de sopor é insopitável, querendo dizer “o que não pode ser adormecido”. Parece que o seu vizinho, Val, tinha um desejo insopitável de visitar essa moça de que você falou, a ponto de se meter em encrenca.

Já que eu os mandei parar de bocejar, saibam que esta palavra parece vir de boca, que é o que usamos para isso.

Dormir, por sua vez, é um verbo que vem do Latim dormire, “dormir” mesmo, do Indo-Europeu dre-, “dormir”. Dormitório é um lugar para dormir.

Como, Ledinha? Se dormictório é um lugar onde se faz xixi na cama? Essa palavra não existe, pare de inventar, preste atenção!

Quando estamos com uma perna formigando e meio desobediente porque sentamos de mau jeito e atrapalhamos a circulação, dizemos que ela está dormente. Esta palavra designa também aquelas madeiras atravessadas debaixo dos trilhos do trem, porque elas ficam quietinhas ali, como se estivessem dormindo.

O oposto de dormir e de sono é vigília. Esta palavrinha vem do Latim vigilia, “ato de de velar, de prestar atenção”, de vigil, “acordado, cuidando, vigilante”. Origina-se do Indo-Europeu weg-, “ser forte, ativo”. Esta raiz também originou o Latim velox, “rápido, vivo, veloz”.

Quando a gente dorme à tarde, isso se chama sesta. Esse nome vem do Latim hora sexta, “a sexta hora”. Eles começavam a contar as horas a partir do amanhecer, de modo que a sexta hora se situava pelo meio-dia ou pouco depois, que é a hora em que a gente prefere dar uma dormida para escapar do calor.

Enquanto a gente dorme, surgem os sonhos, palavra que vem do Latim somnium mesmo. Se o sonho não for bom, nós o chamamos de pesadelo, que vem de pesado. É como se a gente sentisse um peso esmagando-nos.

Por exemplo, uma sacrificada e pouco reconhecida professora pode ter sonhos ruins recorrentes em que um grupo de aluninhos muito malcriados se muda para a casa dela e ela tem que cuidar deles para o resto da vida, tanto em casa quanto no serviço. É um peso terrível!

Hein? Se eu conheço alguém que sonhe com isso? Não, não, foi só um exemplo que me ocorreu…

Vamos continuar. Que foi, Robertinho? Você é que vai ensinar agora? Diga então.

Ai, ai, ai. Andou lendo aquelas revistas chutadoras de novo, não? Tá certo, nightmare é “pesadelo” em Inglês. Mas não vem da época em que os camponeses acordavam sonhando que havia uma égua pulando em cima da cama deles, não.

Sim, mare quer dizer “égua”. Sim, Robertinho, ter um sonho desses é ruim. Só que esse mare não é a “égua” moderna, vem de uma palavra do antigo Inglês, mare, que queria dizer “demônio noturno”. Por sua vez ela deriva do Germânico maron, “duende, ser fantástico”. Agora pare de ser teimoso e fique quietinho, tá?

Não, não, Ledinha, sonoro não tem nada que ver com isso que estamos estudando. Essa palavrinha vem do Latim sonus, “ruído, barulho, som”, não somnium.

Quando vejo certas pessoas com pouco entusiasmo pelo estudo, lembro-me de uma situação associada ao sono, que é a preguiça. Isso vem do Latim pigritia, “preguiça”, de piger, “lento, indolente”.

Pois muito bem, agora vocês todos podem ir para casa e ser preguiçosos por lá. Os seus pais que se arranjem. Mas antes acordem o Soneca e expliquem que está na hora de descansar.

Resposta:

Manobras Do Arqui-inimigo

Está ventando muito no pior bairro da cidade. Pelo ar espesso passam pedaços de papel, poeira, esperanças perdidas. São raras as folhas secas; as árvores são escassas. Pelo chão rolam garrafas plásticas, correm os animais da degradação urbana, abrem-se revistas que ninguém vai ler.

Muito poucos são os que se aventuram fora de casa esta noite. Mas, se essas pessoas estiverem com vontade de fazer um lanche, bebericar alguma coisa, conversar com amigos a uma mesa, naturalmente vão pensar em se dirigir à Pizzaria do Porco.

