Palavra machado

BOMBEIROS

 

Que susto! Chego para dar a minha inescapável aula na Escolinha Maternal e vejo fumaça no ar e um carro dos bombeiros parado em frente. Animada, digo, alarmada com a possibilidade de que meus aluninhos me deixem em paz, ouço que eles me chamam, do pátio:

– Tia Odete! Tia Odete! Estamos aqui!

Entro e me reúno a eles, que estão vibrando com a confusão, que foi gerada por um pequeno fogo na casa em frente, a esta hora já debelado.

Levo-os para sala de aula e não perco a oportunidade de os acalmar com a origem das palavras concernentes ao fato.

– Bem, caros aluninhos, sobre o que vão querer aprender hoje?

– Bom-bei-ros! Bom-bei-ros!

– Eu já desconfiava disso, não sei por que. Bem, essa palavra vem de bomba, na acepção de “dispositivo para fazer um líquido fluir”. Os equipamentos contra incêndio antigos eram acionados manualmente e se chamavam bombas, de origem imitativa do ruído que fazem ao funcionar.

Como vocês puderam ver, eles usam um uniforme especial para se protegerem adequadamente contra os riscos que correm. Esse termo vem do Latim unus, “um”, mais forma, “aspecto, formato”. Imaginem só se cada bombeiro ou soldado ou marinheiro usasse o que bem entendesse, que caos seria!

– Quer contar algo, Valesquinha? Uma das suas vizinhas gosta de sair à noite de uniformezinho colegial, saiazinha curta, meias brancas… Ora, ela certamente estuda em algum colégio bem exigente e… Ah, ela tem trinta anos? Bem, talvez os estudos dela sejam de outro tipo e fique quieta agora que eu tenho que falar, por exemplo, sobre o capacete que nossos amigos bombeiros usam. O nome dele vem do Espanhol capacete, “peça de proteção para a cabeça”, do Latim capaceum, derivada de capere, “conter”.

Isso é o que um bom capacete faz, contém a cabeça dentro dele. Pena que não inventaram ainda um que contenha as besteiras de certos alunos dentro de suas cabecinhas ocas. Iam ganhar um dinheirão.

Durante o trabalho, eles usam muitas vezes a mangueira, que vem de “manga”, que vem do Latim manica, “parte da roupa que recobre os braços”, de manus, “mão”.

Eu sei, Aninha, que eles estavam meio apressados para dar esse nome e que uma manga de roupa não serve para espalhar água, mas é assim e pronto, não tenho tempo para suas confusões agora.

Tenho que contar que a mangueira muita vezes é colocada num hidrante, aquele cilindro vermelho que fica nas calçadas e que contém uma válvula para a saída de água. Ele deriva do Grego hydor, “água”, pois é com ela que ele trabalha.

Ali está Lary, hoje com uma estranha cara de bem-comportada, perguntando de onde vem escada. Muito bem, esse é outro material que se usa no combate ao fogo, e vem do Latim scalare, “subir”

Muitas vezes ouvimos falar na Escada Magirus, aquela que faz parte de um caminhão e é telescópica. Esse nome vem da companhia alemã que a fabrica, a qual começou a fazer equipamentos contra incêndio em 1866.

Antes que perguntem, desde já aviso que eu nem era nascida ainda quando ele iniciaram.

Sim, Patty, eles usam uma sirene para pedir aos demais veículos que saiam do caminho quando estão numa emergência. Esta vem do Latim sirena, do Grego seiren, “sereia”, nome de certas ninfas aquáticas que emitiam sons muito doces que enlouqueciam os marinheiros e os levavam à destruição. Talvez as sirenes de agora não sejam tão melodiosas como as de antes, mas certamente são ouvidas à distância também.

Outro equipamento que eles usam é o machado. Uns dizem que deriva do Francês hache, do  Frâncico hapja; outros, que vem é do Latim marculatus, derivado de marcus, “martelo”.

Quando ocorre um incêndio, que nem hoje, eles são chamados logo. Essa palavra vem do Latim incendium, “fogo, calamidade, conflagração”, formado por in-, “em”, mais candere, ou seja, “colocar fogo em”.

Eles lutam contra o fogo, que vem do Latim focus, “lareira, local de fazer fogo numa casa”.

Atacam as chamas, do Latim flamma, “chama, labareda”, do Indo-Europeu bhleg-, “brilhar, queimar”. E labareda vem do Basco labe, “chamas”.

Depois deste ficam as brasas, aparentemente de uma palavra germânica brasa, “fogo”.

E depois destas ficam as cinzas, do Latim cinis, “material sobrado de um processo de combustão, cinza”.

