Palavra sagitário

HORÓSCOPO III

III

 Olá, Vô! Cadê o resto das histórias sobre o Zodíaco que você ia me contar? Está me devendo!

– Muito bem, meu rapaz, ninguém pode dizer que eu não pago minhas dívidas. Sente-se aí e vamos retomar a conversa sobre este assunto. Vejamos, eu tinha anotado por aqui quais os signos que tínhamos visto. Hum… não, isto são contas para pagar… Ah, aqui está.

Hoje vamos começar pelo Escorpião, que vem do Grego skorpio, o nome do…

– Inseto!

– Quieto, seu espertinho. Dá para ver que você ainda não aprendeu a classificação zoológica. Eles não são insetos, não têm seis patas; são aracnídeos. E agora deixe-me falar.

Como eu dizia antes de ser interrompido pela sua manifestação de ignorância, esse era o nome que os gregos davam ao aracnídeo. Há quem ache que se liga a  papillion, “borboleta” ou a stellio, “espécie de lagarto”. Mas não há certeza.

– E a história do signo?

– Bem, essas histórias são a melhor parte. Vou contar, mas lembre-se de que as histórias têm muitas variantes, de modo que a qualquer momento você pode encontrar versões diferentes.

A que mais me agrada é a que diz que Ártemis, a deusa grega da caça e associada com a Lua, um dia se irritou porque um grande caçador chamado Órion se atreveu a caçar  nos campos celestes, que eram exclusividade dela. Para se vingar daquilo, ela enviou atrás dele um venenosíssimo escorpião. Aí…

– Conte logo, Vô!

– Seu impaciente, eu queria ver se o suspense estava funcionando. Bem; aí, para variar, Zeus interveio. Impressionado com a ousadia de Órion, ele colocou o caçador intrometido no céu.

– Criou mais uma constelação?

– Sim, e uma bem visível e característica dos céus de verão no hemisfério Sul. Mas não parou por aí, não. Talvez em deferência a Ártemis, a deusa ofendida, ele também criou a constelação do Escorpião, que é a que nos interessa no momento.

Só que colocou ambas em lados opostos do céu. De tal forma, Órion percorre o seu caminho nos céus sempre perseguido pelo ameaçador bicho, que nunca o consegue alcançar.

– Que bonito, Vô!

– E bonita também é a constelação. É uma das pouquíssimas que refletem a forma que a nomeou.

Existe o signo de Virgem, que representa em geral a pureza e a prosperidade, com conotações da abundância que era sempre desejada pelos nossos antepassados agricultores.

Mas a variação de pessoas que o signo representa é enorme; uma das mais conhecidas em nossa cultura é Cassiopeia,do Grego Kassiópe, “aquela cujas palavras se destacam”. Ela era a mãe de Andrômeda, que foi salva do monstro Cetus, enviado pelo deus dos mares, Poseidon, e salva na última hora pelo herói Perseu…

– Oba!

– Não vou entrar nessa história, senão nunca mais saio. Por ora vamos ficar com os signos. Aliás, vou falar agora sobre Sagitário, que vem do Latim sagittarius, “arqueiro”, mais exatamente “relativo a flechas”, de sagitta, “flecha”.

Ele é representado muitas vezes como um centauro apontando com seu arco.

– E o signo de uma amiga minha, que é Libra?

– Amiga, é? Hum, traga-a para ouvir minhas histórias também. Claro, se ela também gostar de Etimologia.

Para disfarçar esse vermelho no seu rosto, vou dizer que essa palavra quer dizer “balança, peso de balança” em Latim. Uns dizem que representa o carro de Hades, o deus  do mundo subterrâneo. Outros, que é porque a constelação está no zênite no dia do equinócio da primavera no hemisfério norte, quando dia e noite são iguais, como numa balança bem equilibrada.

Seja como for, essa balança é tida também como a Balança da Justiça.

Acho que agora só nos falta Capricórnio, do Latim Capra, “cabra”, mais cornus, “chifre”. Ele costuma ser representado como um ser com a parte posterior de peixe e a anterior de cabra. Também não há concordância quanto à sua origem.

Querem uns que tenha relação com a cabra Amaltéia, que nutriu tanto Zeus quanto o seu famoso filho Hércules. Enfim, a confusão habitual e compreensível para mitos que têm para lá de dois mil  anos.