O Porco Garcia é gêmeo do Garcia do Bar; este é assim chamado porque tem um bar algumas quadras mais adiante. Ambos são a cara do Sargento Garcia, da série antiga do Zorro na TV.

A pizzaria deixa a desejar em matéria de higiene (a Fiscalização não se atreve a entrar no bairro), mas prepara produtos muito saborosos.

Algumas pessoas mais céticas dizem que quem gosta é porque não conhece outra coisa, já que todas as pizzarias da cidade se recusam a fazer tele-entrega na região.

Outros dizem que o tempero das pizzas é muito especial, mas que é melhor não indagar como ele é feito. Aliás, segundo elas, é melhor não pensar nisso.

Bem. Seja como for, quem tentar entrar ali esta noite não conseguirá. Só se tiver convite. As portas estão fechadas à chave. Ostentam um cartaz grande, feito com a aba de uma caixa de leite, escrito com letra irregular, que diz:

FEXADO

 

MOTIVO FESTA CAZAMENTO

 

VOLTE OTRO DIA

 

NÃO ENSISTA OU LEVA PORRADA

Só os felizardos que são considerados “da casa” conseguem entrar, mediante apresentação de um convite feito à mão em papel amassado, que reza:

PIZZARIA DO GARCIA CONVIDA PARA A FESTA DO CAZAMENTO DA SUA FILHA MISTINGUETE GARCIA COM PEJOTA PACHECO AS OITO DA NOITE DE SESTAFEIRA EM PONTO FAVOR MOSTRAR DIREITINHO ESTE CONVITE NA ENTRADA E PAGAR AS BEBIDAS NA SAÍDA QUALQUER CONTRIBUISSÃO PARA OS GASTOS DA COMIDA SERÃO BENVINDA.

OBS.: BAIXARIA E DESRESPEITO SERÃO PUNIDOS COM CACETADA.

X-8, o detetive etimológico, naturalmente é um dos convidados. Ele é o único intelectual do bairro e, por isso, considerado indispensável para elevar o nível de uma festa. Ele sendo tão calado e misterioso, as pessoas não se sentem muito à vontade para soltar os instintos mais baixos.

Todos sabem que ele tem mais de três livros – e os leu todos!! Muitas vezes ele é respeitosamente convidado a ajudar quando o pessoal está fazendo palavras cruzadas em mesas regadas a cerveja.

É por isso que X-8 se encontra hoje na festa de casamento. Ele não é muito chegado em festas, ainda mais deste nível, mas acha que é bom para o seu negócio que as pessoas e as palavras o vejam circulando.

Quem se dedica à prestação de serviços etimológicos essenciais como ele tem que aparecer. Pois não há uma porção de cirurgiões plásticos aparecendo nas colunas sociais? Por que ele deixaria por menos?

Ele aprecia a festa ao seu redor.

Porco Garcia está irreconhecível, todo arrumado. Tomou banho.

Normalmente ele se veste com uma calça de abrigo cinza-ratazana, uma camiseta sem mangas amarelada, um par de chinelos de plástico velhos e um avental que parece ser uma camuflagem de pizza.

Hoje ele caprichou: os chinelos são novos; a calça não é, mas foi lavada; em vez da camiseta, ele está usando uma camisa de seda floreada que o irmão lhe emprestou (e que tinha sido retirada de um corretor numérico que estava sem dinheiro para pagar a cerveja no bar).

O avental também foi lavado e estava apenas com as manchas de molho de tomate, mas só aquelas que não saem mesmo.

Em tanta arrumação se destaca o pormenor incongruente da toalha de banho que ele nunca tira da cabeça. Mas hoje é uma toalha limpa, a alegria é geral e ninguém vai se importar mesmo com uma bobagem dessas. Até ajuda a distinguir quem é o Garcia Porco e quem é o Do Bar.

A noiva recebeu seu nome de uma antiga artista francesa cujo nome sempre foi apreciado pelo pai. É muito parecida com este. Só que é baixinha, quase tão alta quanto larga, e não tem barba. No mais, o olhar porcino é o mesmo, a cor negra do cabelo também. Só a inteligência é que não é tanta.