É quando o bombeiros se dedicam a fazer o rescaldo, a retirada de material ainda quente, do Latim re-, “de novo”, mais caldus, “quente”.

Estão todos inquietos e assanhados demais, loucos para chegar em casa e contar as novidades. Pois bem, podem ir saindo. Mas façam o favor de não tentar nenhum incêndio em casa.

Resposta:

ARMAS DE ARREMESSO

 

 

Provavelmente a primeira arma que a Homem usou foi uma pedra. Depois de muito tempo, ele deve ter percebido que desperdiçava considerável esforço em levá-la até o inimigo para bater na cabeça dele. Isso sem considerar que em geral o opositor não se mostrava muito cooperativo em perder massa encefálica e xingava acerbamente a família do atacante.

Desta forma, a partir de uma mesa redonda feita no chão de uma caverna, um Grupo de Estudos acabou inventando as armas de arremesso. Elas eram um recurso para acabar com todas as guerras dali para diante. Elas foram definidas como “armas usadas para atingir o inimigo à distância” e classificadas inicialmente pela classe guerreira como “coisa de mulherzinha”.

Mas acabaram sendo aprovadas pelo uso e muitos foram os nomes que lhes foram dados ao longo dos séculos. Hoje falaremos apenas nas que não usam propelentes como a pólvora ou outros materiais combustíveis ou inflamáveis.

ARREMESSO – para começar, o nome da ação. Vem do Latim remissum, particípio passado de remittere, “fazer ir de volta, repelir, enviar de novo”, de re-,  outra vez, de novo”, mais mittere, “mandar, enviar”.

LANÇA – do Latim lancea, “lança leve”, de origem celtibérica. 

Originou os termos lanceta, “espécie de bisturi, cutelo para abater reses”, que veio do Francês lancette, “pequena lança”.

Em Botânica, temos lanceolado, usado para descrever o formato de uma folha que lembra o ferro de uma lança.

E naturalmente gerou o verbo lançar, “arremessar, atirar”.

PILO – um tipo de lança usada pela infantaria romana. Sua extremidade era formada por uma haste longa e não muito grossa. A ideia era que ela se cravasse no escudo do inimigo e dali não pudesse ser retirada no calor da batalha, tornando a defesa impossível. Criativos, estes romanos.

FLECHA – do Francês fleche, do Frâncico flukka, aparentado com o atual Alemão fliegen, “voar”.

Esta palavra não se usa apenas para finalidades guerreiras, também serve para designar os remates de campanários e torres.

ARCO – onde há fumaça há fogo, onde uma flecha voa há um arco. Vem do Latim arcus, “arco, curva, teto recurvo”, de uma fonte Indo-Europeia arqu-, “recurvo”.

É bem sabido que, em Arquitetura, o nome se aplica a diversas curvas usadas em combinação com colunas ou paredes, formando aberturas em paredes.

BESTA – também chamada balista. Deriva justamente do Latim balista, que veio do Grego bállein,  “atirar, lançar”.

Todos estão acostumados a ver essas armas sendo usadas para atirar projéteis semelhantes a flechas em gravuras e filmes, mas o principal uso deles era para o lançamento de pedras e bolas de chumbo. Não era nada agradável levar uma delas no crânio.

Tinham maior potência do que o arco e lançavam os projéteis mais longe, mas disparavam com uma frequência menor.

CATAPULTA – esta grande máquina de guerra, usada contra muros de cidades sitiadas, retira seu nome do Latim catapulta, do Grego katapeltes, de kata, “contra”, mais pállein.

Também era usada para atirar pesadas flechas, além de pedras e outras coisas desagradáveis, como os corpos decompostos de gado ou inimigos mortos, para disseminar a doença no local atacado.

Modernamente são usadas catapultas a vapor para o lançamento de aviões em porta-aviões.

TRABUCO – usa-se atualmente para designar uma arma de fogo antiga, mas na origem o nome era aplicado a outra arma de arremesso usada em sítios.

Vem do Catalão trabuc, formado pelo Latim trans-, “através”, mais o Frâncico buk, “corpo, abdome”.

Nossa palavra “estrebuchar” deriva de buk.

DARDO – do Francês dart, “lança de arremesso, flecha”, do germânico darothuz, o nome do objeto. Era o nome muitas vezes dado ao projétil da besta, mais curto e leve do que a flecha usada com o arco.

MACHADO – como assim, “arma de arremesso”? A quem ocorreria atirar uma arma branca pesada dessas? Pois ocorreu a muita gente da antiguidade.

