Palavra sucker

PEIXES

  

X-8, o detetive etimológico, sai do Ed. Éden, onde tem seu escritório. Em parte por força do hábito, em parte para se dar importância, ele olha de maneira escandalosamente disfarçada para todos os lados antes de sair caminhando.

Pega bem para um detetive demonstrar que ele está sempre atento ao seu entorno.

Ele se dirige para a sede do Clube Cultoral.

Não, leitores, não escrevemos errado, não. Trata-se do Clube Ultrapassador de Toda a Ralé, nome escolhido na data de sua fundação. É um clube familiar, pelo menos no sentido de que cada pessoa ou palavra que o frequenta nasceu numa família. Destino inescapável tanto para palavras como para seres humanos.

Hoje haverá uma sessão etimológica na piscina do clube. É a primeira vez que X-8 faz uma coisa em tão estranho ambiente.

Foi idéia dele mesmo, já que as palavras clientes da sessão de hoje são nomes de peixes. Ele, não querendo pagar uma faxina extra por seu escritório estar todo molhado, achou que elas ficariam mais à vontade numa piscina.

Ou arremedo, pelo menos. A piscina do clube estava abandonada há muitos anos, os ladrilhos meio arrancados, sujeira da mais diversa e mofo grudados às suas paredes, um resto de água indescritível que mais parecia sopa de lixo na parte mais funda.

Mas as palavras estão dentro dela, sentadas sobre cadeiras plásticas que Fininho, o ecônomo do clube, providenciou.

O nobre detetive ficou de pé no trampolim e começou seu discurso:

– Queridas palavras relacionadas à noção de peixe, boa-noite. Conforme combinamos, estamos aqui reunidos para lidar com as suas origens. E, para começar, nada mais justo que falar sobre peixe, que se encontra aqui à frente, em esplendor de escamas e barbatanas.

Você deriva do Latim piscis, “peixe” mesmo. Mas não faça essa cara de desapontada pela informação tão breve; isso significa que você é tão importante para os humanos que não mudou muito em milhares de anos.

A palavra inchou de orgulho.

– Aqui ao lado, arreganhando os dentes, vemos tubarão. Espero que não se irrite ao saber que sua origem é desconhecida. A primeira vez que você é citada em Português foi numa carta de Pero Vaz de Caminha, na época de nossa Descoberta. Possivelmente se tenha tratado de alguma palavra mal entendida a partir do Tupi.

Não se amofine, no entanto; você é uma palavra que saiu do Brasil, foi à Espanha, onde virou tiburón, e dai se espalhou por grande parte das Américas.

Ao seu lado, como sempre, vemos a rêmora. Sua origem é o Latim remora, “demora, obstáculo, atraso”, formada por re-, intensificativo, mais mora, “demora, atraso”. Em épocas antigas corria o boato de que grupos de rêmoras aderiam ao caso de embarcações e as atrasavam em seus percursos.

A palavra fez cara de má, encantada por saber da historinha.

– Ali vemos uma parenta sua, a arraia. Seu nome se originou no Latim raja, que acabou recebendo o acréscimo do “A” no começo porque o confundiram com o artigo feminino. Mas também se usa o nome raia.

E bem gordinho aqui na frente, está atum. Ele veio do Latim tunnus, do Grego thynnos, “atum”.

Muito conhecida de todos, acolá se encontra sardinha. Ela vem do Latim sardina, que derivou da ilha de Sardenha, perto da costa oeste da Itália. E o nome da ilha vem do Latim Sardus, como eram chamados os habitantes dessa ilha, provavelmente com origem em alguma divindade local. Esse peixe era abundantemente pescado nas águas ao redor da ilha, daí o nome.

Ocupando bastante espaço por se tratar de um peixe grande, encontramos ali bacalhau.  Este tem uma origem pouco comum em Português. Trata-se do Holandês kabeljauw, equivalente a “bastão-peixe”. E isso porque, depois de preparado, ele se torna duro quase como madeira, o que é muito vantajoso para estocá-lo.

Passando para nossas terras  –  ou melhor, nossas águas  –  mostra-se ali, toda dentes ameaçadores, piranha. Que vem do Tupi pirã’ya, “peixe com dentes”. Claro, a maioria tem dentes mesmo; acho que os descobridores de nossa  terra e suas coisas estavam meio apressados na hora de dar nomes.