Da mãe dela não se fala nada. Só o que se sabe é que o Porco Garcia, há pouco menos de vinte anos, se instalou com uma pizzaria e uma menina de dois anos naquela loja. De saída ele contratou como garçonetes umas senhoras que tinham tido uma outra ocupação no bairro, de modo que sempre havia quem tomasse conta da menina durante os difíceis anos iniciais.

O noivo, Pejota Pacheco, três anos mais novo do que ela, era uma pessoa apreciada na comunidade. Tinha o dom natural de fazer todos se sentirem bem perto dele. Como o seu nível intelectual era tudo menos assustador, qualquer um se sentia um sábio ao seu lado.

Ele não entendia muito bem o que se estava passando, só sabia do susto mortal que Mistinguete lhe tinha dado ao anunciar que achava que estava grávida quinze minutos depois de trocarem beijos num beco e que agora ele era obrigado a casar com ela.

Como ele entendia tanto desse assunto como de qualquer outro, não reclamou. E ficou bem faceiro de saber que eles morariam nos altos do depósito que havia nos fundos do terreno da pizzaria.

O nome dele era Paulo Geraldo, mas ele dizia que preferia ser chamado pelas iniciais, Pejota.

Em atenção à sensibilidade estética dos leitores, pularemos a descrição das roupas dos noivos na festa.

Aliás, em atenção à mesma sensibilidade, pularemos a descrição da festa em geral. Só diremos que “a confraternização transcorreu em clima de grande alegria e amizade, numa digna comemoração do esperado himeneu, com os convidados trazendo seus melhores votos de felicidade e de um próspero futuro aos nubentes” (excerto da coluna social do pasquim local, Novas do Bairro, feito em máquina de escrever e xerocado).

O que o jornaleco não cita é que as garçonetes colocaram seus melhores atuendos de outras épocas para a festa: cintas-ligas, meias arrastão, saltos altíssimos, soutiens com vidrilhos, corpetes rendados, baby-dolls com plumas.

Os gritinhos delas, as cores de suas roupas, as fatias de pizza e a espuma de cerveja tomavam conta do salão, deixando tonto X-8, que sempre fora um sujeito meio ascético.

A certa altura, ele foi chamado a uma mesa ocupada por palavras, todas já meio tocadas pelo suco do lúpulo. Quem o chamou foi Hospital, uma antiga cliente, que o apresentou às outras e lhe disse:

– Senhor detetive, tenho aqui algumas outras palavras que também conhecem a sua própria origem, que nem eu, e que gostariam de o convidar para ouvi-las falar um poco de si mesmas.

– Saco! – pensa X-8 – é que nem quando um médico ou advogado é agarrado numa festa: o pessoal pensa que eles vão ter imenso prazer em saber das suas doenças ou dos seus problemas jurídicos. E, se possível, ainda esperam tirar uma opinião de graça. Mas tudo seja pelo ambiente de festa e pela propaganda.

Levanta-se a palavra Cobrar:

– Eu venho de épocas muito antigas, de quando os potentados da Suméria comandavam seu povo com chicote e escrita cuneiforme. Decerto todos os presentes já se detiveram a pensar na estranha semelhança entre o verbo que eu represento e o nome do distinto ofídio, Dona Cobra.

Pois a semelhança não é estranha, devo dizer: nós somos parentes! Naquelas épocas bárbaras, quando uma pessoa não pagava o que devia a outra, ela era gentilmente convidada a acertar as contas, ou seria atirada dentro de um poço cheio de Cobras. Daí se passou a usar Cobrar como uma palavra que designa o ato de exigir o que é de alguém, esquecido já o método de coerção usado na Mesopotâmia.

X-8 gelou dentro da sua gabardine de detetive. Seu olhar endureceu, suas narinas se contraíram com o cheiro do crime. Nada falou, porém; queria mais dados.

Depois que os aplausos da turma da mesa terminaram, ergueu-se Insopitável.

– Todos os presentes sabem que eu tenho o significado de “aquilo que não pode ser controlado ou reprimido, irresistível”. Sou usado em frases como “Fulaninho tinha uma insopitável paixão pela sua professora”, etc.