Seja como for, lembre-se sempre de que isso tudo não passa de mitos. Nunca desperdice seu tempo e dinheiro com horóscopos, ou vai ter que se ver comigo!

 

 

Resposta:

Armas Antigas

Certa vez, quando eu estava com uns doze anos, contei para o meu avô, em seu gabinete confortável e cheio de livros:

– Sabe, Vô, que no outro dia eu tinha lido umas coisas sobre as guerras da Idade Média e comecei a pensar que, se eu vivesse naquela época, poderia ter inventado algumas armas.

– E o que foi que você bolou? – disse o velhote.

– Pois comecei a pensar em alguma coisa que fosse pesada, que tivesse uma ponta… Ia precisar ter uma parte cortante, uma defesa para a mão de quem usa… E acabei inventando a espada!

O velho riu:

– Coisas assim já me aconteceram. Eu poderia ser rico, por exemplo, se outra pessoa não tivesse inventado o serrote muito antes de mim!

Mas, já que você puxou o assunto “armas antigas”, posso lhe contar umas coisas sobre os nomes delas.

Fiquei contente:

– Oba! Comece pela espada, Vô.

– Claro, quando se trata de lidar com armas, eles se interessam; se fosse para aprender Matemática você não estaria assim tão faceiro. Mas vamos lá, que eu também fui desse jeito.

Espada vem do Grego spathé, “peça achatada de madeira usada pelos tecelões, pá do remo”. Como vê, a palavra começou a vida descrevendo objetos menos destrutivos. Devido ao formato, acabou aplicada ao instrumento de guerra.

Mas esse vocábulo grego também originou, por exemplo, espátula, “objeto achatado usado em artes”, espáduas, “costas, dorso de uma pessoa”, o espaldar da cadeira onde a gente apóia as ditas cujas.

Os romanos usavam uma espada curta, o gládio, cujo nome parece vir do Gaulês kladyos, do Indo-Europeu qelad-, “bater, golpear”.

– Daí os gladiadores?

– Isso mesmo. E também o gladíolo, uma flor, devido ao formato das folhas.

– E a lança, Vô?

– Essa vem do Latim lancea, “lança leve de arremesso”, palavra de origem celtibérica. Desse nome derivou o verbo lançar, que no começo se referia apenas ao atirar da lança e depois passou a designar o arremesso de qualquer coisa, desde pedras até desaforos, tomates e ovos podres.

Esta arma tem diversas variantes, cada uma com seu nome. Os romanos usavam a hasta, que corresponde mais à imagem comum da lança, e o pilum, especial para se cravar no escudo do inimigo para o obrigar a largá-lo, deixando-o desprotegido.

Havia também o venábulo, uma lança curta muito usada para a caça, de onde tirou o nome, pois venare em Latim queria dizer “caçar”. E também outra lança curta, o dardo, que veio do Germânico darothuz, “lança”.

– Mas há outras coisas mais curtas que se chamam dardo, não é?

– Sim. Há aqueles que os ingleses atiram num alvo enquanto bebem cerveja morna nos seus pubs. Há os que são usados com tranqüilizantes para sedar animais. Às vezes, quando estamos incomodados, nosso olhos dardejam também, sabia?

Eu sabia. Já tinha visto uma vez aquele fogo gelado nos olhos do velho e não queria ver de novo. Puxei rápido outra pergunta:

– E o arco e a flecha, Vô?

– O arco tem origem meio complicada: veio do Latim arcere, “conter, repelir, afastar, guardar”, que originou também a arca onde antigamente a gente guardava os tesouros, e as arcadas dos prédios clássicos, por exemplo. Aplicou-se a analogia destes objetos curvos ao instrumento de arremesso de flechas.

E estas têm o seu nome originado no Frâncico fliukka, “flecha”, ligado ao verbo germânico fliegen, “voar”.

Elas podem ser chamadas também de setas, do Latim sagitta, “flecha”.

– E o que isso tem com o tal signo do Sagitário?

– Tem que essa constelação representa um centauro atirando com arco e flecha, daí o nome dela.

– Hum. Uma vez vi escrito frecha num dos seus livros antigos. Que erro, hein?

– Nenhum erro. Frecha é uma forma antiga mas ainda é Português correto, embora quase não se use em nosso país.

– E aquela espécie de arco com coronha?