Calma, amigo muçum, sua vez chegou. O seu nome foi dado pelos Tupis e era mu’su, “espécie de enguia”.

O que nos leva direto à enguia. Que vem do Latim anguilla, diminutivo de anguis, que vem do Indo-Europeu ahis-, “serpente”, já que ela é longa e afinada como uma cobra.

Um tipo de enguia é o congro, derivado do Latim conger, do Grego gongros, “enguia, coisa formando um nó”.

Estou reservando o fim de nossa sessão de hoje para o nosso amigo bagre, que nos observa sacudindo os bigodes. Ele nos veio do Catalão bagra, que viria do Latim pagrus, do Grego phagros, o nome do peixe, talvez do verbo phagein, “comer”, pois ele se dedica com afinco a essa atividade.

Mas o que eu quero destacar mais é a origem do seu nome em Inglês, sucker. Ele recebeu esse nome do verbo to suck, “sugar”, já que o seu jeito de ingerir comida é sugando-a com a grande boca que tem.

Aqui a palavra se encolheu e tentou esconder o bocão, com escasso resultado.

– Não encabule, bagre, há uma porção de mulheres fazendo plástica para ficar que nem você  –  consolou o detetive. Agora, o interessante é que esse peixe tem fama de não ser lá muito destacado pela inteligência, já que parece não ser muito difícil de capturar. Por isso, o pessoal de língua inglesa começou a usar o nome dele para designar uma pessoa tola, pouco inteligente  –  um trouxa, enfim. É por isso que a gente vê a toda hora alguém ser chamado de sucker nos filmes americanos.

Mas não fique assim, bagre, é tudo intriga de invejosos.

Bem, prezadas clientes, já dei a origem de todas as que pagaram adiantadamente. Já é tarde e está na hora de todas se recolherem.

Obrigado, obrigado pelos aplausos, vocês fazem o que podem com as barbatanas molhadas. Não, não posso aceitar abraços devido a uma cláusula contratual.

Solicito que passem a informação de que estou à disposição de parentas suas que desejem saber a verdade sobre suas origens.

Uma boa-noite!

Resposta:

TRADUÇÕES MALFEITAS

 

Entrei no gabinete do meu avô e vi que ele bufava de raiva.

– Epa, o que foi, meu caro antepassado, que o senhor está tão furioso?

– Houve, meu caro descendente de uma geração perdida para o intelecto, que encontrei umas anotações de frases que vi escritas ou ouvi pela TV e estou exercendo o sagrado direito de me indignar até a embriaguez  por uma reação alérgica à besteira, à preguiça e à ignorância que ora reinam em nosso idioma!

– Ih, Vô, acalme-se e me conte mais – disse eu, tratando de me acomodar, pois sabia que era hora de aprender.

O velho cavalheiro pegou uma folha de papel embolada do chão, desamassou-a e olhou:

– Por exemplo, determinado filme proclamava que certo povo antigo tinha sido totalmente dizimado pelos romanos.

Ora, dizimar vem do Latim decimare, “remover ou destruir um décimo”, de decem, “dez”. Era um castigo muitas vezes aplicado a cidades rebeldes ou a unidades do exército que não atendiam direito às ordens dos oficiais.

– E como se fazia, Vô?

– Fazia-se um sorteio e, a cada dez pessoas, uma era escolhida para morrer.

– Puxa, que radicais!

– Outros tempos, meu filho. Ainda não haviam resolvido que a impunidade reinaria. Mas, enfim, o que sei é que agora se usa a palavra dizimar com o sentido de “destruir tudo”.

– Nossa vizinha do lado, D. Elvira, que é muito religiosa, uma vez estava falando sobre um tal de dízimo, mas não creio que estivesse falando em mortes.

– Eis outro exemplo com a mesma origem. Dízimo era o nome de uma contribuição que os fiéis deviam entregar à Igreja. Inicialmente eles pagavam um décimo do que ganhavam por mês, mas depois eles ficaram livres para pagar o que podiam.