Pois bem, minha origem se relaciona com a palavra Sopa. Nos antigos mosteiros da França existia uma instituição chamada “La Soupe du Pauvre”, ou seja, “A Sopa do Pobre”. Os piedosos monges juntavam os restos de sua comida e preparavam um sopão, que era distribuído aos pobres duas vezes por semana.

Fosse porque os pobres eram muitos ou porque restos de monges não devem ser lá de muita substância, não era raro que os pobres se descontrolassem, entrassem nas cozinhas dos mosteiros, dessem um pau nos coitados dos servos do Senhor e saqueassem as despensas.

Assim, o descontrole passou a ser chamado pelo nome que então era dado a essas pessoas que achavam que sopa era pouco para a sua alimentação, “Les Insopitables”.

E foi a partir daí que este seu criado surgiu em nosso idioma.

Mais aplausos. X-8 não podia acreditar no que via e ouvia, mas se manteve impassível.

Com um rubor etílico nas faces, Canino se manifestou:

– Aqui onde estou, poucos serão capazes de me ligar às origens de Cantor, mas é a puríssima verdade. Vejam só: há muitos séculos, Varrão, em seu De Lingua Latina, explicou porque determinado gênero de mamíferos descendentes do lobo e do chacal se chama cão.

Do livro dele se tirou a famosa frase Canis a non canendo, ou seja, “Chamam-se cães porque não cantam”. Em Latim, canere era “cantar” e cachorro era canis.

Este é um caso de Etimologia a contrariis, ou seja, de formação de palavras com base num sentido oposto.

Disse e se inclinou com muita graça, enquanto o resto da mesa urrava sua admiração por tão erudito discurso.

Fique claro: o resto da mesa menos o detetive, que estava absolutamente horrorizado.

Entre brados de entusiasmo, levantou-se Discurso:

– É a minha vez de discursar! – gargalhadas (principalmente as suas), saudaram tamanha originalidade.

– Seguinte assim, ó: o meu nome também se relaciona com bicho. Só que neste caso é ao urso – e rugiu picarescamente para as outras palavras, que se retorceram de rir.

– Uma vez, na Grécia Antiga, na época em que os deuses andavam pela Terra, um espécime de um determinado mamífero plantígrado, o urso, estava passeando pelas planícies calmas da Beócia.

Foi quando ele teve o azar de passar perto do lugar onde o deus Hermes estava treinando o arremesso do disco para uma competição que ia ter lugar no Monte Olimpo.

Ora, o deus era cheio de habilidades, mas era uma negação no arremesso do disco.

Todos já imaginam o que aconteceu: o disco se desviou e bateu na cabeça do pobre urso, que só pensava em achar uma colméia bem gostosa e nada mais. Furioso da vida, ele se dirigiu para onde estava o deus e o encheu de desaforos. Esqueci de dizer que, nessa época, os ursos eram dotados de cordas vocais e falavam.

Ora, o deus, embora culpado, não gostou de ser xingado desse jeito pelo animal. Imediatamente deu a ordem mágica de que esse gênero perdesse o dom da fala. Tanto isso é verdade que a prova está aí: até hoje esse animal não diz uma só palavra.

Mas, a partir desse episódio, a união das palavras disco e urso originou Discurso.

Sentou-se, entre o frenesi e o bater de pés da platéia.

X-8 se levantou e se afastou discretamente. Foi ao banheiro, que estava desocupado. Aliás, estava sempre desocupado, tão sujo era. Em caso de necessidade, o pessoal se arranjava saindo pela porta lateral e indo até o fundo do beco.

Passou um pouco d’água no rosto, tarefa nada fácil para quem usa sempre a gola da capa levantada e o chapéu desabado sobre a face. Encostou-se na parede, cruzou os braços e pensou. Aqueles étimos grotescos eram coisa criminosa, e ele só conhecia uma mente distorcida a ponto de cometer atos de tamanha hediondez. Mas era preciso confirmar.

Tomou uma decisão. Voltou até à mesa e disse discretamente às quatro palavras que tinham falado à mesa que ele acabara de descobrir uma reserva enorme de cerveja estrangeira que o Porco Garcia escondia no beco.

Elas se levantaram disfarçadamente e o seguiram. A festa estava no auge, ninguém reparava em ninguém.