A famosa Tapeçaria de Bayeux, que retrata o combate entre Normandos e Saxões, em 1066, mostra grande quantidade de machados sendo atirados entre os grupos em contenda.

Deriva do Francês hache, do  Frâncico hapja, que era como eles chamavam a ferramenta tão útil para cortar troncos de árvores e pescoços de desafetos.

TOMAHAWK – este outro machado, tão usado nos filmes de mocinho pelos índios, recebeu seu nome do Algonquino otomahuk, “derrubar”.

Mas as versões que a gente vê, feitas de metal, eram de fabricação do homem branco, que as vendia para os indígenas e depois se queixavam de perder seus escalpos para eles.

Resposta:

Armas Antigas

Certa vez, quando eu estava com uns doze anos, contei para o meu avô, em seu gabinete confortável e cheio de livros:

– Sabe, Vô, que no outro dia eu tinha lido umas coisas sobre as guerras da Idade Média e comecei a pensar que, se eu vivesse naquela época, poderia ter inventado algumas armas.

– E o que foi que você bolou? – disse o velhote.

– Pois comecei a pensar em alguma coisa que fosse pesada, que tivesse uma ponta… Ia precisar ter uma parte cortante, uma defesa para a mão de quem usa… E acabei inventando a espada!

O velho riu:

– Coisas assim já me aconteceram. Eu poderia ser rico, por exemplo, se outra pessoa não tivesse inventado o serrote muito antes de mim!

Mas, já que você puxou o assunto “armas antigas”, posso lhe contar umas coisas sobre os nomes delas.

Fiquei contente:

– Oba! Comece pela espada, Vô.

– Claro, quando se trata de lidar com armas, eles se interessam; se fosse para aprender Matemática você não estaria assim tão faceiro. Mas vamos lá, que eu também fui desse jeito.

Espada vem do Grego spathé, “peça achatada de madeira usada pelos tecelões, pá do remo”. Como vê, a palavra começou a vida descrevendo objetos menos destrutivos. Devido ao formato, acabou aplicada ao instrumento de guerra.

Mas esse vocábulo grego também originou, por exemplo, espátula, “objeto achatado usado em artes”, espáduas, “costas, dorso de uma pessoa”, o espaldar da cadeira onde a gente apóia as ditas cujas.

Os romanos usavam uma espada curta, o gládio, cujo nome parece vir do Gaulês kladyos, do Indo-Europeu qelad-, “bater, golpear”.

– Daí os gladiadores?

– Isso mesmo. E também o gladíolo, uma flor, devido ao formato das folhas.

– E a lança, Vô?

– Essa vem do Latim lancea, “lança leve de arremesso”, palavra de origem celtibérica. Desse nome derivou o verbo lançar, que no começo se referia apenas ao atirar da lança e depois passou a designar o arremesso de qualquer coisa, desde pedras até desaforos, tomates e ovos podres.

Esta arma tem diversas variantes, cada uma com seu nome. Os romanos usavam a hasta, que corresponde mais à imagem comum da lança, e o pilum, especial para se cravar no escudo do inimigo para o obrigar a largá-lo, deixando-o desprotegido.

Havia também o venábulo, uma lança curta muito usada para a caça, de onde tirou o nome, pois venare em Latim queria dizer “caçar”. E também outra lança curta, o dardo, que veio do Germânico darothuz, “lança”.

– Mas há outras coisas mais curtas que se chamam dardo, não é?

– Sim. Há aqueles que os ingleses atiram num alvo enquanto bebem cerveja morna nos seus pubs. Há os que são usados com tranqüilizantes para sedar animais. Às vezes, quando estamos incomodados, nosso olhos dardejam também, sabia?

Eu sabia. Já tinha visto uma vez aquele fogo gelado nos olhos do velho e não queria ver de novo. Puxei rápido outra pergunta:

– E o arco e a flecha, Vô?

– O arco tem origem meio complicada: veio do Latim arcere, “conter, repelir, afastar, guardar”, que originou também a arca onde antigamente a gente guardava os tesouros, e as arcadas dos prédios clássicos, por exemplo. Aplicou-se a analogia destes objetos curvos ao instrumento de arremesso de flechas.

E estas têm o seu nome originado no Frâncico fliukka, “flecha”, ligado ao verbo germânico fliegen, “voar”.

Elas podem ser chamadas também de setas, do Latim sagitta, “flecha”.

– E o que isso tem com o tal signo do Sagitário?

– Tem que essa constelação representa um centauro atirando com arco e flecha, daí o nome dela.

– Hum. Uma vez vi escrito frecha num dos seus livros antigos. Que erro, hein?