Passando para outro motivo de minha indignação…

– Um momento, Vô! E essa palavra, de onde veio?

– Ela deriva do Latim indignari, “estar irritado ou desagradado com alguém, considerar uma pessoa como sem valor”, de in-, negativo, mais dignus, “de valor, apropriado, adequado”. Logo, quando manifesto estar incomodado com certas manifestações da falta de cultura, estou querendo torcer algum pescoço.

– Mas não o meu, né?

– Por enquanto eu o manterei no lugar, com tal que você evite besteiras.

– Certo. Mas o senhor ia começar a esbravejar contra o que mesmo?

– Ah, sim. Agora era contra mais uma tradução besta que a gente vê nas dublagens e legendas de filmes em Inglês: sucker, “sugador”, da palavra arcaica sucan, de origem onomatopaica.

– Ei, isso eu conheço. Quer dizer “trouxa” ou algo assim, né?

– Exatamente. Sua origem é interessante. Esse é o nome usado para o bagre e outros peixes do gênero.

– Um peixe, Vô? Como é isso?

– Pois veja só, esses bichos se alimentam de pequenos animais que vivem no fundo das águas. É por isso que eles têm aquelas bocas grandes, para poderem engolir suas refeições.

E parece que eles são meio ingênuos; dizem que eles podem ser apanhados com certa facilidade. Daí que, lá por 1750, começaram a chamar uma pessoa com pouco preparo para as situações de vida de sucker.

E vai daí que, no outro dia, vi um filme legendado em que um vigarista prometia que ia trazer “uma porção de bagres” para outro. E ele não falava de pescarias, era de gente mesmo!

– Uma vez o senhor estava resmungando contra umas fitas vermelhas, como era isso?

– É, trata-se de mais uma besteira de tradutores despreparados. Em Inglês existe a expressão red tape, literalmente “fita vermelha”, usada como sinônimo de “burocracia”. Ela se referia ao uso antigo de unir folhas de processos legais com fitas vermelhas e também de colocar selos oficiais na extremidade delas. Um conjunto de folhas assim ligadas muitas vezes ostentava uma boa quantidade de fitas destas.

Aí, um dia, vejo uma famosa atriz num filme dublado dizendo, indignada, – “Chega de fita vermelha! Libertem nossos familiares”!

– Essa foi boa!

– E quando resolvem fazer confusão entre gaulês e galês, então?

– Ããh… O senhor se incomodaria em me ajudar a lembrar, Vô?

– “Lembrar”, sei. O que acontece é que gaulês vem do Latim gallus, “membro da tribo dos Galos, que habitavam boa parte da França” e que tiveram grandes confusões com os romanos.

E galês vem do anglo-saxão waelisc, “estrangeiro”. Mas, como o País de Gales, uma parte a sudoeste do Reino Unido, é pouco conhecido por aqui, os irresponsáveis fazem uma mixórdia terrível.

E mudando da terra para a água, noutro filme alguém explicou a outra pessoa que “Fulano está ali no surf“. O tradutor usou essa palavra, que não tinha nada a ver com o assunto, sem saber que o diálogo original se referia a surf no sentido de “arrebentação das ondas” e não no esportivo.

– E essa palavra foi inventada no Havaí?

– Não, ela provavelmente  tem origem na Índia.  O que me lembra outro filme que vi, ambientado lá, mostrando a época em que os soldados da Rainha Vitória mandavam no país. Tinha ocorrido uma revolta contra os dominadores europeus e um oficial do Exército estava contando a outro que eles tinham sofrido “Vinte e uma fatalidades”.

Ora, em Inglês fatality tem, desde o século XV, o sentido básico de “aquilo que causa morte”. Deriva do Latim fatalitas, de fatum, “predição, declaração profética”, literalmente “coisas ditas pelos deuses”, que veio de fari, “falar”.

Em nosso idioma predominou o sentido original, que não implica necessariamente em “morte”. Mas, na hora de se fazer a tradução, os mal-preparados irresponsáveis repassam o conteúdo do texto, sem ter ideia da besteira que estão fazendo.

Enfim, meu neto, vamos deixar tamanha indignação de lado. Tente aprender com isso: traduzir é assunto muito sério.

 

 

Resposta:

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