X-8 guiou as palavras para fora da pizzaria, levou-as até o fundo do beco. Parou, agarrou ameaçadoramente um pedaço de cano de chumbo que estava no chão, apontou para uma torneira que estava pingando e disse, voz gélida:

– Agora todas vocês vão passar uma boa água na cabeça e vão me escutar.

As palavras fizeram um movimento inicial de revolta e indignação, mas a solidez do detetive ali plantado e a fraqueza em que o álcool as tinha colocado as aquietaram. Elas molharam a cabeça e o rosto e prestaram atenção nas palavras de X-8:

Cobrar não vem de poço de cobras coisíssima nenhuma. Vem é de recobrar, que vem do Latim recuperare, “trazer algo de volta, recobrar”, verbo relacionado com recipere, “pegar de novo”, formado por re-,”de novo”, mais capere, “tomar, pegar”.

E cobra é do Latim colubra.

Quanto a Insopitável, esse assunto da Sopa do Pobre na antiga França é um absoluto delírio. Tal palavra vem do Latim sopire, “fazer adormecer”, fonte também de sopor, “sonolência” e soporífero, “o que dá sono, que faz dormir”. Logo, Insopitável é “o que não pode ser adormecido”, por isso “incontrolável”.

E Canino ali não tem nada a ver com pouco talento para a música, não. É verdade que Varrão disse uma frase que originou o tal de Canis a non canendo, mas essa é outra história. A sua origem verdadeira dele é o Latim canis, aparentado com o Grego kyon, descendente do Indo-Europeu kwon-, “cão”. Cantar era canere mesmo em Latim, mas do Indo-Europeu kan, “canto”.

Finalmente, Discurso, sua origem é o Latim discursus, particípio passado de discurrere, “correr ao redor”, de dis-, “fora, separado”, mais currere, “correr”.

As palavras, com o choque da água fria nas suas peles e nas suas convicções, estavam já quase sóbrias.

X-8 prosseguiu:

– E agora eu quero saber quem foi que lhes disse essas coisas. Só vamos sair daqui quando vocês me contarem.

As palavras começaram a falar ao mesmo tempo. Do que elas disseram, X-8 obteve a certeza de havia ocorrido justamente o que ele estava pensando. Após alguns minutos, ele interrompeu:

– Em resumo, pessoal, quando vocês estavam jogando dominó um dia desses no bar, apareceu um sujeito com ar muito sério e confiável, de óculos e fala mansa, cantarolando uns bolerinhos como quem não quer nada, e ofereceu dar para vocês a etimologia de cada um, sem cobrar nada, é isso?

– Siim! – foi a resposta.

– Pois vocês estiveram à beira do abismo e nem souberam. Quem se aproximou tão sorrateiro foi nada menos do que ele, o maldito, o arqui-inimigo das palavras, o maior criminoso etimológico já visto nestas ou noutras bandas, o nefasto Croquezz!

As pobres palavras nunca haviam ouvido falar em tal figura, mas a descrição de X-8 continha tamanha aversão que elas se arrepiaram.

E agora nós vamos fazer o seguinte: vocês não comentar nada disso com ninguém, mas vão ficar alerta para novas aparições desta pústula etimológica. Aqui estão uns cartões com o meu telefone. Se souberem dele, liguem a qualquer hora. Voltem para a festa e bico calado.

As palavras entraram de volta, obedientemente. X-8 ficou impávido no beco escuro, ruminando a sua indignação por uma malvadeza daquelas e bolando planos para agarrar aquele criminoso, o prêmio mais cobiçado da sua carreira de combatente pela cultura.

Ainda pensou em cobrar daquelas palavras pela lição de etimologia, mas abandonou a idéia. Ele precisava se concentrar para a batalha que iria enfrentar.

Resposta:

Presta Serviços à Policia

 

Observação: para um resumo da primeira parte, nada melhor do que a ler inteira, descendo até o fim desta página e clicando na edição anterior.

Mas, se você está chegando agora ao site e está com muita preguiça (feio, isso!), aqui vai um resumo ao quadrado: nosso Detetive Etimológico é levado para ajudar a Polícia a destrinchar um caso suspeito de formação de duplas de palavras iguais ou semelhantes durante um Congresso de Palavras. As duplas são analisadas por ele, que explica se elas são palavras válidas ou não.