– Nenhum erro. Frecha é uma forma antiga mas ainda é Português correto, embora quase não se use em nosso país.

– E aquela espécie de arco com coronha?

– Ah, a besta, uma arma que lançava projéteis mais curtos que as flechas comuns e com energia bem maior. Havia uma grande discussão entre os seus partidários, que destacavam o grande alcance dela, e os do arco e flecha, que podiam disparar com muito mais velocidade.

Pronuncia-se bésta, preste atenção, com “É” aberto. Não tem nada a ver com besta com “Ê” fechado, que vem de bestia, “animal”.

O nome da arma deriva do Latim balista, uma arma pesada para arremessar dardos. Pode-se dizer também balesta ou balestra.

Mas, voltando às armas de combate próximo, temos o machado, que parece vir do Latim marculatus, derivado de marcus, “martelo”. E o que você me diz da francisca?

– Faz tempo que a gente não sabe da nossa vizinha, desde que ela fugiu com o pastor da igreja dela…

O velho riu muito:

– Peguei! Francisca é o nome do machado de duas lâminas que os godos gostavam muito de usar no pescoço alheio. O nome mais usado é franquisque, mas o outro está certo. Vem da palavra latina franciscus, “Frâncico”, um povo germânico que fazia das suas pela Gália.

– Essa eu não conhecia mesmo. Mas e quanto àquela coisa com uma bola e pontas de ferro…

– A maça. O nome vem do Latim mattea, derivado de matteola, “malho, martelo grande”. Era uma arma extremamente destruidora, mas precisava ser manejada por uma pessoa muito forte. Podia ter as pontas instaladas na extremidade rombuda ou ter uma bola espinhuda presa ao cabo por uma corrente.

– Não parece muito esperto isto da corrente, Vô. Fica mais difícil para usar. Qual era a vantagem?

– A vantagem era que a bola podia ser girada e passar por cima do escudo do desafeto para acertar a cabeça dele por trás. Acha pouco?

– Tá bom, Vô. Antigamente eles eram mais espertos do que eu pensava.

– Não se esqueça disso na hora de avaliar a minha inteligência. Mas você já ouviu falar de um cavaleiro de lança em riste?

– Já li alguma frase assim. Não quer dizer “com a lança levantada”?

– Atualmente quer dizer com qualquer coisa levantada, mas originalmente riste era uma peça da armadura peitoral que servia para apoiar o cabo da lança ao erguê-la para acometer o inimigo. Vem do Catalão rest, que era o nome desta peça.

E já que falamos em capacete, sua origem é discutida. O que parece se aproximar mais da verdade é que venha do Espanhol capacete, “peça de proteção para a cabeça”, do Latim capaceum, derivada de capere, “conter”.

Podemos falar também em armadura. Essa palavra vem do Latim arma, originalmente ligado a “armas de defesa, peças para evitar ferimentos no soldado”.

Ela pode ser chamada às vezes de couraça, do Latim corium, “couro”.

– Não me diga que se faziam armaduras de couro, Vô! Essa não!

– Faziam, com couro grosso fervido e elas serviam muito bem, sendo mais leves que as outras.

Mas quem fala em armadura logo se lembra de escudo, que vem do Latim scutum, “escudo”.

Falei no capacete e me esqueci que, nas armaduras antigas, se falava mais em elmo, do Frâncico helm, do Germânico antigo khelmaz, “cobrir, esconder”.

Logo abaixo da proteção para a cabeça vinha, na armadura de placas, uma peça chamada >gorgueira, para proteger o pescoço, do Latim gurguis, “garganta”.

Isso me lembra que a palavra usada para designar a peça que protegia as coxas é coxote, do Francês cuissot, que vem de cuisse, “coxa”, que era coxa no Latim. Em Catalão, essa peça se chamava cuixot, passando a quijote em Espanhol.

– Ué, Vô, esse não é o nome do…?

– Exatamente: Dom Quixote, “El Caballero de la Triste Figura”, da obra de Cervantes.

– Não entendi essa confusão do nome dele com uma peça de armadura.

– O nome dele na história era Alonso Quijano. Por semelhança com o sobrenome, ele teria escolhido como nome de guerra a palavra que designava essa peça. Em Espanhol da época, escrevia-se Quixote, com “X”, e se pronunciava com o som do nosso “CH”.

– Puxa, Vô, como a gente aprende coisas quando se põe a estudar as origens das palavras!

– É isso mesmo, rapaz. Mas a gente tem que estudar direitinho, para não acabar inventando origens, assim como você estava querendo inventar armas. Da próxima vez a gente fala mais. Até logo.

Resposta:

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