– Ah, a besta, uma arma que lançava projéteis mais curtos que as flechas comuns e com energia bem maior. Havia uma grande discussão entre os seus partidários, que destacavam o grande alcance dela, e os do arco e flecha, que podiam disparar com muito mais velocidade.

Pronuncia-se bésta, preste atenção, com “É” aberto. Não tem nada a ver com besta com “Ê” fechado, que vem de bestia, “animal”.

O nome da arma deriva do Latim balista, uma arma pesada para arremessar dardos. Pode-se dizer também balesta ou balestra.

Mas, voltando às armas de combate próximo, temos o machado, que parece vir do Latim marculatus, derivado de marcus, “martelo”. E o que você me diz da francisca?

– Faz tempo que a gente não sabe da nossa vizinha, desde que ela fugiu com o pastor da igreja dela…

O velho riu muito:

– Peguei! Francisca é o nome do machado de duas lâminas que os godos gostavam muito de usar no pescoço alheio. O nome mais usado é franquisque, mas o outro está certo. Vem da palavra latina franciscus, “Frâncico”, um povo germânico que fazia das suas pela Gália.

– Essa eu não conhecia mesmo. Mas e quanto àquela coisa com uma bola e pontas de ferro…

– A maça. O nome vem do Latim mattea, derivado de matteola, “malho, martelo grande”. Era uma arma extremamente destruidora, mas precisava ser manejada por uma pessoa muito forte. Podia ter as pontas instaladas na extremidade rombuda ou ter uma bola espinhuda presa ao cabo por uma corrente.

– Não parece muito esperto isto da corrente, Vô. Fica mais difícil para usar. Qual era a vantagem?

– A vantagem era que a bola podia ser girada e passar por cima do escudo do desafeto para acertar a cabeça dele por trás. Acha pouco?

– Tá bom, Vô. Antigamente eles eram mais espertos do que eu pensava.

– Não se esqueça disso na hora de avaliar a minha inteligência. Mas você já ouviu falar de um cavaleiro de lança em riste?

– Já li alguma frase assim. Não quer dizer “com a lança levantada”?

– Atualmente quer dizer com qualquer coisa levantada, mas originalmente riste era uma peça da armadura peitoral que servia para apoiar o cabo da lança ao erguê-la para acometer o inimigo. Vem do Catalão rest, que era o nome desta peça.

E já que falamos em capacete, sua origem é discutida. O que parece se aproximar mais da verdade é que venha do Espanhol capacete, “peça de proteção para a cabeça”, do Latim capaceum, derivada de capere, “conter”.

Podemos falar também em armadura. Essa palavra vem do Latim arma, originalmente ligado a “armas de defesa, peças para evitar ferimentos no soldado”.

Ela pode ser chamada às vezes de couraça, do Latim corium, “couro”.

– Não me diga que se faziam armaduras de couro, Vô! Essa não!

– Faziam, com couro grosso fervido e elas serviam muito bem, sendo mais leves que as outras.

Mas quem fala em armadura logo se lembra de escudo, que vem do Latim scutum, “escudo”.

Falei no capacete e me esqueci que, nas armaduras antigas, se falava mais em elmo, do Frâncico helm, do Germânico antigo khelmaz, “cobrir, esconder”.

Logo abaixo da proteção para a cabeça vinha, na armadura de placas, uma peça chamada >gorgueira, para proteger o pescoço, do Latim gurguis, “garganta”.

Isso me lembra que a palavra usada para designar a peça que protegia as coxas é coxote, do Francês cuissot, que vem de cuisse, “coxa”, que era coxa no Latim. Em Catalão, essa peça se chamava cuixot, passando a quijote em Espanhol.

– Ué, Vô, esse não é o nome do…?

– Exatamente: Dom Quixote, “El Caballero de la Triste Figura”, da obra de Cervantes.

– Não entendi essa confusão do nome dele com uma peça de armadura.

– O nome dele na história era Alonso Quijano. Por semelhança com o sobrenome, ele teria escolhido como nome de guerra a palavra que designava essa peça. Em Espanhol da época, escrevia-se Quixote, com “X”, e se pronunciava com o som do nosso “CH”.

– Puxa, Vô, como a gente aprende coisas quando se põe a estudar as origens das palavras!

– É isso mesmo, rapaz. Mas a gente tem que estudar direitinho, para não acabar inventando origens, assim como você estava querendo inventar armas. Da próxima vez a gente fala mais. Até logo.

Resposta:

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