Laço e Lasso. Muito bem. Os agentes acharam que Lasso estava mal escrito, não? Nada disso. Ele vem do Latim lassus, “cansado, frouxo, não esticado” e hoje significa o mesmo. Sim, é palavra ainda em uso, embora poucos saibam.

Quanto a Laço, vem de laqueus, depois lacius, “laço, nó corrediço, armadilha, argumento mal-intencionado”. Podem soltá-las.

Bocal e Bucal: não, o segundo não está mal escrito. Ele vem do Latim bucca, “boca” e significa “referente à boca de um ser vivo”.

Bocal também vem de bucca, mas se refere ao orifício por onde se assopra um instrumento ou à abertura de uma garrafa, por exemplo. Isso me lembra que, de certa feita, vi um conhecido meu não muito ilustrado dizer que “A Dona Fulana não deixou nada por escrito, ela me disse bocalmente. Estão livres, vão embora.

– Vejam só, os primos-irmãos da última dupla! Eis Boçal e Buçal. Está tudo bem com eles também. Boçal parece vir do Italiano bozza, “pedra grosseiramente talhada”, dando o sentido de “falto de educação, grosseiro” ao indivíduo a que se aplica.

E Buçal quer dizer “referente ao buço”, os pelos que nascem no lábio superior nos rapazes adolescentes, palavra que vem de bucceus, a qual vem por sua vez de bucca. Eis mais uma palavra que causa estranheza devido ao seu pouco uso, mas que faz parte do nosso vocabulário.

– Senhor Detetive – disse o Chefe de Polícia – desta vez acho que alguém vai para a cadeia. A próxima dupla é Despercebido e Desapercebido. Estão aí para confundir, pois é evidente que são a mesma coisa!

– Permita-me discordar respeitosamente, Senhor Chefe. É verdade que ambos começam com o prefixo negativo des- e que derivam do Latim percipere. Mas Despercebido significa “não apreendido pelos sentidos, não notado”, ao passo que Desapercebido quer dizer “não aparelhado, não adequado para uma ação”. Quando alguém lhe pedir dinheito emprestado, está correto dizer “Estou desapercebido de grana hoje”. Mas o melhor mesmo é passar despercebido pelo pedinte.

A dupla saiu, aliviada, enquanto o Chefe anotava cuidadosamente aquela frase tão útil num pedacinho de papel.

– Hum. Bucho e Buxo, hein? A primeira palavra, por estranho que pareça, vem do Latim musculum, depois musclu, “músculo”, e designa “barriga, órgãos digestivos”. Na gíria, é usada para dizer “pessoa feia”.

Buxo era, em Latim, buxus, “buxo”, uma árvore de vida longa cuja madeira é muito apreciada para trabalhos delicados devido ao seu grão fino. Deixem ir.

– Aqui estão Arrochar e Arroxar. A primeira significa “apertar”, e vem de arrocho, “pedaço de madeira que se usa para apertar firmemente as cordas usadas em cargas”. E esta palavra parece vir de garrote, embora não haja certeza.

Arroxar é o mesmo que Arroxear, e significa “tornar roxo”, do Latim russus, “avermelhado”. Os antigos, inicialmente, não faziam distinção para os nomes de “vermelho” e “roxo”. Assim, o Imperador Frederico Barbarroxa não tinha os pelos do rosto dessa cor, não; sua barba era vermelha.

– Isso mesmo, Detetive – disse o Chefe de Polícia, entusiasmado. – Aqui, quando a gente dá uma arrocho numa palavra durante um interrogatório, ela às vezes sai arroxeada! – pareceu subitamente encabulado e chamou a próxima dupla.

Flagrante e Fragrante. Passem. Não, não, Chefe! Não bata em Fragrante! A coitada da palavra não é uma fora da lei! Está tudo bem com ela, calma. Eu sei que ela parece uma má pronúncia da outra, mas não é.

Olhe: estas palavras são parentes muito próximas. Vêm do Latim flagrare, “flamejar, arder”. Como muitas substâncias faziam evolar seu odor pela ação do fogo, formou-se a fragrância, “odor, perfume” em nosso idioma.

Com o significado de “ação ainda quente” se formou o flagrante, o momento em que essa ação está sendo feita. É o que os americanos chamam de ser apanhado com smoking guns, “armas fumegantes”, como quando a pessoa atira e é apanhada segurando as armas ainda nesse estado.

Há o uso popular com a expressão “Deu um fraga neles”. Este fraga não é o sobrenome Fraga nem fraga no sentido de “rochedo”. É um encurtamento de flagrante mesmo. Naturalmente que na sua Delegacia não se usa a palavra desta maneira, não é, Chefe?

O Chefe chamou rapidamente os próximos, que eram Onça e Onça.

– Não, Chefe, não é nenhum absurdo duas palavras idênticas estarem andando por aí. Elas têm significados diferentes e são mais uma vez o resultado de uma convergência evolutiva.

A primeira – olhe como ela tem uma elegância felina – refere-se à Onça de nossas matas, tão perseguida, coitada. Vem do Latim lynx, “lince”, um felino que ainda existe na Europa. É aquele gatão selvagem bem peludo, com tufos de pelo na ponta das orelhas, grande caçador. Nossos conquistadores deram o seu nome ao felino da Amazônia e depois a palavra sofreu a mudança que a levou ao estado atual.

E a outra Onça, veja como ela tem um aspecto formal. Trata-se de uma medida de peso. Ponha-a na balança e verá que ela tem 28,7 gramas. Deriva do Latim uncia, “a décima-segunda parte”, pois representava um doze avos da libra romana. Atualmente, ela representa um dezesseis avos da libra.

Pode parecer esquisito, mas são palavras idênticas com significados sem qualquer relação. É assim o mundo das palavras. Podem seguir. As próximas!

Passaram Incontinente e Incontinenti. X-8 explicou que a primeira vinha do Latim in-, “não” mais continere, “conter, moderar, controlar”. Significa aquilo que não se controla, como em certas doenças ou debilidades de caráter.

Por sua vez, Incontinenti, pouco usada, quer dizer “imediatamente” e vem do Latim in continentia, com o mesmo significado. Deixaram-nas seguir.

– Ah, aqui estão Roborizar e Ruborizar. Esta última, como todos sabem, vem do Latim rubrum, “vermelho, avermelhado”. É uma cor que antigamente as moças ostentavam no rosto para demonstrar inocência. Parece que agora desistiram.

E a primeira quer dizer “conferir força, tornar resistente”, do Latim roborare, “tornar forte”, possivelmente por associação com robur, “carvalho”. Ela é pouco usada, mas perfeitamente válida. Seu descendente corroborar é que anda forte por aí. Sigam em frente, pessoal.

Saporífero e Soporífero? Entrem e fiquem tranqüilos. Com vocês não há problema. A primeira vem do Latim sapor, “gosto, sabor” e quer dizer “aquele que tem ou traz gosto”. Podemos dizer que um tempero é um Saporífero. Para impressionar num restaurante, em vez de se pedir o galheteiro, podemos pedir “Garçon, por favor, traga-me os Saporíferos“.

E Soporífero vem de sopor, “adormecimento, sono”. Quando temos um insopitável desejo de alguma coisa, trata-se de um desejo que não conseguimos fazer adormecer.

Hum. Acordem Soporífero e digam-lhe que pode sair com seu amigo.

– Agora, Texto e Testo. O primeiro, Sr. Chefe de Polícia, vem do Latim texere, “tecer”. Numa escolha muito expressiva, esta palavra foi usada para descrever o trabalho que fazemos ao escrever alguma coisa, que é como o de “tecer, fazer a trama” das idéias, de modo a podermos apresentar um resultado coerente. Está bem, nem todos escrevem com coerência, mas essa era a idéia inicial, pelo menos. E o diminutivo de texto não é textículo, não.

E Testo (apresenta “É” aberto, notem bem) vem do Latim testu e significa “tampa de vasilha”, bem como “pessoa séria, pouco dada a brincadeiras”. Mais uma palavra injustiçada pelo pouco uso. Deixem ir.

– Vejam só, Vadiar e Vadear. Como vai, Vadiar? Bastante usei você em outras épocas, antes de me tornar um profissional famoso, modesto e muito requisitado. Vejam só, esta palavra vem do Latim vagativum, “aquele que perambula sem destino”, de vagare, “andar sem destino”. Um primo desta palavra é Vagabundo, “aquele que vaga muito”.

E Vadear, “atravessar um curso dágua a pé”, vem do Latim vadus, “leito de rio ou de riacho, vau”.

Às vezes, quando a gente anda vadiando pelos campos, pode ter que vadear um córrego. Por isso é bom sempre estar sabendo exatamente o que se faz, para não arranjar confusão.

– Passem. Vejam só, Venoso e Vinoso. Quando eu era bem pequeno pensava que Venoso vinha de “venenoso”, mas depois descobri que não é o caso. Esta palavra vem do Latim vena, “veia”, e tem um extenso uso em Medicina.

E Vinoso vem de vinum, “vinho”. Quer dizer “com aspecto de vinho”. Usa-se mais na forma vinhoso. Em outras épocas, diziam os chegados a essa bebida que Vinum bonum Dei donum, ou seja, “O vinho bom é um presente de Deus”. Hoje eles bebem mesmo sem fazer frases .

– Agora, Tensa e Tença. A primeira vem do Latim tendere, “esticar, estender, tensar” e quer dizer “qualidade daquela que está em estado de ânimo preocupado, aprestado para más notícias”.

É uma sensação que ninguém gosta de viver. Pelo contrário, Tença é coisa boa. Vem de tenentia, de tenere, “ter, manter, conseguir, segurar”. Tenente vem daí.

Tença quer dizer “renda, recompensa”, como uma graça concedida pela autoridade. Claro que era coisa de reis, pois hoje os dirigentes de um país não podem mais dispor do dinheiro público à sua vontade.

O Chefe, sem responder, chamou logo os seguintes.

– Com que então, Soco e Soco. Ouçam o nome da primeira: é com “Ó” aberto. Vem do Grego sykkhos, Latim soccus; designa um calçado com solado alto e grosseiro, tão usado pelos atores cômicos gregos que passou a ser considerado o seu símbolo. Em Espanhol temos a palavra zuecos para designar “tamancos”, vinda daí.

Esta palavra faz horas extras, expressando também o significado de “pedestal, base de coluna”, por analogia óbvia com o calçado.

Do uso de “socar”, o que se fazia para aplanar terra com calçados grosseiros, veio o sentido de “bater, golpear” e portanto a palavra Soco, com “Ô” fechado, significando “golpe dado com a mão”.

Sabem aqueles socos que a gente vê o pessoal trocar no cinema? Aqueles que acertam o bandido bem no queixo e o atiram longe, sem que o mocinho sinta nada? Não existem. Há uma inexorável lei da Física que diz que, neste caso, o golpe terá efeito exatamente igual no queixo que recebe e no punho que bate. Ou seja, se deu para atirar no chão um sujeito de 80 quilos, a pancada vai moer os ossos da sua mão. Não tentem!

O Chefe de Polícia olhou para fora e trouxe uma grata notícia: haviam terminado as duplas de palavras! Em algumas horas, X-8 tinha feito uma triagem etimológica que ficaria na história. Para sempre o pessoal da Delegacia recordaria com orgulho aqueles momentos de sabedoria que se tinham desenrolado ali.

Uma viatura da Polícia levou X-8 de volta para seu escritório, com o pessoal da Manutenção da Chefia para fazer os consertos ocorridos durante a entrada não muito suave dos policiais que tinham ido buscá-lo para deslindar o complicado caso.

Algum tempo depois, estava tudo arrumado e X-8 estava esgotado, louco para tirar um bom sono na cama confortável que havia na sala ao lado do escritório. O pessoal da Polícia se despediu, prometendo levar o cheque dos honorários do detetive em poucos dias.

Ao adormecer, desta vez sem precisar contar palavras pulando cerquinhas, X-8 divagou sobre as durezas e perigos da profissão que tinha escolhido. Sim senhor, ele estava satisfeito consigo!

Resposta:

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